Kazumi acordou nervosa. Sonhou que estava em casa, com Ichiro. Apanhando, como sempre. Nada de novo, mas ainda assim era algo que constantemente a aterrorizava. Os traumas nunca a deixavam em paz.

Depois de levantar, ficou ainda mais nervosa ao lembrar o que estava prestes a fazer naquele dia: trabalhar para o Mundo Espiritual.

A conversa com Koenma foi curta. Ele atendeu o telefonema na primeira chamada, como se tivesse passado o dia inteiro esperando ao lado do telefone. Koenma tampouco escondeu o entusiasmo ao ouvir a resposta positiva de Kazumi. Os dois combinaram de se encontrar pela manhã na Central do Reikai no Mundo dos Humanos, no entanto, ela ainda se questionava se tinha tomado a decisão certa. A insegurança crescia cada vez mais forte em seu peito e desistir era uma opção cada vez mais atraente.

Kazumi tomou café da manhã a contragosto por insistência de Genkai. Estava enjoada por causa do nervosismo, mas não quis parecer sem educação diante da hospitalidade da anfitriã. De certa forma, sentia-se em dívida com Genkai e até ofereceu pagar pela hospedagem, gesto que foi recebido com deboche pela idosa. "Você não tem um tostão no bolso", foi o que ela disse com um riso sarcástico e um tom de voz ácido.

Ainda assim, Kazumi sentia-se em débito. Pensou que talvez Genkai não tivesse percebido, mas ela havia a livrado de uma surra tenebrosa de seu pai. Voltar para a casa era a última coisa que ela queria, mas ficar na rua também não era uma opção. Genkai era, para ela, uma espécie de salvadora, tanto quanto Hiei.

Ela se espantou ao pensar naquilo. Se sentiu traída pelos próprios pensamentos que a todo momento convergiam para ele. Ela sabia o que sentia: culpa. Culpa por tê-lo tratado tão mal, sendo que ele tinha salvado a sua vida. Demorou um pouco para se dar conta, mas apesar de todo o seu jeito rude, Kazumi desde o começo o interpretou mal. O tratou como um bandido, um sequestrador. Mas a verdade é que em dois dias ele tinha salvado a sua vida duas vezes — quando caiu no Makai e quando Ichiro quis espancá-la — e ainda por cima a ajudou a conseguir uma moradia temporária. E no fim, Kazumi não foi nem sequer capaz de pedir desculpas.

“Mas ele foi extremamente grosseiro com você”, ela pensou, tentando amenizar a sua culpa. “Cala a boca, sua idiota! Você por acaso é um amor de pessoa?”, ela retrucou a si mesma.

Kazumi estava em conflito, como se duas versões dela estivessem discutindo para ver quem estava certa. No fim, ela queria que as duas ficassem quietas e a deixassem em paz.

— Sua escolta está esperando aí fora.

Kazumi levou um susto e pulou. Genkai a encarava de frente. Parecia ainda mais velha e abatida do que no dia anterior.

— Pare de pensar em um monte de bobagens. Vá logo antes que se atrase para encontrar o Koenma.

Kazumi ficou boquiaberta.

— Não estou pensando em bobagens. Eu só tava…— ela sentiu um nó se formar na garganta e desistiu de se explicar — Ah, esquece!

Ela terminou de se arrumar e, na companhia de Genkai, se dirigiu até a saída do templo. Kazumi certamente esperava que Koenma tivesse mandado alguém para buscá-la, mas não imaginou que fosse ele.

Hiei a esperava do lado de fora. Mesmo depois de ter dito que a situação de Kazumi não era seu problema. Ela realmente acreditou que não o veria mais, mas ali, diante dele, secretamente se permitiu ficar feliz. Jamais ia admitir aquilo em voz alta, mas sentia-se ridiculamente segura ao lado do youkai que tinha acabado de conhecer.

Hiei, por sua vez, sentiu-se ridiculamente manipulado por Genkai. No dia anterior, ao deixar Kazumi no templo, a idosa quis conversar com ele em particular. Se é que ele podia chamar aquilo de conversa.

“Você pode vir busca-la aqui amanhã de manhã. Tenho certeza que ela aceitará a proposta de Koenma”, Genkai disse simplesmente. Não foi um pedido, mas também não foi uma ordem. Ela simplesmente havia colocado Hiei naquela função sem o consentimento dele.

“Não conte com isso”, foi o que ele respondeu, curto e grosso. Genkai levantou uma sobrancelha e torceu os lábios.

“Eu já estou velha demais pra ficar andando de um lado pro outro da cidade. Não tenho mais forças pra isso. Além disso, eu já tinha dito ao Koenma que você a levaria. Será que pra você é tão difícil assim fazer um favor a alguém? Não tem ninguém disponível além de você. Desse jeito, vou ter que pedir para Yukina.”

Hiei revirou os olhos. Odiava quando usavam Yukina como um argumento em uma discussão. Ficou irritado com a chantagem e provavelmente acabou resmungando alguma coisa, mas saiu de lá tão rápido que nem se lembrava de realmente ter dito algo a Genkai. O fato era que, na manhã seguinte, lá estava ele atendendo aquele pedido contra a sua vontade.

Chegou cedo, bem antes das duas acordarem, e ficou ali fora esperando. Percebeu a surpresa no semblante de Kazumi assim que ela o viu. Acho estranho os mínimos sinais de alívio que surgiram em seu rosto, mas ele não retribuiu o entusiasmo. Desviou o olhar quando ela se aproximou com uma postura irônica.

— Achei que eu não fosse mais problema seu — ela disse, cruzando os braços.

Hiei relanceou Genkai que esboçava um sorrisinho bobo em seu rosto marcado pela velhice.

— Eu também — ele respondeu, voltando a atenção para Kazumi — Vamos logo antes que eu mude de ideia.

Kazumi, por sua vez, se virou para Genkai meio sem jeito.

— Obrigada, senhora. Eu sei que não tenho dinheiro agora, mas juro que quando resolvermos essa situação e eu receber o meu salário, eu vou te pagar pela estadia.

— Deixa de besteira. Eu não estou pedindo pagamento nenhum, menina.

— Eu sei, mas eu quero pagar. Pra agradecer pela hospitalidade e pela comida.

Genkai deu de ombros e suspirou cansada.

— Sendo assim, é melhor que tenha sucesso nesse trabalho.

xxxx

Hiei e Kazumi seguiram calados até o destino. Ela até quis quebrar o silêncio, perguntar a ele o porquê ainda estava fazendo parte daquela história, mas não teve coragem. Tampouco teve chance de pedir desculpas e agradecer pela ajuda até aquele momento. Falar com Hiei parecia mais difícil do que ela tinha planejado, principalmente porque ele não abria brecha alguma para uma conversa. Continuava sempre com a mesma expressão mal-humorada. Além disso, tirava proveito da sua vantajosa condição física de youkai, simplesmente tomando a dianteira durante o percurso, o que dificultava qualquer tipo de comunicação, já que Kazumi tinha que se esforçar para conseguir acompanhar o seu ritmo.

Quando chegaram a Central do Reikai, ela já se sentia esgotada. Koenma, por sua vez, estava animado, e os recepcionou com entusiasmo.

— Kazumi, muito, muito obrigado por concordar com isso! Você não tem ideia do quanto é importante pra mim!

Ele praticamente se curvou diante dela, a deixando um tanto envergonhada.

— Não precisa me agradecer assim. Eu precisava do dinheiro, afinal. Por falar nisso…

Ela não completou a frase, mas Koenma entendeu imediatamente que ela queria discutir qual seria a bonificação do trabalho.

— Ah, é mesmo! Esqueci de te falar sobre a recompensa. Você vai ser paga de qualquer forma, tendo sucesso na missão ou não. É claro que o prêmio será muito maior se conseguirmos encontrar a Tríade do Tempo. Aqui está o contrato. Verifique se está de acordo com o valor.

Ele pegou um envelope e entregou a ela. Em silêncio, ela o abriu, retirando uma folha de dentro. Passou os olhos rapidamente sobre as primeiras linhas do texto que apenas descreviam minuciosamente a sua função naquele plano maluco. Quando chegou aos números que lhe interessavam, arqueou as sobrancelhas e arregalou os olhos.

— Uau! — exclamou involuntariamente — Isso é muito dinheiro.

Seus olhos brilharam. O valor era alto o bastante pra sustentar um aluguel numa boa moradia para ela e Noembi, além de cobrir boa parte das despesas da clínica.

— É o justo, tendo em vista que estamos lidando com um assassino.

Kazumi olhou para Koenma assustada e ele entendeu exatamente o que ela estava pensando.

— Você disse que eu estaria em segurança.

— Por mais que ele não ofereça perigo algum, não deixa de ser um assassino — ele acrescentou rapidamente, tentando tranquilizá-la — Mas vire a página do contrato, Kazumi. O valor caso encontremos a Tríade está na parte de trás.

Ela obedeceu e, ao girar a folha, quase caiu para trás. Kazumi nunca tinha visto uma sequência de zeros tão grande. Permaneceu boquiaberta por tempo indeterminado, enquanto as suas pernas bambas ameaçavam abandoná-la a qualquer momento.

— Eu acho que vocês digitaram errado… — foi tudo o que ela conseguiu dizer.

— Não, o valor está correto. Eu conferi antes de guardar no envelope. Estamos falando do artefato mais perigoso do mundo. O valor dessa missão é inestimável.

Kazumi não respondeu, pois estava chocada demais para conseguir formular uma frase. Aquela quantia não só pagaria a dívida da clínica de reabilitação, como também garantiria uma boa vida para Kazumi e Noembi e, se fosse o caso, cobriria as despesas até mesmo de seus descendentes!

— Está de acordo com o contrato? — Koenma perguntou, ainda esperando uma afirmação.

Ela se recompôs. De repente, sentia-se extremamente motivada a conseguir desvendar aquele mistério.

— Sim! Com certeza!

xxxx

— Nós só temos uma semana, Kazumi. Foi tudo o que eu consegui.

Na sala de controle, de onde podiam observar Pyokan acorrentado, Koenma contou a ela como havia sido a conversa com o júri do Reikai. Lhe explicou que, somente depois de muito implorar, conseguiu que a sentença do criminoso fosse adiada uma última vez. “Uma semana, nenhum dia a mais”, foi o que disseram a ele.

— Vocês não encontraram a Tríade em trezentos anos e agora eu tenho só sete dias pra conseguir arrancar uma confissão daquele cara? Não parece justo — ela reclamou.

— Acredite, se dependesse de mim, eu te daria um ano inteiro, mas fiz o melhor que eu pude. Eu já sabia que o júri não cederia tão facilmente. Agora é com você, Kazumi. Nosso prazo já está contando a partir de hoje.

Ela suspirou, mas não podia fazer nada a respeito daquilo. Se nem mesmo Koenma podia, ela que não perderia tempo tentando convencer o alto escalão a mudar de ideia. Sendo assim, não lhe restava nada a fazer a não ser se preparar para o primeiro contato com o famoso ladrão que todos temiam.

O nervosismo crescia a cada instante. Seu estômago ameaçava regurgitar tudo que havia sido ingerido pela manhã e seus pensamentos começavam a se embaralhar num turbilhão de ideias. Ela suava frio e as mãos tremiam, mas tentava disfarçar mantendo os punhos fechados.

— Coloque isso. É a forma como nos comunicaremos com você — Koenma disse a ela, lhe entregando um pequeno dispositivo de escuta similar a um fone de ouvido.

— Você não disse que o poder mental daquele homem interfere nesse tipo de escuta?

— Sim, mas assim que ele perceber que não pode usá-lo contra você, vai parar de tentar. Vamos te passando as instruções por esse mecanismo, tá bom? Fale apenas o que pedirmos pra você falar. Vamos guiar a sua conversa.

Ela concordou, prendendo o fone em sua orelha esquerda.

— Pronta?

Ela assentiu timidamente com a cabeça deixando transparecer a incerteza em sua resposta. Então, seguiu Koenma, passando por Hiei que, até então, continuava ali em silêncio apenas observando toda a situação.

— Você vai ficar assistindo? — ela perguntou a ele.

— Alguma objeção? Posso ir embora, se preferir. Nem era pra eu estar aqui mesmo.

— Não! Prefiro que fique!

Kazumi percebeu a urgência no seu tom de voz e olhou para o os lados procurando saber se mais alguém a escutava. Koenma a esperava adiante, já fora da sala. Parecia falar com alguém, alheio a conversa dos dois. Não que não confiasse em Koenma, mas ele não passava a segurança que ela procurava naquele momento. Estava com muito medo e, apesar de achar absurdo, ficava tranquila ao saber que Hiei estaria ali.

— Vai que acontece alguma coisa. Nunca se sabe — ela sussurrou — Vai que você precise nocautear outro pai furioso com intenções de me matar?

xxxx

Kazumi seguiu Koenma até a entrada da cela de Pyokan. Seu coração martelava tão forte em seus ouvidos que ela achava que ia desmaiar antes mesmo de entrar. Mas, quando a porta se abriu, ela automaticamente avançou, entrando em uma espécie de câmara isolada. Outra porta a esperava adiante, mas ela somente seria aberta quando a de trás se fechasse.

— Boa sorte — Koenma disse a ela antes que os dois se separassem por completo.

Naquele antessala pequena, ela inspirou fundo e buscou pela coragem para enfrentar Pyokan. Quando a porta seguinte começou a se abrir, ela começou a andar de forma desajeitada.

Naquele silêncio, seus passos, apesar de leves, ecoavam pelo ambiente, denunciando a sua presença. Ela ficou com raiva dos próprios sapatos, como se estivessem chamando atenção demais. Porém, Pyokan permaneceu imóvel. Acorrentado e com a cabeça abaixada, nem sequer se deu o trabalho de olhar para ela.

“Muito bem, Kazumi” — disse a voz chiada de Koenma ao seu ouvido — “Estamos aqui com você”.

Ela levou um susto e olhou para o lado. Então, percebeu o vidro escuro que cobria praticamente a parede inteira a sua direita. Não conseguia ver nele nada além de seu reflexo, mas sabia que do outro lado Koenma, Hiei e outros guardas do Reikai a observavam, como há pouco ela fazia com Pyokan.

“Pode tentar falar com ele. Chame-o”, Koenma ordenou.

Ela se voltou para o homem gigantesco à sua frente. Mesmo sentado no chão com uma postura curvada e relaxada, ele parecia enorme. Era com certeza maior do que qualquer outra pessoa que já tinha conhecido. Ele parecia forte, do tipo de psicopata que, se pudesse, estrangularia o pescoço de sua vítima com uma só mão.

“Fale com ele”, novamente Koenma ordenou.

Ela engoliu em seco.

— Pyokan — disse então, sua voz saindo baixa e pateticamente tímida.

Ele não moveu um músculo. Ignorando-a na primeira tentativa. Ela limpou a garganta e tentou mais uma vez.

— Pyokan, vim para falar sobre a Tríade do Tempo.

O homem corpulento, por fim, esboçou uma reação. Sem muito alarde, elevou minimamente o olhar, o suficiente para checar de quem se tratava. De início, não parecia interessado, mas foi então que Kazumi percebeu que, ao colocar os olhos nela, a expressão dele mudou completamente. Seus olhos se arregalaram como se ele estivesse incrédulo. Como se ela fosse a coisa mais bizarra que ele já tinha visto na vida.

Ela nunca se sentiu tão insultada com apenas um olhar. Uma sensação estranha percorreu o corpo de Kazumi. Um arrepio intenso de pavor. Ele a observava calado e sem nem ao menos piscar, simplesmente espantado com a presença dela.

“Ótimo, conseguiu a atenção dele! Pergunte sobre a Tríade. Diga a ele sobre a sentença de morte, pode ser que ajude”, Koenma a orientou.

— Eu…eu quero saber onde está a Tríade do Tempo. Vim aqui porque precisamos de respostas e…

Num movimento brusco, Pyokan se levantou. Kazumi parou de falar, surpresa com a agilidade do homem que, apesar de seu peso e tamanho, rapidamente havia se colocado de pé. Ela recuou instintivamente.

“Fique calma, ele só quer te intimidar. Ele está acorrentado, não fará nada com você. Continue de onde parou”.

Preocupada, ela olhou para o vidro reflexivo na esperança de implorar para Koenma deixá-la sair dali. Porém, viu apenas a si mesma e Pyokan. De repente, se sentiu num zoológico, como se fosse um pedaço de carne jogado para dentro da jaula de um leão faminto que já estava acostumado a ser observado e dar um show aos espectadores.

Ela teve vontade de chorar, mas aguentou firme. Pensou em Noembi e se virou novamente para Pyokan.

— Você só tem mais uma semana de vida — disse então, sem encará-lo diretamente — Vai ser executado em alguns dias. É a sua última chance de dizer onde escondeu a Tríade.

Pyokan não respondeu. Continuava firme em seu voto de silêncio e observava Kazumi com um ar de curiosidade. Ele tentou andar em sua direção, mas dois passos foram suficientes para travar as correntes em suas pernas e braços.

“Fale sobre a decisão do júri. Diga que ele ainda pode ser absolvido se fizer o que pedimos”.

— Você ainda pode ser absolvido — ela repetiu a informação passada por Koenma — Se você contar onde deixou a Tríade, você pode se livrar da pena de morte. Se você não contar…

Ela parou de falar novamente, no instante em que um chiado insuportável começou a ser emitido pelo dispositivo de escuta que usava no ouvido. O barulho foi tão incômodo e estridente que ela foi obrigada a afastá-lo. Então se deu conta de que aquela interferência só podia significar uma coisa: Pyokan usava o seu poder mental.

Kazumi prendeu a respiração ao vê-lo semicerrar os olhos, mantendo-os fixos sobre ela. Totalmente concentrado em sua presença. O coração dela bateu mais forte e sua pressão aumentou. Ela se preparou para o pior e imaginou de que forma ele ordenaria que ela se matasse na frente de todos. Mas nada aconteceu.

Absolutamente nada.

Eles permaneceram se encarando por alguns minutos, até que Pyokan recuasse. Parecia confuso e atordoado. Evidentemente surpreso. Na realidade, Kazumi também estava surpresa e desacreditada por realmente ter sido capaz de bloquear o controle mental daquele criminoso.

Um sentimento novo cresceu dentro de seu peito, algo que ela não estava familiarizada: autoconfiança.

Ela nunca havia se sentindo tão segura de si e capaz de fazer alguma coisa tão importante quanto aquela missão. Ouviu uma voz abafada e percebeu que vinha do dispositivo de escuta. O aproximou do ouvido e escutou inúmeras vozes misturadas.

“Incrível!”, alguém disse do outro lado do vidro. “Mas como isso é possível?!”, outro perguntou.

Koenma veio em seguida, em êxtase.

“Você conseguiu! Genkai estava certa! O ataque dele não teve efeito algum em você! Pode ser que ele tente de novo, mas não importa! Você está segura. Continue com o plano".

Kazumi esboçou um sorriso, aliviada. Percebeu que Pyokan ainda a olhava com total espanto e se sentiu triunfante, poderosa e capaz de fazer qualquer coisa.

— Isso não funciona comigo — ela disse a ele — Você não pode se livrar de mim como fez com os outros. Não tem outra escolha a não ser ouvir o que tenho pra dizer. E eu não vou sair daqui enquanto você não me contar onde está a Tríade do Tempo.

Pyokan parecia aturdido, mas continuou calado. Kazumi achava que ele estava em choque, afinal aquela era uma experiência completamente nova para ele.

— Chega desse suspense — ela continuou — Diga de uma vez por toda onde está a relíquia. Você guardou esse segredo por trezentos anos. Já não é o suficiente? Pretende levar isso pro túmulo?

“Está indo bem, Kazumi. É a primeira vez o vemos tão vulnerável. Mas vá com calma, não o provoque demais. Queremos que ele colabore.”

Ela ouviu a instrução, mas não deu muita bola. Afinal, acreditava ter tudo sob controle.

— Já não bastou ter condenado o seu povo inteiro a um massacre? Você quer condenar o restante do mundo? Você realmente não se importa?

As palavras surtiram efeito. Pyokan não respondeu, mas o seu semblante mudou. Suas sobrancelhas se juntaram e seus lábios estavam ligeiramente curvados para baixo. Era como se estivesse furioso por ser obrigado a ouvir aquilo.

Kazumi revirou os olhos e sorriu ironicamente enquanto balançava a cabeça em negação.

— Óbvio que você não se importa, né? Se matou até a própria filha, que supostamente devia ser a pessoa mais importante para você, com o resto do mundo você não terá a menor compaixão.

“Vá com calma, Kazumi!”, Koenma a advertiu.

Ela o ignorou. A verdade é que a mágoa que sentia do próprio pai estava interferindo na conversa com Pyokan. Tudo o que ela não havia dito para Ichiro, pretendia despejar ali, no outro pai horroroso de outra filha azarada.

— Você é desprezível — ela disse a ele — Como pôde mata-la só pra conseguir uma droga de medalhão velho?! E o pior é que você nem conseguiu. Matou ela em vão! E pelo visto nem sente remorso por trair todos que confiaram em você! Des-pre-zí-vel!

“Kazumi, chega! Desse jeito não vamos conseguir nada. Vamos te tirar daí e mais tarde você tenta de novo. Precisamos mudar essa abordagem”.

Kazumi ouviu a voz de Koenma, mas não prestou atenção em uma única palavra. Isso porque, enquanto ele tagarelava seja lá o que fosse, ela percebeu que a pele de Pyokan parecia estar mais iluminada. Como se ele estivesse sendo envolvido por uma aura divina.

Talvez fosse pelo vidro que os separava, mas Koenma não parecia ter percebido de imediato. Somente quando o brilho aumentou, contornando toda a silhueta de Pyokan, e Kazumi recuou assustada, que o líder espiritual percebeu a situação.

Ela congelou. Não sabia o que era aquilo, mas tinha certeza que não era um bom sinal. Afinal, supôs que ele tinha tido todos os poderes drenados, como Koenma lhe havia assegurado. Kazumi olhou em direção ao vidro escuro, como se buscasse por uma resposta, mas novamente não conseguiu enxergar ninguém. A voz de Koenma veio em seguida, hesitante, tão confuso quanto ela.

“Kazumi…fique calma.”

— Calma?! Mas você disse que ele não…

“ Eu sei, eu sei!”, Koenma respondeu; uma mistura de vozes e gritos se desesperavam ao fundo. “Vamos colocá-lo pra dormir! Fique calma”.

Kazumi engoliu em seco. O brilho que envolvia Pyokan se transformava em uma espécie de esfera brilhante que saía de seu corpo. Ela recuou lentamente, até encostar na porta de saída. Com toda aquela luz, ela mal conseguia visualizar o seu entorno, mas conseguiu perceber quando algo foi disparado em direção a ele. Um tiro rápido e preciso. Ela precisou forçar a vista para enxergar os dardos que agora se prendiam ao corpo enorme do lendário criminoso

Pyokan cambaleou com o efeito do tranquilizante. Por um instante, Kazumi achou que ele realmente fosse cair, mas ao vê-lo resistir e estufar o peito como se fosse invencível, ela entrou em desespero. A luz que vinha dele aumentou ainda mais e uma ventania forte se formou ao seu redor. A esfera luminosa crescia exponencialmente a cada instante e o vento a sugava em direção a Pyokan.

— Me ajuda! — ela gritou.

xxxx

— O tranquilizante não foi suficiente! Liberem o sonífero! — Do outro lado do vidro, Koenma ordenou com urgência.

Um dos guardas obedeceu, disparando o gás para dentro da cela de Pyokan. Aturdido, Koenma se debruçou em frente à janela, observando a fumaça de espalhar rapidamente, envolvendo tanto Pyokan quanto Kazumi.

— Droga, não vai dar tempo! — ele disse ao ver a garota ser sugada em direção ao golpe inesperado de Pyokan.

Koenma tremia, incapaz de acreditar no que estava vendo. Como aquele homem ainda tinha algum poder? Era impossível, simplesmente impossível. Mesmo assim, estava acontecendo diante de seus olhos. Ele sabia que precisava agir rápido, mas nunca seria suficientemente ágil para evitar aquela catástrofe. Foi então que lembrou que Hiei estava ali e que ele poderia ser a sua única chance.

— Hiei…!

O pedido de Koenma foi interrompido no mesmo instante. Com um único golpe, o vidro se estilhaçou em mil pedaços. As centelhas das chamas negras se dispersaram pela sala com a explosão e a onda de calor repentina atingiu a todos os presentes. Koenma protegeu o rosto por instinto e, antes que tivesse a chance de pedir, Hiei já pulava para dentro da cela de Pyokan.

Foi tudo tão rápido que Koenma não soube dizer o que aconteceu. Quando Hiei alcançou Kazumi e estava prestes a tirá-la dali, Pyokan disparou a esfera em direção a eles. Ele viu os lábios de Pyokan se mexerem, dizendo finalmente alguma coisa depois de trezentos anos. No entanto, com tanto barulho ao seu redor, ele foi incapaz de ouvir a voz do prisioneiro.

Um repentino estouro de luz cegou a todos por alguns segundos e quando tudo voltou ao normal, Koenma viu Pyokan desmaiar, ainda acorrentado em sua cela.

Hiei e Kazumi tinham desaparecido.