Tríade do Tempo

7 Dia 1 - Prisioneiros


A última coisa que Hiei viu foi um clarão intenso antes de despencar numa superfície molhada.

Ele recebeu todo o impacto da queda, já que, ao segurar Kazumi no momento que Pyokan atacou, a garota terminou caindo em cima dele.

A água explodiu com o impacto, espirrando para todos os lados, mas eles não afundaram. Hiei sentiu o suas costas batendo no fundo, indicando que eles estavam no raso de seja lá o que fosse aquele corpo d’água.

Ambos ficaram imóveis por alguns segundos, até que os sentidos voltassem ao normal. Hiei só notou que um de seus braços ainda envolvia a cintura de Kazumi com força quando ela enfim se mexeu, tentando se erguer. Ele a soltou e fez o mesmo. Se sentou e, ao olhar ao redor, não reconheceu o que viu.

Tinha água por toda parte, uma água escura e acinzentada. O ar estava úmido e a vegetação era peculiar. As raízes das árvores emergiam daquele lamaçal de maneira retorcida, como se tentassem criar pernas para fugir dali. As folhas eram alongadas e caídas, como se estivessem derretendo de tão murchas.

Em meio àquele cenário fúnebre e cinza, algo brilhou chamando a atenção de Hiei: uma pequena esfera dourada, similar a que Pyokan conjurou momentos antes. Ela flutuou até Kazumi e então desapareceu dentro de seu peito.

Hiei ameaçou dizer alguma coisa, mas desistiu ao ver que Kazumi lutava para manter a consciência. Sentada diante dele, os olhos dela se fechavam involuntariamente, até que enfim caiu em um sono profundo. Hiei a segurou, evitando que afundasse o rosto na água.

Era o efeito do sonífero do Reikai. Não somente atingiu Pyokan, mas a todos que estavam ali, inclusive ele. Mesmo tendo tido um contato breve com aquela droga, Hiei sentiu o as pálpebras pesarem e sabia que logo terminaria igual a garota em seus braços. Ele xingou Koenma e, antes que aquilo acontecesse, arrastou Kazumi para fora da água.

Mal havia pisado em terra firme quando um ruído cortou o silêncio do pântano. Ele se virou em direção ao som e o seu mundo girou. O sonífero, já infiltrado em sua corrente sanguínea, o fez cair de joelhos na terra. As bordas de sua visão tremularam e tudo se tornou um borrão indistinto. Mesmo assim, conseguiu ver um par de olhos amarelos e enormes emergir das águas. A silhueta do monstro estava disforme, mas Hiei teve certeza de que ele era grande e, pela forma com que se movia até eles, não tinha boas intenções.

Como o Reikai havia confiscado a sua katana, Hiei não teve alternativa a não ser erguer o braço em direção ao adversário e invocar as chamas negras, ou pelo menos tentar. Levou poucos segundos para perceber que havia algo de errado. As chamas não vieram e nem sequer deram sinal de vida.

Hiei olhou para a própria mão por alguns instantes, confuso. O adversário aproveitou a brecha e avançou. Encarando-o mais de perto, Hiei conseguiu perceber o quão animalesco ele era. Tinha chifres, presas enormes e até uma cauda. Parecia um lagarto ou um dragão. Ele não sabia dizer exatamente o que o monstro era e nem se importava, pois não tinha como lutar naquelas condições.

Pela primeira vez não soube o que fazer.

Sua visão escurecia quando escutou um estampido ressoar. O monstro rugiu e algo jorrou de seu pescoço. Sua cabeça decepada foi ao chão. Passos se aproximaram, mas Hiei não conseguiu ver quem era.

No mesmo instante seus olhos se fecharam e ele também adormeceu.

x.x.x.x

Kazumi acordou incomodada. Seus músculos estavam tensos. Deitada no chão duro, ela sentiu as costas doerem depois de passar horas estirada naquele piso gelado desconfortável. Ela sentou com calma, massageando o pescoço que latejava depois de adquirir um torcicolo

— Finalmente acordou.

Ao se virar para trás, encontrou Hiei. Ele também estava sentado no chão, encostado em uma pilastra. Foi então que Kazumi notou que ambos estavam presos, literalmente. Três paredes sólidas os cercavam e a única saída estava bloqueada por barras metálicas enfileiradas verticalmente, como na cela de uma prisão.

— Onde estamos? O que aconteceu? Onde está Koenma?

Ela verificou o próprio corpo em busca de algum ferimento proveniente do ataque de Pyokan, mas não encontrou nada. Seu estado era deplorável. Suas roupas estavam úmidas e sujas de terra, mas não tinha uma única gota de sangue ali.

— Fomos teletransportados. Isso aqui não é a Central do Reikai.

O pavor tomou conta do semblante de Kazumi.

— Onde estamos, então? Por que estamos presos aqui? Eu só me lembro de você chegando e então Pyokan…

Ela parou de falar abruptamente. Se lembrou do sorriso cínico e sarcástico de Pyokan antes de disparar aquela energia sobre eles. Se lembrou também do deboche contido na sua voz depois de quebrar o silêncio que havia durado 300 anos.

“Diga a eles que Pyokan mandou lembranças”

— Meu Deus, ele…

— Falou. Eu sei — Hiei a interrompeu — Aquele miserável finalmente abriu a boca.

— Mas o que ele quis dizer? “Diga a eles que Pyokan mandou lembranças”? Quem são “eles”?

Hiei não respondeu de imediato. Pensou um pouco antes de chegar à única conclusão lógica possível.

— Acho que estamos em Shinkai.

Kazumi arqueou as sobrancelhas, incrédula.

— Tá falando do mundo que o Koenma disse que o povo do Pyokan foi trancafiado com um monte de monstros terríveis e sanguinários? O mesmo mundo que não tem uma saída conhecida? Que maravilha!

Kazumi se colocou de pé num salto, indo em direção à entrada da cela. Estava prestes a colocar a mão em uma das barras de metal quando Hiei a alertou.

— Não faça isso, se não quiser morrer.

Ela se virou, o encarando mais uma vez.

— Como assim?

— São revestidas com algum tipo de energia feita para repelir quem tentar se aproximar.

Ele se levantou de onde estava para demonstrar. Ao encostar no ferro, a energia que envolvia a cela reagiu. Faíscas lampejaram do local de contato, o fazendo recuar quando uma corrente elétrica percorreu todo o seu braço.

— Meu Deus! Você está bem?

— Óbvio que estou. Isso não é nada pra mim, mas é o suficiente para matar um humano.

— Ótimo, ainda mais essa! E agora? Como vamos sair daqui? — ela perguntou — Você não consegue, tipo, quebrar essa coisa sem precisar encostar nela?

Hiei não respondeu. Ele conseguia, é claro. Desde que pudesse usar as chamas negras, o que não era o caso. Enquanto Kazumi dormia, tentou invocá-las mais algumas vezes, mas não obteve sucesso em nenhuma das tentativas.

Preferiu manter aquele segredo, até entender o que estava acontecendo e, por isso, desviou o assunto.

— Você não se feriu no ataque?

— Quê? — ela perguntou, confusa com a mudança brusca no rumo da conversa.

— No ataque de Pyokan.

— Ah! Não. Eu estou bem. É estranho, porque fomos atingidos em cheio. Acho que dei sorte, afinal.

Hiei não disse nada. Pela resposta de Kazumi, notou que ela não se lembrava da esfera de luz que tinha sumido dentro dela. Ele preferiu não comentar, concluindo que, se fosse algo ruim, ela já estaria morta. Se Pyokan quisesse, teria matado Kazumi naquele momento.

Mas por que ele não quis?

— Ninguém veio aqui enquanto eu dormia? — ela perguntou, retomando o assunto.

— Não. E nós não vamos esperar que venha.

— Então, vamos sair?

Em silêncio, Hiei tirou a faixa que cobria o Jagan e se concentrou na visão remota. Varreu todo o perímetro em quilômetros, em busca de qualquer sinal de vida. As pessoas mais próximas dali estavam longe o suficiente para dar a eles uma chance de fugir.

Mas eles precisavam agir depressa.

— Hiei? — Kazumi o chamou.

— Se afaste.

— O que vai fazer?

Ele a encarou com dureza no olhar. Uma expressão marcada por sinais de impaciência e advertência.

— Fiquei monitorando a situação desde que chegamos. Vamos fugir agora. Não tem ninguém nos vigiando, eles estão bem longe daqui. Preciso que você não me atrapalhe. Me obedeça, se quiser que isso dê certo.

— Por que acha que vou te atrapalhar?

Ele revirou os olhos.

— Porque você é lenta, covarde e faz muito barulho. Preciso que seja o oposto disso. Fique em silêncio e faça o que eu mandar.

Ela ficou boquiaberta e ofendida, mas não conseguiu pensar num argumento decente para provar que ele estava errado.

— Se afaste — Hiei ordenou novamente.

Ele não precisava pedir outra vez. Ressentida, ela recuou até encostar na parede de trás da prisão e apenas o observou. Com o mesmo braço já ferido da descarga elétrica anterior, Hiei golpeou as barras da cela. Dessa vez, com o objetivo de destruí-las. Para isso, um único soco bastou, mesmo que tivesse que se machucar ainda mais no processo. As barras se estilhaçaram com a força do golpe combinada com a energia descarregada em Hiei. A explosão foi imediata, criando uma abertura para que os dois prisioneiros fugissem.

Aquela energia paralisante percorreu todo o corpo de Hiei. Seus músculos se retraíram automaticamente, mas ele ignorou os danos. Não tinha tempo para se recuperar, de qualquer forma. Virou para trás e encontrou Kazumi espantada.

— E eu é que sou barulhenta? — ela perguntou, incrédula — Muito discreto você! Qual o seu plano agora que com certeza todo mundo nos ouviu?!

Ele ignorou a crítica, embora tivesse lançado um olhar irritado em direção a ela.

— É agora que você fica em silêncio.

x.x.x.x

Kazumi não estava preparada para a fuga. Comparada a Hiei, ela realmente era lenta e ele fazia questão de apressá-la o tempo inteiro. Basicamente a arrastava enquanto se guiava com o Jagan. A habilidade o permitia encontrar os caminhos que estavam livres e Hiei acreditou que aquilo bastaria para o seu plano dar certo.

No entanto, mesmo tendo sido ágeis, não demorou nem dois minutos após a explosão para que um alarme estridente ressoasse por todo aquele território como um aviso de que ambos haviam escapado. De qualquer forma, aquilo não preocupou Hiei de imediato. Ele tinha esperado o momento mais propício para agir, quando os inimigos estivessem suficientemente longe para lhes dar tempo hábil para buscar a rota de fuga mais segura.

Mas Hiei logo percebeu que os seus cálculos estavam errados, já que simplesmente tinha desconsiderado todas possíveis habilidades do adversário. Inesperadamente, aquelas pessoas que a visão remota apontava estarem distantes apareceram no perímetro dos fugitivos em questão de segundos. Quando Hiei se deu conta, já era tarde. Eles estavam cercados. Todos os andares do edifício estavam lotados e não ser visto seria praticamente impossível. Apesar de já ter mapeado as saídas mais próximas, para o seu azar, o edifício era grande e o caminho para a liberdade, longo.

Com o Jagan ainda em estado de alerta, ele empurrou Kazumi para dentro de uma porta assim que percebeu a aproximação de um grupo de desconhecidos. Entrou em seguida no cômodo e, em silêncio absoluto, os dois esperaram. Kazumi tremia de medo. Ela se arriscou a dizer alguma coisa somente depois que os sons da correria naquele andar pareciam estar bem distantes.

— Você não disse que eles estavam longe? — ela sussurrou — Por que estamos cercados, então?

— Eles se teletransportaram pra cá assim que perceberam nossa fuga.

— Igual Pyokan fez com a gente? Então, eles são mesmo os shinseijin.

O quarto parecia ser uma dispensa de suprimentos; as prateleiras estavam abastecidas com os mais diversos tipos de alimentos. Mas foi a janela que chamou a atenção de Hiei. Ao vê-lo se aproximar dela, Kazumi fez o mesmo, curiosa para finalmente poder conhecer o lugar misterioso onde estavam. No entanto, não conseguiu ver muita coisa. Estava de noite e uma escuridão infinita ao horizonte não lhe permitia ver nada além das luzes da cidade em que estavam.

Mesmo assim, o que viu foi o suficiente para deixá-la espantada.

Eles estavam a uma boa distância do chão. Kazumi não tinha ideia de quantos andares existiam naquele lugar, mas estavam tão no alto que tinham uma visão panorâmica de tudo. Pessoas se aglomeravam ao redor da muralha que cercava a cidade como se estivessem formando uma barreira para impedir que os dois fugissem. No pátio abaixo deles uma multidão se formava cercando a saída principal. E ao redor deles, outras construções altas se erguiam, como torres agregadas de uma fortaleza.

— Ferrou! Isso aqui é uma espécie de castelo?! Estamos completamente encurralados! Não temos como sair daqui! Olha toda essa gente lá embaixo…

— Então vamos por cima. Pelo telhado.

Hiei girou a trava metálica da janela e empurrou as duas faces de vidro para fora, permitindo que um vento suave entrasse junto do som abafado da cidade.

— Quê? — Kazumi indagou — Como é que vamos subir no…?

Ela não conseguiu terminar a pergunta, nem tampouco conseguiu conter um grito quando Hiei a segurou e saltou para cima. O vento fez esvoaçar o seu cabelo conforme eles subiam e ela apertou os olhos com força, apenas desejando colocar novamente os pés em terra firme.

— O que eu falei sobre ficar em silêncio? — ele a repreendeu.

Quando firmou os pés no telhado, suas pernas estavam bambas. Ela abriu os olhos com cuidado e suou frio ao notar a altura ainda maior em que se encontravam. Um deslize ali a faria escorregar e cair para uma morte certa.

— A culpa é sua! — ela retrucou — Será que dá pra me avisar antes de fazer essas coisas absurdas? Pelo menos eu ia estar preparada!

De repente, uma luz iluminou os dois como um farol. Kazumi cobriu os olhos, evitando a claridade que machucava a sua córnea e a impedia de enxergar. No entanto, ouviu uma gritaria distante e soube o que aquilo significava.

— Parece que te ouviram — Hiei disse — É melhor estar preparada dessa vez.

Ela não estava. Tudo aconteceu tão rápido que, quando Hiei a segurou novamente pela cintura e os lançou do alto do telhado, ela simplesmente perdeu o fôlego e achou que iria desmaiar. A sensação era igual a dos parques de diversão que já tinha ido com Noembi na sua infância. Só que, dessa vez, ao cair em queda livre, ela não achou que freariam a tempo de evitar o choque com o piso.

E Kazumi não estava tão errada.

Hiei não teve muito cuidado com a segurança deles. A pressa não era uma aliada agora que tinham sido descobertos. Qualquer minuto perdido faria falta.

Eles pousaram de qualquer jeito e, mesmo com Hiei fazendo o mínimo esforço para amortecer a queda, Kazumi sentiu o impacto. Ela cambaleou um pouco quando ele a colocou no chão. Mesmo assim, a garota rapidamente notou a mudança na postura do youkai.

Hiei não pretendia mais fugir.

— O que vai fazer?

— Dá o fora daqui — ele ordenou — O lugar mais perigoso para você estar agora é perto de mim. Estava evitando ser visto apenas por sua causa, mas isso não importa mais. Eu vou matá-los.

Kazumi não se moveu. A frieza nas palavras de Hiei a fizeram paralisar. Ela observou inúmeros shinseijin se transportarem para onde estavam e, de perto, conseguiu ver a semelhança deles com Pyokan. Tinham a mesma pele avermelhada e as mesmas tatuagens pelo corpo. Se antes suspeitavam, agora tinham certeza: estavam em Shinkai.

Hiei avançou antes deles, atraindo toda a atenção para si, mas Kazumi não aproveitou a distração. Apenas continuou parada onde estava, observando em choque o que estava por vir.

A luta estava longe de ser justa, mas Hiei não se importou, mesmo quando vários shinseijin o atacaram ao mesmo tempo. Sem as chamas negras, o que lhe restou foi um brutal combate corporal. Ele foi hábil ao se esquivar dos primeiros golpes, mas quando a quantidade de adversários superou a sua velocidade, teve que mudar de estratégia. Envolveu o próprio corpo com a sua energia demoníaca. Entre socos e chutes, golpes simultâneos o atingiram no estômago e nas costas, mas ele apenas se concentrou em bloquear a lâmina do sabre que ameaçava tocar o seu rosto.

Seu braço se chocou com a espada, mas protegido com o youki que o envolvia, ele não se cortou. Hiei rapidamente agarrou o pulso do shinseijin que portava a arma e o chutou com toda a força, o fazendo ser arremessado para longe. A espada, porém, não o acompanhou.

Com o sabre roubado em mãos, Hiei se sentiu em casa. Fazia um bom tempo que não participava de qualquer tipo de retaliação e ele precisava admitir para si mesmo que sentia falta daquilo.

O primeiro movimento que fez foi defensivo; sua lâmina indo de encontro a outra para deter um golpe desferido pelo adversário. Em seguida, num giro completo e rápido deslizou a parte cortante da espada em todos os shinseijin que o cercavam. Quando outro veio por trás, ele se virou a tempo de cravar a lâmina em seu corpo, atravessando-o no abdômen.

A sua vantagem, porém, durou pouco. O teletransporte era uma técnica imprevisível. Os shinseijin desapareciam e reapareciam repentinamente em diferentes lugares. Um soco no maxilar o pegou desprevenido quando um dos deles se transportou para a sua frente. Hiei foi lançado com o impacto, sendo arrastado por metros no chão. O ataque combinado continuou quando outros dois shinseijin o seguraram pelos braços, impedindo-o de levantar do solo. Outro se aproximou em seguida; a arma empunhada em posição de ataque. Ao redor deles centenas de shinseijin assistiam a cena com empolgação, esperando pelo desfecho.

Um deles ergueu a espada, pronta para desferir um golpe final. Porém, antes que o fizesse, a energia de Hiei explodiu de dentro de seu corpo. Uma onda de youki varreu tudo ao seu redor, incluindo os dois shinseijin que o seguravam e o terceiro que pretendia atingi-lo. Hiei se levantou, limpou o sangue que escorria do canto da boca com o dorso da mão e se preparou para continuar o embate.

Os shinseijin tinham a mesma intenção, porém uma ordem repentina interrompeu a briga.

— Já chega! — a voz grave ecoou no pátio onde todos se encontravam.

Kazumi — que ainda estava parada no mesmo lugar, com lágrimas se acumulando nas extremidades dos olhos — se virou em direção ao homem que se aproximava. Ele estava acompanhado de uma mulher. Os dois exalavam imponência e os demais shinseijin não escondiam o quanto ambos eram respeitados, abrindo espaço para que passassem.

— Por que nos desobedeceram?! — o homem voltou a perguntar aos seus semelhantes — Deixamos claro que não era para atacá-los!

— Mas eles fugiram. Esse estava oferecendo resistência — um deles respondeu, se direcionando para Hiei.

— Não importa — disse a mulher recém chegada — O combinado é que nós falaríamos com eles primeiro.

O silêncio constrangedor ficou no ar, enquanto Hiei e Kazumi observavam a cena sem compreender o que estava acontecendo. Já os shinseijin abaixaram as armas, deixando claro que a luta realmente tinha chegado ao fim.

— Peço desculpas por isso — a mulher voltou a dizer, revezando os olhares entre Hiei e Kazumi — Não era essa a recepção que tínhamos organizado.

— Achou que nos manter numa prisão era uma ideia melhor? — Hiei retrucou.

O burburinho entre os espectadores aumentou, irritados com a petulância do youkai de fogo. Mas a mulher não se importou, levantou a mão pedindo calma e silêncio a eles. A multidão obedeceu, se calando na mesma hora.

— Na verdade, a minha ideia era perguntar educadamente a vocês quem são e por que estão aqui. A prisão foi somente precaução, já que não os conhecemos. Não é todo dia que recebemos visitas.

— Acho que quando uma humana e um youkai são encontrados em nosso território, temos o direito de pedir explicações — o homem que a acompanhava complementou — Por que não nos contam como vieram parar aqui?

O silêncio que se seguiu foi duradouro. Tanto Hiei quanto Kazumi pensavam numa resposta. Kazumi imaginou que, se citassem o Reikai, estariam condenados à morte. Afinal, foi o Reikai que aprisionou os shinseijin ali e matou aqueles que tentaram defender Pyokan após o roubo da Tríade do Tempo. Se soubessem que ela tinha um contrato com o Mundo Espiritual, certamente a matariam. Kazumi suou frio só de imaginar. Já Hiei tinha outra coisa em mente, mas não sabia se devia arriscar.

— Se não disserem nada, vamos interpretar a presença de vocês como nós quisermos — o homem os advertiu.

Hiei suspirou. Não tinha nada a perder. Na pior das hipóteses, continuaria o embate que havia começado e mataria quem tivesse que matar sem sentir remorso.

— Pyokan nos pediu para mandar lembranças — ele respondeu por fim.

A revelação teve o efeito esperado. Os shinseijin se agitaram rapidamente. Conversavam entre eles, questionando a veracidade daquelas palavras e até mesmo se o antigo rei realmente continuava vivo depois de todo aquele tempo passado desde a sua prisão.

“Que absurdo”, disse um deles.

“É mentira!”, disparou um outro.

Já os dois que agiam como os líderes dos demais, trocaram olhares silenciosos, ambos visivelmente abalados com a menção ao nome de Pyokan. A mulher engoliu em seco, então se recompôs ao voltar a atenção para Hiei.

— Vamos conversar em particular.

x.x.x.x

Kazumi e Hiei foram escoltados de volta para o castelo, mas, dessa vez, para um quarto de hóspedes. Os anfitriões lhes sugeriram um breve momento de descanso antes da conversa. Proposta que Kazumi acatou imediatamente, já que teria um tempo a sós para combinar com o Hiei como deveriam prosseguir naquela situação. Talvez Hiei tivesse pensado a mesma coisa, já que não foi contra aquela decisão.

Do ponto de vista de Kazumi, a mulher foi extremamente gentil com os dois. Até demais para o seu gosto, o que a fez criar algumas suspeitas. Já o outro shinseijin parecia mais reservado, embora igualmente educado. Ambos pediram desculpas novamente por todo o ocorrido, gesto que Kazumi fez questão de aceitar timidamente, mas Hiei ignorou com indiferença.

No quarto, a mulher lhes entregou roupas limpas e ofereceu assistência médica, para caso estivessem feridos. Hiei recusou a ajuda, em parte por não achar estar machucado o suficiente e também por não querer parecer fraco. Jamais admitiria ter apanhado mais do que o programado naquela batalha. Já Kazumi, aceitou as roupas limpas que foram entregues a eles.

Os shinseijin enfim deixaram os dois a sós e prometeram reencontrá-los em alguns instantes.

Após um reconfortante banho escaldante, Kazumi vestiu as roupas e até gostou do resultado final. O tecido da bata branca era macio e o acabamento da calça preta confortável, já que a peça havia ficado ligeiramente folgada em seu corpo.

Enquanto esperava Hiei fazer o mesmo, ela se permitiu deitar na cama daquele quarto e relaxar por um segundo. Mas os seus pensamentos a traíram, se embaralhando em sua cabeça e dando um nó em qualquer fio de esperança de sair dali com vida. Estavam em território inimigo e ela era aliada do Reikai. Sabia que aquilo não passaria em branco.

O que diria a eles quando a questionassem?

Kazumi se sentou na beira da cama, preocupada. A ansiedade a consumindo por dentro aos poucos. Seu olhar caiu sobre o relógio na parede frontal do quarto e só então ela percebeu que era quase meia noite, o que significava que já tinha perdido um dia inteiro do prazo dado para encontrar a Tríade do Tempo.

Ela esfregou o rosto, cansada.

Se arrependeu da decisão de estar ali, longe de Noembi. Estava com medo de nunca mais ver a irmã e com medo de morrer. Foi naquele instante que se deu conta do valor que dava a própria vida. Desejou desesperadamente que um milagre acontecesse. Por mais impossível que fosse, desejou encontrar a Tríade do Tempo e acabar com aquele pesadelo de uma só vez.

Uma sensação estranha vibrou no seu peito e, inesperadamente, uma esfera luminosa saiu de dentro de seu corpo. Ela abriu a palma da mão, deixando a esfera se acomodar ali até que o brilho desaparecesse. O que restou foi apenas um objeto metálico.

Ela ficou estudando cada parte daquele item até decidir se o que segurava era mesmo o que imaginava que fosse. Uma das pontas era triangular, mas a outra extremidade estava quebrada e irregular. Uma pedra verde esmeralda estava incrustada no metal.

Kazumi ficou tão chocada que nem percebeu que Hiei fazia o mesmo que ela. Quando se deu conta, ele tinha se aproximado para examinar melhor o material. Ela esperou que ele dissesse alguma coisa substancial, algo que a fizesse acreditar que as suas suspeitas não tinham o menor fundamento lógico.

Mas Hiei quebrou as suas expectativas. O que disse em seguida, na verdade, só confirmou o que ela já imaginava.

— O Reikai é muito mais incompetente do que eu pensava.