Tríade do Tempo

9 Dia 3 - Aliança


Kazumi desceu as escadas correndo, o mais rápido que pôde, pulando alguns degraus no meio do caminho. Chegou ao térreo cansada e ofegante, mas mesmo assim, sentiu o coração querer saltar para fora do peito quando atravessou a multidão de shinseijin — abrindo espaço ao empurrá-los para os lados — e colocou os olhos sobre Hiei e Doran. Num primeiro instante, a única informação que o seu cérebro conseguiu processar foi o rastro vermelho de sangue que acompanhava os dois por onde passavam

Ambos tinham marcas visíveis de combate. Cortes e arranhões pelos braços e rostos, mas Kazumi estava interessada em saber a fonte de todo aquele sangue. Só então percebeu que era Hiei quem sustentava o peso de Doran. O shinseijin tinha apoiado um dos braços sobre os ombros do demônio de fogo e foi sendo arrastado até chegar à fortaleza. Quando Hiei o soltou, Doran foi sozinho ao chão, ainda consciente. Um corte profundo em seu torso, perto da coluna, vertia tanto sangue que Kazumi levou as mãos à boca, enojada. Quando todos ao seu redor se mobilizaram às pressas para prestar socorro ao companheiro, o seu olhar cruzou o de Hiei em meio àquele alvoroço.

Ela ouviu Mitriss ordenar aos gritos para que os demais shinseijin levassem Doran com urgência para a enfermaria, mas manteve os olhos presos no youkai.

Mesmo naquele caos, algo dentro dela comemorava em segredo o retorno de Hiei.

Aliviada por não ter sido abandonada.

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— Esse idiota passou o tempo inteiro me infernizando. Se prestasse mais atenção no que estava fazendo, nada disso teria acontecido. Ele conseguiu prender a si mesmo em uma armadilha enquanto estávamos sendo atacados. Não deveria ter me seguido. É um alvo fácil.

Hiei encostou no batente da porta, com as mãos no bolso e despreocupado. Doran, sob cuidados de Mitriss, repousava em uma das macas da enfermaria.

Doran é um excelente guerreiro — Mitriss retrucou — Mas concordo que não é dos mais cuidadosos. Não é a primeira vez que cai em uma das nossas próprias armadilhas. Que bom que você estava lá para salvá-lo. Mas você também está ferido, tem certeza que não quer aproveitar para cuidar desses machucados?

— Já disse que não é necessário.

Kazumi, ainda atônita com a situação, permanecia calada. Relanceou Hiei, verificando os ferimentos superficiais que estavam visíveis em sua pele exposta. Tentava entender se ele estava apenas querendo parecer forte ou se realmente estava bem como dizia. Tinha tanto sangue nas roupas dele que a fazia duvidar que Doran tivesse sido o único a ter se ferido gravemente.

Aflita, ela olhou para o shinseijin adormecido.

— Ele vai ficar bem?

Mitriss devolveu um meio sorriso para Kazumi como se agradecesse pela preocupação.

— Vai sim. O estado dele não é tão ruim quanto parece. E apesar dos nossos recursos serem escassos, usamos técnicas eficazes de cura. Logo Doran vai acordar. Acredite, todos nós já passamos por algo bem pior do que isso.

A garota entendeu a que Mitriss se referia. Toda vez que a rainha direta ou indiretamente citava a retaliação que o seu povo sofreu pelas mãos do Reikai, a sua voz endurecia, embora a expressão neutra continuasse intacta. Então, o peito de Kazumi apertou ao se lembrar da conversa com a filha de Pyokan. De acordo com Mitriss, Doran era como um segundo pai para ela. A relação dos dois era provavelmente a coisa mais preciosa que lhe restava e, ainda assim, a shinseijin mantinha uma postura inabalável, mesmo com a vida de Doran estando ameaçada diante de seus olhos.

Kazumi admirou a força interior daquela mulher e, acompanhada por Hiei, deixou a enfermaria com um sentimento de impotência. Rezando para que o destino não arrancasse de Mitriss a única presença que preencheu o vazio deixado pela traição do próprio genitor.

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— Você está mesmo bem?

Já no quarto novo — com duas camas separadas conforme Kazumi tinha solicitado a Mitriss — a garota perguntou a Hiei. O youkai, que não fez questão de questionar a mudança, apenas a respondeu diretamente.

— Estou.

— Tem um corte no seu rosto. Está sangrando.

Ela se aproximou, ainda em dúvida, e entregou a ele uma toalha limpa que encontrou em um dos armários do quarto. Hiei observou o gesto com indiferença e atrasou alguns segundos antes de aceitá-lo. Pegou a toalha sem vontade e pressionou o machucado, enxugando o sangue ao redor.

— Você não tem ideia de como me deixou preocupada. Quando vi todo aquele sangue…meu Deus! Pensei que você fosse morrer!

Hiei revirou os olhos com uma expressão de deboche.

— Precisa mais do que isso pra me matar.

— Afinal, o que aconteceu lá?

— Eu já expliquei. Fomos atacados e aquele idiota caiu em uma armadilha construída por eles mesmos.

— Me refiro à saída. Você não encontrou, não é?

A resposta do demônio de fogo veio em forma de silêncio. Hiei não precisava dizer nada, pois Kazumi já tinha compreendido tudo. Não somente o Jagan não tinha sido capaz de detectar a saída daquele mundo, como o problema para invocar as Chamas Negras persistia, o que o fez ter ainda mais dificuldade para enfrentar os inimigos que apareceram.

Naquela altura, Hiei já tinha identificado o problema. Como o Shinkai era um mundo selado e as Chamas pertenciam ao Makai, invocá-las exigia uma habilidade que ainda estava fora do seu alcance. Assim como da primeira vez em que tentou conjurá-las no o Mundo dos Humanos, ele precisaria de um tempo de prática.

De todo modo, ele quis justificar o fracasso de sua missão.

— Se aquele imbecil não tivesse me atrapalhado...

— Ah, Hiei, cai na real! Você passou o dia inteiro fora. Se fosse pra encontrar essa saída, já teria encontrado. Eles disseram que não tem como encontrar e eu acho que é verdade. Talvez seja o caso de aceitarmos aquele acordo. Procurar os pedaços da Tríade. Com ela, conseguimos escapar daqui, né?

— Resolver o problema dos outros não está nos meus planos.

— Só que agora o problema deles é nosso problema também! Já estamos envolvidos, porque eu tenho um pedaço da Tríade do Tempo e, por mais que você não tenha culpa de nada, você veio parar aqui junto comigo. Se os shinseijin querem dar um jeito de sair daqui, melhor a gente colaborar com eles.

— E o que pretende dizer a eles? Como vai contar que uma das partes desse artefato está com você?

— Não tenho outra alternativa a não ser dizer a verdade: que estava com Pyokan e ele passou para mim.

— E o que te faz pensar que eles vão acreditar em você? Pyokan foi preso pelo Reikai. Qualquer um pensaria que tomaram dele à força. Que você foi mandada pra cá para pegar o restante dessa relíquia — Hiei se aproximou com o olhar duro e incisivo, mantendo a voz num timbre baixo e cortante — Que essa sua insistência para parecer inocente não passa de uma farsa barata para conseguir o que quer. Eu sei da verdade: que você é só uma humana qualquer e azarada que veio parar nesse lugar, mas eles não sabem. Não confiam em você. Vão te matar sem remorso algum.

Kazumi engoliu em seco. Suas pernas vacilaram por um instante.

— Eu conversei com Mitriss enquanto você esteve fora. Acho que ela acredita em mim.

— Honestamente, você é ridiculamente fácil de enganar. Aquela mulher acabou de te conhecer. Não dá pra confiar em ninguém daqui.

Kazumi suspirou, sentindo-se cada vez mais estúpida, conforme Hiei sutilmente a insultava com palavras amenas.

— Eu só acho que nós não temos outra escolha a não ser aceitar a proposta. Não vejo outra opção a não ser procurarmos pela Tríade.

— Será que é isso ou na verdade você se compadeceu com o destino dessa gente? Está com pena do que aconteceu a eles e quer vê-los livres, estou certo? Não quer encontrar aquele artefato só pra sair daqui, mas sim para que eles possam sair também.

Kazumi cruzou os braços, irritada e indignada.

— E por que isso te incomoda tanto? Desde quando querer ajudar os outros é algo ruim? Só é ruim pra um insensível como você!

Hiei a fulminou, estreitando o olhar sobre ela.

— Está enganada. A partir do momento em que você prioriza ajudar os outros ao invés de si mesma, então você não passa de uma idiota que vai ser enaganada pelo primeiro que cruzar o seu caminho. Amanhã começamos a busca por essa porcaria de relíquia, porque nós temos que sair daqui.

Por alguns segundos os dois se encararam em silêncio, com raiva. Sabendo que era melhor encerrarem a discussão antes que as coisas piorassem ainda mais. Mas quando Hiei se virou, desfazendo o contato visual, Kazumi voltou a chamá-lo.

— Eu sei que você pensa que eu sou descuidada e fácil de ser ludibriada, mas eu não sou tão burra quanto pareço. Quando falei com Mitriss, percebi uma coisa estranha.

— O quê? — ele perguntou a ela, ainda de costas

— Se os shinseijin sabem que Pyokan está preso e que ele foi neutralizado pelo Reikai, por que não nos perguntaram como foi que aquele criminoso conseguiu nos mandar pra cá? Não parece estranho que Mitriss e Doran não tenham nos interrogado sobre isso?

Hiei refletiu por alguns instantes, compreendendo onde Kazumi queria chegar. No entanto, ele não tinha a resposta para aquela pergunta. Nem ao menos tinha percebido aquela incoerência antes de Kazumi mencioná-la. Ou Pyokan não estava realmente neutralizado como Koenma pensava que estava ou ele realmente estava neutralizado, mas o poder da Tríade foi o que permitiu que ele mandasse os dois para o Shinkai.

Um alerta acendeu na mente de Hiei, afinal, quais as chances de que o Reikai não tivesse sido capaz de conter os poderes de Pyokan? Se fosse o caso, aquele homem teria fugido há tempos. Ou pior: teria assassinado a todos aqueles que se opusessem a ele.

Hiei continuou pensando no assunto, enquanto procurava por bandagens ou qualquer outra coisa que pudesse servir como curativo para os seus ferimentos.

— Vá dormir — ele a respondeu por fim — Amanhã falamos sobre isso.

A garota não protestou. Se deitou em uma das camas e deixou que Hiei se concentrasse em seus próprios problemas.

Os olhos de Kazumi se fecharam, mas o seu cérebro continuou trabalhando. Demorou muito para que conseguisse pegar no sono, principalmente porque a sua única vontade era a de chorar a noite inteira.

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— Que excelente notícia! — Mitriss sorriu para Kazumi e Hiei — Fico contente que tenham aceitado a proposta. Essa aliança pode trazer de volta a liberdade de todos os shinseijin.

— Não comemore cedo demais — Hiei retrucou — Nem sequer começamos a procurar. Não temos garantia de que vamos encontrar o que resta da Tríade do Tempo.

Foi na enfermaria, ao lado da maca em que Doran se encontrava sentado — e impaciente para levantar — que Kazumi e Hiei comunicaram a decisão para a rainha.

— Mas eu tenho um bom pressentimento. Acho que com a ajuda de vocês vamos conseguir nos libertar dessa punição sem sentido que recebemos — respondeu Mitriss, relanceando o companheiro — De qualquer forma, somos gratos pela ajuda que nos estão oferecendo.

— Sim, é verdade — Doran se apoiou em Mitriss ao colocar os pés no chão, ignorando totalmente as ordens de repouso. Se dirigiu a Hiei quando conseguiu estender o corpo, reprimindo uma careta de dor — Inclusive, obrigado por ontem, garoto. Você salvou a minha vida. Não tinha nenhuma obrigação, mas me salvou.

Hiei o ignorou, desviando o olhar. Não gostava de receber cumprimentos. Tampouco gostava de ser visto como um herói, algo que estava tornando-se recorrente desde que tirou Kazumi do Makai. Hiei se deu conta de que vinha salvando a vida dos outros com uma frequência acima do normal e se sentiu patético por aquilo. Para a sua infelicidade, Doran prosseguiu com os elogios.

— O garoto luta bem Mitriss, você tinha que ter visto. Foi muito ágil, sabia?

— É mesmo? — ela relanceou o youkai com curiosidade antes de voltar a atenção para o shinseijin — Que sorte a nossa que ele estava lá para te salvar. Mas acho que precisamos conversar novamente sobre essa sua falta de cuidado, Doran.

Ele resmungou alguma coisa, mas Hiei não prestou atenção. Ele olhou para Kazumi e notou que seus olhos estavam ligeiramente inchados. Tinha ouvido ela choramingar baixinho em alguma parte da madrugada, mas preferiu não tocar no assunto. Aquilo o incomodava tanto que chegava a ser irritante.

Precisava dar um jeito de sair logo dali e retomar a sua vida, longe de humanos e suas fragilidades ridículas.

— Sobre a Tríade… — disse Mitriss, recuperando a atenção de Hiei —…o maior problema que temos para localizá-la é que seus fragmentos podem estar dentro de qualquer uma dessas feras selvagens.

Kazumi pareceu acordar para a conversa de repente. Sua postura ficou tensa, como se tivesse sido pega fazendo alguma coisa errada

— Como assim? — ela perguntou.

— A Tríade tem uma espécie de magnetismo, ela é atraída pela fonte de vida mais próxima que encontrar. Ela é capaz de se fundir ao usuário que a utiliza. No passado, os que detiveram o seu poder a mantinham guardada literalmente dentro de seu corpo. O mesmo deve ter acontecido agora. Não esperamos encontrar os fragmentos caídos por aí. Até agora não os encontramos, pois devem ter sido tomados por essas feras.

Kazumi prendeu a respiração, compreendendo por fim o porquê aquele pedaço da Tríade do Tempo tinha simplesmente invadido o seu corpo sem permissão e agora ela o sentia como se fosse parte de si mesma. Ela olhou rapidamente para Hiei, o cúmplice do segredo que começava a corroê-la por dentro. Ele, porém, não parecia ter a menor dificuldade em manter o sigilo. Nem sequer parecia minimamente abalado.

Mitriss não notou o nervosismo de Kazumi e prosseguiu com a explicação.

— A questão é que é difícil localizar essas partes da relíquia, pois o nosso mundo está tomado por esses monstros que vivem brigando entre si. Esses fragmentos da Tríade podem estar sendo disputados entre eles. Vocês vão perguntar o porquê já não matamos todos até encontrar o que buscamos, certo? A verdade é que é impossível eliminá-los. Eles sempre se regeneram. Pode até abatê-los por um tempo, mas eles voltarão à vida. Derrotar todos eles num dia só é impossível, pois são muitos. E, mesmo aqueles que conseguimos derrotar, no dia seguinte já estão novamente de pé. É um trabalho sem fim.

Hiei ponderou. Se as outras partes da Tríade também estavam dentro daquelas criaturas, não seria tão simples rastreá-las. Uma ideia lhe passou pela cabeça, mas para que funcionasse precisaria fazer um teste sem que os shinseijin soubessem.

Ao saírem da enfermaria, liderados por Mitriss e Doran — que insistiu em fazer parte da busca mesmo ainda não estando recuperado — Kazumi e Hiei foram para o pátio, onde outros shinseijin se organizavam para uma ronda. De acordo com Doran, todos os dias eles se dividiam diariamente em grupos e se revezavam para buscar os fragmentos da Tríade do Tempo. Mitriss dava as ordens e decidia para qual lado cada grupo iria, quem ficaria responsável por armar novas armadilhas e quem lideraria cada uma das tropas.

Enquanto ela organizava os soldados, Hiei se aproximou de Kazumi, tentando ser discreto.

— Quero que venha comigo dessa vez — ele disse a ela.

Kazumi piscou confusa, olhando-o de volta como se tivesse enlouquecido.

— Eu? Ir com vocês pra esse mundo cheio de monstros sanguinários?!

— Sim.

Kazumi permaneceu boquiaberta, sem entender o motivo por trás daquele pedido absurdo.

— Mas eu só vou atrapalhar vocês! Pra quê você quer que eu vá?

— Preciso de você para checar uma coisa.

— E o que seria?

Hiei não respondeu. O local estava lotado e não achava seguro conversar ali no meio de tanta gente. Por mais que tivessem feito uma aliança com aquele povo, ainda lhe custava confiar neles. Já tinham se arriscado o bastante falando sobre o segredo que mantinham quando estavam a sós na fortaleza.

Por isso, ele se inclinou ligeiramente em direção à humana para garantir que só ela pudesse ouvir a resposta.

Hiei mal deixou um espaço entre eles. A sombra dele caiu sobre Kazumi quando seu rosto se aproximou do dela, tão perto que ela pôde sentir o calor da respiração dele roçar sua pele.

— Apenas venha comigo.

Kazumi piscou, o coração tropeçando no peito como se tivesse esquecido o ritmo por um segundo. Ela compreendeu que aquele pedido não era um mero capricho com a intenção de aterrorizá-la, mas que Hiei tinha alguma coisa importante em mente. Por isso, concordou balançando a cabeça em resposta. O receio, porém, estava nítido em seus olhos. Nítido o bastante para arrancar do youkai uma promessa.

— Não vou deixar que te aconteça nada — ele acrescentou antes de se distanciar.

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— Você tem certeza? — Mitriss perguntou a Kazumi — Pode ficar aqui no castelo se quiser. Já falei para os outros shinseijin que vocês não são uma ameaça. Ninguém aqui desobedece às minhas ordens, então você pode ficar tranquila. Eles não farão nada a você.

Kazumi abriu a boca para responder, mas Hiei se adiantou.

— Ela vai comigo.

Mitriss arqueou as sobrancelhas, compreendendo que aquele era o ponto final da discussão. Ela encarou Kazumi e esperou por uma confirmação de que ela estivesse de acordo com aquela decisão. A garota apenas acenou com a cabeça. Embora estivesse com medo, ainda acreditava na palavra de Hiei de que tudo ficaria bem.

Mitriss e Doran se entreolharam desconfiados, mas não disseram mais nada sobre o assunto.

— Vamos nos dividir, então — a rainha determinou — Vocês seguem com o grupo de Doran hoje. Ele vai para o leste, eu vou para o norte. Depois, nos encontramos no meio do caminho. As equipes do oeste e sul farão o mesmo. Quando começa a escurecer, as rotas ficam mais perigosas, por isso nos reunimos e voltamos para casa em um grande grupo. É mais seguro para todos.

Após saírem da fortaleza, Kazumi e Hiei seguiram Doran e outros sete shinseijin pela trilha que os levava a um platô que eles usavam como ponto de partida para iniciar as buscas.

O percurso foi longo o suficiente para deixar a humana com as pernas cansadas, diferente dos demais. Mesmo assim, ela não reclamou. Se esforçou para acompanhá-los, ainda que por dentro estivesse amaldiçoando Hiei por obrigá-la a fazer parte daquilo. A raiva, porém, se transformou em remorso quando se lembrou de que, se não fosse por ela, Hiei sequer estaria preso naquele lugar.

Aos poucos o cansaço foi derrotando a sua determinação e Kazumi percebeu que tinha se distanciado do restante do grupo. O único que ela conseguia realmente acompanhar sem dificuldades era Doran, que caminhava lentamente devido aos ferimentos. Os dois mantinham o mesmo ritmo, lado a lado, enquanto Hiei se misturava aos shinseijin, um pouco mais adiante.

— Não era melhor você ter ficado em repouso? Por que você veio, Doran? — ela o questionou.

— Eu posso te perguntar a mesma coisa. Por que você veio se não é capaz de cuidar de si mesma em um mundo como esse?

Kazumi torceu os lábios, entalada com a resposta que não podia dar. Nem ela mesma sabia o que estava fazendo naquele lugar.

— Não precisa responder, você não me deve explicações. De toda forma, eu sei o porquê está aqui. É porque confia nele, não é?

Kazumi observou o olhar de Doran recair sobre Hiei.

— Você sabe dos perigos que tem nessas terras… — ele continuou —…mas confia que nada vai te acontecer, porque está ao lado dele. Comigo é a mesma coisa. Eu estou debilitado, mas não estou sozinho. Meus companheiros estão aqui para me proteger, caso seja necessário. Tudo se resume à confiança. Nos apoiamos uns nos outros. Além disso, não vou deixar Mitriss comandar essa busca toda sozinha. O fardo dela já é pesado demais.

— Imagino que não seja fácil pra ela ter que lidar com tudo o que aconteceu. Principalmente depois do que o pai fez a ela.

— Eu já disse que Pyokan nunca ameaçaria a vida da própria filha.

Kazumi deixou os ombros caírem sem acreditar que estava ouvindo aquilo mais uma vez. Afinal, por que aquelas pessoas mentiam para si mesmas?

— Mas ele tentou matar ela. Eu não consigo entender o que você...

— Ninguém está negando isso, menina. A questão é que Pyokan, em condições normais, jamais teria feito aquilo. Acredite em mim, eu o conheço.

Kazumi franziu a testa, confusa.

— O que quer dizer? Que ele não estava raciocinando direito quando tentou matar Mitriss?

— Vai saber. Pode ter sido coisa do Reikai, uma emboscada ou algo parecido. Mitriss disse que ele parecia normal, mas eu tenho certeza que ele não estava. Pode ter sido até lavagem cerebral! O Pyokan que eu conheci jamais teria feito mal à própria filha. Ele não a deixaria no estado em que a encontrei. Pyokan não é uma pessoa má.

— Não? Pelo que soube, ele matou muitas pessoas no Reikai desde que foi capturado.

— E vocês esperavam que ele fizesse o quê, exatamente? A vida da filha dele e de todos os shinseijin foram ameaçadas. Ele foi preso injustamente e o Reikai não é composto por santinhos. Eles podem ser cruéis quando querem. Você deve saber bem disso.

Ela não sabia. Não tinha ideia de como o Reikai realmente funcionava. Mas preferiu não argumentar, pois achou que Doran não acreditaria em sua palavra. Ele tinha tanta convicção sobre a índole de Pyokan que a fazia questionar o pouco que lhe contaram sobre aquela história. Ainda assim, Kazumi achava que ele estava mais para um conspiracionista que não consegue aceitar a dura realidade do que qualquer outra coisa.

Ela desistiu de discutir. A conversa terminou quando os shinseijin chegaram ao platô e se reorganizaram para iniciar as buscas.

— Fiquem atentos vocês dois — um deles se dirigiu a Kazumi e Hiei — A partir daqui estamos em território crítico e muito traiçoeiro. Esses monstros não são muito inteligentes, mas estão escondidos por todas as partes, só esperando para dar o bote na presa. Eles têm uma capacidade de regeneração fora do comum. Não devem enfrentá-los se perceberem que não conseguirão vencê-los. Na pior das hipóteses, o melhor a ser feito é fugir.

Hiei desdenhou do alerta em silêncio, mas fingiu aceitar o conselho. Normalmente não teria intenções de fugir de uma luta. Era do tipo que faria o possível para neutralizar um inimigo, porém, naquele dia seria diferente. Precisava apenas de uma oportunidade para sumir da vista de todos e executar o plano que tinha em mente. Necessitava apenas de uma distração, um ataque que ele sabia que não demoraria para vir.

Pela sútil vibração no solo, ele detectou o adversário antes mesmo que estivesse à vista. Em uma fração de segundos, ele se adiantou e agarrou Kazumi pela cintura, puxando-a com brusquidão, exatamente no instante em que o chão explodiu sob seus pés.

Uma serpente colossal irrompeu da terra fofa, abrindo uma cratera no chão. A reação do grupo foi imediata. Os shinseijin recuaram e levantaram armas e energia num movimento sincronizado, prontos para defender e contra-atacar. Hiei, no entanto, segurou a garota com firmeza, desviando do ataque do monstro com um salto.

Kazumi quis gritar, mas perdeu o fôlego quando Hiei disparou com ela nos braços. Ela o xingou em seus pensamentos. Odiava quando ele fazia aquilo, cada dia mais. Quando ele começou a pular repetidamente, saltando de rocha em rocha, ela olhou para o campo de batalha que deixavam para trás. O grupo — cada vez mais distante — parecia estar com problemas. Ela viu um dos shinseijin ser esmagado pelo corpo monstruoso da serpente, que se enrolava e desenrolava com força devastadora.

A garganta dela apertou até doer.

Quando Hiei enfim parou de subir, a colocou no chão. Estavam num ponto tão alto que podiam observar cada parte daquele mundo. No entanto, o eco distante da batalha, misturado a gritos e impactos pesados, era tudo o que Kazumi conseguia ouvir. Tudo que conseguia prestar atenção.

— O que está fazendo, Hiei? Por que fugiu? Precisamos ajudá-los!

— Eles sabem se virar. Fique quieta, se não quiser atrair a atenção daquela coisa para nós.

— Qual o seu problema, afinal? Me obrigou a vir aqui só pra me mandar calar a boca?!

— Já te falei que preciso testar uma coisa. Vamos aproveitar que eles estão distraídos. Me dê a relíquia.

Kazumi retesou, incrédula. Se perguntou se havia entendido mal.

— O quê?! Pra quê? O que você pretende?

— Só faça o que eu digo, Kazumi. Rápido.

Hiei estava tenso e apressado, como poucas vezes Kazumi tinha visto. Ele estendeu a mão, esperando que ela obedecesse a ordem e lhe entregasse o fragmento da Tríade. Sem entender nada, Kazumi reprimiu a raiva, deu um suspiro fundo e apenas fez o que ele pedia. Desejou que o pedaço de metal que abrigava em seu corpo saísse de onde estava. Assim, ele simplesmente apareceu, flutuando para fora de seu peito. Hiei o segurou ainda no ar e então descobriu o Jagan, concentrando-se no objeto.

Enquanto Hiei o estudava, Kazumi permaneceu em silêncio, ouvindo apenas o som distante da luta que os shinseijin travavam com aquele monstro. Seu coração estava acelerado, suas mãos tremendo com a adrenalina, o vento soprando forte em seu rosto e esvoaçando os seus cabelos com violência.

Então, Hiei o devolveu a Kazumi.

— Esconda-o de novo.

Ela não discutiu. Apenas com a força do pensamento, recolheu novamente o pedaço da Tríade do Tempo para dentro de seu corpo. Hiei se aproximou mais. O Jagan ainda estava aberto, dessa vez concentrado nela. Ele a encarava diretamente, a estudando de cima a baixo. Um olhar tão intenso que Kazumi se sentiu exposta. Com vergonha, se encolheu diante dele, mas Hiei não percebeu. Continuava tão focado que mal piscava.

— Por que está tentando usar esse truque de novo em mim? Você já sabe que não funciona — ela constatou.

— Não estou tentando ler a sua mente.

— E então?

— Estou detectando o sinal da Tríade. Eu o memorizei e quero ver se sou capaz de detectá-lo estando dentro de alguém.

Então, Kazumi entendeu. Se as demais partes da Tríade estivessem presas dentro daquelas feras, mas Hiei pudesse localizá-las mesmo assim, tudo seria muito mais simples. De repente, a garota se animou com a possibilidade. Devolveu o olhar para Hiei com expectativas.

— Está conseguindo? — ela perguntou, ansiosa demais para esperar por um veredito.

Ele levaria alguns instantes para processar uma resposta. A energia da Tríade se fundiu a Kazumi de forma estranha. A garota possuía a energia basal de um humano comum, totalmente trivial e esquecível. Mas agora, com muito esforço, Hiei podia enxergar algo a mais emanando dela. Uma força oculta, provinda daquele pedaço quebrado da relíquia. Se se esforçasse, poderia tentar localizar a mesma aura emanando de qualquer outro ser naquele mundo.

Não seria tão fácil, mas era a única alternativa.

Kazumi compreendeu a situação quando Hiei virou de costas, levando a sua atenção para o território ao redor deles. Ela sabia que ele procurava pelo mesmo que havia encontrado dentro dela.

Hiei fechou os olhos e manteve apenas o Jagan em alerta. Uma leve dor de cabeça começou a incomodá-lo com pontadas constantes e irritantes nas têmporas, mas ele continuou. Foi então que, enquanto girava o corpo, o Jagan localizou o que buscava. Um sinal disparou a muitos quilômetros de onde estavam. Quando ele abriu os olhos, porém, o sinal se dissipou em segundos ao ouvir aquela fera urrar. Os shinseijin a tinham abatido com sucesso.

— Hiei, precisamos voltar, antes que suspeitem de alguma coisa — Kazumi o alertou.

Ele concordou em silêncio. Estar sob suspeita daquele povo era a última coisa que os dois precisavam. No entanto, Hiei demorou alguns instantes para reagir de fato. Pensativo, ficou encarando o horizonte na direção em que o Jagan havia localizado a aura da Tríade do Tempo.

Um outro alerta acendeu em sua mente. Ele precisaria fazer um segundo teste.