Tríade do Tempo

8 Dia 2 - Segredo


— Não. Não pode ser…

Kazumi continuou olhando para o artefato sem acreditar no que via. Quando achava que a situação não podia piorar, agora, além de estar presa num mundo desconhecido e altamente perigoso, parte de um amuleto ancestral estava em suas mãos e ela não tinha a menor ideia de como explicar aquilo. Tudo o que a sua mente em desespero conseguia imaginar era o estrago que fariam com ela caso fosse descoberta pelos shinseijin.

— Pyokan não tentou te matar naquele ataque. Ele quis te entregar isso.

Algo no tom calmo de Hiei fez Kazumi querer gritar com ele. Apesar de parecer confuso, Hiei não aparentava estar nem um pouco preocupado, o que a deixou realmente irritada. Mas Kazumi era minimamente inteligente para saber que fazer um escândalo apenas atrairia a atenção dos shinseijin, coisa que ela queria evitar. Desde que se entendia por gente, passou despercebida por todos ao seu redor. Ela era incrivelmente comum. Não havia nada de extraordinário em sua aparência ou personalidade e, naquele momento, ela desejava poder continuar invisível.

Ser invisível era a sua maior qualidade.

— Por que ele fez isso? Se queria revelar a localização da Tríade, devia ter entregue ao Reikai. Não pra mim!

— Realmente não tem sentido algum. O que aquele idiota pretendia ao entregar isso pra alguém como você?

Kazumi estreitou os olhos, incomodada com o comentário. Não tinha certeza se era uma ofensa, mas vindo de Hiei, achava que sim. De toda maneira, estava nervosa demais para pensar em discutir. Tinha outras prioridades ali. Sobreviver era a maior delas.

— Mas parece estar quebrada — ela disse examinando as bordas — Um lado é triangular, mas o outro está todo irregular. Como foi que quebrou? Será que o Koenma não sabia disso?

— Você ainda tem dúvidas? Todo esse tempo essa parte do medalhão esteve com aquele homem. Pyokan fez o Mundo Espiritual de idiota. Koenma obviamente não sabe de nada, como sempre.

Três batidas leves na porta do quarto bastaram para fazer o coração de Kazumi quase sair pela boca. Ela deu um pulo, fechando os dedos com força em volta do objeto.

— Podem abrir?

A voz veio do lado de fora, abafada, mas em um tom educado. Era a mesma voz da mulher que os tinham deixado ali. Kazumi agradeceu aos céus por ela não ter entrado no quarto sem pedir permissão, no entanto, ainda segurando o fragmento da Tríade do Tempo, não foi capaz de responder. Parecia ter sido pega no flagra fazendo algo muito errado, com a prova do crime literalmente em suas mãos.

Kazumi encarou Hiei suplicando por uma solução, cada vez mais irritada por ele não estar surtando na mesma medida em que ela estava.

— O que vamos fazer?! — ela sussurrou, com medo de ser ouvida.

— Guarde com você e não diga nada a ninguém.

Ela quase caiu pra trás.

— Tá maluco? Você é forte, não é? É melhor você guardar!

— Não. Pyokan entregou a você. Além disso, o seu objetivo não era encontrar essa droga de artefato? Por que está hesitando agora? Guarde logo com você e, pro seu próprio bem, não diga nada a eles.

Hiei não deu a ela outra opção. A deixou para trás quando foi em direção a porta. Apressada, antes que ele a abrisse, Kazumi se concentrou no pedaço partido da Tríade e apenas desejou poder escondê-lo.

Como se respondesse ao seu desejo, o metal reluziu dourado e flutuou. Novamente, a esfera brilhante desapareceu ao entrar dentro de seu corpo.

x.x.x.x.x

Hiei e Kazumi foram conduzidos para uma sala privativa e aconchegante do castelo. A decoração, Kazumi não pôde deixar de reparar, era um tanto antiquada. Tudo tinha tons de ouro velho. Metade dos adornos era cintilante e a outra metade, fosca. Mas como nunca esteve em um castelo antes e não entendia nada sobre riquezas, aquele lugar lhe parecia ser absurdamente caro e luxuoso. Desde os móveis escuros, até o tapete carmim e as cortinas bege que, em sua opinião, não ornavam com nada.

A mulher shinseijin se sentou em uma das poltronas disponíveis, gesticulando para que Kazumi e Hiei fizessem o mesmo. A humana obedeceu, um pouco intimidada pela presença da anfitriã. Ela era alta, esbelta, com olhos escuros e brilhantes, além de parecer nitidamente confiante em si mesma. Kazumi a invejou fortemente em segredo, desejando um dia poder exalar pelo menos um pouco da aura que aquela shinseijin possuía.

Hiei, por outro lado, não aceitou o convite. Preferiu ficar de pé diante dos dois desconhecidos. A postos para um combate, caso fosse necessário. Em sua experiência, abaixar a guarda dentro de território desconhecido e hostil seria a ideia mais burra que alguém poderia ter. O outro shinseijin partilhava da mesma opinião, por isso permaneceu em pé ao lado da poltrona ocupada pela sua parceira. Pronto para agir, caso Hiei tomasse uma decisão equivocada.

Por um instante, Kazumi tentou decifrar a relação entre aqueles dois. A mulher aparentava ser bem mais jovem do que o homem, o que a fez descartar automaticamente uma possível relação amorosa entre eles. Só então notou que, talvez, a única coisa realmente antiquada naquele lugar fosse a sua própria cabeça. Se deu conta de que o fato de não estar disposta a ficar com um homem com idade para ser o seu pai não significava que outras mulheres pensavam da mesma forma.

— Queremos uma explicação sobre o que disseram.

Ela quase saltou quando a voz grave daquele homem de repente atravessou os seus pensamentos fúteis.

— Por que não nos contam quem são vocês? De onde vieram e como chegaram aqui? — continuou a mulher, com um tom bem mais sereno do que o do shinseijin ao seu lado.

O coração de Kazumi bateu com força. Ela não queria mencionar o Reikai. Simplesmente não podia. Eles a matariam assim que soubessem. Por isso, sem ter algo bom para dizer, deixou que Hiei o fizesse.

— É óbvio de onde viemos. Caso não tenham notado, vocês é que vivem num lugar separado do restante do mundo.

Kazumi o olhou com raiva, arrependida por tê-lo deixado dizer alguma coisa. Hiei era o oposto de amigável e, na situação em que estavam, não ser amigável significaria a morte.

— Sim, é óbvio — respondeu o homem com uma ironia evidente em seu tom — Só que os únicos que conhecem a entrada para o Shinkai são os comandantes do Mundo Espiritual. Eu não gosto de rodeios, então, indo direto ao ponto, o que queremos saber é se vocês tem alguma relação com eles.

Hiei esboçou um sorriso de canto, já esperando que a conversa tomasse aquele rumo.

— Suponho que isso seria um problema.

— Isso depende do que vieram fazer aqui — foi a vez da mulher respondê-lo — Afinal, o que disse sobre Pyokan é verdade? Ele está vivo?

Kazumi, ainda calada, detectou algo na expressão daqueles dois que a deixou espantada. Era esperança. O olhar cheio de expectativas com a descoberta de que um dos seus companheiros ainda estava vivo. Ela chegou a imaginar que eles guardavam mágoa de Pyokan pelo ex-rei ter condenado um povo inteiro a uma vida de miséria e solidão, mas descobriu que estava enganada. Não tinha mágoa alguma na expressão que sustentavam.

Talvez, Hiei tivesse percebido o mesmo, já que pela primeira vez a sua resposta foi honesta e sem provocações.

— Está. Foi ele que nos mandou pra cá.

Um silêncio estranho se seguiu, enquanto os dois shinseijin digeriam aquela informação. Eles trocaram olhares enigmáticos, antes de prosseguirem com o interrogatório.

— Por que ele ainda está vivo? — o homem perguntou — O Reikai o prendeu há muito tempo. Ele fugiu ou…?

— Não. Ele não fugiu. Ainda está preso e com data marcada para ser executado — Hiei respondeu — Com certeza vocês sabem o motivo. O Mundo Espiritual só o manteve vivo até agora porque querem a posse da Tríade Do Tempo. Pyokan é o único que sabe onde ela está.

Kazumi arregalou os olhos. Não pensou que Hiei fosse tocar no assunto assim tão friamente, mas a mulher prosseguiu o interrogatório com a mesma frieza.

— Então, é isso o que vieram fazer aqui? Procurar a Tríade do Tempo para devolver ao Reikai?

— Não! — Kazumi enfim tomou coragem e respondeu.

Quanto todos os olhares convergiram para ela, porém, a sua garganta deu um nó. Ela precisou de um incentivo para continuar.

— Não?

— Não viemos por isso. Nem tínhamos intenção de vir. Já dissemos, foi Pyokan que nos mandou, não o Reikai. Foi um acidente, provavelmente. Ou um engano, não sei. Não deveríamos estar aqui!

— Mas vocês estavam trabalhando com as pessoas do Mundo Espiritual para fazer Pyokan falar onde está a Tríade do Tempo? Curioso, não sabia que humanos e youkais trabalhavam com o Reikai, ainda mais juntos. Pensei que se odiassem.

A mulher olhou para o parceiro, esperando que ele se manifestasse a respeito do assunto.

— Nunca ouvi falar de youkais e humanos colaborando em toda a minha vida. Nossos ancestrais relatavam outro tipo de relacionamento entre eles. Mas, pelo visto, os tempos mudaram. E como iríamos saber? Nossa raça não sai daqui há milhares de anos.

A mulher suspirou, voltando ao centro da discussão.

— De todo modo, podemos assumir que são aliados do Reikai.

— Hiei não tem nada a ver com o Reikai — Kazumi disse sem pensar — Eu é que estava trabalhando para eles.

Hiei não acreditou no que ouviu. Inclusive, ficou irritado com a ousadia de Kazumi, fazendo todos ali acreditarem que ele precisava ser defendido. Se ele era ou não aliado do Reikai, não era algo que pretendia esclarecer. Dar satisfação aos outros nunca lhe passou pela cabeça. Ele desejou que Kazumi calasse a boca. Preferia quando ela agia como a humana covarde que era ao invés de bancar a heroína.

Nem mesmo a própria Kazumi saberia explicar o porquê disse aquilo. Talvez, apenas se sentisse em débito com Hiei por todas as vezes que ele a salvou. Ou, talvez, simplesmente não achasse certo deixar que ele também fosse acusado daquela forma. No fim das contas, somente ela tinha um contrato assinado com Koenma.

A garota sentiu a tensão se acumular entre todos eles, especialmente quando a mulher pousou o olhar sobre ela. Não era um olhar maldoso, mas tinha um sutil toque de ameaça que lhe dava arrepios. Porém, Kazumi realmente prendeu a respiração quando a shinseijin se inclinou em sua direção, se dirigindo somente a ela.

— Tenho a impressão que vocês dois estavam no lugar errado e na hora errada. Então, menina do Reikai, você não parece estar muito feliz com o seu trabalho. O que você ganha trabalhando para eles?

Dessa vez, ela não hesitou em responder.

— Dinheiro. Eu preciso de dinheiro, só isso.

A mulher sorriu, como se estivesse satisfeita com a resposta.

— Pelo visto, o dinheiro continua sendo o combustível que move o Mundo dos Humanos. Se o seu vínculo com o Reikai é pautado em algo tão simples, acho que você não será um problema. Qual o seu nome?

Kazumi suspirou. Não achava dinheiro uma coisa simples, mas preferiu não argumentar. Achou também que era um bom sinal terem lhe perguntado o seu nome. Afinal, é muito mais difícil matar alguém quando se conhece a sua identidade. Quando a pessoa deixa de ser uma completa estranha e passa a ser alguém.

— Kazumi.

— Kazumi, eu sinto muito, mas se você precisa da Tríade do Tempo para conseguir dinheiro, infelizmente você vai ficar decepcionada.

— O que quer dizer? — Hiei perguntou, sem esconder o interesse.

— Sabem por quê o Reikai nunca encontrou a Tríade? — Kazumi e Hiei se entreolharam, sem dizer nada. Então, a mulher continuou — É porque ela não existe mais. Pyokan não tem como dizer onde ela está, já que ele mesmo não sabe.

— Mas, o Reikai…

— O Reikai não sabe de nada — o homem interrompeu Kazumi — Vivem de mentiras!

— Fique calmo, Doran.

Foi a primeira vez que Hiei e Kazumi ouviram o nome daquele shinseijin ser pronunciado. Não foi uma apresentação formal, mas a garota agradeceu por finalmente saber pelo menos alguma coisa sobre um deles.

— Que mentiras? — Kazumi arriscou a pergunta.

— O Reikai já fez muitas buscas aqui, todas sempre hostis. Nem sequer conseguimos nos aproximar sem que tentem nos matar. Já tentamos contar a eles a verdade. Que a Tríade do Tempo não existe mais, pelo menos não como era antes. Ela está aos pedaços. Quebrada.

Kazumi engoliu em seco quando a mulher se fixou nela com intensidade, sem nem ao menos piscar. A garota podia jurar que aquela shinseijin sabia o seu segredo, de que dentro dela havia um pedaço daquele artefato perigoso, antigo, poderoso e que já tinha causado tantos problemas a tanta gente. Com medo de se incriminar, ela desviou o olhar.

— É interessante a forma como vocês demonstram ressentimento do Reikai, mas pouco parecem se importar com a traição de Pyokan. Se não fosse por aquele ladrão, vocês não estariam nessa situação.

As palavras provocativas de Hiei deixaram o clima pesado. Os dois shinseijin fecharam a expressão, deixando claro que o comentário não foi de bom tom.

— Você não tem ideia do que está dizendo, moleque — Doran respondeu — Pyokan sempre teve e sempre continuará tendo o nosso respeito.

— Mas ele é um criminoso! — Kazumi retrucou, indignada — Ele prejudicou a todos vocês. Por que ainda se importam com ele?

A mulher se recostou na poltrona, inspirando fundo como se tentasse acalmar os nervos.

— O que vocês sabem sobre Pyokan e a Tríade do Tempo? — ela perguntou.

Kazumi deu de ombros, como se a resposta fosse muito simples, mas o nervosismo carregado em sua voz ao responder deixou claro que para ela nada era tão fácil.

— Que ele é um ladrão. Tentou roubar a Tríade do Tempo e foi pego no flagra. Pra conseguir o que queria, matou a própria filha, só que o Reikai chegou a tempo de prendê-lo após o assassinato.

A mulher deu um falso sorriso, meio constrangida. Como se tivesse acabado de ouvir uma piada muito ruim ou algo extremamente embaraçoso.

— Para informação de vocês, eu sou Mitriss. Filha de Pyokan.

A revelação resultou num silêncio prolongado na sala. Kazumi ficou petrificada, com apenas uma sobrancelha arqueada e o rosto vermelho de tanta vergonha depois de ter erroneamente dado a mulher na sua frente como morta.

— É, eu estou viva — Mitriss prosseguiu — Não graças ao Reikai, já que me deixaram pra morrer quando me encontraram entre a vida e a morte. Foi Doran que me salvou.

— Eu não entendo — Kazumi relanceou Hiei, procurando saber se ele estava tão confuso quanto ela. As palavras escorregaram da sua boca, deixando a frase sentindo algum — Então, você e Pyokan não…quer dizer…não foi ele?

— Se o quer saber é se foi ele quem tentou me matar, a resposta é sim. Nós realmente lutamos naquele dia, quando o flagrei tentando roubar a Tríade do Tempo. Ela acabou quebrando durante a luta e, quando o Reikai chegou, eu já estava quase morta. Eles levaram o meu pai e depois Doran me encontrou.

— E mesmo assim vocês não o odeiam?

— Pyokan era o meu melhor amigo — Doran respondeu — Eu o conheço muito bem e sei que ele jamais roubaria a Tríade do Tempo. Nunca nos trairia dessa forma.

— Talvez, o seu erro seja ter confiado demais naquele homem. E talvez, você esteja criando mentiras só pra não ter que lidar com a verdade de que ele não dá a mínima pra nenhum de vocês — Hiei o respondeu.

Novamente, as palavras duras do youkai não foram bem aceitas por Doran, que, a cada segundo, parecia ficar cada vez mais sem paciência.

— Esse é um assunto delicado para nós — Mitriss disse, cruzando os braços — Não temos certeza de nada. Não sabemos o porquê meu pai fez o que fez. Para descobrir, teríamos que perguntar diretamente a ele. Mas a maior parte de nós nunca deixou de confiar nele.

— Por que estão nos contando tudo isso? — Hiei perguntou em seguida — Por que não fala de uma vez o que querem com a gente?

Mitriss ponderou antes de responder, então deu um sorriso discreto.

— Porque eu tenho um bom pressentimento sobre vocês e porque queremos a mesma coisa: encontrar a Tríade do Tempo. Também queremos devolvê-la ao Reikai. Esse é o preço para recuperar a nossa liberdade. Se meu pai os mandou para cá, deve ter algum motivo. Por isso, eu proponho uma aliança. Nos ajudem a encontrar os fragmentos da Tríade do Tempo e todos nós sairemos ganhando.

x.x.x.x.x

Após Mitriss e Doran decretarem que Kazumi e Hiei tinham direito de pensar a respeito da proposta, os dois foram levados de volta ao quarto. Já estavam no meio da madrugada e tinham muitas informações para processar. No entanto, Hiei não parecia disposto a continuar a conversa com Kazumi.

— Que estranha essa história, você não achou? Nada faz sentido — ela disse ao ter certeza de que estavam sozinhos.

Hiei a ignorou. Já tinha esgotado a bateria social com toda aquela gente e tudo que queria era um pouco de silêncio. Além disso, por mais que se recusasse a admitir, a batalha com os shinseijin o deixou mais cansado do que ele pretendia, ainda mais com todas as tentativas frustradas de invocar as chamas negras. Então, se sentou no chão, encostou na parede e fechou os olhos.

— Ainda não consigo entender o porquê Pyokan nos mandou pra cá. Aquele homem, Doran, jura que ele jamais ia roubar a Tríade. Mas ele roubou! E Mitriss confirmou que eles lutaram. Por que os dois o defendem? E ainda disseram que teríamos que perguntar a ele por qual motivo ele fez o que fez, como se Pyokan tivesse direito de defesa. Que absurdo! E mesmo se tivesse, quem vai perguntar a ele? Eu não volto a falar com aquele cara nem ferrando!

Hiei continuou em silêncio e só então Kazumi percebeu que ele propositalmente a ignorava.

— Hiei! Como pode simplesmente dormir?! Estamos presos aqui com essa gente estranha que quer a nossa ajuda pra encontrar um artefato perdido que, por acaso, um dos pedaços quebrados está dentro de mim! Como você pode ficar tão calmo?!

Ele não moveu um músculo sequer. Nem se deu ao trabalho de abrir os olhos.

— Ficar pensando nisso agora não vai resolver nada. Amanhã eu analiso a situação, quando amanhecer e eu puder explorar esse mundo. Agora, fique quieta.

Kazumi bufou irritada. Já estava cansada de ser tratada daquela forma, tão irritada que nem mesmo xingá-lo poderia aliviar a raiva. Com passos pesados de tanto ódio, ela foi pra cama, decidida a esquecer por um momento da existência de Hiei e de toda a bagunça que sua vida virou depois de conhecê-lo.

Com os pensamentos emaranhados em preocupações e a mente ainda em estado de alerta, ela pensou que seria incapaz de dormir naquela noite. Porém, Kazumi tinha subestimado o próprio esgotamento físico. Toda a adrenalina pesou sobre o seu corpo e ela simplesmente dormiu como uma pedra.

x.x.x.x.x

Ela ainda estava irritada quando acordou no dia seguinte. Não trocou nenhuma palavra com Hiei, algo que ele também não fez questão de fazer. Os dois ficaram em silêncio até o momento em que Mitriss e Doran apareceram para buscá-los.

Kazumi já não estava mais com tanto medo dos dois. O mau humor era tanto que não havia espaço para outras emoções coexistirem em seu corpo. Já Hiei, também não muito satisfeito com a situação, tinha os seus próprios planos: explorar aquele mundo até encontrar a saída.

Por estarem famintos, aceitaram sem relutância uma refeição reforçada oferecida pelos anfitriões. Em seguida, com a escolta dos dois shinseijin, eles foram levados para conhecer Shinkai sob a luz do dia.

Hiei, acostumado com a vida no Makai, não se impressionou com o que viu. Do alto do castelo, o céu era uma imensidão branca, como se estivesse constantemente nublado. A vegetação, de alguma forma, lembrava o Mundo dos Humanos, embora tivesse tons de verdes mais escuros. Havia montanhas no horizonte. Altas, cujos picos não eram visíveis por conta da cerração. De longe, ele ouviu gritos. Ou melhor, rugidos. Um som qualquer emitido por feras selvagens e agressivas que lutavam entre si. Sons de guerras e batalhas, algo que também lhe era familiar. Viu também fumaça sumir dentre as árvores em pontos específicos, como se fossem focos de incêndio. Aquele mundo pegava fogo aos poucos.

Kazumi, por sua vez, ficou assustada. O céu era estranho, a natureza também e os gritos, arrepiantes. Tudo parecia artificial, como um cenário montado em uma peça de teatro. Ela se sentiu sufocada e imaginou se terminaria morrendo ali, longe de tudo e de todos que já conheceu.

— Acredite ou não, já tivemos paz nesse mundo — Mitriss disse ao perceber a apreensiva expressão em seu rosto — Mas a paz acabou quando o Reikai nos prendeu aqui com essas feras que são praticamente imortais. Vivemos em conflito desde então.

Kazumi não fez nada além de lamentar com um olhar entristecido, tentando parecer o mais empática que conseguisse. Doran e Mitriss então os guiaram até uma região mais afastada para trás do castelo, onde ruínas antigas remetiam a tempos ancestrais construídos há milhares de anos. Ali, encontraram uma espécie de templo abandonado e quase oculto pela vegetação que o consumiu com o passar dos anos. Ainda havia destroços na região; pilastras caídas e concreto espatifado no chão. Uma das únicas coisas que permaneciam intactas era o pedestal do interior do templo que costumava sustentar a relíquia envolta pela redoma de energia que a protegia.

— Aqui é o santuário onde a Tríade do Tempo ficava guardada — disse Mitriss — Foi onde lutei com o meu pai, quando o encontrei tentando roubá-la. Foi onde Doran me resgatou quase sem vida.

Kazumi sentiu o ar pesado. Viu algo na expressão de Mitriss que a incomodou e imaginou que não fosse fácil para ela visitar um local com memórias tão dolorosas. Doran se aproximou da herdeira real dos shinseijin, querendo reconfortá-la com a sua presença, como se fosse um lembrete de que ela não estava sozinha. Mitriss agradeceu o gesto com um meio sorriso melancólico antes de continuar.

— Naquele dia, enquanto lutávamos, acabamos atingindo a Tríade e ela se partiu em três pedaços. Eles agora estão espalhados pelo Shinkai.

Kazumi engoliu em seco. Se qualquer um olhasse para ela naquele momento, saberia que ela estava escondendo alguma coisa, mas ninguém olhou. Por sorte, ou talvez de caso pensado, Hiei chamou a atenção para ele, ao disfarçar de maneira que Kazumi jamais seria capaz.

— Todo esse tempo e não encontraram nenhum deles?

Seu tom foi ácido e irônico, mas os shinseijin não se importaram.

— É mais difícil do que parece — Doran respondeu.

— A questão é que, se recuperarmos a Tríade, podemos usá-la para sair daqui — Mitriss continuou — E assim, podemos entregá-la ao Reikai para que nos deixem em paz.

Hiei revirou os olhos sutilmente.

— Se foram incapazes de achá-la até agora, por que ainda não desistiram?

— Porque não temos outra opção. Essa é a única maneira de recuperarmos a nossa liberdade. Além disso, como eu disse antes, o meu pai enviou vocês pra cá por algum motivo, não é? Talvez, ele pense que vocês podem nos ajudar e…

— Ridículo — Hiei a interrompeu — Aquele homem nem nos conhece. Se conhecesse, saberia que não tenho intenção alguma de ajudar vocês a resolver os seus problemas pessoais.

— O que pretende fazer, então? — Doran o questionou — Com a Tríade em mãos podemos escapar desse mundo. Sem ela, você também está preso aqui. Ou por acaso sabe onde fica a saída? O Reikai disse a vocês? Me parece que não!

Hiei o encarou de soslaio, irritado consigo mesmo por não ter exigido saber dessa informação quando Koenma contou a eles a história.

— Eu vou encontrar essa saída por conta própria — Hiei respondeu.

— Acha que já não tentamos? — Doran retrucou — É perda de tempo. Não dá pra achar!

Decidido, Hiei fingiu que não ouviu, saindo do templo com a única intenção de explorar aquele lugar. Tirou a faixa do Jagan e tentou procurar por qualquer sinal da saída com a visão remota. Mitriss o acompanhou e interrompeu a sua concentração sem cerimônias.

— Fique à vontade para vasculhar cada canto desse mundo. Doran vai te acompanhar. Kazumi e eu estaremos no castelo esperando vocês voltarem assim que se cansar de procurar.

— Não me lembro de pedir companhia.

— Não se preocupe. Doran não vai tentar te deter, se quiser mesmo fazer essa busca. Mas esse lugar é traiçoeiro e tem muitas armadilhas espalhadas por aí. É bom ter um guia para garantir que volte inteiro depois que desistir.

Hiei quis debochar da falsa preocupação de Mitriss, mas acabou ignorando-a quando seu olhar caiu sobre Kazumi. A garota o olhava de volta, com receio de ser deixada para trás. Era a primeira vez que se separariam depois de chegarem ali e, por mais raiva que ela estivesse de Hiei, o youkai era o único que ainda transmitia a segurança que ela precisava para se manter firme.

Naquele instante, mesmo sendo incapaz de ler os pensamentos de Kazumi, ele entendeu o que se passava na cabeça dela.

— Façam como quiser — ele respondeu Mitriss, se virando em seguida para Doran — Se quiser me seguir, que siga. Só não me atrapalhe. Não devo demorar para voltar, de qualquer forma.

Ele não disse a ela diretamente, mas a mensagem foi passada com clareza. Kazumi se sentiu imediatamente mais aliviada ao ouvir aquilo. Não tinha nada além da palavra de Hiei lhe garantindo que voltaria, mas ela acreditava nele. Ainda o achava um insuportável sem educação, mas acreditava nele.

Ela observou os dois sumirem dali numa velocidade sobre humana e, junto de Mitriss, caminhou de volta ao castelo dos shinseijin.

x.x.x.x.x

De vigia em uma das torres de observação, por um longo tempo as duas ficaram em silêncio. As horas se arrastaram pelo Shinkai e Kazumi sentia que Mitriss a estudava discretamente. Ela teve receio de dizer qualquer besteira por engano, por isso ficou calada enquanto pôde. Foi a filha de Pyokan que resolveu puxar assunto primeiro, de forma amigável, para quebrar o gelo entre elas.

— Você parece assustada.

Kazumi suspirou.

— É, um pouco — ela confessou.

— Fique tranquila, eu não vou te fazer nenhum mal. Mas queria te fazer uma pergunta.

Kazumi a encorajou concordando com a cabeça.

— O meu pai, como ele está?

“Preso”foi a primeira coisa que passou pela cabeça de Kazumi e ela teve que se esforçar para pensar em algo melhor para dizer. No entanto, por mais que tentasse, nenhuma ideia parecia boa o suficiente.

— Bom, ele tá…bem, eu acho. Quer dizer, não parecia estar mal, entende? Pra ser bem sincera, eu não perguntei a ele como estava. Mas acho que ele está ótimo, já que foi capaz de nos mandar pra cá.

Ao dizer aquilo, a humana ficou pensativa. Afinal, o que os tinha levado até o Shinkai foram os poderes de Pyokan ou os da Tríade do Tempo? A reflexão a deixou incomodada, tentando entender o porquê os shinseijin não lhes questionaram como Pyokan foi capaz de transportá-los para o Shinkai. Pyokan por acaso tinha esse poder ou somente alguém em posse da Tríade do Tempo seria capaz de tal façanha?

Desconfiada, Kazumi decidiu que precisava discutir aquilo com Hiei o mais rápido possível, enquanto Mitriss apenas esboçava um sorriso com a resposta esquiva.

— Dá pra ver na sua cara que você não gosta muito dele.

— É. E não sei porque vocês gostam.

Kazumi arregalou os olhos depois de perceber o que tinha dito. Às vezes, era tão honesta que acabava se deixando levar pelas emoções, falando mais do que deveria.

— Desculpa, Mitriss — ela imediatamente tentou amenizar a situação — Eu não queria…

— Tudo bem. Eu compreendo. O mais sensato seria que eu o odiasse, mas ele é o meu pai. Eu não espero que você entenda isso, mas a verdade é que é mais complicado do que parece.

— Eu entendo sim. Eu te entendo muito bem, sério. Eu passei por algo parecido com o meu pai.

Mitriss endureceu o olhar, mas sem desfazer o sorriso cúmplice do rosto.

— É mesmo? Que inesperado. E eu achei que ter que aguentar um homem mau-humorado o dia inteiro fosse a única coisa que tivéssemos em comum. Embora o seu desafio pareça ser bem maior do que o meu.

Pela primeira vez, Kazumi se sentiu confortável. Ela riu do comentário antes de responder.

— É, não posso discordar. Perto do Hiei, Doran parece ser um anjo.

— Doran é ranzinza — Mitriss deu de ombros — Reclama demais, mas é uma boa pessoa. É como se fosse o meu segundo pai. Está sempre por perto, cuidando de mim. Faz de tudo para me proteger e vive palpitando nas minhas decisões, mesmo quando eu não peço opinião nenhuma.

— Faz sentido, já que você é a rainha daqui, né? Pessoas da realeza sempre tem conselheiros pra impedir que façam coisas erradas, não é assim?

— Bobagem. Doran erra muito mais do que eu. Ele é atrapalhado e teimoso demais para ser um conselheiro. Mas e você e Hiei? Há quanto tempo estão juntos?

Kazumi — que havia se oferecido de um copo d’água — tomava um gole quando a pergunta a tirou dos eixos. Ela quase cuspiu e acabou engasgando quando se sentiu na obrigação de automaticamente desfazer aquela confusão. Teve que tossir algumas vezes antes de conseguir responder.

— Juntos?!

Mitriss a fitou com estranheza, incerta pelo que disse.

— Sim. Vocês dois são…

— NÃO — Kazumi a cortou — Não. Não. Vocês entenderam errado. Hiei e eu não estamos juntos. Quer dizer, estamos juntos aqui, mas não desse jeito. Não mesmo! Absolutamente não!

Mitriss arqueou as sobrancelhas, surpresa e, ao mesmo tempo, aliviada pelo esclarecimento.

— Bem que eu tinha estranhado mesmo. Uma humana com um youkai? Vocês são só amigos, então. Ainda é estranho, mas menos estranho.

Kazumi pensou um pouco. Não se considerava amiga de Hiei e duvidava muito que ele pensasse diferente dela. Ela se considerava no máximo uma colega, ou aliada, mas achava que Hiei a considerava apenas um estorvo.

— É, por aí…— ela respondeu, evitando entrar em detalhes — Por falar nisso. Seria possível nos colocar em outro quarto? Um que tenha duas camas?

— Claro, eu vou providenciar. Peço desculpas pelo mal-entendido. Realmente pensei que fossem algo a mais, pela forma como ele tentou proteger você no outro dia.

Mitriss riu, mas Kazumi se absteve de responder àquela última observação. Ficou um pouco transtornada e queria mudar de assunto o quanto antes. Ou melhor, simplesmente decidiu parar de falar sobre qualquer coisa. De tanto jogar conversa fora, não tinha percebido que já estava ficando tarde. Sentiu o coração apertado de tão apreensivo. Hiei tinha dito que voltaria logo, mas não havia nem sinal dele.

Mitriss notou o comportamento da humana e soube que era momento de deixar Kazumi em paz com os próprios pensamentos. Por isso, a rainha dos shinseijin pediu licença e a deixou a sós.

A garota permaneceu abraçada aos próprios joelhos, resistindo ao ímpeto de roer as unhas de ansiedade. Perdeu a noção do tempo depois de tanto esperar, enquanto observava a movimentação do castelo. Viu os shinseijin andando pelo pátio, fazendo rondas pelas matas ao redor e ouviu os rugidos distantes de onde estavam.

Já era noite do lado de fora. Não dava pra ver nada naquele breu infinito que havia se tornado o Shinkai e a pouca iluminação se concentrava ao redor do castelo, vinda de tochas estrategicamente posicionadas. Naquela altura do campeonato, Kazumi já estava mais aflita do que qualquer outra coisa. Pensamentos desordenados e pessimistas a atormentavam com um mar de possibilidades e em todas elas o seu fim era triste.

Foi somente depois de avistar duas pessoas passando pela muralha que protegia o castelo que o seu ânimo mudou. Ela se colocou de pé assim que reconheceu Hiei ao lado de Doran, mas se assustou quando a claridade das tochas os iluminou. Quando percebeu que um se apoiava no outro e que ambos estavam encharcados de sangue, saiu correndo pela porta da torre em direção a eles na mesma velocidade que qualquer traço de alegria se esvaiu de seu corpo.