Tríade do Tempo
5 A Proposta
Notas iniciais
A Tríade do Tempo, considerada um dos artefatos mais poderosos do mundo foi, durante muito tempo, mantida sob posse do Reikai, ao lado das demais relíquias sagradas do Mundo Antigo. Sua origem, no entanto, é um mistério. Muitos acreditam que foi forjada pelas mãos de um ser tão poderoso que, enquanto caminhava entre os vivos, foi reverenciado como uma divindade.
A Tríade do Tempo é uma espécie de amuleto, ou medalhão, composto por três elementos que conferem ao portador o poder de manipular o presente, o passado e o futuro. Ainda hoje, ninguém compreende bem o seu funcionamento e o seu uso é proibido. No passado, ela foi usada de maneira indiscriminada, trazendo caos e desordem. Tamanha foi a destruição que o Mundo Espiritual precisou intervir, confiscando a Tríade e trabalhando incansavelmente para remediar os estragos deixados pelos poucos — e perigosamente ambiciosos — que a possuíram.
Por séculos, a Tríade do Tempo permaneceu sob o domínio do Reikai. No entanto, apesar dos esforços para protegê-la, as tentativas de invasão ao Mundo Espiritual tornaram-se constantes. Sua localização era conhecida e a sua segurança estava comprometida. O risco de um desastre iminente pairava sobre o Mundo, e uma decisão precisava ser tomada. Encontrar um novo esconderijo para a Tríade do Tempo era uma necessidade.
Foi então que o Reikai recorreu aos shinseijin, uma raça de guerreiros que antigamente era muito temida por diversas espécies, incluindo humanos e youkais. Embora fossem conhecidos por sua habilidade em batalha e por sua participação em guerras ancestrais, os shinseijin carregavam consigo uma reputação de nobreza e justiça. Nunca lutavam por vaidade ou por objetivos mesquinhos; erguiam suas armas apenas para defender o seu povo. Ainda assim, desejavam acima de tudo viver em paz, isolados de conflitos e das perdas que as guerras inevitavelmente traziam. Por isso, estavam sempre migrando entre diferentes territórios, buscando um lugar que atendesse os seus objetivos.
Os shinseijin não se identificavam nem como humanos nem como demônios. Consideravam-se superiores, uma raça destinada a um propósito maior que os outros seres. Essa crença os tornava um pouco arrogantes, talvez, mas nunca agressivos sem motivo. Foi essa peculiaridade que levou o Mundo Espiritual a propor-lhes um pacto: os shinseijin poderiam viver isolados, em um território protegido e monitorado pelo Reikai, longe de quaisquer outras espécies, desde que, em troca, protegessem a Tríade do Tempo de qualquer ameaça.
Os shinseijin aceitaram, cientes de que se o trato fosse quebrado e um deles tentasse se apossar da relíquia, todos eles sofreriam represálias severas.
Assim, com o pacto selado, quando a barreira entre o Makai e o Ningenkai foi erguida, os shinseijin e a Tríade foram levados para uma dimensão secreta, escondida entre os dois mundos. Esse lugar, chamado de Shinkai, se tornou o novo lar dos shinseijin.
Lá, eles prosperaram durante milênios, com o único objetivo de impedir que invasores chegassem até a Tríade, caso descobrissem a existência de Shinkai. A Tríade foi guardada em uma cúpula protegida por barreiras poderosas, acessível apenas ao líder do Reikai, Enma Dai-Oh, e ao rei dos shinseijin. A responsabilidade pela segurança do artefato foi passada de geração em geração por todos os membros da família real, até chegar em Pyokan, o 15º rei dos shinseijin.
Por milênios, o pacto entre os shinseijin e o Reikai perdurou e não houve nenhum atentado à Triade do Tempo, mas a ascensão de Pyokan mudou tudo.
Anos após assumir o trono, o próprio Pyokan tentou roubar a relíquia, dando fim ao trato entre os shinseijin e o Reikai. O Mundo espiritual agiu assim que o alarme anti-roubo foi acionado, mas só conseguiram chegar a tempo de evitar um desastre maior graças a filha de Pyokan, Mitriss.
No dia do roubo, havia uma celebração: Mitriss havia alcançado a maioridade e seria oficialmente apresentada como sucessora do trono. Enquanto todos festejavam, Pyokan aproveitou a distração de seu povo para executar o plano. No entanto, Mitriss foi a primeira pessoa a perceber o comportamento estranho de seu pai e decidiu segui-lo.
Ela o encontrou diante da cúpula, com as mãos no medalhão. Consumido pela ganância, Pyokan não hesitou em lutar contra sua própria filha. Quando o Reikai finalmente chegou, já era tarde demais. Mitriss estava morta, seu corpo caído aos pés do pai, cuja expressão de fúria ainda marcava seu rosto. E a Tríade do Tempo tinha desaparecido. Não havia sequer um sinal de sua existência.
Pyokan foi imobilizado e capturado e os demais shinseijin foram considerados traidores e punidos pelo Reikai. Aqueles que tentaram libertar Pyokan foram considerados seus cúmplices. Foi uma guerra e tanto, onde centenas de shinseijin morreram. Como castigo final, o Reikai enviou para Shinkai diversas outras raças de youkais, incluindo as raças mais violentas e sanguinárias, e selou a saída daquele mundo, obrigando os shinseijin a viver para sempre naquela dimensão. Assim, um povo que nos primórdios ansiava pela sua liberdade e paz, estava condenado a viver para sempre em guerra com os monstros que foram aprisionados junto deles.
Já Pyokan é considerado até hoje um dos prisioneiros mais perigosos do Reikai. Ele não só traiu Mundo Espiritual, como também traiu o próprio povo e os condenou a um genocídio. Matou a própria filha e ainda não se sabe o que ele fez com a Tríade do Tempo.
Ele nunca revelou os motivos que o levaram a querer roubar a relíquia, tampouco quais eram os seus objetivos com isso. Apenas confessou o crime e se calou para sempre.
E até hoje, o mistério persiste: onde está a Tríade do Tempo?
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Hiei e Kazumi escutaram a história atentamente, sem interromper Koenma em nenhum momento, deixando as dúvidas e comentários para o final.
— Isso é horrível. Toda essa história — Kazumi disse, tentando assimilar tudo o que tinha acabado de ouvir — Ele matou a própria filha!
Ela olhou mais uma vez para o prisioneiro acorrentado na cela do outro lado do vidro blindado. Dessa vez, em seu olhar havia repulsa. Aquela história havia tocado em seu ponto fraco e a fez inevitavelmente sentir simpatia e compaixão por Mitriss e desprezo por Pyokan. Kazumi mais do que ninguém sabia o que era ter uma relação difícil com o próprio pai. Talvez, se Hiei não tivesse intervisto naquela manhã e nocauteado Ichiro, ela também teria sido morta pelas mãos de seu genitor.
— Realmente é horrível — Koenma respondeu — Não tem perdão para o que Pyokan fez. Por isso ele foi condenado à morte. Não é costume do Reikai optar por esse tipo de sentença, mas devido ao grau de periculosidade que ele representa, foi decidido que sua existência era uma ameaça ao mundo.
— Porque ele continua vivo, então? O que estão esperando para executá-lo? — Hiei perguntou.
— Acontece que todos concordavam com a pena de morte, mas todos também concordavam que não podiam deixar a Tríade do Tempo perdida. Se ela caísse nas mãos erradas, o planeta inteiro estaria ameaçado. E somente Pyokan conhece o seu paradeiro. Por isso, a sentença foi sendo adiada na esperança de que um dia Pyokan revelasse a sua localização. Obviamente ele não revelou e aqui estamos.
— Ele não deu nenhuma pista? — Kazumi perguntou.
— Não. Nada. Ele confessou o crime quando foi capturado e depois não disse mais nada. Eu mesmo nunca ouvi o som da sua voz. Obviamente a Tríade ainda está em Shinkai, já que o roubo aconteceu por lá e logo depois os shinseijin foram aprisionados naquele lugar. Só o Reikai conhece a entrada e a saída de Shinkai e, é claro, que desde o ocorrido fizemos várias buscas, mas é como procurar uma agulha num palheiro. Não conseguimos achar o amuleto em lugar algum daquele mundo. Pyokan será julgado novamente amanhã e o júri do Reikai já se cansou de esperar. Todos acreditam que ele seja um caso perdido. O único voto contra a sentença de morte é o meu. Acho que vou perder o caso e a sentença, dessa vez, vai ser realmente cumprida. Eu queria poder adiar esse momento um pouco mais...
Hiei revirou os olhos.
— Se ele não disse nada pelos últimos 300 anos, não vai ser agora que ele vai falar. É melhor desistir de uma vez.
— Talvez esteja certo. Provavelmente você está. Mas todas as tentativas foram feitas pelo meu pai, antes dele ser retirado do comando do Mundo Espiritual. Eu assumi o seu lugar há pouco tempo e ainda não tive chance de tentar. Sei que não esgotamos todas as possibilidades. E a melhor chance que temos está bem aqui.
Koenma se voltou para Kazumi, que arqueou as sobrancelhas espantada.
— Eu? Não vejo no que eu poderia ajudar.
— É muito simples, Kazumi — Koenma respondeu com um tom de voz exageradamente empolgado — Não é fácil se aproximar de Pyokan. Na verdade, é praticamente impossível. Ele se tornou muito agressivo após a captura e interrogar ele pessoalmente é inviável, pois ele é um psicomante. Isso quer dizer que ele domina mentes por meio de um controle mental. Ele é capaz de convencer alguém a se matar, desde que ele esteja cara a cara com a pessoa. Ele invade a sua mente, embaralha seus pensamentos, provoca alucinações. Quanto mais fraca e instável a mente da pessoa, mais fácil ele a controla. Acredite, fizemos testes suficientes para confirmar isso. Tentamos de tudo, mas não conseguimos interrogá-lo pessoalmente. Também não conseguimos falar com ele nem por escutas ou alto falantes, porque o poder mental dele é tão forte que causa interferência nesses dispositivos. Basicamente ele não permite que ninguém converse com ele. Mas você, Kazumi, é uma bloqueadora. Você pode encará-lo frente a frente. Pode negociar com ele.
— Espera aí, você quer que eu entre naquela cela, fique cara a cara com aquele assassino psicopata e pergunte onde foi que ele escondeu esse tal medalhão?!
— Falando dessa forma parece perigoso, mas te garanto que você estará em segurança. A energia de Pyokan foi drenada. Os poderes dele estão todos neutralizados, com exceção do seu domínio mental, porque não temos como impedi-lo de usar a própria mente.
— Isso é loucura! Você diz que esse poder dele não vai funcionar em mim, mas e se estiver errado?
— Genkai te testou e comprovou que você é uma bloqueadora. É o suficiente.
— Aquela mulher já tá muito velha, pode ter cometido um erro!
— Kazumi, posso te testar quantas vezes você quiser pra que se convença do que você é, mas não temos todo tempo do mundo. A audiência de Pyokan está marcada para amanhã. Dessa vez, pode ser a última! Preciso da sua ajuda.
Kazumi não respondeu. Estava abismada demais para ser capaz de raciocinar sobre aquela história. Desde o dia anterior, quando acidentalmente caiu no Makai, a sua vida tinha virado do avesso e lidar com as consequências estava sendo mais difícil do que ela tinha imaginado que seria.
Os guardas que já estavam na sala antes que os três chegassem fingiam não prestar atenção na conversa, embora trocassem olhares incrédulos com frequência, como se a ideia de Koenma fosse a mais absurda que já ouviram. O líder espiritual então pediu a eles um minuto de privacidade e solicitou que saíssem da sala por alguns instantes. Eles o obedeceram, deixando Koenma a sós com Hiei e Kazumi.
— Olha, Kazumi, você não precisa responder agora. Não quero te pressionar. Vai pra casa, pensa um pouco e à noite você me liga pra dizer a sua decisão, tá bom? — Koenma entregou a ela um cartão contendo um número de telefone — Só queria que pensasse nisso como uma proposta de emprego. Um trabalho temporário que você vai fazer pra mim. Não vai durar mais do que alguns dias e te garanto que vai ser bem recompensada. Sei da sua situação, você perdeu o emprego ontem, não é?
— Como soube disso? — Kazumi relanceou Hiei com uma expressão acusatória.
— Nós do Reikai sabemos de tudo. Tomei a liberdade de checar os seus antecedentes assim que soube de sua habilidade. Sei também sobre sua relação com o seu pai e imagino que não seja nada fácil pra você ter vivido com ele por tanto tempo. Também sei sobre a situação de sua irmã. Você precisa ajudá-la, não é? Eu estou te oferecendo essa chance, Kazumi. Estamos falando do artefato mais perigoso do Mundo. Se conseguirmos descobrir onde ele está, você será muito bem paga. Pense nisso.
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Kazumi estava atordoada quando deixou o edifício. Confusa e sem saber o que fazer, se afastou dali em passos largos e apressados, seguida por Hiei. Ela sabia que Koenma tinha dito a ele para a continuar vigiando, pois viu o líder espiritual chamá-lo em particular quando estavam deixando a área restrita do prédio. Mas Kazumi somente confrontou Hiei quando estavam suficientemente longe daquele lugar.
— Então, você vai continuar na minha cola. Ele mandou você ficar me seguindo, né?
— Não seja ridícula — ele parou ao lado dela — Koenma não manda em mim. Eu já fiz o que tinha que fazer. Te trouxe até ele e agora você faça o que quiser. Não tenho mais nada a ver com isso.
Pega de surpresa, Kazumi hesitou.
— Então, você vai parar de me seguir?
— Não é óbvio? Você não é mais problema meu. Decida se vai trabalhar pro Mundo Espiritual ou não e eles decidirão o que farão com você. Eu não tenho nada a ver com essa proposta estúpida que o Koenma te fez. A única coisa que sei é que aquele idiota mentiu quando disse que sabia de tudo, porque se soubesse do que aconteceu hoje pela manhã, não teria te mandado voltar praquela casa.
Hiei seguiu o seu caminho, deixando Kazumi para trás. Parada no mesmo lugar, ela o observou se afastar, enquanto um sentimento contraditório pesava em seu peito. Ela havia desejado tanto que ele desaparecesse, mas agora que Hiei realmente estava indo embora, Kazumi sentia-se profundamente sozinha e desprotegida. E, naquele momento, estar sozinha a deixava com medo.
— Espera! — ela gritou antes que ele sumisse de vista.
Hiei se virou e a observou se aproximar lentamente. Pela insegurança em sua expressão facial, era óbvio que ela queria pedir alguma coisa, mas ele não a incentivou. Deixou que ela mesma tomasse coragem pra falar o que quer que fosse.
— Eu não quero voltar pra minha casa. Tenho medo do que Ichiro pode fazer comigo, caso ele se lembre do que aconteceu — ela admitiu, por mais orgulhosa que fosse para pedir ajuda a alguém — Não tenho pra onde ir…
Hiei compreendeu o que ela queria dizer. O medo do pai estava evidente em sua postura. Provavelmente aquele homem acordaria furioso após ter sido nocauteado. Talvez, pensasse que foi a própria filha que o atacou.
— Não tenho como te oferecer abrigo, se é o que procura. Eu não moro aqui nesse mundo
— Eu sei. Eu estava pensando se poderia passar a noite na casa daquela senhora, a Genkai. Você a conhece, poderia falar com ela? Sei que você não tem obrigação nenhuma de me ajudar, mas...
Ela interrompeu a si mesma. Já esperava pelo pior e achou que não valia a pena ficar implorando por ajuda pra alguém que a detestava.
Hiei suspirou. Ajudar Kazumi realmente não estava em seus planos, mas a sua atitude acuada de certa forma lhe dava pena. Era estranho, mas ele se sentia um pouco culpado também, afinal, foi ele quem atacou aquele homem bêbado. Parecia errado deixá-la sofrer as consequências.
— Posso te levar até Genkai e você mesma pede a ela.
Kazumi ficou em choque. Quase não acreditou no que ouviu. Sentiu-se imediatamente aliviada e um pouco arrependida por ter sido tão rude com Hiei. No fim, concluiu que talvez o tivesse julgado mal, embora ele também não tivesse sido exatamente amigável com ela.
— Obrigada! — ela agradeceu com um sorriso no rosto — Eu só queria passar em um lugar antes. Você se importa de esperar um pouco pra me levar?
— Aonde você vai?
— Preciso visitar a minha irmã.
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Hiei acompanhou Kazumi até a clínica de reabilitação em que sua irmã, Noembi, estava internada; um lugar próprio para o tratamento tanto de pessoas com questões neurológicas quanto para dependentes químicos.
Hiei a avisou que ficaria esperando do lado de fora, mesmo que Kazumi o tivesse alertado de que demoraria um pouco. Ao entrar sozinha, ela passou pela recepção e foi encaminhada para o quarto em que sua irmã dividia com outras três pacientes. Noembi a recebeu com um sorriso enorme e uma empolgação que Kazumi não sabia se poderia retribuir à altura, considerando que ela não estava no seu melhor dia.
— Irmãzinha! — Noembi disse ao se levantar da cama para abraçá-la — Que bom te ver! Achei que viria ontem. Fiquei preocupada quando não apareceu.
— Desculpa, tive um imprevisto.
A expressão de Noembi mudou ao notar a atadura no pulso de Kazumi e o discreto corte em seu queixo. Preocupada, ela chegou à conclusão mais óbvia possível.
— O que aconteceu com você? Foi o…?
— Não! — Kazumi a interrompeu — Eu caí e me machuquei.
Kazumi geralmente não escondia nada de Noembi, mas dizer a verdade sobre o Makai estava fora de cogitação, mesmo ela sabendo que a Noembi pensaria que os ferimentos foram ocasionados por Ichiro. A sua irmã, quatro anos mais velha do que ela, conhecia bem o pai que tinha. Ichiro tinha sérios problemas com a sua família desde sempre. Por ser a mais velha, Noembi foi a primeira entre as duas a ter que aguentar os surtos e a fúria de seu pai e, por suportar quatro anos a mais que Kazumi, ela foi a que sucumbiu primeiro. Não demorou muito para Noembi entrar em depressão, buscar conforto em vícios e quase tirar a própria vida.
Convencê-la a entrar na clínica de reabilitação foi difícil, mas Kazumi insistiu até conseguir, sabendo que ficar longe de Ichiro era o melhor que Noembi podia fazer. Desde então, Kazumi passou a aguentar o pai sozinha e começou a se questionar se terminaria ficando igual a irmã.
— Caiu? Não espera que eu acredite nisso, né? Me fala a verdade, Kazumi. Foi o Ichiro que te machucou?
— Eu juro que não foi. Eu caí, é sério. Estava atrasada pro trabalho, saí correndo e caí. Tinha um barranco, algumas pedras, uns galhos pontudos e ásperos…me ralei inteira.
Mentir para Noembi não era fácil, mas como aquilo não era totalmente mentira, Kazumi soou suficientemente convincente, deixando a irmã mais aliviada.
— Quando foi que ficou tão desastrada, irmãzinha?
As duas riram e passaram a tarde conversando sobre trivialidades, evitando falar dos traumas do passado. Fofocaram sobre os vizinhos e conhecidos de infância, sobre o crime que passava no noticiários na televisão, sobre a vida fútil de alguns artistas e sobre as melhores músicas e bandas do momento. Em termos de gosto musical, as duas discordavam completamente, o que gerava algumas discussões bobas e saudáveis entre elas. Discussões que sempre terminavam com ambas cantando qualquer música que as duas achassem minimamente decente.
Aquilo fez Kazumi se sentir tão leve que ela quase se esqueceu da situação desesperadora em que se encontrava. Somente quando estava se preparando para ir embora que a realidade veio à tona.
— Como está no trabalho? Tudo bem por lá? — Noembi perguntou de repente.
Kazumi ficou calada por uns instantes. Queria ser capaz de fingir que nada tinha acontecido, mas sabia que não conseguiria esconder a verdade. As suas palavras não seriam capazes de disfarçar a expressão angustiada em seu rosto.
— Eu fui demitida ontem — ela admitiu.
O silêncio em seguida foi um pouco constrangedor. Kazumi estava envergonhada, ainda mais considerando a dívida acumulada na clínica. Com o antigo salário, ela já atrasava os pagamentos e, agora, sem qualquer remuneração, ela estava completamente perdida.
— Eu vou receber alta — Noembi disse.
— O quê? Como assim?
— Eles disseram que estou bem. Recuperada. Foi o que o psiquiatra falou. Me avisaram que vou receber alta em breve. Vou sair daqui, começar a trabalhar e te ajudar lá em casa.
Kazumi congelou. Seu objetivo era conseguir ganhar dinheiro para poder alugar um lugar em que as duas pudessem morar juntas. Sozinhas. Sem o pai por perto. Porém, ela foi demitida e Ichiro roubou todas as suas economias. Agora, Noembi deixaria a clínica e teria que voltar a morar com o homem que quase ocasionou a sua morte.
Kazumi sentiu um nó na garganta. Estava feliz pela recuperação da irmã na mesma proporção que estava em desespero. À beira das lágrimas, ela abraçou Noembi, tentando segurar a emoção.
— Não se preocupa com dinheiro — ela disse — Logo logo vou conseguir outro emprego.
Após se despedirem, Kazumi fingiu ir embora, somente para Noembi não ter a chance de vê-la conversando com a supervisora da clínica, responsável pelo tratamento de sua irmã. Kazumi implorou para que esperassem pelo menos mais um pouco para dar alta a Noembi, alegando as duas não tinham onde morar. A supervisora torceu o nariz para o pedido. “A cada dia que Noembi passa aqui, a dívida de vocês fica maior”, ela disse. “Eu vou pagar, só me dê mais alguns dias, por favor!”, Kazumi suplicou se curvando diante daquela mulher até que, por fim, ela cedesse.
“Mais dez dias. É tudo o que posso fazer”.
Kazumi concordou e finalmente deixou a clínica, mais deprimida do que quando tinha entrado. Hiei a esperava ali fora, como haviam combinado e, em silêncio, ele a guiou até o templo onde Genkai morava. Ela se sentiu grata por ele ser tão calado, porque naquele momento não queria ser forçada a conversar com ninguém.
Estava tão distraída com seus pensamentos confusos que nem viu o tempo passar, apesar do longo caminho que tiveram que percorrer até o destino.
Ao chegarem, Genkai os recebeu com a mesma expressão fechada e mal-humorada da última vez, o que fez Kazumi pensar que não receberia a ajuda que estava esperando. No entanto, ao dizer que não tinha para onde ir naquela noite, Genkai imediatamente ordenou que ela entrasse no templo.
— Pode ir na minha frente, eu já te encontro lá dentro. Preciso conversar um minuto com Hiei.
Kazumi agradeceu pela hospitalidade e obedeceu. Até pensou em se despedir de Hiei, mas mudou de ideia no meio do caminho. Meio arrependida por não saber se o veria de novo, entrou na residência e esperou que Genkai fosse ao seu encontro. Enquanto aguardava, tomou a liberdade de caminhar pelos aposentos e conhecer o templo inteiro por conta própria.
A decoração minimalista a agradou. Achou o lugar aconchegante na medida certa. O ambiente era bem iluminado e a vista pro jardim era linda. Na sala, um conjunto de porta-retratos chamaram a sua atenção. Alguns deles tinham fotos realmente antigas e envelhecidas, em tons de preto, branco e cinza, com Genkai ainda bem jovem. Já outras, mais novas, traziam a dona do templo com a sua idade atual, acompanhada de pessoas que Kazumi não conhecia. Ou pelo menos, não conhecia a maioria. Yukina estava em uma delas e Hiei também, à contragosto, pelo que parecia. Afastado dos outros e aparentemente irritado.
— Achou alguma coisa interessante?
Kazumi levou um susto. Estava tão concentrada que não tinha percebido a aproximação de Genkai.
— Só estava dando uma olhada nas fotos — ela deu de ombros e então apontou para Yukina no porta-retrato — E essa garota? Não está aqui hoje?
— Yukina não mora aqui.
— Ah…não? No outro dia eu pensei que ela fosse parente sua ou algo assim.
— Não é. Ela mora em outra casa, com uma outra pessoa que também está nessa foto. Sou apenas a mentora dela.
— Mentora?
— Ela é uma youkai vivendo no mundo dos humanos. Estou ajudando na transição.
— Então, você ajuda youkais a viverem em paz com humanos? Ajudou o Hiei também?
— Não. Eu só ajudo quem precisa. Gente como você. Soube que tem uma decisão para tomar hoje. Já sabe qual resposta dará ao Koenma?
— Não.
— Não é uma decisão tão difícil, menina. Foi só bater o olho em você que pude ver que sua vida é um inferno. A verdade está estampada em seu rosto, mas a chance de mudar isso está em suas mãos.
— E vale a pena arriscar a minha vida? Não sei se te falaram, mas eu vou ter que negociar com um assassino.
— Sua vida corre risco de qualquer maneira. A sua vida, a minha, a de quem você ama, a de todas as pessoas que estão nessas fotos. Enquanto aquela relíquia estiver perdida, o Mundo inteiro corre perigo. Mas a decisão é sua. Se preferir continuar vivendo como está, é problema seu. Pode voltar pro lugar que você chama de casa e enfrentar os problemas que você tentou evitar vindo se hospedar aqui.
Kazumi não respondeu. A conversa se encerrou ali. Pelo resto do dia, as duas só trocaram poucas palavras. Apenas sobre assuntos triviais. Depois de jantar, Kazumi foi pro quarto. Queria ficar sozinha. Ou melhor, precisava ficar sozinha com os próprios pensamentos.
Ela olhava pro celular, tomava coragem e digitava o número que Koenma havia lhe dado. Porém, a coragem se esvaía na mesma hora e ela não conseguia apertar o botão para concretizar a ligação.
Nervosa, ora pegava o celular, ora o deixava de lado, indecisa. Até que, em um determinado momento, o telefone vibrou sozinho, a fazendo tomar um enorme susto. Por um breve segundo achou que fosse Koenma querendo lhe cobrar a resposta, mas então se lembrou que seria impossível, já que não tinha dado o seu número a ele. Ao olhar no visor, viu o nome de Sonya na chamada e, mais aliviada, atendeu a ligação.
— Oi, Sonya.
— Kazumi, como vai? Espero que esteja melhor. Fiquei muito preocupada com você depois de ontem.
— Eu tô melhor sim, obrigada por perguntar — ela mentiu.
— Eu tenho uma boa notícia! Se lembra que eu te disse que ia ver se minha prima estava buscando uma babá pras crianças? Falei com ela e ela disse que ainda não encontrou ninguém. Eu recomendei você e ela quer te conhecer! O salário não é muito alto, mas acho que vai te ajudar a segurar as pontas. Você tá livre amanhã? Posso apresentar vocês duas. O que acha?
— Nossa, Sonya! Nem sei como te agradecer pela ajuda.
— Não precisa agradecer, sua boba. Eu disse que ia te ajudar. Então, podemos combinar amanhã?
Kazumi hesitou. As palavras de Genkai martelavam em sua mente. “Se preferir continuar vivendo como está, é problema seu”. Ela não conseguia parar de pensar na dívida da clínica de reabilitação e na volta de Noembi para a casa de Ichiro. Kazumi não tinha um centavo no bolso e o simples salário de babá com certeza não seria a solução para os seus problemas.
Ela mordeu o lábio, nervosa. Sua decisão estava tomada.
— Sonya, você é mesmo uma amigona! Eu agradeço, de verdade. Mas já consegui outro emprego.
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