Tríade do Tempo
4 O Crime Irresoluto
Notas iniciais
Acordar foi um martírio. Kazumi sentia o corpo inteiro dolorido. Tanto pelas feridas que adquiriu no dia anterior, quanto pela tensão que fez seus músculos endurecerem. A noite foi complicada e, inquieta, ela teve a sensação de ter tido pelo menos três pesadelos diferentes, mas não conseguia se lembrar de nenhum.
Saiu da cama por pura obrigação. Retirou a faixa do pulso e observou a marca da mordida ali presente. Continuava ardendo e ameaçava voltar a sangrar a qualquer instante. Precisava limpá-la para não infeccionar.
Ela pegou uma muda de roupas limpas e foi tomar um banho. Esterilizou com cuidado os machucados mais graves e improvisou um novo curativo no pulso. De volta ao quarto, se preparou para sair, lembrando que precisava urgente encontrar um novo emprego. Vestiu o conjunto social mais elegante que possuía para fazer entrevistas, mas que na realidade não passava de uma imitação barata de uma famosa alfaiataria da cidade. Penteou o cabelo ruivo, deixando-o meio preso, o que lhe conferia um certo ar de seriedade e a fazia parecer um pouco mais velha do que realmente era.
De repente, a porta do quarto foi aberta de maneira abrupta, sem aviso prévio ou permissão.
— Ei, por que não foi trabalhar hoje?
Ichiro estava com uma aparência péssima. Os olhos fundos e a voz arrastada indicavam que ainda não estava completamente sóbrio. A garrafa de cerveja em sua mão apenas confirmava isso.
Kazumi inspirou fundo, tensa.
— Não trabalho mais no Kaffeine Klub.
Ele deu um sorriso de canto que ela fingiu não notar.
— Sabia que não ia durar! — ele respondeu — Você faz tudo errado. Mas é melhor assim. Vê se fica aqui, cuidando da casa. Já te disse pra fazer isso um milhão de vezes.
Kazumi ouviu em silêncio, sabendo que de nada adiantaria discutir. Continuou se arrumando para sair, como se ele não estivesse ali.
— Está me escutando, sua sem educação? Pra onde pensa que vai desse jeito? — ele a observou da cabeça aos pés, com um ar de repulsa — Pra que está se arrumando assim? Nem pense em se encontrar com alguém. Se fizer isso, eu mato os dois!
Ela bufou, irritada, e então respondeu.
— Vou procurar outro emprego.
— Não ouviu o que eu disse? Não quero mais saber dessa história de emprego.
— E quem vai pagar as contas da casa? Você? — ela perguntou ironicamente, se arrependendo logo em seguida. Sabia que tinha acabado de iniciar uma guerra.
Ichiro fechou a cara numa expressão de raiva. Se aproximou dela com ferocidade e a segurou com força pelo braço.
— O que quer dizer, sua ingrata estúpida? Esqueceu com quem tá falando? Você é mesmo uma inútil. Sempre foi, igualzinha à sua mãe! Uma vagabunda que não vale nada!
— Não fala da minha mãe!
— Como ousa insinuar que eu não pago as contas da minha própria casa? — ele a segurou com mais força, comprimindo a sua pele entre os dedos — Não se esqueça de que mora aqui só porque eu ainda permito. Posso facilmente te botar na rua a hora que eu quiser. E não se esqueça também de que todo o dinheiro que você ganhar, deve dar pra mim! Não vou mais tolerar que me esconda nada.
— Do que tá falando? — ela engoliu em seco, se livrando dele com um empurrão.
— Não se faça de desentendida. Achou que eu não fosse descobrir onde estava escondendo a outra parte daquele seu salário miserável?
Kazumi gelou. Abriu às pressas o armário do quarto, cuja primeira gaveta continha um fundo falso. Ali embaixo estava um envelope onde deixava todas as suas economias, adquiridas após anos de trabalho árduo. No entanto, o envelope estava vazio, sem nenhum único centavo dentro.
E então o sangue de Kazumi ferveu. Aquele dinheiro era seu, ou melhor, de Noembi. Era tudo para a sua irmã, para lhe garantir um futuro melhor, fora da clínica de reabilitação e longe de Ichiro. Mas agora, todo o seu esforço tinha sido em vão.
— O que você fez?! — ela gritou para o pai, que sustentava no rosto um sorriso malicioso e sarcástico — Me devolve!
— Não preciso devolver o que é meu por direito. Se quiser ter um teto, que comece a pagar o aluguel.
— Aluguel? — ela repetiu, incrédula — Você não pode exigir isso!
— Eu posso exigir o que quiser na minha casa!
— Essa casa é da minha mãe, não sua! — ela gritou sem pensar, quase indo às lágrimas.
— Sua mãe tá morta!
Furioso, Ichiro arremessou a garrafa de cerveja contra a parede. Estilhaços de vidro se espalharam pelo quarto e Kazumi recuou amedrontada. Inconsciente, ela tremia de raiva e de medo. Ficou estática quando Ichiro avançou. Ele a puxou com brutalidade, cravando os dedos em seus braços. Kazumi até tentou se soltar, mas a força dele a imobilizava. O hálito fétido de álcool atingia o seu rosto enquanto ele gritava e a sacudia.
— Cansei de você, sua merdinha! Ou faz o que eu mando ou some da minha frente!
Ele a jogou no chão, fazendo com que ela batesse a cabeça e as costas com força. Kazumi ficou tonta e o ar desapareceu de seus pulmões por alguns segundos que, para ela, duraram uma eternidade. Num acesso de fúria, ele ameaçou um chute, porém com a mesma violência que Ichiro arremessou a filha no piso, um rápido vulto interceptou o seu caminho.
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Hiei ainda estava descansando em cima da árvore quando os gritos começaram. O teor da conversa acalorada o havia deixado em estado de alerta e, sabendo o que viria em seguida, simplesmente invadiu o quarto de Kazumi pela janela aberta. Entrou a tempo de evitar que Ichiro a agredisse, o nocauteando tão rápido que Kazumi nem sequer entendeu o que tinha acontecido diante de seus olhos.
O seu pai, agora desmaiado, tinha o rosto manchado de sangue. Ela sentiu alívio, dor, mágoa, medo e desespero.
— O-o que você fez? — com a voz fraca, quase sumindo — Ele está…?
— Ainda está vivo — Hiei respondeu — Mas me pergunto se não seria melhor matá-lo agora mesmo.
Hiei segurava Ichiro pela gola da camisa, o mantendo suspenso no ar enquanto o examinava.
— Não! — Kazumi respondeu automaticamente.
Hiei olhou para ela com um ar de desprezo, mas sequer Kazumi notou. Ela tremia inconsciente, como um filhote indefeso e recém chegado ao mundo, totalmente vulnerável. Como se estivesse em transe, seus olhos vertiam lágrimas, que escorriam até o chão repleto de cacos de vidro. Era a garrafa de cerveja quebrada que prendia a sua atenção.
— Deixa ele…— ela murmurou — Por favor. Só me tira daqui.
Hiei largou Ichiro e o baque do corpo caindo no piso de madeira despertou Kazumi. A última coisa que viu antes de ser carregada para fora do quarto foi o rosto de seu pai desmaiado. Ela sabia que quando ele recobrasse a consciência, ficaria extremamente furioso e, por isso, ela precisava estar bem longe dali.
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— Então é dele que você tinha medo. Por isso ficou desesperada quando me encontrou em frente à sua casa. Não queria que ele me visse.
Kazumi escutou Hiei, mas preferiu ficar em silêncio. Sentada na calçada de uma rua quase deserta, ela escondia o rosto com a cabeça abaixada entre os joelhos. Ele, por sua vez, estava de pé ao seu lado.
— Você se machucou?
A pergunta a pegou de surpresa e ela olhou para ele sem graça e confusa.
— Só um pouco — sua voz ameaçou falhar — Como você fez aquilo? Nem vi você entrar no quarto. Foi tão rápido, tão…absurdo. Ele vai ficar bem?
Hiei revirou os olhos, incomodado com a pergunta.
— Se preocupa tanto com alguém que estava tentando te matar? Isso sim é absurdo.
Brava, ela levantou do chão para enfrentá-lo cara a cara, o encarando com firmeza no olhar.
— Ele é o meu pai.
— Ele não pareceu se importar com isso, então por que você se importa?
Kazumi deu um sorriso nervoso, sem acreditar no que tinha acabado de ouvir.
— Eu agradeço por ter me tirado de lá, mas não lembro de ter dado a intimidade pra se meter na minha vida. Agora vai querer ditar o que eu devo ou não sentir?
— Sinta o que quiser, eu não sou a mínima. E se preferir, da próxima vez te deixo morrer. Quando eu te entregar pro Koenma, você não será mais problema meu.
Kazumi engoliu em seco e sentiu a espinha gelar. A expressão fria de Hiei a assustava.
— Então me entrega logo e acaba com isso. Se é o que tenho que fazer pra você me deixar em paz, me leva logo até esse cara!
— É o que estou fazendo. Por que acha que eu te trouxe aqui?
Kazumi então se deu conta de que não tinha ideia de onde estava. Olhou ao seu redor e deparou-se com um prédio alto, largo e não muito moderno, repleto de seguranças ao redor do perímetro.
— Que lugar é esse?
— É o departamento do Mundo Espiritual que fica encarregado de resolver problemas com os humanos que ainda estão vivos.
Kazumi arregalou os olhos, assustada, imaginando de que maneira os problemas eram resolvidos e se, na condição em que estava, o problema a ser resolvido era ela.
— O que está esperando? — Hiei perguntou por trás dela, como se mandasse ela se mover — Vamos entrar de uma vez.
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Koenma tentava parecer simpático. Queria manter Kazumi confortável e com mente aberta para o que ele pretendia propor, no entanto, ao sentar-se diante dela, percebeu que aquela mulher não dava sinais de que seria uma pessoa que cederia tão facilmente.
Kazumi estava tensa. As mãos agarravam o apoio de braços da cadeira de maneira sútil e seus olhos eram incapazes de focar em Koenma, como se aquele ser considerado supremo fosse capaz de matá-la com um único olhar. Preocupada demais imaginando a forma com que se livrariam dela, ela não percebeu que Koenma tentava desesperadamente fazer parecer justamente o oposto.
De maneira gentil, ele lhe ofereceu uma xícara de café que foi aceita por ela com um simples chacoalhar de ombros. O que ele interpretou como um “tanto faz”, na realidade era a forma de Kazumi dizer “não bebo isso nem ferrando”.
Antes de ir direto ao ponto, o líder espiritual ainda tentou quebrar o gelo com uma piada sem graça que apenas serviu para deixá-lo constrangido diante de seus convidados.
— Soube que foi mordida por um youkai-vampiro. Que susto, hein? Talvez você prefira uma xícara de sangue ao invés de café!
Ele riu sozinho, enquanto Hiei o observava com ar de tédio e Kazumi permaneceu imóvel, desejando desaparecer dali.
— Bom, Kazumi — ele continuou — Eu estava ansioso pra te conhecer. Fiquei sabendo da sua habilidade. Genkai me mandou uma mensagem sobre isso.
— Não tenho nenhuma habilidade.
— Não seja modesta. Você tem um dom muito valioso e raro. Poucas pessoas têm uma mente assim tão poderosa.
Ela sorriu com ironia.
— Está enganado. Minha mente é tudo, menos poderosa.
Koenma inspirou fundo.
— Sei que é difícil de acreditar, Kazumi, mas você é uma bloqueadora. Nem mesmo Hiei foi capaz de invadir sua mente e olha que ele é bom nisso.
Hiei semicerrou os olhos, incomodado com o comentário. Não era bem um elogio. Na verdade, Koenma ressaltava a sua incompetência.
— E então? Por acaso sou uma ameaça pra vocês? — ela perguntou — O que pretendem fazer comigo agora que sabe que não pode me fazer esquecer da existência daquele lugar?
— Receio ter que te monitorar pelo resto da sua vida, só por segurança. Para garantir que você não diga nada a ninguém.
— Isso é ridículo — ela respondeu irritada — Quer que ele fique me vigiando até que eu morra?
Ela olhou de soslaio para Hiei, evitando se estender no contato visual.
— Não tenho outra alternativa, Kazumi. Humanos não deviam saber da existência do Makai. Se não posso te fazer esquecer o que viu e nem onde fica a passagem pro mundo dos demônios, preciso me certificar de que ficará em silêncio a respeito disso. A não ser que…
— O quê?
— Os únicos humanos com permissão pra saber da existência do Makai são os que trabalham pra mim.
— Mas eu não trabalho pra você.
— Ainda — ele sorriu de canto — Preciso da sua ajuda.
— E no que eu posso te ajudar? Não passo de uma pessoa comum.
— Você não é comum. Você é a pessoa que eu esperei aparecer pelos últimos 329 anos!
— O que disse?! Isso não faz nem sentido! É muito tempo!
— Eu falo sério.
Ela soltou um longo suspirou.
— O que aconteceu há 329 anos?
— Eu vou te contar. Ou melhor, vou te mostrar.
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Koenma levou Kazumi e Hiei para uma outra parte do edifício. Conforme avançavam pelo caminho, a segurança se tornava ainda mais rígida. Em um dado momento, os três precisavam ser revistados, o que deixou Kazumi ainda mais amedrontada e confusa do que já estava. Afinal, por que, Koenma, o ser supremo do Mundo Espiritual, precisaria ser revistado?
— Não se preocupe — Koenma disse a ela, como se adivinhasse o que ela estava pensando — Isso faz parte do protocolo.
Hiei, por sua vez, ficou um tanto irritado quando confiscaram a katana antes de entrar naquela área restrita. Não que precisasse dela pra alguma coisa, mas achou aquilo completamente idiota. “Nada de armas”, foi o que os guardas lhe disseram. Hiei entregou a espada rindo internamente. Se aquela era uma medida de segurança, a katana devia ser a menor preocupação deles, já que o dragão escondido debaixo da bandagem em seu braço representava um perigo muito maior do que uma lâmina afiada.
Um dos guardas pareceu ter pensado a mesma coisa e cochichou algo no ouvido de Koenma que Hiei entendeu como “Tem certeza, senhor? Ele é perigoso”. “Ele é de minha inteira confiança”, foi o que Koenma respondeu.
Ao terminar a revista, eles seguiram em frente e entraram em uma sala ao final de um longo corredor. Ali, havia um general de alta patente e dois outros oficiais. Todos eles estavam de costas para a porta, encarando o vidro que se estendia horizontalmente por toda a parede da sala.
Os três se viraram ao notarem a presença do líder espiritual.
— Senhor Koenma, não o estávamos esperando hoje. Como está? — o mais velho fez uma reverência em sinal de respeito.
— Estou bem, obrigado. Trouxe uns amigos pra darem uma olhada em Pyokan. Acho que podem nos ajudar.
Kazumi estranhou a palavra “amigos”. Não se considerava amiga daquele homem, e pela forma com que Hiei agia perto de Koenma, achava que ele também não se considerava. Pelo menos, os dois não pareciam tão próximos.
— Ah, é mesmo? — o oficial analisou Kazumi descrente, como se a reprovasse — Não sei não, senhor. Acho que o Pyokan agora é um caso perdido.
— Quem é Pyokan? — Hiei perguntou então.
— Aquele ali — Koenma apontou na direção na janela, fazendo com que o general saísse da frente, abrindo caminho para que Hiei e Kazumi se aproximassem.
De perto do vidro, Kazumi percebeu que aquela janela era blindada por uma grossa camada de resinas. Era espessa e provavelmente muito mais resistente do que uma janela comum precisaria ser. Através dela, enfim pode ver o que aqueles oficiais tanto observavam quando eles chegaram.
Por ali, era possível enxergar uma outra sala fechada, sem aberturas, passagens ou mesmo acesso à luz do sol. Parecia uma espécie de confinamento. No centro dela havia uma plataforma vertical e, anexadas a ela, correntes grossas, cujas algemas nas pontas envolviam firmemente os braços, pernas e cintura de um homem.
Kazumi levou um susto com a cena. O prisioneiro era enorme, mais do que qualquer outro homem que já tinha conhecido. Tinha pelo menos quase três metros de altura! Além disso, sua pele era ligeiramente avermelhada e seu torso repleto de tatuagens. Ele era corpulento, musculoso e, ao mesmo tempo, tinha excesso de gordura na região abdominal. Estava sentado no chão, com os olhos fechados. Mantinha a cabeça abaixada como se estivesse desacordado.
— O que ele fez para estar preso aqui? — não muito impressionado, Hiei perguntou.
Koenma suspirou, decepcionado.
— Caramba, Hiei. Que tipo de ladrão você costumava ser? Pyokan é uma lenda entre os criminosos, um dos mais conhecidos que existem. Ele cometeu o maior crime dos últimos 300 anos. É muito famoso!
— Você era um ladrão?! — Kazumi exclamou boquiaberta — Foi por isso que me sequestrou!
Hiei revirou os olhos para Kazumi, simplesmente a ignorando.
— Celebridades nunca me interessaram — ele respondeu a Koenma — Qual foi o famoso crime, afinal?
— Ele roubou um artefato muito perigoso. Traiu o próprio povo para consegui-lo. Provocou um genocídio!
— Qual artefato?
— A Tríade do Tempo. É por isso que trouxe Kazumi aqui. Acho que ela pode nos ajudar a recuperá-la.
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