Torre de Névoa
17 Frémito.
Notas iniciais
O manuseio das ervas não era algo tão difícil de ser entendido e, em tempos áureos, Perpétua e suas irmãs Bruxas passaram muitos desses conhecimentos às mulheres que viviam nos campos e cuidavam sozinhas de seus filhos. Já estava acostumada com mudanças repentinas no clima, sendo, muitas delas, causadas pelas emoções descontroladas de suas netas. Contudo, essas mudanças acabavam por provocar tosses e leves resfriados em crianças e, a senhora sabia, muitos não podiam recorrer a médicos. Então, aproveitando que seu coração estava ferido e que de nada adiantaria sofrer, ela escolheu trabalhar. Antes que o sol nascesse, colheu folhas do mamão que cresciam no centro da clareira, absorvendo a intensa luz solar. Precisou andar mais um pouco para encontrar vigorosas folhas de hortelã pimenta e, não muito longe, cortou generosos pedaços de mangarataia. Serviu-se apenas do que era necessário, pois já possuía muitos dos ingredientes em sua cozinha, conservados após as colheitas dos dias anteriores. Antes de retornar, permitiu-se uma silenciosa prece, agradecendo a Grande Mãe por tudo aquilo que lhe era proporcionado e pedindo que seu coração em conflito pudesse logo ser acalentado.
Mas o conflito presente no coração de Perpétua perdurava há décadas.
Eram poucos os dias em que ela se permitia realmente relembrar suas dores, porém nem mesmo cantorias, monólogos e a produção dos xaropes foram capazes de livrar sua mente. Em muitos momentos, a memória era um castigo. Um castigo eterno por seus erros, suas decisões mal pensadas e mal tomadas. Um castigo, também, pelas dores que sofreu e das quais não podia se culpar. Perpétua não conseguia se decidir sobre qual acabava por pesar mais em seus ombros. Ao menos podia se culpar e se torturar pelos erros seus, mas fora vítima de tantos outros que não poderia atribuir a si mesma.
Seus dedos ágeis demais para a idade trabalhavam incessantemente cortando limões e alhos, enquanto colheres remexiam por ordem mágica toda a mistura num pequeno caldeirão. Nem todo o trabalho do mundo poderia fazer com que ela se esquecesse das torturas que sofreu. Não poderia. Seus pulsos ainda ardiam ao se lembrar do ferro quente que os puxavam enquanto carrascos da morte gritavam e gritavam, insistindo para que admitisse sua natureza Bruxa e revelasse o esconderijo de suas iguais. Seu sangue corria quente enquanto lutava para usar sua magia e invocar seus poderes, mas lutava em vão. A sua volta, o sal misturado ao sangue de Bruxa a impedia de recorrer a sua própria natureza, nublava sua mente e a deixava tão fraca quanto um graveto seco. Ainda assim, Perpétua resistiu. Seu corpo jovem foi exposto as mais cruéis formas de abuso, sua pele foi rasgada, bem como sua alma. Dentro deu seu peito, a certeza de que sobreviveria. Sobreviveria pelo ódio da vingança, pelo desejo de olhar de novo para aqueles olhos que a condenavam e mostrar a cada um deles o poder de uma filha da Deusa.
E ela o fez.
— Então, lembra quando éramos crianças e você nos dizia para não responder por você ou por qualquer outra pessoa porque só podíamos ser donas de nossas próprias palavras? — a presença de Cassandra a surpreendeu, não só pelo tom zeloso em sua voz, mas por estar tão perdida em recordações distantes que não notara seus passos próximos.
— Sim, eu me lembro de algo assim. — secou suas mãos no avental gasto que usava, virando-se para a filha.
— Pois é, eu falei por você. — Cassandra observou os ingredientes dispostos sobre o balcão, capturando uma rodela de limão que foi levada até a boca. — Um tal de... Edmundo? Não, acho que Edgar.
— Edward Bealfire. — a mãe afirmou, recebendo uma confirmação preocupada.
— Eu sei que não devia, mas ele estava falando sobre querer suas terras e sobre tirar pessoas que vivem lá para construir algo... Acho que uma empresa. — a mão foi estendida para mais um roubo furtivo, mas Perpétua a repreendeu com um tapa.
— Não fique chupando limão, a acidez vai ferir seus lábios.
— Torturas prazerosas. O gosto azedo faz com que eu me lembre da minha vida. — a senhora revirou os olhos para o sarcasmo da filha. Aproximou-se do caldeirão, tomando para si a colher que, até então, movia-se sozinha e se ocupou da função.
— Edward Bealfire é o prefeito da cidade. Ao menos, ele pensa ser. Seus poderes são tão gigantescos que se comparam a autonomia de uma gota de chuva. Espero que as gotas de chuva me perdoem por isso. Não é a primeira vez que Edward ou sua família tentam tomar as terras próximas ao rio ou usam de empreendimentos para tentar me convencer. Seu bisavô, seu avô, seu pai e agora é a vez dele. Todos falharam, ele também falhará.
— Céus, mamãe. Esteve aqui durante todo esse tempo?
— Por muito mais, entre idas e vindas. Storybrooke sempre foi um refúgio, mesmo quando tivemos de nos afastar. Edward e sua família não são apenas porcos gananciosos, eles também foram responsáveis pela vinda dos caçadores até aqui. — certa de que todos os procedimentos estavam feitos, a senhora se sentou em uma antiga baqueta, convencida a contar um pouco do que se lembrava. — Eu não estava com elas quando chegaram, fugindo da intensa caça que se espalhava pelo mundo. Eu estava... Estava presa. A maior parte do povo ficou feliz com a chegada das Bruxas e as acolheram. Eles eram pobres e sofriam muito, principalmente pela exploração de uma família.
— Os Bealfire. — Cassandra concluiu, recebendo a afirmativa da mãe.
— Não eram tão ricos, na verdade. Mas, você sabe, basta um pouco de poder entregue às mão de quem é soberbo para que a opressão se instale. Eles tinham pouco, mas os outros não tinham nada. Logo se incomodaram muito quando a dependência foi quebrada e aquela pobre gente não precisou mais recorrer a eles. Naquela época, as Bruxas já se escondiam, mas acreditaram no acolhimento e na proteção do povo. Eles achavam que elas eram como anjos de Deus. Usaram feitiços para proteger a cidade, mas os caçadores conseguiram chegar até aqui. Conseguiram matar algumas delas, mas a maioria foi ajudada pelo povo e conseguiu fugir a tempo. — a mais velha se serviu de um copo d’água que desceu amargo em sua garganta seca. — Antes disso, nós não entendíamos como os caçadores podiam ter tanta força. Eram apenas homens e nós éramos Bruxas, não os tememos. Achávamos até graça. Lembro-me de ser pequena quando as notícias começaram, minha avó e minhas tias riam da coragem tola daqueles homens que não sabiam lidar com o fracasso. Então, as coisas começaram a sair de controle. Fomos avisados de que soldados romanos invadiram uma antiga ilha em Mona, conhecida por ser o maior refúgio de sacerdotisas da Deusa. No começo, pensamos que a Grande Mãe havia virado suas costas e retirado seus poderes, mas ela jamais o faria, é claro. Se errou, foi ao dar poder a quem não devia, ainda que pouco.
“Houve uma época em que filhos homens de mulheres Bruxas eram deixados para morrer ou doados a mães humanas. Cresciam sem conhecer a magia, sem jamais usá-la. Isso era o bastante para que o rastro de poder em suas veias não fosse descoberto, acabavam se tornando homens comuns. Mas as mulheres sofriam ao abandonar seus filhos e logo decidiram criá-los também, mas perceberam que a magia não fluía em suas mãos como nas de suas filhas mulheres. Quando atingiam a maioridade, ela se perdia, quase como se nunca tivesse existido. As Grã Sacerdotisas, ainda forte conselheiras naquela época, entenderam que a magia pertencia somente as mulheres por serem elas o espelho da Deusa. Aos homens, cabiam outros princípios e feitos. Eles não ficaram felizes com isso. Principalmente ao entenderem que não podiam passar isso a frente. Homens bruxos poderiam ter filhos com mulheres humanas, mas esse traço genético, esse dom esplendoroso, só podia ser passado a frente pelas mulheres mágicas. Assim, o primeiro grupo de caçadores foi formado por filhos de Bruxas.”
— Elas deviam ter continuado com o plano de deixa-los para morrer. — Cassandra bufou, servindo-se de uma xícara de café.
— Talvez... Bem, eu não quero te aborrecer com tudo isso. — Perpétua tencionou a se colocar de pé, mas a filha tocou seu ombro, indicando que deveria sentar novamente.
— Não, não... Por favor. — ela se acomodou a frente da mãe. — Eu gosto quando conta. Gostaria de um café?
— Bem... Eu acho que seria ótimo. Por favor. — a xícara foi colocada sobre a mesa e ela quase sorriu ao perceber que Cassandra se servira de uma enorme caneca, três vezes maior do que a sua. — Por terem sido criados por Bruxas, esses homens conheciam muita coisa. Possuíram poder durante grande parte de suas vidas, sabiam como era o gosto da magia. Foi quando alguns sequestros começaram. No início, eles eram quase imperceptíveis. Uma Bruxa a cada dois ou três meses, quase ninguém notava. Era comum que tomássemos rumos independentes. Mas logo os números aumentaram e piorou quando a Igreja descobriu sobre essa... Iniciativa. Veja bem... Eu não desacredito da existência de Deus algum, acho que é apenas uma interpretação do poder a qual servimos, mas os servos do deus uno não pensavam assim. Eles eram gananciosos, ávidos por poder e mais poder. Suas igrejas cresceram e se espalharam pelo mundo, seus pregadores de fé estupravam e matavam... Monstros que juravam absolvição. Tudo saiu de controle. Iniciaram a caça às Bruxas, dizendo a todos que estavam combatendo um demônio qualquer, um mal eminente que estava prestes a devastar a humanidade. Mal sabiam que estávamos ali há mais tempo do que podiam imaginar. Muitas mulheres inocentes foram mortas em nome do santo deus. Contudo, por trás daquela grande e poderosa cortina de fumaça, influentes homens da igreja se serviam de nossa magia. De começo, pensaram que havia como extrair nossa magia com nossos corpos ainda vivos, criando uma fonte infinita de poder, mas não funcionava. Nossa magia possuía identidade, possuía marcas. A magia pertence a cada um de nós como nossa alma, não pode ser transferida.
“Acontece que magia é energia. Como a ciência nos ensinou, anos depois, ela não podia ser criada ou perdida, mas podia ser transformada. Perceberam que ao matar uma Bruxa, o seu corpo se decompunha mais rápido do que o normal, como se a terra o absorvesse em uma inspiração ávida. Nossa magia voltando à origem, retornando ao berço de sua nascença. A matança tomou proporções incontroláveis. Após essa cruel descoberta, tudo correu como um pássaro feroz. Queimavam nossos corpos, colhiam nossas cinzas e as transformavam em fontes de poder. Os homens que não tinham origem Bruxa usavam desse pó em ferramentas de tortura e o aplicavam em outros objetos, mas aqueles que já haviam experimentado a magia conseguiam absorver àquela energia para dentro de seus corpos. O poder não era eterno, então precisava ser renovado de tempos em tempos. E também... Nunca era o suficiente. Eles sempre queriam mais e mais. Usando da magia, eles conseguiram nos domar. Era como se nos batessem com nossas próprias mãos. Quando os caçadores destruíram a Segunda Grande Casa, algo aconteceu... Uma explosão intensa. Um enorme grupo foi dizimado e isso os assustou, acabou nos oferecendo vantagem. Conseguimos controlar a situação, mas sabemos que eles ainda estão por ai. Grupos menores, mas mais organizados, mais silenciosos.”
— Então, aqui estamos nós. A única Casa sobrevivente. — a morena se serviu de mais café, oferecendo um olhar tristonho à mãe quando contemplou o fim do bule. A senhora sorriu, genuinamente, levantando-se para fazer mais. — Por um acaso pensou em contar às meninas sobre essa importante história? Sei que não contou sobre a maldição, mas... Nem ao menos uma parte? Quer dizer, nós somos herdeiras de sangue sagrado. Somos as últimas. Dizimamos a Primeira Casa, perdemos a Segunda Casa para os caçadores e... Somos sobreviventes.
— Uma história sempre leva a outra, Cassandra. Não acho que seja prudente. — a água foi colocada para ferver e a mais velha aproveitou para retornar à sua tarefa, finalizando o xarope e dispondo em frascos de vidro.
— Ela não vai aceitar, sabe disso. Regina tem a personalidade tão forte quanto um cavalo de guerra e ela vai acertar suas duas patas traseiras em nossos peitos quando descobrir sobre isso. Não é proteção, mamãe... É traição. Nós estamos traindo Regina. — embora discordasse do posicionamento de Perpétua, a voz de Cassandra já não incitava brigas. Parecia exausto e preocupado.
— Eu não minto com o intuito de ferir. Não desejo magoá-la e a ideia de que isso possa acontecer é minha tortura diária. Meu medo é de que um simples pensamento possa ser o bastante para atrair o que não deve ser atraído. As trevas são poderosas e intensas. Como um vinho antigo, elas se tornam mais fortes a cada dia. Eu preciso salvar Regina. Preciso fazer por ela o que não pude fazer por... — as palavras lhe faltaram e um nó quente se formou em sua garganta.
— Por Cora? — Cassandra completou. Sua pergunta carregava uma afirmação certeira e, por mais que tentasse, não conseguia superar a dor daquela constatação. O choque a acertou o peito.
— Por você. — a mãe a encarou com nada mais do que sinceridade e culpa em seu olhar. — Nada poderia salvar Cora.
— Mamãe... Eu não vou te trair, mas acredite quando digo que minha lealdade é o único motivo que me impede de dizer a verdade a elas. A verdade sobre nossa ancestralidade, a verdade sobre Cora, a verdade sobre Zelena, a verdade sobre as sete vidas de Regina e a maldição que aquela pobre menina carrega em suas costas. Nós seremos massacradas por nossas escolhas, mas não esqueça de que, mais uma vez, eu estou te alertando sobre isso.
Perpétua demorou um segundo a mais enquanto olhava para o rosto da filha. Enquanto encarava cada traço esculpido pela Deusa e uma parte de si suspirava em aprovação, pois ela era linda. Recordou-se do primeiro momento em que segurou Cassandra em seus braços, da primeira risada e do primeiro olhar de compreensão. Os primeiros passos errôneos de uma criança que não conhecia a firmeza e, pela Santa Mãe, a mais velha ainda via esse desconhecimento no olhar que a espelhava. Havia tanto a ser dito sobre Cassandra, mas jamais sobre sua lealdade. Que fosse criticada a lealdade da própria Perpétua frente ao reflexo de suas intenções, mas jamais a de sua filha. Sabia que a única coisa, a única força, capaz de impedi-la de romper toda verdade era aquela certeza.
Então ela soube por uma visão sussurrada que estava chegando o tempo que a lealdade de Cassandra já não seria o bastante.
— Quando você veio para cá, há trinta anos, não existiam outras? Realmente, nenhuma de nós? — a voz de Cassandra era pouco mais do que um sussurro enquanto ela parecia pensar.
— Não, a casa estava abandonada há décadas. — suspirou. — Eu costumava amar esse lugar. Amava estar aqui com tantas como nós. Em todos os Sabbats, nós fazíamos uma fogueira no extremo norte da floresta e então dançávamos ao som de cantos antigos. Você poderia encontrar uma Bruxa a cada virada de árvore e a floresta... Ela vibrava. Nessa mesma época, os elementais se aproximaram mais de todas nós. Nunca, em toda minha vida, vivi algo tão verdadeiramente mágico como vivi aqui. Minhas primas e eu costumávamos acordar antes do nascer do sol, quando a noite parecia disputar com o amanhecer para decidir se ele realmente tomaria a frente de seu céu. Seguíamos em silêncio, por vezes rindo uma das outras, mas cautelosas. — o olhar de Perpétua se perdeu, mergulhado em uma singela gota de alegria conservada em seu peito. — Nós nos escondíamos atrás dos arbustos e esperávamos as ninfas dançarem junto à água. Era como ver a magia materializada em corpos cintilantes. — o seu coração apertou, comprimido em uma dor aguda e as palavras fugiram de sua boca, impedindo que continuasse. Mas ela queria continuar. Ela queria contar a Cassandra aquilo que guardou para si, aquela lembrança tortuosa que escondeu em sua alma. — Quando os caçadores vieram, a maioria das Bruxas conseguiu fugir, sim. Graças a Deusa por isso. Mas não todas. Algumas foram mortas e seus corpos foram amontoados lá... — o inspirar fundo fez com que seus olhos ardessem, mas ela não choraria. Não mais. — Eles foram amontoados no extremo norte da floresta, onde nós costumávamos dançar aos Deuses. O sangue criou uma mancha tão profunda na terra, tão profana, que nada mais nasceu ali. Nem mesmo uma erva daninha ousou romper à crueldade. O intenso ódio que culminou na morte daquelas Bruxas foi tão ímpio que parte de Gaia morreu junto delas. Eles não voltaram por seus corpos e ai está a prova indubitável da maldade pura. Não mataram pela magia, mataram pelo prazer do extermínio. O povo devolveu seus corpos sem vida ao rio, aquele mesmo onde, quando criança, assisti a dança das ninfas. Elas nunca mais dançaram. E, no entanto, — a mulher se colocou de pé, servindo-se de mais uma xicara do café recém preparado. — algo também aconteceu com aquelas águas. Elas se tornaram fortes, mais fortes do que costumavam ser. Quando crianças ficavam com doença na pele, suas mães a levavam para um banho no rio e em poucos dias a cura se mostrava. Ela curou inflamações intensas, sarnas e diziam que era eficiente até mesmo contra a peste. As terras ao seu redor são as mais férteis de toda Storybrooke, mais férteis do que as daqui. Carmilla, uma senhora daquele povo, procurou por mim assim que retornei junto às meninas. Ela sabia o que aquele rio representava, pois a história passou de geração em geração. Guardou consigo como um segredo valioso, pois foi avisada de que retornaríamos em algum ponto do tempo. Eu autorizei que seu povo vivesse naquelas terras e prometi que os protegeria. E eu os protegi. Quando o avô de Edward descobriu sobre as águas e também quando seu pai o fez.
— Seria um escândalo se algo assim caísse nas mãos de uma grande indústria, literalmente um milagre da estética. — a Senhora assentiu, sentindo um alívio curioso por compartilhar.
Perpétua nunca se queixou por sua longa vida. Bruxas eram imortais, mas não de uma forma fantástica como nos filmes. O corpo é o receptáculo da alma. Ninguém é carne, apenas estão como carne. O espírito é o verdadeiro elo entre a eternidade e o mundo material. Portanto, sim, Bruxas eram imortais enquanto seus receptáculos fossem conservados. Elas não morriam de formas naturais, dificilmente contraiam doenças e o envelhecimento era uma escolha. Entendido que o corpo é dependente do espírito e não o contrário, Bruxas conseguiam manipular o que era mostrado a olhos humanos. Quando Perpétua retornou a Storybrooke com as netas, sua aparência era a de uma mulher com pouco mais de quarenta anos, mas ela invocou a magia para que o envelhecimento a abraçasse. Achou que seria prudente e até mesmo mais fácil, queria ser uma boa avó. A imortalidade traz consigo um preço alto. Pensam os tolos que ao viver para sempre, vive-se apenas uma vez, mas o que a imortalidade faz é agregar diversas vidas em apenas uma. O tempo e o espaço se modificam ao longo dos anos e forçam a mudança em tudo aquilo que está junto deles. A imortalidade também é sobre naturalizar a perda. E a Deusa sabia, Perpétua havia perdido demais. Mais do que qualquer outra. Ela viu suas irmãs Bruxas serem mortas, seus amores serem perdidos e sua vida ser rasgada. Ela sofreu nas cruéis mãos humanas e sangrou sobre o solo que a gerou. Suas lágrimas foram roubadas tantas vezes que, por anos, ela se impediu de chorar. Mas chorou por suas netas. Chorou quando Zelena disse que a amava e quando Regina fugiu para sua cama em uma noite de pesadelos. A imortalidade também era sobre renascimento e a Senhora renasceu sob a vigília de suas meninas. Agora, o choro que ardia em sua garganta era pelo entendimento de que sua filha, sua Cassandra, estava ao seu lado. Compartilhar suas histórias, suas vidas, com Cassandra era como renascer mais uma vez. Ao tempo em que seu coração se aquecia pelo amor, ele também a punia por ter sido ela a responsável pelo afastamento daquela mulher.
Antes que a Senhora falasse, um chamado brilhou em sua mente com a urgência de quem não pode esperar. “Perpétua, por favor. Preciso de sua ajuda.”. Seus pelos se arrepiaram em entendimento, pois ela sabia de quem era a voz e de onde vinha.
— Você gostaria de me acompanhar? — com um movimento certeiro, sua mão apagou o fogo ainda aceso.
Cassandra não pensou nem sequer um instante antes de se levantar e seguir como criança curiosa atrás da mãe. A Senhora caminhou por um longo corredor, chegando a uma porta antiga que, até então, não havia despertado a atenção da morena. Ainda assim, bastou um olhar para saber que não se tratava de qualquer porta. Os detalhes entalhados ao seu redor transcorriam pelas lacunas da magia e brilharam em um dourado intenso quando foram tocados pelas mãos da mais velha. Ela sussurrou algo que os ouvidos de Cassandra não puderam captar, mesmo que ela estivesse tão atenta quanto um gato pronto para abocanhar sua presa. Perpétua abriu a porta e cruzou o portal luminoso, sendo seguida pela filha. Quando chegaram do outro lado, não havia quarto secreto ou sala. Não estavam em um cômodo da Mansão Mills. O branco puro das paredes fez com que a mais nova piscasse insistentemente até que seus olhos se habituassem. Não havia luxo, nem mesmo qualquer detalhe esplendoroso que chamasse atenção. O cômodo simples possuía uma cama em seu centro e alguns equipamentos apitavam barulhos contínuos. Cassandra estava pronta para perguntar o que estavam fazendo naquele lugar quando uma mulher cruzou uma porta na outra extremidade, pulando em surpresa ao se deparar com as Bruxas.
— Oh Santo Deus! — sua mão buscou a cruz pendurada ao pescoço em uma reação mecânica que durou apenas um segundo antes que o mais belo dos sorrisos lhe tomasse os lábios. — Perpétua! Tive tanto medo que meu chamado não desse certo, não imagina como é uma benção que esteja realmente aqui.
— Olá, Marya. — a Senhora se aproximou em passos cuidadosos, aceitando o abraço que lhe foi oferecido. Antes que Cassandra pudesse se preparar, seu corpo também foi abrigado em um abraço carinhoso. — Essa é minha filha Cassandra.
— É um prazer, Cassandra. — Marya abaixou a cabeça em uma singela reverência que fez a morena querer sorrir. Mas os olhos de Cassandra estavam presos a cruz que a mulher latina carregava em seu pescoço.
— O que aconteceu, querida? — Perpétua se adiantou, sabendo que o chamado não seria em vão. Só então caminharam para próximos da cama, onde o corpo de uma mulher jazia ligado aos aparelhos barulhentos.
— Ela... Ela foi encontrada pela polícia a poucos metros da entrada da cidade. Fora os machucados causados pelo espancamento, também foi violada. — os olhos castanhos estavam marejados quando a médica ergueu o olhar para encarar as Bruxas. — Perpétua, eu pensei muito antes de chamar por você. Nós fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas ela não acorda e seu corpo parece rejeitar qualquer tratamento. Não é lógico. Eu preciso de ajuda, porque ela não pode... Ela não merece morrer assim.
— Eu quero ajudar. — a frase foi dita quase como um suspiro e a certeza agarrada as palavras fez com que Perpétua encarasse o olhar compadecido da filha.
— Cassandra, eu não acho...
— Não, eu quero. Eu posso ajudar. — a morena respirou fundo, aprumando os ombros. — Eu quero fazer isso por ela. Por favor, deixe-me ajudar.
A Senhora tencionou a negar, como se pudesse realmente fazê-lo. Cassandra não tinha tido os melhores dos dias e há pouco realmente melhorara desde a sua chegada. Perpétua não queria se arriscar. Não queria que a filha trilhasse um caminho espinhoso que a fizesse sofrer em dores antigas.
Mas Cassandra sofria todos os dias.
Como alguém que já fora torturada, violada e teve sua alma rasgada, a mais velha sabia que o sofrimento jamais ia embora. Ele se escondia entre as paredes da mente, como erva daninha em um jardim bem cuidado. Permanecia quieto, silencioso, pronto para surgir quando menos esperado. Não havia cuidados que estivessem ao alcance de Perpétua que pudessem livrar Cassandra do que fora talhado em sua alma.
— Faça.
A mais velha se afastou, trazendo Marya junto de si. A médica era uma mulher magra de pele morena e cabelos negros. Seus olhos capturavam atentamente todo movimento, como se estivessem ávidos pelo aprendizado de um segundo. Ela tencionou a ir trancar a porta, mas a Bruxa o fez com um simples movimento, certificando-se de que ninguém seria capaz de entrar. Magia seria feita naquele lugar. Um sentimento curioso se remexeu no estômago de Perpétua, quase como ansiedade. Surpreendeu-se, pois, pela Deusa, há quanto tempo não sentia aquilo? Entretanto, observar o poder da filha era sempre um prazer e há tempos não desfrutava de tal presente.
Cassandra sentia seu peito arder. Por um instante, viu-se perdida, como uma criança que pouco sabe por onde começar. Mas ela não era uma criança. O sofrimento da mulher deitada a sua frente era conhecido, assim como a violação e o medo. Ela respirou fundo, pedindo a Deusa que a guiasse naquela jornada e a abençoasse com sua luz divina. Pediu que a permitisse oferecer ajuda àquela alma, aquele corpo tão fraco, ainda que isso retirasse fragmentos de si. Pediu, em súplica, que tivesse forças para dar forças e que a magia corresse por suas veias como um pássaro num voo veloz.
Ela destrançou os cabelos e permitiu que caíssem por seus ombros, pesando sobre o quimono simples que vestia. Suas mãos tremiam pela insegurança, mas ela tratou de firma-se. Não existia espaço para o medo, não agora.
— Você pode tirar essas coisas? — apontou para os aparelhos que enlaçavam o fraco corpo à vida. Esperou que Marya questionasse ou até mesmo discordasse de seu pedido, mas tudo o que recebeu foi um olhar confiante enquanto a médica desconectava tubos e retirava agulhas.
A menina em sua frente era tão, tão bela. Também era tão frágil quanto uma flor recém liberta do casulo de seu botão, mas a Bruxa sabia que não havia crime pior do que uma flor ser forçada a desabrochar. Seu botão, outrora protetor, agora rompido, ainda tão jovem e cheio de promessas só suas. Roubam da natureza a liberdade de escolher seu próprio momento, seu próprio caminho, sua própria cor. Expondo suas pétalas ainda prematuras demais para a rigidez do mundo. E essa flor, essa singela flor, sofre. Sofre em uma dor austera e tortuosa, sangrando em gotas de incompreensão. Talvez ela cresça, ainda que fragmentada e sem partes de uma beleza que deveria ser só sua. Talvez seque e morra, pois a dor de crescer sem o que lhe foi tirado é irremediável. Nada jamais vai livrá-la do peso de ter descoberto cedo demais o quão cruel o mundo pode ser. A natureza chora pelo o que lhe foi violado. E talvez, essa flor que só queria ter tido seu próprio tempo para crescer e embelezar seu jardim se pudesse escolher de novo, escolheria jamais ter deixado de ser semente.
As mãos de Cassandra tocaram o rosto da menina — a sua flor — como se tocassem a mais fina obra. Ela fechou seus olhos por um instante e, quando os abriu, estavam tão brancos quanto as paredes que as rodeavam. Um círculo queimou em volta das duas mulheres e a magia dançou como convidada antiga. Os hematomas escuros que manchavam a pele clara desapareceram, pouco a pouco, apenas para brilhar no corpo da Bruxa. Os rasgos em suas pernas arderam na pele de Cassandra, mas ela não se importou. Estava longe demais. Sua magia corria pelas veias daquela mulher tal como corria em seu próprio ser e, naquele momento, elas eram só uma. As feridas da matéria não foram um desafio grandioso, ainda que o corpo da própria Cassandra estivesse curvado pela dor. A mente era sempre a pior das armas. Ao desbravar aquele caminho, a Bruxa reviveu tudo o que havia acontecido. Ela viu o rosto de seu agressor e sentiu o medo se transformar em pavor. Ela sentiu o espasmo dado na primeira pancada e o da segunda, até que a própria carne já não mais reagia. Sentiu suas pernas tremerem, sentiu sua alma ser violada, sentiu o pesar exausto. Sentiu o momento em que ela desistiu. As lágrimas grossas que brotavam dos olhos cintilantes desceram quentes pelo rosto da Bruxa, pousando sobre a face da menina. Quando suas pálpebras se abriram, seu olhar era igualmente branco.
Cassandra queimava. Sua pele queimava e ela podia jurar que nem mesmo a mais intensa das fogueiras a faria sofrer tanto. Mas ela deu um passo e depois outro. Quando aquele espírito caiu, a Bruxa o segurou em seus braços, aninhando-o junto ao peito. Ela sussurrou cantigas em seu ouvido e prometeu a ele que seria salvo. Limpou sua mente daquelas memórias tortuosas, deixando apenas informações vagas do que havia acontecido. Ela não podia levar tudo consigo, ainda que quisesse. Aquela menina tinha o direito de saber o que havia sido feito, ela tinha o direito de reconhecer e de repudiar. Ainda doeria. O pranto que rasgou a Bruxa era doloroso, pois era o pranto da própria menina. Preso em um ciclo tortuoso, sua mente a impedia de romper o véu da consciência. Mas para aquilo, Cassandra estendeu sua mão e a segurou firmemente. Juntas, Bruxa e menina, caminharam para fora da prisão imposta pelo sofrimento.
A morena se levantou em passos vacilantes e Perpétua tencionou a ajudá-la, mas o círculo de fogo queimava intenso. Cassandra respirou fundo, precisando de um momento para se reencontrar. Suas mãos moveram-se ágeis, como se conhecessem de cór toda a dança trabalhada. Da ponta de seus dedos surgiram feches luminosos que banharam o cômodo em dourado. E os feches, como bons soldados de uma Bruxa, abraçaram o corpo da menina, regenerando-o com a mais abundante magia.
E então, Cassandra brilhava.
Naquele momento, Perpétua soube que não olhava para sua filha ou sequer olhava para uma Bruxa. Aquela era, sem meias palavras, a presença da Deusa.
Tão rápido quanto o fogo se acendeu, ele cessou. Cassandra caiu de joelhos ao lado da cama, tão frágil quanto uma folha que se desprende de seu caule. Seu quimono estava molhado pelo suor, sendo mais escuro em outras partes manchadas pelo sangue de feridas que não eram suas. Mas a morena estava habituada com a dor. Ela precisou de um momento para se curar. Ainda que Perpétua desejasse acolher a filha em seus braços, aprendera que Cassandra precisava do próprio espaço, principalmente quando sofria. Ela esperou.
— Você está bem? — Marya se abaixou para encarar o rosto da morena. — Precisa de ajuda?
— Não, não. Está tudo bem. — Cassandra inspirou, movendo-se com cuidado, como se o próprio ser estivesse habituando-se a pele que o revestia. — Veja.
Ela estendeu seu braço para Marya, onde antes queimavam as feridas que pertenciam a menina. Agora, apenas a sua pele manchada por cicatrizes já conhecidas.
Perpétua se aproximou da jovem que agora possuía um ressonar tranquilo, como se cochilasse o mais confortável dos sonos. Suas expressões já não eram pesadas e dolorosas, assim como seu rosto possuía um leve tom rosado. Ela acordaria em poucas horas, a mais velha pressentiu.
— Eu poderia falar por horas e ainda assim não conseguiria expressar o quanto sou grata pelo o que você fez. — Marya segurou as mãos de Cassandra, apertando-as em um agradecimento contido. Os olhos da Bruxa pesaram mais uma vez sobre a cruz que a médica carregava em seu cordão.
— Eu não consigo entender... — deixou escapar. Pretendia perguntar a mãe quando saíssem dali, mas a sinceridade repentina a fez escorregar em sua própria curiosidade.
— Eu entendo a confusão. — a médica sorriu. — Uma católica recorrendo as Bruxas! Que tipo de religiosa é essa! Que heresia! Que horror! — ela ergueu as mãos, ilustrando o choque das frases que dizia. — Eu conheci Perpétua no dia em que cheguei à Storybrooke. Já era madrugada, pouco depois das duas. Eu dirigi durante o dia todo e estava exausta, mas queria chegar logo, porque não teria paciência para mais um dia perdido dentro de um carro. Então não parei para descansar, mesmo quando minha irmã insistiu que deveríamos fazê-lo. Ela tinha acabado de completar quinze anos. O pai dela... Ele era alcoólatra. Nós nos mudamos para cá porque uma cidade pequena me daria mais tempo para estar com ela, eu acabara de conseguir sua guarda na justiça após longos anos. Seria um recomeço para nós duas. Era tudo o que precisávamos. Mas eu estava exausta e um lobo apareceu bem na nossa frente. Mal me dei conta do que havia acontecido até acordar com o airbag pressionando meu peito. — a médica secou as grossas lágrimas que desceram por seu rosto, contendo um soluço. Ela foi afagada por Perpétua em um incentivo silencioso. — Mariana não estava de cinto. Céus, eu nem mesmo vi quando ela o tirou. O seu corpo voou para fora do carro e foi jogado no acostamento. O pulso dela estava tão, tão fraco que eu mal podia senti-lo. Não importava o que eu fizesse, ela não reagia e eu sabia que não viveria até a chegada do socorro. Foi quando eu comecei a rezar, porque era a única coisa que podia fazer. Sua mãe apareceu alguns segundos depois. — ela encarou Perpétua com tanto amor e admiração que Cassandra sequer pode supor que algo além disso existiu no coração daquela mulher. — Minha família sempre foi muito religiosa. Nós sempre fomos à missa e sempre tivemos hábitos rígidos. Quando sua mãe apareceu... Ela foi o meu milagre. Ela salvou a vida da minha irmã e, com isso, ela salvou a mim também. Eu sou uma mulher católica, Cassandra, eu acredito em Deus. É por acreditar em Deus e acreditar em sua pluralidade que eu jamais poderia sequer condenar qualquer aspecto da sua criação. Vocês duas, todas vocês, são como divindades para mim. E eu acredito que Deus foi extremamente perspicaz e bondoso em nos permitir ter seres como vocês nesse mundo. Imagino que essa forma, esse Deus que conheço, foi o modo como essa energia tão poderosa conseguiu chegar até mim. Assim como se apresenta de diversas outras formas a diversas outras culturas. Então, eu, como alguém que acredita, jamais poderia enxerga-las de outra forma que não fosse com admiração e gratidão. Seria muito ignorante da minha parte pensar que Deus não poderia tê-las criado quando tudo o que vocês são é, na verdade, uma prova de que Ele existe. Uma prova de que essa energia sagrada existe.
— Eu disse a Marya que se ela precisasse da minha ajuda, bastava colocar suas mãos na terra e chamar por mim. Foi como a ouvi hoje. — Perpétua completou, respondendo aos questionamentos ainda não verbalizados.
— Isso é... — Cassandra revirou os olhos, secando as lágrimas teimosas que pesavam em suas pálpebras. — Malditos sentimentos. — praguejou, antes que um trovejar fosse ouvido.
— Então é por sua causa que não vemos dois dias de sol na mesma semana. — a médica gargalhou, afagando o braço da morena. — O que você fez hoje, Cassandra, eu não tenho como agradecer. Você salvou a vida dessa menina e, eu juro, isso salvou um pedaço da minha vida também.
— Você salva vidas todos os dias, Marya. Isso também é... Mágico. — a Bruxa sorriu, contida. — Eu fingi ser médica por alguns segundos e quase não aguentei com a responsabilidade.
— Oh, é mesmo? Eu adoraria ouvir essa história.
— Não foi nada demais. — Cassandra olhou para a mãe, esperando ver a reprovação em seu olhar, mas apenas encontrou uma singela diversão. — Nós estávamos no Granny’s... Eu e as minhas sobrinhas, claro. Mamãe é uma elegante eremita. Estava tudo muito bem até que esse rapaz se engasgou e Zelena teve a brilhante ideia de dizer que eu era uma médica. — contou, omitindo o real motivo de seu disfarce. Não saberia como explicar em poucas palavras toda a saga que envolvia Emma Swan desmaiada na Mansão. — Enfim, não foi nada realmente importante, mas ao menos consegui ajudá-lo.
— Você se sentiu bem ajudando? — Marya a encarava com atenção e cuidado, como se falasse com uma criança.
— Sim. — ela permitiu que seu cabelo caísse, escondendo parte do rosto. Um hábito que Cassandra não conseguia perder. — Na verdade, eu me senti muito bem por ser útil.
— Cassandra, — a médica segurou as mãos da Bruxa, chamando sua atenção. — você gostaria de me ajudar aqui no hospital? Se algo assim aconteceu no Granny’s, sinto-me segura em dizer que, agora, toda a cidade já pensa que você é uma médica.
— Eu? — sua boca se abriu para logo em seguida fechar. As palavras faltaram e ela tropeçou tentando encontrá-las. — Mas eu não sei... Quer dizer, eu não saberia. Como eu poderia ajudar? Eu não sei. Não vejo como posso ser útil.
— Você ajudou aquele homem e ajudou essa moça. — Marya indicou a jovem que ressonava tranquila. — Eu sei que isso cobra um pouco de você, então não estou propondo que vá ao limite. Nada que a machuque, com certeza. Mas você seria de grande ajuda. Eu não estou propondo te sobrecarregar com responsabilidades grandes demais, você ficará junto comigo o tempo todo. Seríamos uma boa dupla.
— Nós seríamos? — o sorriso de Cassandra se abriu tão largo e brilhante que poderia iluminar toda a cidade, mas ele se fechou no instante seguinte. — O que você acha, mamãe? Você acha que eu devo?
Perpétua encarou o rosto ansioso da filha, vendo-a dez anos mais jovem em uma postura adolescente que pensou jamais reviver. Os dedos remexiam-se, nervosos. O lábio inferior era mordido, como se estivesse contendo uma explosão de ansiedade. Ela diria não. Normalmente, ela diria não. Diria que era perigoso e que elas deveriam tomar cuidado, mas Cassandra precisava daquilo. Não só da ocupação, ela precisava que Perpétua confiasse nela e em sua capacidade de julgar o certo ou errado.
— Você está me pedindo permissão? — a mais velha ergueu uma sobrancelha curiosa.
— Não... Claro que não estou! — Cassandra arregalou os olhos ao perceber seu próprio feito. Era algo pequeno, muito pequeno, mas que acentuava a mudança no seu relacionamento com a mãe. — Bem, sendo assim, eu acho que posso tentar ajudar.
O coração de Cassandra mal podia ser contido por seu corpo. Ele batia tão forte e tão insistente que, ela poderia jurar, saltaria por sua boca. Aquela chance era tudo o que ela precisava e nem sequer imaginava que precisava. Ela poderia ajudar alguém, poderia ser útil. Poderia usar todo seu poder e toda sua magia para auxiliar e curar.
E talvez...
Somente talvez...
Cassandra permitisse curar-se também.
***
Passava das cinco da manhã quando Emma acordou com o amargo gosto em sua boca que nada tinha a ver com seu hálito de sono. Seu estômago revirou, seu peito doeu e seu coração acelerou. Sonhou, de novo, com ela.
O reflexo que encontrou no espelho nada mais era do que uma bagunça de "sabe-se lá o que" com outro monte de nada. Outra noite, outro sonho, outra realidade alternativa longe demais da sua própria realidade. Mas sempre com ela. Sempre ela. Sempre Regina. Aquela mulher de olhos perdidos e lábios traiçoeiros. Aquela cuja voz melodiosa seduziria até a mais pura das criaturas. Como Emma poderia esperar não ser seduzida? Regina era tudo e não era nada. Ela era o arrepiar de seus pelos loiros, o amargo em sua garganta, o desconforto em seu estômago, o aperto em seu peito e as batidas desenfreadas de seu coração. Ela era tudo. E como o oxigênio que ali está, mas jamais se vê, ela não era nada. Por vezes a escritora sentia que a presença de Regina fugia por entre seus dedos enquanto ela esperançosamente lutava para agarrá-la, para conservar um segundo a mais que fosse de sua companhia.
Uma parte de si já não suportava aquela perturbação desenfreada de seu coração inquieto e ansioso. Já não aguentava o som daquela voz fazendo com que desejasse o prazer de estar ao seu lado e de tê-la ali por perto, andando de um lado ao outro feito borboleta solta cuja complexa beleza nem por um momento conflita à leveza.
Por que ela? Por que Regina? Porque havia de ser ela a responsável por roubar qualquer resquício de sua paz. Mas Emma era apenas humana e como diabos poderia resistir àquela mulher tão envolvente que parecia amar o mundo inteiro com um só sorriso? Não sabia. E não resistia. Mesmo se tentasse, não obteria sucesso. Ela a encontrava em todas as noites, em todos os sonhos, em todas as realidades criadas por seu subconsciente. Sempre, sempre ela.
Já não tinha paz.
Nem uma única noite bem dormida, tarde ou dia de descanso que fugisse da mulher demoníaca e celestial. Abrigava tantos opostos dentro de si que só podia ser o que era: tudo e nada.
Emma sabia como era estar perto de Regina. Sabia como era a sensação de sentir seu corpo vibrar, seu coração palpitar e sua respiração pesar em um desejo denso preso ao âmago. O desejo incoercível de admirá-la, ouvi-la e... Tocá-la. Oh céus, a loira mal podia sequer lidar com o simples pensamento de seus dedos vacilantes se arrastando sobre aquela pele delicada. O calor se espalhou por seu corpo com a força das águas de um rio revolto e ela suspirou sem saber o porquê de suspirar.
Seja dito de passagem, Emma sabia muito bem o motivo de seus suspiros, de seu calor e de seu desassossego.
Maldita mulher.
Não tivera muitos momentos de clareza desde que Zelena a convidara para se juntar a elas no Leon’s. Também nunca pensara que uma sexta-feira protelaria tanto a chegar. Tinha a impressão de que as horas não passavam ou, se passavam, o relógio estava a enganando com seus ponteiros incertos. Inutilmente tentou fazer com que seu sono retornasse, mas bastava que fechasse os olhos para que o castanho a abrigasse em um laço apertado e o calor, os suspiros e o desassossego encontrassem passagem para perturbá-la. Não era como se Emma não quisesse ser perturbada. Como se não estivesse contando horas, minutos e segundos para se levantar e ir até a biblioteca com uma desculpa qualquer de um livro difícil demais de ser encontrado, tão difícil quanto a sanidade da loira que fora perdida completamente em meio a olhares castanhos e lábios vermelhos.
Ignorou a necessidade de um café da manhã saudável e optou pelo café preto rápido, mesmo ouvindo as reclamações de Granny sobre sua má alimentação. Já sabia a senhora que a paixão que acometia Emma era mesmo daquelas desenfreadas que roubam tudo de nós, principalmente o chão. Daquelas paixões que nos oferecem uma queda livre e, sim, nós pulamos. Do tipo ultrarromântico contado por poemas intensos demais que oferecem às palavras a missão quase impossível de abrigar em si o tempestuoso sentimento. Granny também sabia que Emma não tinha chances contra a força daquela tempestade. Não só porque Regina era uma bela mulher que abandonava apaixonados para trás e que, eventualmente, choravam pitangas nas mesas de sua lanchonete. Mas porque ela era uma Bruxa. Uma Bruxa de sorriso lascivo e olhos intensos.
Torcia para que Emma também não terminasse chorando seu amor impossível.
Contudo, Granny desconhecia que os planos da Deusa eram bem mais conturbados do que ela jamais poderia imaginar.
Emma carregava uma pilha de livros em seus braços quando um deles escorregou e estava a poucos segundos de cair e foi salvo.
— Oi Emma. — o sorriso infantil fez com que seu coração se aquecesse em reconhecimento.
— Oi Henry! — abaixou-se para que o menino devolvesse o exemplar à sua pilha previamente selecionada. — Eu não te vejo há tanto tempo.
— Eu estive viajando com meu pai. Nós fomos visitar minha avó em Boston. — o menino caminhou ao lado da loira. Como de costume, carregava um grande livro embaixo de seu braço e o esforço lhe custava quase todo seu equilíbrio, mas lidava bem.
— Espero que tenha feito boa viagem. — chegaram à mesa e a escritora depositou sua grande pilha, suspirando ao se acomodar na cadeira de madeira. — Quer se sentar comigo?
— Sim, mas não posso demorar. — o rosto dele se remexeu em desânimo. — Tenho uma consulta hoje. — bufou.
— Está doente? — ela olhou com preocupação, procurando por algum sinal de enfermidade que tivesse lhe passado despercebido.
— Não, não. — sorriu. — É uma consulta com meu terapeuta. Não é que eu não goste de ir até lá, eu gosto. Eu gosto de falar e ele me deixa falar o quanto eu quiser. Mas é... Difícil. — Henry pareceu procurar as palavras certas, vacilando uma ou duas vezes. — Meu pai insiste que preciso ir porque ele acha que sou muito confuso e que vivo... Imaginando demais.
As palavras acertaram Emma em cheio.
Ela conhecia aquilo. Conhecia a confusão do desconhecimento, a confusão de ser questionada por tantas vezes ao ponto de se perder em suas próprias convicções. Henry era apenas um menino, assim como a própria Emma era apenas uma criança quando... Ela afastou os pensamentos, voltando sua atenção para o olhar curioso que a analisava.
— Bom, se a minha opinião vale de alguma coisa, eu não te acho nada confuso. Nadinha mesmo. Nem uma gota de confusão. Eu conheço pessoas confusas, você precisa acreditar. Eu posso jurar pra você. — ela ofereceu o dedo mínimo, vendo a hesitação ser substituída pela diversão no rosto infantil.
— Certo, eu acho que posso confiar em você — aceitou o juramento rápido e inocente, acentuando uma amizade bem inexplicável e inesperada entre os dois.
Emma inspirou fundo quando o perfume conhecido preencheu o espaço.
Regina.
Ela não tinha visto a mulher desde que chegara à biblioteca. Uma tristeza genuína a abateu por um instante ao considerar que, talvez, Regina não tivesse ido trabalhar. Mas a morena era correta demais para faltar um dia sequer e foi a isso que a escritora se agarrou. Decidiu que se ocuparia com alguma coisa enquanto esperava, sendo verdade que estava lá apenas para vê-la, mas resolveu que aquele seria um segredo só seu.
Os seus olhos buscaram pelos cabelos negros e o andar firme. Regina carregava alguns papéis consigo e parecia distraída, quase alheia à movimentação que a rodeava. No entanto, olhos verdes a seguiam com atenção, famintos por qualquer informação que já não estivesse decorada.
— Você gosta dela. — o tom risonho de Henry fez com que Emma pulasse em surpresa.
— Eu... Eu... — a boca se abriu e fechou. Uma vez, duas vezes e uma terceira se juntou à soma. — Eu gosto porque ela é uma boa pessoa e não há mal nisso.
— Não. — Henry gargalhou, claramente divertido com a perturbação da loira. — Você gosta dela.
— Eu não! Ah! — bufou, irritada com a própria confusão. — Eu não gosto. Eu nem sei do que você está falando. Sinceramente, você está mesmo confuso, tadinho. — revirou os olhos, batendo com o indicador na testa do menino.
— Não estou, não. Você me jurou que eu não estava. Não dá pra voltar atrás agora. — o menino devolveu o toque, cutucando a testa da loira cujas bochechas queimavam em rubor. — Eu sei que você gosta dela, porque meu pai também gostava.
— Ele gostava? Gostava... Gostava? — a boca de Emma se abriu em um perfeito “O”, surpresa.
— Gostava! — Henry se aproximou, como se fosse contar um segredo. — Mas ela não gostava dele, então eu acho que você está ganhando.
— E por que eu estou ganhando? — o rosto confuso de Emma estava apoiado em suas mãos e ela quase parecia uma criança curiosa.
— Porque eu acho que ela também gosta de você. — o menino deu de ombros, olhando para além de Emma.
A loira precisou de um instante de coragem para se virar e, quando o fez, encontrou os olhos atentos de Regina que pareciam observar a cena com atenção. O coração de Emma afundou num misto de ansiedade e hesitação. Teria Regina ouvido sua conversa com Henry? Não, não poderia. Ela estava longe demais. Ainda assim, o olhar castanho a prendia agora, denso demais para que ela pudesse escapar.
— Então... — Henry, que honestamente estava se divertindo demais com aquela situação, chamou a atenção da mulher. — Eu preciso ir agora. Você sabe... Hora da terapia.
— Isso mesmo, vá à terapia, garoto confuso. — ela debochou, mas apenas como uma brincadeira. Antes que ele se virasse, ela ergueu o dedo mínimo, enfatizando seu juramento.
A saída do menino fez com que Emma voltasse aos seus questionamentos tão insistentes, mas ela podia sentir os olhos de Regina queimando suas costas. Decidiu que tentaria se distrair, tentaria pensar em qualquer outra coisa. Exceto que nem mesmo o inconsciente de Emma parecia ter comprado sua batalha, pois todos os livros de poemas selecionados por ela a faziam caminhar por ruas já conhecidas de sua memória. Levantou-se, caminhando pelos corredores formados de prateleiras altas demais. Àquele ponto, a biblioteca já estava quase vazia com apenas duas pessoas por ali. Emma cruzou uma estante e logo depois outra. Já não via a grande porta de entrada quando encontrou os livros pelos quais procurava. Precisou estar na ponta de seus pés e dar tudo de si para alcançar o livro de capa amarelada, mas ele pareceu estar preso e a frustração quase fez com que ela desistisse. A escada presa à estante de madeira estava alguns metros à frente, mas ela não queria ter de buscá-la. Decidiu tentar mais uma vez, uma última chance à insistência estupida antes da razão tomar o controle. Seus dedos tocaram a capa lisa e ela a puxou, falhando. Dedicou-se a uma última tentativa e estava quase desistindo quando seu dedo puxou num último golpe de esperança e o livro escorregou para suas mãos com a mesma facilidade com que uma gota de chuva cai da nuvem a terra.
— Florbela Espanca, senhorita Swan? — a voz de Regina fez com que Emma se virasse em sobressalto, batendo suas costas contra a madeira. — Tente não se quebrar, por favor. Eu levaria um pouco tempo para recolher todos os seus pedaços.
— Eu não... — Emma levou a mão ao peito em uma tentativa falha de acalmar o próprio coração que batia tão acelerado quanto os galopes de um cavalo feroz. — Eu não ouvi você chegar. — ela suspirou, perdendo-se no espaço dos segundos enquanto contemplava a beleza quase proibida da mulher que a olhava com atenção. Ser olhada por Regina era como estar em evidência para todo o mundo, como se tudo, absolutamente tudo, o que importasse estivesse bem a sua frente, à distância de um toque. — E sim! — adiantou-se em responder. — Eu gosto muito de Florbela. Muito mesmo.
— Então você me concederia a honra de saber qual é o seu poema preferido? — a morena se aproximou em passos felinos. Recostou-se na outra prateleira estando agora frente a frente com uma escritora nervosa demais para que sua respiração pesada não estivesse em evidência.
— Sim, sim... Claro! — aprumou-se numa tentativa falha de não parecer tão estupidamente derretida. — É... É uma pergunta difícil, na verdade, mas eu teria que dizer Frémito do Meu Corpo.
— Hum, bem... — Regina levou o dedo ao queixo enquanto suas sobrancelhas se contraíram. — Acho que não me lembro. Pode recitar?
O coração de Emma, finalmente, despencou de seu peito em um pulo suicida quando realizou o que aquilo significava. Quando percebeu o que estaria dizendo e a quem estaria dizendo todas aquelas palavras que em tanto representavam sua própria tempestade. Mas o sorriso nos lábios de Regina era desafiador e... Sedento. A certeza em seu olhar era quase sufocante e, céus, Emma já mal podia respirar.
E contudo, era também naquele sorriso desafiadoramente sedento e na certeza daquele olhar sufocante que a loira encontrou-se frente à frente com o desejo caloroso que a despertara naquela manhã antes das seis horas. Encontrou-se com seu calor, com seus suspiros e com seu desassossego. Descobriu que dois poderiam dançar ao som daquela música, ainda que seus passos fossem vacilantes.
— Frémito do meu corpo a procurar-te, febre das minhas mãos na tua pele... — a morena se aproximou, devorando cada centímetro de espaço com a densidade de sua presença. Ela buscou pela mão de Emma, capturando-a em um toque cuidadoso e fazendo com que pousasse sobre a pele de seu rosto. A loira engoliu a seco e fechou os olhos, pois, se não o fizesse, temia ser definitivamente aprisionada por aquele olhar que agora carregava tímidos traços dourados. — que cheira a âmbar, a baunilha e a mel. Doído anseio dos meus braços a abraçar-te. — ela moveu os dedos lentamente, deslizando-os sobre a pele lisa e quente. As pálpebras fechadas eram sua única barreira contra a armadilha bem preparada e Emma, assim como uma presa, desejava correr para o laço de seu caçador. Não possuía, no entanto, a inocência de uma presa despreparada. Sabia o que a esperava e os céus eram testemunha de que queria descobrir mais. Antes de continuar, ela os abriu. — Olhos buscando os teus por toda parte, — sua garganta secou. — sede de beijos... Amargor de fel. Estonteante fome, áspera e cruel que nada existe que a mitigue e a farte. — ousada, a ponta de seu indicador deslizou para o lábio inferior da morena cuja respiração vacilou por um instante. — E vejo-te tão longe. Sinto tua alma junto da minha, uma lagoa calma, a dizer-me, a cantar que não me amas... E o meu coração que tu não sentes, vai boiando ao acaso das correntes...
As palavras faltaram e Emma se irritou com a frequência com que isso estava acontecendo. Ainda assim, não podia reagir ao choque da verdade. Não podia mais ignorar ou fingir desconhecer o tal motivo dos seus suspiros, do seu calor e do seu desassossego. Era sim Regina, mas não só isso. O conflito maior de Emma, que admitiu agora por não mais poder ignorar, era a cruel sedução da impossibilidade. O seu sufocamento não era causado pela presença de Regina, mas por sua ausência. Se fosse culpar alguma presença, então teria de ser a presença constante da distância física agora encurtada e, naquele momento, a loira se sentia tão livre quanto um pássaro que aprendera a voar. Pelos dedos que corajosamente desbravavam a pele da morena, fluía a sensação de libertação tão arrebatadora que Emma considerou como seria se estivesse mais perto.
O que a aprisionava, se aprisionava, era o desejo latente e pulsante. O querer tão forte que a desarmava.
E quando sufocava, se sufocava, era por não saber se poderia, algum dia, alcançar seu objeto de desejo.
Claro que era ela. Tinha de ser ela.
Regina.
— Esquife negro sobre um mar de chamas. — Foi Regina quem finalizou enquanto Emma permanecia em silêncio.
Centímetros de distância as separavam. Centímetros tortuosos que se esforçavam para existir na densa tensão.
Centímetros que foram desbravados e encurtados.
Centímetros absorvidos pelo peso de um desejo incoercível.
Centímetros que eram tudo somente pela insistência de serem alguma coisa tão obstinados na existência de sua presença.
Centímetros que se tornaram nada.
Os olhos de Regina estavam um tom mais dourado quando se encontraram com a imensidão esverdeada de Emma. Ambas souberam que o laço firme que as unia, o laço que as prendia tão estoicamente àquela linha de atração era forte demais para ser rompido.
Os espaços dos segundos pareciam ter se tornado longos demais enquanto os lábios da Bruxa se arrastavam até os da mulher que a encarava. A mulher cujas pernas lutavam para não perder a força e ela poderia jurar que jamais sentira algo sequer próximo do calor lascivo que queimava seu ser.
Emma chegou à beira do precipício e saltou numa queda livre sem promessas de pouso seguro, mas foi quando o hálito quente de Regina a aqueceu e seus lábios se tocaram tão delicadamente quanto pétalas de uma flor selvagem que Emma Swan aprendeu a voar.
Mas o toque, o breve arrastar de seus lábios que pareciam ansiar por se unir, durou apenas um instante antes que passos ansiosos rompessem pelo corredor.
— Regina!
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