Tríade do Tempo

10 Dia 4 - Mentira


No dia seguinte, Hiei pediu a Kazumi que ficasse na fortaleza. Os shinseijin seguiriam o mesmo roteiro do dia anterior, mas Hiei decidiu que a presença da garota não seria mais necessária, pelo menos até que ele confirmasse suas suspeitas. Ele manteve os seus planos em segredo. Não contou a Kazumi o que pretendia fazer, imaginando que, de alguma forma, ela tentaria impedi-lo.

Kazumi, que já estava se acostumando com o jeito nada amigável do youkai, sabia que ele escondia algo. Hiei tinha ficado inquieto desde que vasculhou aquele mundo em busca da energia da Tríade do Tempo, mas simplesmente não lhe dava abertura alguma para entender o porquê. Ela ficou aborrecida com a ignorância com que ele a tratava e o deixou em paz depois de algumas tentativas frustradas de contato. Aceitou o pedido para que o esperasse na fortaleza com desdém, dando de ombros. Tentando parecer indiferente, mesmo que não fosse.

Enquanto isso, Hiei pensava na melhor maneira de fazer o que tinha em mente. É claro que enfrentaria quem tivesse que enfrentar, mas a incapacidade de invocar as Chamas Negras o deixava em desvantagem. Hiei já tinha percebido que precisaria de um esforço redobrado para conseguir usar as suas habilidades de fogo em um mundo selado como aquele.

Era como se o Shinkai estivesse a anos-luz de distância do Makai.

Por isso, Hiei não reclamou quando Mitriss generosamente lhe ofereceu uma arma para enfrentar os monstros que viviam naquele lugar. Ela lhe entregou o sabre com a lâmina mais afiada que tinha em seu arsenal, praticamente intocado de tão novo. Ele não agradeceu, apenas pegou a arma para si e seguiu o caminho trilhado pela rainha.

Como no dia anterior, os shinseijin se dividiram em grupos para buscar os fragmentos da Tríade do Tempo. Dessa vez, porém, Hiei não foi com o grupo de Doran, mas sim com o de Mitriss.

Exatamente como ele queria.

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O dia correu de maneira repetitiva e entediante.

Hiei presenciou as mesmas cenas do dia anterior: os shinseijin montando armadilhas no perímetro da fortaleza, fazendo varreduras, criando estratégias de defesa e lutando contra quaisquer ameaças que surgissem no caminho.

Se não fosse pela necessidade de descobrir a verdade, ele teria abandonado o grupo com prazer. Aquelas pessoas pareciam apreciar a sua companhia tanto quanto ele apreciava a delas, o que tornava a situação ainda mais degradante. Mas não podia ir embora. Não enquanto não conseguisse confrontar Mitriss, tarefa que parecia cada vez mais impossível.

A mulher estava sempre protegida pelos demais shinseijin. Eles a rodeavam como se fossem os seus seguranças particulares. A deixavam praticamente inacessível. Hiei desconfiava de que toda aquela rigidez era culpa dele. A sua presença os deixava em estado de alerta — o que não era um exagero, ele teve que admitir para si mesmo. Considerando as suas intenções ocultas, os shinseijin estavam certos em ficarem preocupados.

Assim, a sua melhor chance veio quando Mitriss se aproximou por vontade própria.

— Perto daqui fica a antiga entrada que o Reikai usava para acessar o nosso mundo — ela disse — Vasculhei o lugar mil vezes pensando que ainda podia ser útil, mas a passagem foi completamente bloqueada por eles.

— Me mostre.

— É perda de tempo. Como eu disse, já chequei o portal. Não dá mais para usar. E está um pouco fora da nossa rota também.

— Quero ver com os meus próprios olhos — Hiei insistiu, deixando escapar um resquício de ansiedade exacerbada em seu tom de voz — Me leve até lá.

Mitriss o encarou e percebeu que o youkai não desistiria tão cedo daquela ideia. Mais uma vez não conseguiu evitar compará-lo a Doran, pensando no quanto ambos eram ridiculamente teimosos.

Com um suspiro, se virou para o restante do grupo e pediu a eles que esperassem onde estavam. Disse a eles que ela e Hiei voltariam em breve. Alguns protestaram, como se a ideia fosse absurda, mas Mitriss garantiu que estaria segura e que retornaria em menos de uma hora.

E, sem saber que estava completamente enganada, seguiu sozinha com Hiei pela trilha alternativa.

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O portal era um enorme obelisco, alto o suficiente para impressionar qualquer um que chegasse perto de sua magnitude. Mas Hiei sequer prestou atenção no monumento. Estava focado em outra coisa, enquanto Mitriss caminhava à sua frente sem um pingo de preocupação.

— Esse é o portal, mas, como eu disse, está inativo.

Ela se aproximou mais, olhando o monumento de perto.

— Não sei como eles o faziam funcionar. Acho que deve ser possível ligá-lo somente estando no Reikai.

A mão de Hiei — que repousava sobre a bainha do sabre emprestado pela shinseijin — puxou a empunhadura da arma velozmente. A lâmina tilintou no mesmo instante em que Mitriss olhou para trás, assustada com o som.

Hiei foi tão rápido que ela foi obrigada a desviar do golpe de modo automático. A lâmina passou raspando em seu rosto, levando embora alguns fios de cabelo consigo. Mitriss mal teve tempo de se afastar quando Hiei novamente a atacou. Um dos pés da rainha ainda estava suspenso no ar e, dessa vez, a investida a fez perder o equilíbrio e desabar.

Suas costas bateram na base do obelisco. A ponta da lâmina de Hiei alcançou o seu pescoço, pressionando-a bem abaixo do queixo de um jeito tão perigoso que mesmo o menor movimento seria um erro.

— Você é uma mentirosa.

Hiei viu o rosto de Mitriss se transformar pela primeira vez desde que chegaram ao Shinkai. A rainha, que sempre tinha uma postura inabalável e um rosto sereno, o encarava assustada com a traição inesperada. Com os olhos arregalados e a boca entreaberta, ela permaneceu petrificada sem dizer nada.

— Por acaso os outros da sua espécie sabem que você guarda uma parte da Tríade do Tempo com você?

Mitriss inspirou fundo, tentando se recompor. Aos poucos, relaxou a expressão dura em seu rosto e só então o respondeu calmamente.

— Como descobriu?

Hiei deu um riso irônico.

— Não vai nem tentar negar?

— Não. E agradeço se abaixar essa arma. Vamos conversar.

O youkai ignorou o pedido. Deu um passo adiante, reposicionando a lâmina na jugular de Mitriss. O metal gelado arranhou a sua pele, ameaçando parti-la em dois

— Me dê um motivo para não te matar agora mesmo.

— Não quero lutar, Hiei. Você interpretou tudo errado.

— Fala como se existisse outra interpretação além de você ser uma mentirosa.

— E por acaso eu fui a única a mentir?

O silêncio pesou entre eles, denso e esmagador. Dessa vez, Hiei não respondeu, ponderando se Mitriss estava apenas blefando ou se sabia mais do que deveria.

— Vamos conversar — ela repetiu — Você está tirando conclusões precipitadas. Além do mais, não é prudente me matar aqui. Os outros shinseijin vão logo descobrir e você vai ter problemas. Acredite em mim, você não quer comprar essa briga.

Hiei reprimiu o desejo de revirar os olhos.

— Seus súditos não me preocupam. Se for o caso, posso matá-los também.

— Não somos os seus inimigos. A prova disso é que sabemos do seu segredo e não fizemos nada a respeito até agora. Por que acha que não te matamos quando tivemos a chance?

A rainha o encarou com ar de desafio, ignorando completamente a ameaça iminente em seu pescoço. Aquilo irritou Hiei. Era como se ela estivesse duvidando que ele realmente a mataria, como se o chamasse de covarde mesmo sem dizer isso em voz alta. Por um segundo, ele cogitou realmente fincar a lâmina em sua carne somente para provar que ela estava errada e fazê-la engolir toda aquela presunção junto do sangue que escorreria pela sua garganta dilacerada.

No entanto, Hiei se deteve. Mitriss saber a verdade — ou fingir saber — sobre a parte da Tríade do Tempo que estava com Kazumi era algo inesperado. Algo que fugia totalmente de seus planos. Se todos eles sabiam, Kazumi, rodeada dos shinseijin na fortaleza, corria perigo?

Irritado, Hiei rangeu os dentes e recuou, deixando que Mitriss levantasse do chão. Dando alguns tapas leves em si mesma, a rainha tirou o acúmulo de terra de suas roupas e depois voltou a sorrir para o youkai como se nada tivesse acontecido.

Hiei não sabia explicar o porquê, mas toda aquela serenidade lhe dava nos nervos.

— Vamos voltar e então conversamos — ela disse — Mas é melhor ninguém saiba que você apontou essa espada para mim, senão eles não vão te perdoar. Prometo que vai ser o nosso segredo.

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Kazumi notou a tensão assim que Hiei colocou os pés de volta na fortaleza. Ela não tinha ideia do que estava acontecendo, mas sabia que estava acontecendo algo. Quando a viu, Hiei simplesmente lhe disse "não saia de perto de mim", a deixando em total estado de pânico. Mitriss os chamou para conversar em particular e, juntos de Doran, os quatro se reuniram na mesma sala em que conversaram pela primeira vez.

No entanto, ninguém disse nada de imediato. Mitriss se acomodou em uma das poltronas, com Doran ao seu lado, mudo como uma estátua. Hiei tampouco tomou a iniciativa. Sem ter certeza do que Mitriss realmente sabia, não estava disposto a correr o risco de revelar a verdade.

Foi Kazumi quem, confusa e desconfortável com o mistério, decidiu quebrar o gelo entre eles. Ela estava encolhida, com os braços cruzados e balançando o corpo de um lado para o outro, ansiosa demais para se manter parada.

— Alguém pode me explicar o que está acontecendo?

Mitriss atendeu ao pedido, mesmo sem dizer uma palavra. Invocou de dentro do seu corpo uma esfera de energia. O brilho dourado iluminou o seu rosto, flutuando para perto de sua mão, onde repousou.

A humana arregalou os olhos, quase sorrindo com a surpresa.

— Vocês encontraram uma das partes da Tríade?!

— Não — Hiei se apressou a responder — Essa parte nunca esteve perdida. Estava com ela esse tempo todo.

Kazumi ficou pálida como papel ao perceber o que aquilo significava: mentira. Ou melhor, mentiras. Mitriss e Doran tinham mentido todo esse tempo, mas Kazumi e Hiei tinham feito exatamente o mesmo. Ela se perguntou se deveria estar se sentindo traída ou se deveria fingir que estava tudo bem para aliviar a sua própria pena.

— É verdade — Mitriss retrucou — Vou contar a vocês a versão real dos fatos. Naquele dia, quando duelei com o meu pai e a Tríade se partiu, uma das partes entrou dentro do meu corpo. Como eu disse antes, a Tríade tem um magnetismo, ela se conecta ao usuário que a utiliza. Por isso, ela se conectou a mim. Outra parte fez o mesmo com o meu pai e a terceira parte realmente se perdeu. É essa que temos procurado por tantos anos. O fragmento que entrou no corpo do meu pai é o mesmo que está dentro do seu corpo agora, Kazumi.

Kazumi quase caiu para trás. Ela sentiu como se o seu peito fosse explodir com a violência com que o seu coração batia, como se ele estivesse tentando saltar para fora do corpo e abandonar o restante dos órgãos para enfrentar aquele problema sozinho. O tom da rainha não era acusatório, mas aquilo não deixava de ser uma acusação. Afinal, eles tinham ocultado a existência de uma parte daquela relíquia ancestral que, em teoria, pertencia aos shinseijin.

"Por que achamos que isso seria uma boa ideia? Maldita hora em que você foi dar ouvidos ao Hiei. Você é uma burra, Kazumi! BURRA!", berrou para si mesma, apenas em pensamentos.

— Como você sabe disso? — perguntou, tentando ganhar tempo. Olhou de relance para as portas e janelas, teorizando qual seria a melhor rota de fuga. No entanto, terminava sendo capturada em qualquer cenário que imaginasse. No fim, era levada para o centro do pátio da fortaleza e decapitada na frente de uma multidão de shinseijin eufóricos para jogar futebol com a sua cabeça.

— Eu sempre soube, desde o momento em que chegaram aqui. Todos nós sabemos. Estava esperando que me contassem por conta própria e, então, eu contaria sobre o meu fragmento também. Nunca imaginei que acabariam descobrindo a verdade sobre o nosso segredo; acho que subestimei vocês. Vai nos explicar como fez isso, Hiei?

Hiei pensou por alguns segundos, chegando à conclusão de que não tinha mais o que esconder. O estrago já estava feito. Diria a verdade e, se precisasse lutar, lutaria e pronto. Mataria quem quer que tivesse de matar.

— Memorizei a energia do fragmento que estava dentro de Kazumi e a usei para detectar outra fonte da mesma energia no Shinkai. Ontem a encontrei vinda da direção em que você tinha ido para fazer a ronda com o seu grupo. Quando nos reunimos, apenas confirmei que realmente vinha de você.

A rainha sorriu, olhando para Doran.

— Fascinante, não é? Eu disse que eles eram a solução que procurávamos. Desse jeito vai ser muito mais fácil localizar o fragmento que falta.

Kazumi piscou lentamente, desacreditada.

— Então é isso? Vamos simplesmente fingir que não mentimos uns pros outros e seguir a busca juntos numa boa?

— Mentimos uns pros outros somente porque não confiávamos plenamente uns nos outros. Vocês estavam com medo de nós, é normal que tenham mentido. Sem ressentimentos da nossa parte, não é, Doran?

O shinseijin fez uma careta.

— Que fique claro que nunca concordei com isso! Por mim, teríamos feito vocês confessarem desde o início, mas Mitriss insistiu para deixarmos vocês à vontade. Não queria assustá-los.

— Está dizendo que todos os outros shinseijin têm conhecimento da parte da Tríade do Tempo que está com você? — Hiei questionou

Ela assentiu com calma, os olhos negros brilhando mais do que um céu estrelado.

— E da parte que está com vocês também. Eu não mentiria para o meu próprio povo. Eles sabem desde o começo. Doran realmente me encontrou quase morta depois da batalha com o meu pai. Se essa parte da Tríade não estivesse dentro de mim, me alimentando com a sua própria força, eu acho que não teria conseguido sobreviver.

— Mas como você sabia que eu estava com um fragmento também? Vocês não tinham como saber! — Kazumi retrucou, ainda indignada e até um pouco ressentida — Vocês estavam nos espionando ou algo assim?

A rainha se levantou da poltrona e caminhou em direção à humana. Kazumi pensou em recuar, mas não conseguiu. Suas pernas simplesmente não lhe obedeceram. Parada diante de Hiei e de Kazumi, Mitriss estendeu a eles o fragmento da Tríade que guardava, exibindo uma pedra azul-turquesa hipnotizante.

— Essa é a pedra do futuro. Por causa dela, eu sabia que vocês chegariam aqui bem antes de efetivamente chegarem. Como acham que eu sabia exatamente onde encontrá-los? Com ela, eu posso ver o futuro.

Hiei e Kazumi se entreolharam, dessa vez ambos surpresos com a revelação.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que sei que um de vocês vai conseguir achar a parte perdida da Tríade do Tempo.

— Espera... — Kazumi pediu, tentando colocar os pensamentos em ordem novamente — Você vê o futuro? Você viu a gente encontrando a Tríade? Explica isso direito.

Mitriss suspirou.

— Me mostre o seu fragmento.

Kazumi hesitou, sem tirar os olhos da rainha. Pensou bem se deveria obedecer, mas acabou desejando que a relíquia saísse de dentro de seu corpo. Num piscar de olhos, ela já estava em suas mãos, de formato complementar ao de Mitriss, mas com a pedra esmeralda ao invés de azul.

Mitriss inclinou-se sutilmente em sua direção.

— Você está com a pedra do passado. A Tríade é composta por três elementos, como vocês já sabem. As três pedras que representam o passado, o presente e o futuro. Juntas, as três permitem ao usuário manipular e viajar no tempo como quiser, alterando o curso de toda a nossa realidade. Nas mãos erradas, é um artefato muito perigoso. Separadas, as pedras ainda possuem poderes, mas são limitados. Você disse que o meu pai estava preso no Reikai, não é? Todos nós sabemos o quanto eles são cuidadosos com os prisioneiros. Eles drenam a energia da pessoa para impedir qualquer chance de fuga. Se meu pai conseguiu mandar vocês pra cá, foi porque ele usou a Tríade. Um dos poderes desses fragmentos é transportar você para qualquer lugar, mesmo que seja para dentro de um mundo selado pelo Reikai.

— Por isso nem perguntaram como Pyokan nos mandou pra cá. Vocês já sabiam esse tempo todo. Mas isso significa que vocês também...— Kazumi parou de falar, tentando acompanhar o raciocínio.

— Que da mesma forma que meu pai mandou vocês para cá, nós também podemos sair daqui? Sim, é isso mesmo. O Reikai pensa que nos prendeu, mas não é bem assim. Eles certamente acreditam que a Tríade do Tempo está perdida por aí, mas nunca imaginaram que ela foi partida em três e que uma das partes esteve com o meu pai esse tempo todo. Com esses fragmentos podemos sair daqui, sem que eles saibam.

— E por que ficam se fazendo de vítimas e continuam presos nesse lugar? — Hiei perguntou.

— Acha que deveríamos sair e fazer o quê? — Doran retrucou — Viver fugindo com o Reikai nos caçando pela eternidade? Ou acha que devemos tentar falar com o Reikai para devolver essa parte da relíquia? Garoto, você por acaso já tentou conversar com eles quando estão furiosos? Por acaso sabe como eles tratam os inimigos?!

Hiei sabia. Já tinha sido preso pelo Reikai e preferia não se lembrar do que passou naqueles dias. Se não fosse pelo acordo que fez com Koenma na época em que conheceu Yusuke, teria morrido naquela prisão.

Mitriss balançou a cabeça, concordando com o seu companheiro.

— Mesmo que quiséssemos entregar a eles a nossa parte da Tríade, e contássemos que outra estava com o meu pai, eles não acreditariam se disséssemos que o terceiro fragmento ainda está perdido. Achariam que o estamos escondendo. Precisamos entregá-la completa para conseguir a nossa liberdade.

— Então, nós também podemos sair daqui? É só usar essa parte da Tríade? — Kazumi perguntou, praticamente ignorando todo o resto que a rainha havia dito.

— Sim — Mitriss respondeu sem esconder a decepção em seu tom de voz — Mas, por favor, não façam isso. Já temos duas partes e só falta mais uma para nós conseguirmos o que queremos. Juntos podemos conseguir. Eu vi. A pedra do futuro me mostrou a relíquia completa e, na visão, nós todos estávamos com ela.

Mitriss se ajoelhou de repente, debruçando-se até encostar a testa no chão.

— Por favor, nos ajudem — ela implorou.

O choque atingiu a humana. A rainha daquele lugar estava ajoelhada aos seus pés, se humilhando desesperadamente por ajuda, como se não fosse poderosa o suficiente para usar o seu exército e pegar o fragmento do passado à força. Kazumi se sentiu ridícula e um nó se formou em sua garganta. Ela queria pedir desculpa, sentindo que precisava fazer aquilo. O artefato em suas mãos sequer pertencia a ela, mas Mitriss agia como se pertencesse. Ficou aliviada quando viu Doran a levantar do chão, reprovando a atitude da rainha. "Você não tem que fazer isso, Mitriss", ele disse.

Hiei, por sua vez, não sentiu compaixão alguma.

— Se consegue ver o futuro, por que não usa essa coisa pra te mostrar onde exatamente a outra parte da Tríade está e acaba logo com isso?

— Não é assim que funciona — ela respondeu — As visões não me mostram o que eu quero ver. É aleatório. A maioria delas é sem sentido e você nem sabe quando vão acontecer. Nunca consegui ver onde a terceira parte da Tríade está, mas talvez vocês consigam.

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Kazumi e Hiei permaneceram na sala depois que a conversa acabou. Mitriss e Doran — mais por insistência de Mitriss — lhes dariam o tempo necessário para que tomassem a decisão que julgassem mais apropriada.

Kazumi sabia que Hiei queria ir embora. Na verdade, nem era para ele estar ali e a culpa de toda a confusão era dela. Ela própria queria dar o fora daquela fortaleza e voltar para o mundo que conhecia, mas as coisas não eram tão simples assim.

Olhou para a parte quebrada da Tríade em sua mão e depois para Hiei. Pensou em Mitriss ajoelhada, suplicando pela sua ajuda. A cena não parava de se repetir em sua cabeça.

— O que quer fazer?

A pergunta de Hiei a pegou de surpresa. Não por vir de repente, mas sim por Hiei parecer querer levar em conta a sua vontade. A garota jurava que o youkai arrancaria a relíquia de suas mãos e a arrastaria de volta pro Ningenkai. Sem perguntas, sem cerimônias, sem querer saber a sua opinião. Mas ali estava ele, a encarando com expectativas, como se o que ela tivesse para dizer fosse importante.

— Queria ir embora, agora mesmo — ela respondeu com sinceridade — Mas também quero ficar. Ajudá-los.

Ele esboçou um sorriso, já esperando por aquela resposta.

— Você é tão previsível.

— Diferente de você, né? Sei que quer ir embora e que não dá a mínima pra tudo que está acontecendo aqui, mas, mesmo assim, vai me deixar tomar a decisão. Por quê?

O sorriso de Hiei desapareceu. Para algumas perguntas ele simplesmente não tinha respostas.

— Falta só uma parte — ela continuou — Acho que podemos conseguir. Isso vai mudar tudo, pra nós e pra eles.

O youkai estreitou os olhos.

— Nós?

— Tá…vai mudar tudo pra mim. Mas Mitriss está muito confiante de que nós vamos conseguir. Juntos — ela enfatizou — Eu só não consigo entender uma coisa: se Pyokan tinha o poder de se teleportar usando o fragmento da relíquia, por que ele não fez isso quando foi capturado? Por que aceitou ficar preso por todos esses anos?

— Se ele mesmo se entregou após o roubo, por que se daria ao trabalho de tentar fugir?

— Não sei! Mas por que ele nos mandou cá, afinal? Será que ficou em choque depois de quase matar a filha, decidiu que merecia ser executado e, quando enfim a sentença chegou, se arrependeu de tudo e resolveu nos mandar pra cá para que a Tríade fosse recuperada e os shinseijin ficassem livres? Soa meio estranho. Essa história parece nunca fazer sentido, você já percebeu?

A garota deixou os ombros caírem em frustração. De alguma forma, Pyokan parecia cada vez menos culpado do que quando se conheceram. Todos os shinseijin o defendiam, ele parecia querer resolver aquela situação e até mesmo aceitava o seu destino calado, sem nunca tentar fugir das mãos do Reikai. Por um breve instante, Kazumi se lembrou do que Doran havia lhe dito no dia anterior. Talvez Pyokan realmente tivesse caído em uma armadilha ou talvez tenha sido manipulado para fazer o que fez. Ainda assim, ela não achava certo simpatizar com um homem que atentou contra a vida da própria filha.

Hiei desviou do assunto, não tão interessado nos mistérios que vinham tirando o sono de Kazumi.

— Tudo que sei é que convenientemente você está prestes a ganhar o dinheiro que tanto precisa. Se eu soubesse que ia me usar pra conseguir enriquecer, teria te deixado pra morrer no Makai.

Kazumi abriu a boca, indignada e pronta para se defender. Mas antes de dizer qualquer coisa, notou que Hiei não parecia tão ofendido quanto alegava estar. Ele não dava sinais de irritação ou incômodo. Na verdade, o sorriso no canto de sua boca até indicava o oposto.

Se Hiei pretendia se deixar ser usado, não cabia a ela protestar. Kazumi cruzou os braços, satisfeita.

— Tarde demais para se arrepender de ter me salvado.

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Mitriss ficou radiante com a notícia. Kazumi se desesperou quando a rainha a agradeceu de maneira exagerada, achando que ela faria outra reverência. Mas, dessa vez, Mitriss não se ajoelhou. Apenas a abraçou com força, o que deixou a humana igualmente constrangida.

— Estou feliz por não ter mais segredos entre nós.

— Eu também.

A resposta de Kazumi foi puramente honesta. Odiou a ideia de esconder aquela parte da Tríade desde que Hiei sugeriu que o fizesse. Odiou cada segundo daquela mentira e ficou aliviada em saber que não precisava mais fingir. Fingir não era a sua especialidade. Nunca foi.

Todas as vezes em que precisou mentir para seu pai, ele sempre acabou descobrindo a farsa só de olhar para ela. E a mentira sempre terminava em surra. É claro que a verdade a faria apanhar também, mas Kazumi aprendeu desde cedo que as consequências de mentir eram muito mais dolorosas e cruéis.

— Não temos como agradecer pelo que estão fazendo, não é, Doran?

O shinseijin concordou com a cabeça.

— É sim. Se a visão de Mitriss estiver correta e vocês nos ajudarem, vamos finalmente poder sair daqui. Seremos livres de verdade.

Hiei e Kazumi imediatamente notaram que a voz robótica e monótona de Doran não condizia com a animação que o momento pedia. Na realidade, o shinseijin estava o oposto de animado. Aquela era a melhor chance de liberdade que ele e os seus companheiros teriam em centenas de anos e, mesmo assim, Doran não parecia minimamente contente.

Mitriss interveio, tentando disfarçar o clima pesado.

— Doran, por que não avisa aos outros que já vamos jantar? Se puderem ir preparando tudo, seria ótimo. Enquanto isso, vou conversar com eles sobre a pedra do futuro e como podemos usá-la.

Doran concordou, deixando a rainha a sós com Hiei e Kazumi no aposento onde se encontravam.

— O que aconteceu com Doran? Ele não parece bem — Kazumi constatou.

— Ele não está num bom dia. Era sobre isso mesmo que eu queria falar com vocês, porque é uma das consequências de se usar a pedra do futuro. Ter visões pode ser…complicado. Você nunca sabe o que vai ver. Pode ser algo assustador ou algo inofensivo. Pode acontecer amanhã ou daqui a cem anos. Algumas visões são perturbadoras. Você simplesmente não consegue parar de pensar nelas. Por mais que queira, não consegue esquecer o que viu.

— Então, Doran viu algo que o deixou mal?

— Isso mesmo. Uma das visões o assombra sem parar. Ele a viu há muito tempo e foi tão afetado por ela que eu até o proibi de continuar usando a pedra do futuro. Quando o assunto veio à tona hoje, ele acabou se lembrando daquela visão. Atualmente, somente eu faço uso da pedra do futuro. Não quero arriscar a sanidade de mais ninguém. Isso nos leva à questão principal: vocês estão dispostos a correr esse risco?

Kazumi sentiu o ar abafado ao seu redor. Estava quente demais ou eram só as células de seu corpo agitadas e desesperadamente ordenando que ela respondesse “não”? Pensou em todas as possíveis visões que poderiam tirar a sua paz e notou que Noembi estava presente na maior parte delas. A humana não sabia se estava pronta para aquilo, mas achou que seria ridículo recusar, uma vez que Mitriss parecia carregar o peso do mundo inteiro sozinha. Seria injusto agir como uma covarde, enquanto a shinseijin tinha coragem por todos eles juntos.

Mais uma vez Kazumi a admirou — e a invejou — em segredo.

— Não me importo — disse Hiei, despreocupado.

— Eu também não — Kazumi se apressou em dizer — Mas afinal, o que foi que Doran viu que o deixou tão mal?

Mitriss a encarou com tamanha intensidade que Kazumi se sentiu minúscula diante de tanta imponência.

A rainha sorriu tristemente.

— Faz tanto tempo que ele teve aquela visão que até pensamos que ela já teria acontecido. Ele tinha parado de pensar nela até que vocês chegaram. Doran está preocupado, porque ela está muito perto de se concretizar. Ele viu o meu pai ser executado.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.