Notas iniciais
Oi galeura, Eu quero, primeiramente, agradecer a quem leu e comentou o capítulo passado, como também às pessoas que me procuraram no twitter. Vocês renovam minhas esperanças quando me falam coisinhas bonitas sobre essa história, de verdade. Eu sei que aqui não sigo as regras ""normais"" de uma fanfic e o relacionamento delas é bem devagar, então acabo recebendo coisas bem desagradáveis sobre isso, mas sempre há comentários bons também e eles me motivam a continuar. Eu tenho feito um esforço grande pra não sumir por meses e é sempre um presente quando vocês interagem comigo. Obrigada por isso e sintam-se sempre livres para comentarem o que quiserem. Obrigada mesmo. No mais, eu espero que vocês gostem do capítulo. Ele está maior do que o passado (que eu mesma julguei bem grandinho pro normal), mas desde que vocês me disseram que curtem capítulos grandes, acredito que não seja um problema.

Não existem espíritos perfeitos, pois os homens não são perfeitos e, sendo eles a encarnação do próprio espírito, não poderia jamais haver tamanha assimetria. Portanto, acredita-se que todos os espíritos — encarnados ou não — passam por processos evolutivos ao longo de suas existências. Não é incomum que se encontre uma Bruxa falando sobre os Sete Quadrantes, ainda que dificilmente elas falem sobre o princípio das coisas. Bruxas acreditam na ciência e a respeitam como fonte essencial de sabedoria. Sendo assim, respeitam também que o gênesis, a partir da ótica divina, jamais poderia ter acontecido se desvinculado de processos químicos, físicos e todos os fenômenos de natureza científica. Talvez por suas imortalidades, as Bruxas se adaptaram à realidade ao longo dos anos, sendo essa a maior vantagem de não ter um dito livro sagrado neutralizando o desenvolvimento de crenças.

Acreditava-se, à vista disso, que a Deusa foi o princípio de todas as coisas, sendo o plano espiritual sua primeira divina criação. Ele foi dividido em Sete Quadrantes. No Sétimo Quadrante, o mais altivo, está a própria Deusa, acompanhada do Deus Cernnunos. Tamanhas são suas perfeições que jamais podem ser limitados a um pensamento, nome ou imagem. São infinitos demais para sequer serem sequer imaginados. No Sexto Quadrante, encontram-se os Deuses cuja evolução espiritual é tão grande que beira a perfeição, mas não a toca. Esses Deuses são nomeados e adorados, mais próximos ao imaginário do ser humano. O Quinto Quadrante é habitado por espíritos guardiões que tem consigo a missão de interagir com o plano carnal, auxiliando nas missões do encarne. No entanto, somente o fazem com permissão da Grande Mãe. São eles os responsáveis pelo o que chamamos de milagres.

No Quarto Quadrante, abrigam-se os espíritos cuja evolução em sua ultima encarnação foi tamanha que ascenderam. São eles pessoas que trouxeram um grande bem à humanidade, uma grande contribuição. Esses espíritos não costumam reencarnar novamente, apenas se por vontade da Deusa. O Terceiro Quadrante é morada de espíritos em alto nível de evolução e que ainda estão fadados a reencarnar para concluírem suas missões, porém permanecem por mais tempo no plano espiritual após seus desencarnes, ajudando no caminhar daqueles que recém retornaram. No Segundo Quadrante, encontram-se espíritos ainda “jovens” e com um baixo número de encarnações, tendo em si a necessidade de retornar ao plano carnal para compreenderem suas missões. Eles são chamados de desencarnados e donos de passagem recente. São eles os que conseguem se comunicar através de sonhos ou mensagens psicografadas. O Quarto, Terceiro e Segundo Quadrante constituem as Terras de Verão, local onde, de forma geral, os seres passam por longos ou curtos períodos de rejuvenescimento, reflexão e cuidados.

No Primeiro e último Quadrante, estão os espíritos ditos inferiores e inconformados, também são os que estão mais perto dos seres encarnados, por vezes influenciando em suas existências. É esse o primeiro plano visitado pelo espírito após o desencarne e, por isso, muitos deles permanecem presos em inércia, incapazes de se desprenderem de suas dores e sofrimentos.

E, no entanto, crenças são sempre coisas complicadas de se rotular. O significado de um único risco em determinada parte do mundo pode significar seu oposto em outra parte. Assim sendo, alguns saúdam a vida da mesma maneira que outros saúdam a morte e isso é, de fato, a maior prova da pluralidade humana. Talvez, não somente humana.

Existem Bruxas em todos os cantos do mundo, desde os mais prováveis até os mais improváveis. Não é uma informação vaga. É uma certeza indubitável. Bruxas existem com a mesma facilidade com que o sol nasce ao leste para se pôr ao oeste e só deixarão de existir no dia em que essa dança não mais acontecer. Então, não existirá mais nada. Elas são a essência da vida e da morte, são a materialização da força que corre por toda Gaia e alimenta a terra viva. Bruxas são tudo e, assim como o inefável, não são nada.

Naquela noite, Zelena se revirou na cama por tantas vezes que, em dado momento, apenas desistiu de seu sono. Pensou em ir até o quarto da irmã e importuná-la por um segundo de diversão, mas preferiu não fazê-lo. Algo em seu ser clamava pelo luxo da solidão e, a Deusa sabia, eram poucos os momentos em que Zelena conseguia ficar sozinha em sua própria mente. Contudo, a noite insone lhe proporcionou o vazio que somente àquela casa poderia abrigar. A mente de Regina, próxima demais para não ser ouvida, era um turbilhão de sentimentos curiosos e Zelena quase pôde rir quando se deu conta dos caminhos que estavam seguindo. Em resumo rápido, eles passavam por cabelos loiros, olhos verdes, lábios delicados, uma pele clara e lisa com pintinhas tão presentes quanto as estrelas do céu. E bom, os pensamentos sobre aquela pele se estendiam para outras partes do corpo. Afastou a mente de Regina, mas fez questão de anotar mentalmente a necessidade de uma ou duas piadas sobre aqueles sonhos tão impuros.

Por fim, o vazio ensurdecedor de sua própria turbulência.

Zelena parecia conservar uma luz própria e não apenas por seu cabelo fogo e os olhos tão claros quanto o mais cristalino lago, mas porque dificilmente dava espaço a dores que não deveriam sentir. Ouvia tanto os pensamentos de outras pessoas e seus sofrimentos ambíguos que desenvolveu dentro de si a capacidade de filtrar suas próprias sensações. Entretanto, era verdade que até mesmo ela — que carregava sua luz própria, seus cabelos de fogo e olhos cristalinos — sofria com dores irremediáveis.

A mentira oculta em seu peito pesava a cada sorriso da irmã. Oh céus, se ela pudesse... Se Zelena pudesse, ainda que por um instante, voltar no tempo, ela evitaria saber sobre aquilo. Já que não podia mudar a realidade, então escolheria viver sobre o véu da ignorância, aquele mesmo que era forçado ante os olhos de Regina, ainda que a morena não soubesse de sua existência. A Bruxa se lembrava de cada detalhe daquela noite. Ela se lembrava de cada detalhe tortuoso e se lembrava de suas escolhas erradas. Lembrava-se da dor sentida, de seu sangue manchando o chão acinzentado, da magia ardendo por suas veias sem poder ser utilizada, do alivio ao contemplar os olhos da irmã e do desespero estarrecedor ao ver aqueles mesmos olhos, os olhos que a observaram durante toda a vida, perderem seu brilho e serem enlaçados pela morte.

Virou-se mais uma vez na cama. As lágrimas queimavam em suas pálpebras, mas ela não choraria. Não se daria ao luxo de ter qualquer tipo de alívio para a dor austera que a consumia. Merecia sofrer por aquilo o tanto quanto pudesse. Merecia cada pontada em seu coração e cada revirada de seu estômago causada pelo desespero do conhecimento. Mentir para Regina era a tortura que Zelena jamais esperou vivenciar e os céus eram testemunha de que ela escolheria arder na mais intensa fogueira a ter que lidar com aquele inferno pessoal.

E maldito seja, ela nem sequer acreditava em inferno.

O azul duelou junto à noite para tomar seu posto no céu, mas pareceu perder durante um bom tempo. Aquela era uma manhã preguiçosa e acinzentada. A ruiva se levantou, certa de que um pouco de movimento seria o bastante para melhorar sua confusão interna, mas estava errada. À mesa do café, ela era pouco mais que a sombra de sua habitual presença, sorrindo uma ou duas vezes na tentativa inútil de não despertar atenção. Seu disfarce seria eficaz frente a qualquer um, mas não para aquelas mulheres com quem vivia. Perpétua acariciou seus ombros na tentativa de oferecer uma dose de conforto, Regina questionou em seus pensamentos o que poderia estar acontecendo com a irmã, tendo a consciência de que seria ouvida, mas não recebeu uma resposta. Zelena precisava de tempo e espaço, mas o olhar preocupado daquela com quem compartilhava o coração fez com que seu peito pesasse. Foi no abraço carinhoso de Cassandra, na ausência de qualquer questionamento e na oferta de um conforto livre de barreiras que ela encontrou uma curiosa compreensão sem medidas. A Bruxa jamais conseguiu ler a mente da tia. Era bem verdade que tentou insistentemente durante alguns dias após sua chegada, mas, desde então, nunca mais o fez. Apesar disso, algo dentro de Zelena dizia que se alguém chegava perto de entender seu conflito, esse alguém era Cassandra.

O Museu estava vazio e ela quase se culpou pelo sentimento de gratidão que a acometeu. Geralmente, seu trabalho era o maior ponto de alegria durante o dia, mas não naquele. Zelena apenas desejava o silêncio. Aquele seria um dia em que ela iria ao seu escritório, escolheria a mais barulhenta música e caminharia de mãos dadas com o isolamento em direção à paz. Os comprimentos que ofereceu a todos ao seu redor estavam mais contidos, mas eles não poderiam perceber, pois o sorriso em seu rosto se mantinha firme, ainda que falso. Desceu dois lances de escada e, pouco a pouco, afastou-se da luz matutina e do movimento de funcionários. Estava quase chegando ao seu escritório quando a figura magra lhe chamou a atenção.

— Ei! — Zelena chamou, forçando sua vista para identificar quem poderia ser aquele homem. — Olá? Acho que você se perdeu. Com certeza deve ter se perdido. — sorriu. — Os corredores podem ser confusos mesmo, mas não há mal nisso, eu posso...

A Bruxa não pôde concluir. Bastou que piscasse os olhos por um instante, uma única fração de segundos, e o homem que outrora ali estava, desapareceu. Zelena rodopiou em seus próprios pés, descrente de que sua mente a estava enganando. Um arrepio doloroso cruzou seu corpo desde os pés até os finos cabelos da nuca.

Foi quando uma brisa fria lhe acertou que ela soube exatamente o que estava acontecendo.

Para os espíritos, todo dito médium é como um forte ponto de luz. A chama de uma vela em meio à escuridão de suas existências perdidas. Principalmente para aqueles que habitam o Primeiro e o Segundo Quadrante, médiuns são como ofertas de uma interação com o plano que deixaram para trás. Para aqueles que estão presos no Primeiro, eles são a fenda de suas torturas repetitivas. E para todos esses espíritos, Bruxas são fogueiras brilhantes e atrativas. Zelena tinha pouco mais de dez anos quando viu seu primeiro espírito, tendo a consciência do que ele era. Para a ruiva, aquela interação acabava por ser ainda mais intensa do que o normal. Cabe aos espíritos à escolha de quererem ser vistos ou não, mas o dom de Zelena conseguia burlar aquela lei interdimensional quando tropeçava na turbulência de suas mentes aflitas. Com o tempo, ela escreveu um bom feitiço que a oferecia certa proteção, pois não era realmente interessante viver assombrada por sofrimentos que não eram seus. E céus, eles eram tantos. Vítimas de acidentes e mortes súbitas, além de todos aqueles que deixaram pesadas dívidas para trás e não conseguiam se desprender do plano carnal. Ela se sentia sufocada. Não que não quisesse ajudar, ela queria. Queria muito. Queria tanto que foram necessárias intensas tardes de conversa para que Perpétua explicasse para Zelena que não, ela não podia intervir nos processos evolutivos. Não com tanta frequência e certamente não com tanto afinco. Foi o bastante para que a ruiva desistisse de sua empreitada em salvar todos os espíritos que a rondavam. Com sua magia recitada e a ajuda de sua irmã, uma barreira poderosa foi construída.

Significava, portanto, que aquele espirito havia quebrado o feitiço conjurado por uma Bruxa.

A ruiva respirou fundo, ousando tentar se convencer de que fora um mal entendido, mas não poderia desrespeitar a si mesma daquela forma. Sua confusão mental a atrapalhou por um instante, mas, pensando mais claramente, ela estava ali... A reluzente áurea espiritual, tão turbulenta quanto um mar revolto. Ele era um recém desencarnado. Sua frustração inicial se transmutou em curiosidade genuína para migrar à quase revolta. Seu feitiço estilhaçado como vidro fino. Os feitiços de Zelena não eram vidros finos, eles eram como rochas. Então... O que, pela Deusa, poderia ter acontecido?

Pensou que teria mais trabalho para chegar ao núcleo da questão e já estava considerando uma invocação, mas bastou que cruzasse a porta de seu escritório para se deparar com a imagem pálida. O homem a encarou, apertando os olhos como se tivesse dificuldade para enxergá-la. Esticou a mão, tão descrente como a própria Bruxa estava, mas desapareceu antes que pudesse falhar na tentativa de tocar o rosto de Zelena. No espaço em que estivera, apenas o frio angustiante.

Ela retirou seus sapatos apertados e respirou fundo, caminhando de um lado ao outro. Sim, o espírito, seja de quem fosse, cruzara a barreira imposta por sua magia, mas algo estava errado. Profundamente errado. Sua imagem pálida quase fez com que a Bruxa se lembrasse dos programas de TV que retratavam espíritos como hologramas falhados. Zelena riu de sua própria estupidez. Abriu as mãos, espalmando-as próximas ao corpo para, segundos depois, movê-las lentamente, como se desenhasse um círculo vertical entorno de si mesma. Enquanto movia-se, os seus olhos se tornaram tão brancos quanto à neve e sua mente se expandiu. O barulho dos pensamentos foi quase ensurdecedor, mas ela procurava por uma presença específica. Buscava pelo traço de energia que lhe causou o arrepio e pelo frio deixado para trás. Ele estava ali, ela pôde sentir. Existia resistência, agitação e inconformidade, tão perto que seus braços quase se contraíram num impulso de abraçar o próprio corpo, mas resistiu. Quando voltou a si, apenas o vazio conhecido.

Correu até o banheiro, encarando o espelho enquanto tentava chamar pela irmã, mas não foi correspondida. Vazio, apenas o vazio. Buscava por Regina, buscava por sua energia, mas ela parecia tão longe. Quase refugiada em outro mundo, longe demais para que Zelena pudesse alcançá-la. Teria de ir até a biblioteca. Os seus passos rápidos pareciam não ser rápidos o suficiente para a pressa de seu ser. Enquanto andava, a sensação de ser seguida se mantinha presente e, céus, ela sabia que era real. Não estava assustada com a situação, mas estava curiosa. Muito curiosa. Sua noite agitada fez com que decidisse se manter um pouco afastada de Regina para trabalhar melhor seus sentimentos, mas, aparentemente, a Deusa tinha outros planos. Ela precisava da irmã. Não somente porque o sangue de Regina fora usado em seu feitiço, mas porque a morena era sua cúmplice em todos os crimes. A pessoa para quem Zelena pediria ajuda se precisasse esconder um corpo e... Divina Deusa, isso quase acontecera uma vez.

Contudo, Zelena quase freou sua agitação quando cruzou as portas da biblioteca. Quando, naquele instante, foi invadida pela energia avassaladora ali existente. Não precisou perguntar a Kathryn onde a irmã estava ou se esforçar o mínimo que fosse para encontrá-la. Os pensamentos de Regina a acertaram em cheio. Não ajudou que Zelena fosse acertada também pelos pensamentos de Emma e que ela, céus, não os estava controlando nem um pouco. Em outro dia, a ruiva adoraria aquilo. Ela definitivamente adoraria parar e apreciar cada nota de confusão misturada ao desejo enquanto se culpava pela invasão de privacidade. Mas não poderia se culpar muito, afinal, se seu dom fora dado pela Deusa, seria desrespeito não usá-lo. Aquele não era um bom dia para aquilo e a Bruxa não se permitiu parar. Nem sequer ousou esperar um segundo, evitando qualquer milésimo de chance que a fizesse desistir da interrupção. Precisava de Regina.

Emma também parecia precisar, ardentemente. A Deusa seria testemunha de que a morena a mataria por aquilo, a mataria por interromper a sedução de uma Bruxa. Não só qualquer Bruxa, mas logo Regina. Logo ela que amava cada nota de sua sedução e a cantarolava aos ouvidos cobiçados tal como a sereia que atraí o pescador à morte. Agradeceu aos céus por sua imortalidade que a impediria de realmente ser assassinada.

— Regina! — a ruiva gritou assim que seus olhos pousaram na cabeleira castanha.

Seus passos outrora ansiosos diminuíram o ritmo ao ver a irmã fechar os olhos lentamente, antes de se afastar do corpo de Emma e virar. Regina poderia fuzilá-la com aquele olhar, ela não duvidaria disso. Não se surpreenderia se um rombo fosse aberto bem no meio de seu corpo, pois a irmã a mirava com tamanha intensidade que o ar lhe faltou aos pulmões.

— Isso precisa ser muito importante. — o tom rouco quase fez com que Zelena sorrisse. Ela se sentia culpada, verdadeiramente culpada, mas a aflição no rosto de Regina por ter sua caçada interrompida bem no momento do bote era tão hilária que a ruiva precisou concentrar todas as suas forças em segurar o riso.

— Emma! — a Bruxa disfarçou, fingindo só então ter notado a presença da loira que parecia estar dez vezes mais abalada do que Regina. Ela poderia entender. Tinha certeza de que aquilo que viu, aquilo que quase estava acontecendo, provavelmente desestabilizara mais chacras do que Emma podia ter em seu corpo. — Espero que me perdoe pela interrupção do intenso flerte de vocês, — o rosto da pobre mulher ferveu em uma vermelhidão tão intensa que a ruiva teve medo de que explodisse bem à sua frente. — mas eu preciso muito que Regina me ajude com um problema seríssimo que surgiu no museu. Preciso de suas habilidades... Com administração.

— Claro, Zelena! Eu... — olhou em volta, resgatando um livro que parecia perdido na prateleira, apoiado sobre outros volumes. — Eu já estava mesmo indo, só precisava encontrar esse livro.

— Ah sim... — a ruiva sorriu, assentindo em sincera compreensão. — Eu percebi para onde você estava indo, querida.

— Bom, Zelena, você parecia estar tão apressada com esse... Assunto do museu ao ponto de não poder esperar pelo anoitecer. — Regina limpou a garganta e aprumou os ombros. Ninguém, ou pelo menos nenhum humano, diria que ela estava no mais alto grau de excitação há poucos minutos, mas a ruiva podia notar as faíscas douradas em seu olhar castanho. — Acredito que seja urgente demais para que possamos perder tempo. Certo?

— Sim, você está certíssima sobre isso. Certíssima. — Zelena prendeu Emma em um singelo abraço que durou poucos segundos antes de capturar a mão de Regina e puxá-la para os fundos da biblioteca.

— Nós nos falamos depois, certo? — a morena teve tempo de gritar, recebendo um largo sorriso como resposta.

— Eu não pensarei em outra coisa. — a loira sussurrou, mas não baixo o suficiente para que pudesse fugir dos ouvidos felinos de Regina.

— Você pode começar a me explicar o que, pela Deusa, está acontecendo? — a morena esbravejou, tentando acompanhar os passos apressados da irmã enquanto sua mão desistia de resistir ao aperto firme que, ela podia jurar, quebraria seus dedos se Zelena não se controlasse.

— Um espírito. — a ruiva sussurrou antes de chegarem às salas inferiores da biblioteca. — Um espírito conseguiu burlar meu feitiço.

— Mas como isso é possível, Zelena? Nós selamos com sangue. O meu sangue! — Regina se concentrou ao seu redor, só então se dando conta do frio estranho que as rondava.

— Está sentindo, não é? Eu também quase não acreditei, posso jurar a você. Minha cabeça estava tão cheia e sinceramente não tive a melhor noite de sono, mas cheguei ao museu e vi esse homem de pé no corredor do meu escritório. Por um segundo, Regina, eu pensei que fosse alguém normal. Uma pessoa perdida por ali, às vezes acontece. Mas ele sumiu. Então, eu me dei conta de que não, não podia ser alguém normal. Suas feições eram tão, tão pálidas. Depois, aconteceu de novo em meu escritório. Eu o senti tão próximo. É um espírito do Primeiro Quadrante, posso afirmar com certeza. — a Bruxa atropelava suas próprias palavras enquanto tentava explicar tudo o que havia acontecido. O olhar de Regina era atento e curioso, tão curioso quanto o de Zelena e, por isso, a mais velha sabia que precisava da irmã e somente dela.

— Se é do Primeiro Quadrante, então ele pode estar preso aqui. Eu sinto... — a morena fechou os olhos e respirou fundo. Um arrepio intenso lhe atravessou, fazendo com que voltasse a si. — Sinto confusão, perda, dor. Provavelmente uma vida interrompida por algo traumático... Um acidente, talvez assassinato. Eu posso ver melhor em minha outra forma.

— Vamos para casa. Não acho que seja inteligente fazer qualquer coisa por aqui, você sabe... Espíritos podem ser tão barulhentos. — a ruiva tencionou a retornar para a biblioteca, mas Regina a conteve, direcionando-as a uma porta lateral que as levou até outro corredor e, em seguida, uma saída direto para a floresta. — Você tem essa saída bem aqui durante todo esse tempo e ainda assim dá aquela volta enorme pela cidade?

— Eu também tenho um túnel até o museu. — a morena piscou, fazendo com que a irmã abrisse a boca em completo choque.

— Tem ideia de que eu corri até à biblioteca? Eu estou usando saltos, Regina! Tive que parar para cumprimentar as pessoas e isso me atrasou tanto!

— Bom, eu fico feliz que tenha se atrasado um pouco. Você atrapalharia ainda mais se tivesse chegado mais cedo. — a morena se abaixou, descalçando os sapatos para que os pés pudessem tocar a terra. Geralmente, Regina não tinha problemas em cruzar as raízes com seus saltos altos demais, mas, hoje, ela apreciaria o toque da natureza.

— Hmmm, sim! Como eu pude me esquecer daquela belíssima cena pintada por Da Vinci? — a mais velha levou a mão ao peito, fingindo surpresa enquanto, teatralmente, se recostava ao tronco de uma árvore, encenando fraqueza. — Uma pobre humana apaixonada e uma feroz Bruxa desbravando seus mais intensos desejos enquanto são rodeadas por romances históricos... Dane-se, nem Da Vinci poderia pensar em algo tão criativo. — aprumou-se, correndo para alcançar a irmã que, propositalmente, deixara-a para trás. — Regina, eu consigo ouvir seus pensamentos e eles são todos sobre o hálito quente de Emma tocando seu rosto... Também são sobre me matar e esquartejar meu corpo. Não acho que seja uma boa ideia me enterrar na floresta e, não, você não seria capaz de me queimar viva.

— Eu tenho dúvidas reais sobre isso. — a morena se limitou a responder. Seu tom era firme, mas Zelena a conhecia bem demais. — Ela é tão intensa. — suspirou. — Não é como se eu fosse uma virgem pura e emocionada, mas...

— Definitivamente nem um pouco como uma virgem pura e emocionada. — salientou.

Mas... — Regina aumentou o tom, vendo a irmã indicar para que continuasse. — Emma é diferente. Zelena, você me conhece durante toda a minha vida. Eu sempre amei o jogo que é a sedução. Todas as pessoas com quem me envolvi, elas sempre eram tão rendidas e ansiosas... Eu adorava isso. Adorava o desejo tão despudorado e a volúpia incontida. Céus, a luxúria... Tudo isso me alimentava tanto. Com Emma não é diferente, acredite. Não no que tange o desejo, a volúpia e a luxuria. Realmente não. Ela me deseja tanto que meu corpo quase dói ao sentir aquela energia atrativa.

— E o que há de errado, então? — Zelena interrompeu seus passos, encarando o rosto confuso com sinceridade. Ela podia apenas ouvir os pensamentos da irmã que, decerto, eram mais claros que suas próprias palavras. No entanto, existia um significado importante no verbalizar. Ouvir as palavras de Regina era o reforço de que ela confiava em Zelena como sua confidente, como sempre fora. A realização daquilo fez uma pontada no coração da Bruxa lembrá-la da noite insone.

— Eu não quero ter de mandá-la embora. — a honestidade de Regina fez com que a ruiva arregalasse os olhos em surpresa genuína. Não que não soubesse daquilo, ela sabia. Sabia há mais tempo do que a própria Regina. Mas, ainda assim, ver a irmã ser tão honesta a cerca de seus próprios anseios fez com que a ruiva se questionasse mais uma vez sobre a curiosa história que estava sendo escrita diante de seus olhos.

E que a Deusa tivesse piedade do coração de Regina.

— Regina, eu sei que as coisas podem parecer confusas, ainda mais com vovó nos sufocando o tempo todo com seus próprios medos incompreensíveis. Isso pode soar confuso, mas ser uma Bruxa não te impede de, as vezes, simplesmente ser humana. Você pode aceitar seus sentimentos confusos e pode aceitar seu desejo de permanência. Não existe uma regra para isso e, se existe, talvez seja a hora de revermos. Não é de sua natureza colocar preocupações à frente do desejo, mas se Emma está a levando a isso... Ela deve ser muito mais do que um belo corpo com coxas definidas.

— Oh Deusa, ela é. — a morena sorriu, resgatando a mão da irmã em um afago carinhoso. — Agora, vamos resolver a situação do seu novo amigo. Pelo o que me contou, eu tenho uma teoria. Não do que foi feito para ultrapassar a barreira de seu feitiço, mas do motivo de estar tão inconstante. Acredito que embora ele tenha encontrado essa brecha, a magia ainda o está mantendo do lado de fora, como se ele conseguisse enfiar a cabeça na fresta da porta, mas não passar com todo o corpo. Nós vamos precisar retirar o feitiço para entender o que está acontecendo.

— Então precisamos ir ao lago. — a ruiva afirmou, recebendo a confirmação da irmã. — Vamos precisar reverter todo o processo.

— A chave que tranca a porta é a mesma que a abre. — Regina cruzou uma bela cortina verde de incríveis trepadeiras, as folhas lhe tocaram o rosto e uma singela sensação de paz a atravessou. A natureza era a sua casa, mais do que qualquer teto artificial.

As irmãs seguiram juntas, compartilhando de um silêncio confortável. A ausência da conversa não era um problema para elas, nunca fora. Regina repassava em sua mente todos os passos do feitiço feito há anos enquanto Zelena ouvia seus pensamentos e acrescentava um detalhe ou dois. Foi a ruiva quem o criou a partir de sua própria necessidade, mas não poderia lançá-lo sozinha. Ela não somente precisava da ajuda da irmã, como também precisava do sangue felino que corria em suas veias. Gatos são seres místicos, essa é uma verdade popularmente conhecida, ainda que, na maioria das vezes, interpretada de forma errônea. Esses animais, tão incríveis em suas existências, enxergavam para além do véu que cobre os mundos. Enxergavam seres que estavam além das visões humanas e, muitas vezes, longe até da visão das Bruxas. Fizeram aquilo juntas, como sempre faziam a maioria das coisas. Eram duas partes de um único coração e, ainda que a parte física não fosse verdade, suas almas sempre se sentiram assim.

— Está sentindo a presença dele aqui? — a morena perguntou à irmã quando o belo lago se apresentou às duas.

— Não, não agora. Não sei se a magia ricocheteou a intromissão de alguma forma e o feitiço se intensificou, mas não há nada. Pode chamar nosso amigo peludinho? — empurrou o braço da irmã, recebendo um revirar de olhos como resposta.

Regina continuou andando para próximo do lago, mas apenas mais um único passo foi dado como mulher antes que seu corpo se curvasse, perdendo-se dentro do vestido que usava. Suas orelhas se tornaram pontudas e uma longa cauda nasceu. O pelo negro se espalhou por seu corpo e ela precisou se ajeitar em adaptação à nova forma. Zelena observou quando a gata correu em direção a algo que não era visto por ela. Rodeou seu alvo, senti-o como podia. Afastou-se, mas continuo a observar o que, para a ruiva, era apenas o vazio. Antes que Regina voltasse ao seu corpo de mulher, a ruiva conjurou um manto, certa de que a irmã ignoraria o vestido deixado para trás.

— Homem, mais ou menos 1,92 de altura, parece ainda carregar alguns ferimentos da carne à forma espiritual. Ele está preso, obviamente. Está aqui. Essa é a energia dele. — a morena ofereceu sua mão à outra que a aceitou de bom grado enquanto colhia o maior número de informações que podia. — Não há nada de diferente, na verdade. É apenas um espírito como qualquer outro. Nada que justifique ter rompido sua barreira.

— Isso é... Curioso. — sorriu sem graça. — Para dizer o mínimo.

— Vamos ao lago. — o manto estendido foi aceito com desagrado, mas Zelena cultivava um prazer único em implicar com a nudez de Regina, ainda que isso não fosse nem de longe um problema para ela.

O cabelo ruivo de Zelena estava preso, mas ela tratou de soltá-lo antes de entrar ao lado. Aproveitou também para deixar suas roupas de lado, pois elas não seriam necessárias naquele momento e, a respeito disso, recebeu mais um olhar irritado da irmã quando o manto foi largado junto a terra. A água estava gelada, mas isso não a incomodou. A certo ponto, serviu para anestesiar seus músculos cansados pela tensão. Sabia que o uso da magia a ajudaria, sempre ajudava. Não somente com seu problema em questão, mas com todos os outros. Todos os seus conflitos, todas as suas dores. A magia era o melhor remédio que a Deusa havia lhe dado e servir a ela era seu propósito como serva divina.

— Zel, talvez não seja necessário quebrar o seu feitiço... Eu imagino que, já que ele está aqui, você possa se desdobrar até lá e vê-lo como eu vejo.

— Tem certeza de que isso pode funcionar? — ela aceitou a mão estendida por Regina enquanto as duas caminhavam para o meio do lago.

— Na pior das hipóteses, você se afoga. — deu de ombros.

— Eu estava mesmo precisando de algo assim para animar a minha vida, você sabe. — a água tocava o meio de sua barriga quando ela se aproximou da irmã. Não temia o que seria feito, confiava demais para isso, mas estava ansiosa por pura curiosidade de entender o que estava acontecendo.

— Relaxe. — Regina sussurrou antes de erguer suas mãos para o céu acinzentado.

Os olhos da Bruxa se fecharam e, ao se abrirem, estavam completamente brancos. Ela afundou sua mão direita na água cristalina do lago e a levantou em um giro certo, fazendo com que poderosas gotas seguissem seu movimento, formando um círculo entorno de seus corpos. As gotas não voltaram a cair e pairavam no ar, tão firmes quanto as raízes fortes de uma árvore antiga. Foi como se o tempo desacelerasse, criando uma linha diferente dentro de seus próprios segundos sempre tão certeiros. Os olhos de Regina se fecharam mais uma vez para invocar aquela secreta parte de si, a interseção entre a mulher e o gato que habitavam seu corpo, o animal com quem dividia sua alma — cada fragmento dela. Ainda era mulher, mas foi seu olhar felino que retornou, refletindo a clareza do céu. Tão calmas quanto o movimento das folhas que a rodeavam, as mãos da Bruxa tocaram as costas da irmã, fazendo com que ela se curvasse e seus cabelos mergulhassem as águas. O olhar claro de Zelena era calmo, paciente e confiante enquanto aguardava. A morena espalmou sua mão esquerda, tocando-a com o indicador e fazendo com que um profundo corte rompesse sua carne. O sangue vívido escorreu por sua pele, mas ela o conteve. Aproximando-se do rosto da ruiva, permitiu que uma gota do líquido vermelho pingasse em cada um de seus olhos.

Então, Regina a empurrou contra a superfície e o corpo de Zelena imergiu as águas cristalinas.

Apné sà mene. — a voz rouca de Regina rompeu o silêncio, invocando o isolamento necessário. — venit spiritus!

O corpo de Zelena emergiu em um forte espasmo para afundar novamente. Dessa vez, ainda mais profundo. A irmã a amparou, impedindo que fosse levada longe demais, mas não a trouxe de volta à superfície. Do outro lado do lago, o espírito de Zelena se levantou, saindo das águas.

— Então, você é meu visitante misterioso. — ela chamou a atenção do homem que observava com atenção a cena que se passava dentro do lago. Se pudesse, ele teria se assustado, mas apenas se virou para Zelena, tão apático quanto a palavra poderia descrever.

— Por que sempre vejo você? Por que sempre volto para você quando nem ao menos sei quem você é? — suas palavras roucas acentuavam a perda do hábito de usá-las. Ele ainda parecia fraco em sua imagem, mas a ruiva lhe ofereceu uma mão, estabilizando seu espírito conflituoso.

— Porque eu sou uma Bruxa e você está morto. Você é um espírito confuso que não sabe para onde caminhar... Você está perdido. Está preso. — respirou fundo, organizando as informações que a acertavam como flechas, mas tão incertas quanto uma chuva de verão, pois sua magia vibrava diferente à forma espiritual. — Quem deixou para trás?

— Minha namorada... Ela estava grávida. Uma menininha. Teria o nome da minha mãe. — ele levou a mão ao peito quando a blusa branca foi manchada de sangue. — Foi um assalto. Eu teria dado tudo, mas precisava do dinheiro. Precisava para o bebê. Ele atirou. Eu tentei, eu tentei tanto, mas... Não me lembro do que aconteceu, eu apenas estava aqui. Estava fraco, tão fraco que mal podia me levantar. Mal tinha uma forma. Quando pude, jamais consegui chegar até ela... Apenas chegava até você.

— Oh, merda. — gemeu, só então entendo o que havia acontecido. A compreensão ardeu em seus olhos como o sol de um dia quente. — Era a sua filha. O bebê que ajudei a nascer... Era sua filha.

— Eu preciso voltar para ela! Preciso vê-la! — ele tentou gritar, mas parecia não conseguir e as palavras ansiosas saiam em um tom confuso. Mesmo assim, Zelena entendeu sua urgência, embora o que precisava dizer a seguir não fosse tão agradável.

— Você nunca vai voltar para ela, John. — usou o nome que brilhava em sua mente. O nome que ele costumava ter. — Eu entendo que você a ama, mas jamais poderá voltar para ela. Não desse jeito, não como pai. Essa não é mais a sua missão.

— Mas eu...

— Não queria deixá-la, eu sei. Não foi sua culpa. Não foi sua decisão. Você queria estar com ela, queria pegá-la em seus braços e cuidar de todas as suas aflições... Você ainda quer. — suspirou em pesar. — Mas não é mais a sua missão, realmente. — ela estendeu a mão ao homem. — Venha comigo.

John aceitou a oferta sem perguntar o que aquilo significava e Zelena sabia que sua confusão entre passado e presente nublava qualquer questionamento claro. Deseja reverter o irreversível e, a Bruxa entendia, aquela dor o torturaria durante milénios incontáveis se não fosse deixada. Ela faria o possível, mas, aprendera há muito tempo, não era sua escolha. Enquanto a missão de John já não era ser pai, a missão de Zelena não era sobre libertá-lo. No entanto, ajudaria, ainda que existisse uma série de reprovações espirituais sobre isso.

Caminhar pela floresta em sua forma espiritual era, dentre tantas outras, uma experiência inefável. Olhando por aquela perspectiva tão peculiar, Zelena conseguia enxergar com mais clareza o véu entre os mundos. Ainda que não nitidamente, conseguia capturar os seres de Outro Mundo correndo por ali sem que sua visão fosse, de fato, permitida. Se não tivesse consigo a missão tão emergencial de corrigir seu feito, poderia ficar por horas observando aquele lugar já tão conhecido e, ainda assim, agora tão novo. Mas ela pôde notar com certa dificuldade que as folhas das árvores não dançavam em seu ritmo de costume e a fez lembrar que Regina provavelmente travava uma batalha poderosa com o tempo e os espaços. Não precisava ter pressa, sabia que a irmã era mais do que capaz de manter a magia sobre controle, mas realmente não haveria um longo momento para a contemplação.

Enquanto caminhavam, suas mãos se moveram engenhosas, conhecedoras de suas danças decoradas. A cortina de folhagem verde vívida se abriu, indicando uma trilha mais estreita, formada por belos arbustos alaranjados. John esticou seus dedos, fechando os olhos quando as folhas tocaram sua existência incerta. O toque que se estabelecia entre os dois era débil, mas se mantinha enquanto andavam lado a lado. Não demorou até que Zelena vislumbrasse a casa que frequentemente invocava em suas visões. Antes que se aproximasse, pôde ouvir o choro inquieto de uma criança recém-nascida que, pouco a pouco, descobre o mundo e suas engenhosidades. A Bruxa imaginava que deveriam ser difíceis as mazelas do desencarne, mas era certa de que mais difícil ainda eram as surpresas do encarne. A surpresa de deixar uma existência tão diferente, tão rica em conhecimentos atemporais, para tomar forma em um mundo que é, por vezes, incompreendido e incompreensível.

Por hábito, a ruiva ordenou que a porta se abrisse, ainda que suas formas não fossem limitadas por barreiras sólidas. A mulher que andava preocupada, de um lado ao outro, com um bebê choroso em seu colo, assustou-se, julgando ser culpa do vento aquele ocorrido. Adiantou-se em trancar a porta, mas logo retornou ao seu caminhar ritmado, sussurrando cantigas infantis aos ouvidos da criança insone. A criança, no entanto, que chorava tão avidamente há poucos segundos, calou-se. Os olhos jovens e tão curiosos se arregalaram em surpresa e, Zelena sabia, eles o fizeram por perceber o imperceptível. Eram os pequenos seres tão inocentes em suas vidas que conseguiam transpor a fenda entre as existências, tão inquebrável para outros humanos. Os olhos atentos os acompanhavam e o choro não voltou a romper enquanto a atenção era ocupada. O fio avermelhado acendeu em seu pescoço ao reconhecer a presença daquela que era dona de sua origem, fazendo com que um brilho azulado se espalhasse pelo corpo da criança. Aquele era o feitiço de Zelena e, por extensão, seu próprio poder. Era aquela proteção colocada que afastou o espírito de um pai ansioso que, embora bem intencionado, era também perturbado e inquieto. A Bruxa prometera no dia do nascimento da criança que de todo mal a protegeria e, ao menos sabia agora, a magia era forte e enviou aquela alma aflita direto para o seu caminho, burlando até mesmo sua própria barreira. Zelena quebrara o feitiço de Zelena e essa era a resposta mais inusitada que poderia esperar.

— Ela pode me ver. Ela sabe que estou aqui. — a voz sussurrada era um desabafo surpreso e ansioso, a Bruxa sabia o que viria a seguir. — Eu ficarei com ela.

— John... Você não pode. — tencionou a apertar a mão do sujeito em um afago compreensivo, esquecendo-se das limitações impostas pela sua forma abstrata. — Ela te vê agora porque ainda é um espírito recém-encarnado, ainda há muito do plano espiritual em sua forma, mas isso se perderá com o tempo, porque é assim como as coisas caminham. Ela veio para uma nova missão e precisa se dedicar a ela, enquanto você precisa caminhar para frente. — a Bruxa andou pelo cômodo, observando as fotografias espalhadas onde o rosto sorridente do homem que um dia John fora se mostrava frequente. — Talvez o seu espírito esteja ligado ao dela num futuro, mas não há certezas sobre isso. A única certeza existente é a de que você se perderá ao longo do tempo se continuar aqui, esse plano já não te cabe. Há um caminho a ser seguido, John. Veja só... — apontou para os retratos. — Ela saberá quem você foi e saberá que você a amou antes mesmo que ela nascesse. Saberá também que foi uma tragédia o que o levou e ela sentirá sua falta. Se você estiver desse modo, preso a carne, jamais poderá estar realmente próximo, mas... Mas se você se permitir ir, então sentirá quando ela chamar por você e poderá vir até sua filha de uma maneira mais pessoal. Você pode visitá-la em sonhos se a Deusa assim permitir e, quando o fizer, poderá falar com ela. Eventualmente, seu espírito estará pronto para retornar em uma nova forma, mas apenas se aceitar a luz da evolução, querido.

O espírito de John parecia perdido, absorto no desconhecido inexplicável. Podia jurar que o assalto acontecera há menos de uma hora, mas sua filha já estava grande. Ele mal podia distinguir o tempo. Zelena sabia que, se pudesse, ele choraria. O desespero em seu interior estava longe de ser latente e ela o sentia como um ferro em brasa preso ao peito. Mas não poderia mentir para ele sobre possibilidades inalcançáveis.

O homem encarou sua filha por um último instante, esticando seus dedos incertos para tocá-la ao rosto, mas o afago jamais aconteceu. Ele insistiu em mais uma tentativa, mas falhou. A ruiva observou de longe o desenrolar de uma triste história e, a Deusa sabe, ela teria intervindo se pudesse. O conhecimento vinha com um preço alto frente à responsabilidade e Zelena aprendera cedo demais que, mesmo com sua forte magia, algumas barreiras não podiam ser cruzadas, sendo da vida e morte a mais impenetrável de todas elas.

— O que eu preciso fazer? — o questionamento incerto foi acompanhado de um andar vacilante, mas Bruxa se adiantou em oferecer sua mão.

Os dois retornaram a floresta, mas, dessa vez, a trilha que os levou era quente, um calor improvável para o microclima que os abrigava. Salamandras corriam entre seus pés e, céus, ela queria tanto poder aproveitar aquela fenda entre os mundos para observar a beleza das existências, mas tinha uma missão clara em sua mente. Oferecia a John uma passagem, mas seria a decisão dele sobre seguir ou não. Ela apenas poderia ajudar, mas não decidir por ele. O vento ainda dançava vagarosamente entorno dos dois espíritos, diminuindo sua velocidade ao tempo em que se aproximavam do lago onde Regina estava. A ruiva esticou sua mão, movendo seus dedos em uma dança lenta e convidativa. Demorou apenas um segundo até que o ar parecesse atraído por seu chamado, bailando em sua direção.

Escute-me, Grande Mãe. — as palavras escorregaram pelos lábios da Bruxa, misturando-se a leveza do ar.

Foram três os grandes feixes luminosos que brilharam na floresta que estava à frente deles e, desses feixes, formaram-se três corpos luminosos, sem forma definida. Eles se aproximaram, estendendo as mãos em um chamado convidativo.

— Eles vão te guiar. — a Bruxa encarou John, sentindo seu coração, agora distante, apertar-se. — John... Eu cuidarei dela. Eu prometo a você.

— Eu confio que vá. — o homem assentiu. Ela podia ver que sua decisão ainda não fora tomada, mas ele o fez no espaço de um instante. Não olhou para trás ou hesitou.

Sua mão se desprendeu de Zelena e ele caminhou. Conforme o fazia, sua forma incerta se tornava reluzente, tanto quanto as que o aguardavam. Foi um abraço acolhedor o oferecido pelas três formas luminosas que abrigaram John na passagem por sua nova missão e logo, já não estavam mais na frente de Zelena.

O corpo da ruiva emergiu violentamente, sendo amparado pelos braços firmes da morena. Regina precisou piscar algumas vezes até que sua pupila vertical tomasse a forma arredondada e o dourado rútilo fosse substituído pelo acastanhado. As duas irmãs se encararam por longos segundos, adaptando-se ao afastamento do encanto que, aos poucos, retirava-se. Então, as folhas das árvores puderam dançar em seus próprios ritmos. Zelena encarou seus braços e tocou seu próprio corpo, voltando sua atenção para as mãos logo em seguida.

— Oh céus, por favor, não me diga que você não está conferindo se perdeu algum membro. — a morena bufou, impulsionando seu corpo para trás e deixando que boiasse pela água gelada.

— Nunca se sabe o que pode ficar para trás num desdobramento espiritual. — ela se alongou, deixando que seu espírito se adaptasse a forma de sua existência corpórea.

— Conseguiu resolver sua questão? — Regina mergulhou profundamente, emergindo ao lado da irmã.

— Sim, eu consegui. Queria poder fazer mais, mas... Não é uma escolha. — a ruiva bufou, incerta de seus próprios sentimentos. — Há alguns dias, Granny foi até o museu me pedir por ajuda. No começo, eu pensei que ela queria apenas uma ligação para o hospital ou algo do tipo, mas não era bem isso... Ela queria minha magia.

— Granny? — Regina engasgou com o ar, incrédula. — Granny... Como a Granny? Granny da lanchonete e da pensão?

— A menos que você conheça outra Granny... — revirou os olhos, atentando-se a continuar. — Ela me levou até essa menina e ela estava com dificuldades para dar a luz ao bebê. Eu vi que ele estava virado de um jeito realmente complicado, do tipo que faz com que médicos entrem em um estado emergencial para manter a vida dos dois. A mãe também estava com uma grave hemorragia. Claro, eu estava confusa sobre Granny saber a respeito de nós, porque é óbvio que ela também sabe sobre você, mas não podia colocar isso a frente do que estava acontecendo. Eu ajudei. Eu ajudei para que o bebê nascesse e salvei a vida daquela mulher. Ela não teria sobrevivido, Regina, mesmo que estivesse em um hospital. O sangramento dela era tão grave. Eu dei um colar à criança, embebedado em um feitiço de proteção para que mal algum a afetasse.

— E foi assim que o espírito inquieto chegou até você. — a morena completou, recebendo o assentir de Zelena como confirmação.

— Ele era o pai. — encheu as mãos com a água cristalina do lago, lavando o próprio rosto, como se precisasse do despertar que o ato trazia consigo. — Foi morto em um assalto antes que o bebê nascesse.

— Pela Deusa... — Regina lamentou, sentindo seu peito arder. — Ele seguiu?

— Sim, seguiu. — o sorriso que brotou nos lábios de Zelena seria capaz de iluminar uma cidade inteira. — Graças a Deusa, ele seguiu.

— Eu jamais imaginei que Granny pudesse saber. — o desabafo de Regina fez com que a ruiva voltasse a si, perdendo o riso satisfeito.

— Há muito que não sabemos, Regina, mas, honestamente, não me surpreendeu. Granny está nessa cidade há tanto, tanto tempo. Há mais tempo do que consigo me lembrar e certamente por ser há mais tempo do que existo. Talvez... Talvez tenha existido um tempo em que vovó não fosse reclusa e, além do mais, há Ruby. — ela bateu com os dedos contra a água, fingindo distração para não encarar o olhar malicioso nos olhos da irmã. — Ruby foi embora com a matilha de lobos, pois jurava que Granny não sabia sobre sua natureza selvagem e isso a tornava um risco, mas talvez ela soubesse e apenas escolheu calar, sabe-se a Deusa o porquê.

— Sente falta dela? — a pergunta de Regina fora honesta e nem de longe carregava o ardil aguardado pela ruiva.

— Sinto, as vezes. Éramos mais amigas do que éramos amantes, mas fico feliz em saber que ela está bem.

— Mas eram boas amantes... — lá estava a malícia segredada.

— Éramos ótimas amantes. — a ruiva suspirou, conformada demais para negar obviedades.

— O Beltane está chegando, quem sabe ela não vem para a fogueira?

— Vovó ainda não arrumou uma desculpa para as Bruxas não virem até aqui? Ela se esquiva há pelo menos trinta anos. — caminhou para fora do lago, sendo seguida por sua irmã.

— Nem mesmo a vovó é capaz de agir contra tradições, irmã. Ela nunca nos impediu de ir até a fogueira, mas você sabe que será uma enorme novidade ter as Bruxas em nossa casa. Estou ansiosa. Da última vez, Viviane prometeu me contar algumas lendas mais antigas que ela jura não terem sido documentadas. Mas não entendo porque vovó força esse distanciamento. — a morena aceitou o manto oferecido pela ruiva, enrolando-o envolta do corpo e recolhendo suas roupas largadas após a transmutação.

— Eu viverei toda a eternidade sem compreender o que se passa pela cabeça dela, Regina. — o pesar na voz de Zelena não se escondeu entre as palavras e chamou a atenção da morena. — Sabe o que eu estava pensando? — adiantou-se em mudar o rumo da conversa. — Você irá até Emma no Beltane para celebrar a fertilidade da terra?

— Oh querida... — Regina suspirou, sendo capturada pelos olhos claros. — Não sei se resistirei até o Beltane para celebrar com Emma.

Quando a tarde caiu na Mansão Mills, todas as Bruxas estavam exaustas de seus próprios feitos ao longo daquele dia. Exaustas, sim, mas divinamente satisfeitas. Cassandra ainda era um misto de confusão e felicidade por ter ajudado aquela pobre mulher. Temia não ser capaz de ajudar Marya como prometera fazer, mas era certo que se esforçaria incansavelmente para jamais decepcioná-la. Há tempos não sentia aquilo. A sensação prazerosa de ser útil e esperada por alguém, a sensação de poder ser mais do que era. A Deusa sabia, Cassandra não achava que podia ser alguma coisa. Mas aquele dia, aquele glorioso dia, mudara sua perspectiva. Talvez tivesse mudado, também, o seu coração.

Perpétua carregava um orgulho contido pela filha. Sabia de tudo o que sua cria era capaz, ela mesma ensinara boa parte do que Cassandra conhecia e a educara como uma boa Bruxa, trazendo os ensinamentos que suas ancestrais haviam passado de geração em geração. A filha mais velha sempre fora a mais interessada e dedicada, enquanto Cora julgava qualquer pequeno feito como desnecessário. Detalhes jamais prendiam a sua atenção, ela desejava as grandes manifestações de poder. A Senhora quase se sentia culpada por ser grata pelo momento que vivia. Não ignorava o peso de todas as suas mentiras que ecoavam em torno de si a cada passo, mas agradecia, apesar de tudo. Ela passava o café e assava biscoitos enquanto ouvia a filha assobiar e, céus, há quanto tempo não era abençoada pelo genuíno som da leveza de Cassandra. As duas netas já estavam em casa quando elas retornaram de sua visita ao hospital, mas perguntas não foram feitas a cerca de sua ausência. Muitas coisas estavam erradas e a mais velha sabia disso, mas não conseguia deixar de se orgulhar da forma como criou Regina e Zelena. Eram não só duas Bruxas exemplares, mas dois seres de uma luz tão compreensiva e imponente. Seu coração ardia com a simples possibilidade de perder aquilo, mas ela sabia ser inevitável. Talvez fosse hora de ouvir mais atentamente os avisos de sua filha.

— Vocês não deveriam estar trabalhando como boas adultas? — Cassandra questionou ao ver as sobrinhas cruzarem a cozinha com seus cabelos molhados. — Não acredito que as duas Bruxinhas travessas estão burlando as regras mundanas para nadarem nuas no lago... — ela estreitou os olhos antes de sorrir em cumplicidade. — Por que não me convidaram?

— Oh acredite, não foi nada tão simples. — Zelena confessou, chacoalhando as mãos. — Regina realmente precisou arrancar meu espírito para fora do meu corpo.

— E voltou com todos os membros intactos? — a tia conferiu rapidamente, recebendo um olhar reprovador de Regina. — O quê? Nunca se sabe.

— Vocês são ridículas. — a morena ignorou o gargalhar das duas mulheres enquanto abraçava os ombros da avó e depositava um beijo em seu rosto. — Eu estava com saudades, vovó.

— Eu também, querida. — a mais velha afagou o rosto da neta em um conforto esperado. — Não temos tido muito tempo para nós, não é mesmo?

— Vovó está ocupada demais para suas pobres filhas. — o tom zombeteiro de Zelena fez com que a avó revirasse os olhos, permitindo-se sorrir frente ao drama. — Titia, você não tem ideia do que presenciei hoje.

— Por favor, conte-me tudo. Eu preciso de novas informações para minha vida monótona. — acomodou-se, firmando a xícara de café em suas mãos enquanto aguardava pela sobrinha.

— Zelena, não ouse. — a voz firme de Regina fez com que a ruiva abrisse o maior dos sorrisos. Não havia nada como provocar sua irmã.

— Regina beijou Emma. — segredou em um sussurro fingido.

— Eu não a beijei. — a morena se sentou ao lado da tia que a encarava, forjando incredulidade.

— Você a beijou? — a sobrinha negou com a cabeça, calando-se ao engolir um gole de seu café. — Então você ainda não a beijou!?

— Eu pretendia, mas sua sobrinha me atrapalhou. — Regina bufou.

— Por que, pela Divina Tríplice, você a atrapalhou? — Cassandra se virou para a mais velha, vendo a culpa em seus olhos.

— Não foi intencional, eu juro. — resmungou, levando a mão ao peito para intensificar seu pedido de desculpas.

— Não se atrapalha a caçada de uma Bruxa, Zelena. — a tia reprovou, escondendo o riso em seus lábios. — E definitivamente não se atrapalha a caçada de uma mulher-gata-bruxa.

— Oh sim, Regina definitivamente a olhava como uma presa. Não é como se ela precisasse de muito esforço para conquistar Emma. Tenho para mim que Regina poderia colocar um grande X vermelho em sua armadilha e Emma iria bailando, feliz em ser abatida. Céus, ela quer tanto ser abatida. — a cabeleira ruiva foi tombada para trás em uma cena teatral, enquanto a mulher se abanava exageradamente.

— Eu já estava me esquecendo do quanto você foi infeliz em nos interromper, mas estou grata que tenha me lembrado disso para que eu possa odiá-la por longas horas. — a mais nova fechou o rosto, abrigando-se em sua expressão séria que sempre findava suas discussões com a irmã, mas não seria o bastante para aquela.

— Emma olha para Regina como se estivesse enxergando a própria Deusa. Há tanta admiração e ansiedade... Também há desejo, luxúria e um apetite tão voraz. Você é o copo d’água para uma boca seca. — Zelena se levantou, buscando o bule de café fresco para se servir, mas voltando à mesa quando viu a xícara estendida de sua tia. — Ela anseia por você. Sim, existe uma grande parcela desse anseio que é carnal, mas ela se ludibria com a sua simples presença.

— Ela não está jogando sozinha. — Regina suspirou, rendida. Honesta demais sobre seus próprios sentimentos para negar o inegável.

A Senhora ouvia em silêncio a conversa de suas filhas, sorrindo vez ou outra por uma provocação. Enquanto moldava a massa fresca de biscoitos que seriam assados, ela teve uma visão ou duas sobre cabelos loiros e um rosto sorridente que encarava a face de sua neta. Seria inocente de sua parte sequer supor que poderia manipular o destino e, naquele momento, ela se reprovava pela ingenuidade estúpida. A Deusa não escondeu de seus olhos, nem sequer por um instante, a linha firme que ligava as duas mulheres. Mesmo que a Bruxa não entendesse como ou o porquê, a falta desse entendimento não deveria — e nem poderia — justificar suas decisões precipitadas. Afastar Regina de Emma seria como afastar a lua do céu. Ela poderia obter sucesso em seu feito, mas bastaria uma única brecha do destino para que ela voltasse a brilhar na imensidão negra, pois era aquele o seu lugar. No entanto, ela viu Regina queimar em uma fogueira intensa que estava, a certo modo, ligada a presença de Emma. Desde aquela noite, desde aquela maldita visão, ela não dormira em paz. E como poderia se bastava que fechasse os olhos para ouvir os gritos da neta embebedados pelo calor do fogo inquisitório? Talvez tenha sido desse lugar o nascimento de seu maior erro. O dom de Perpétua era uma benção na mesma medida em que era uma maldição. Isso porque o futuro é tão incerto quanto às folhas de uma árvore cuja ordem do desprendimento é imprevisível. O presente, tal como nossas ações nele, é responsável por escrever as linhas que ainda serão lidas. O vislumbre do futuro, daquilo que ainda está sendo rascunhado pela roda do destino, é sempre uma possibilidade de alteração. Contudo, é também o risco de que, ao tentar alterá-lo, acabe-se provocando o indesejado.

A Senhora pensava agora que suas ações em afastar Regina de Emma podem ter sido exatamente o que colocou sua neta no jogo de sedução não pretendido. Mas não seria ingênua de sequer pensar, agora, que havia outro caminho a ser seguido senão a rendição, pois o coração de Regina já estava tão rendido quanto poderia. Se era o destino visto tão certo quanto a ela mostrado, cabia a Bruxa estar preparada para o inevitável.

E que a Deusa tivesse piedade de seus corações aflitos.

— Regina, não seria gentil de sua parte deixar essa moça em uma situação tão... Rendida. — a mais velha falou, chamando a atenção das filhas. — Sem dar a ela um retorno honesto, claro.

— Como isso funcionava em sua época, vovó? — Zelena questionou, vendo Regina esconder o rosto nas mãos do outro lado da mesa. — O quê? É uma curiosidade genuína.

— Você precisa especificar de qual época está falando, porque se mamãe for contar sobre todas as que viveu, nós ficaremos por longos anos aqui. — Cassandra provocou a mãe, vendo a Senhora enxugar as mãos em um pano de prato bem lavado, antes de se sentar à mesa junto de suas meninas.

— Quando eu tinha a idade de vocês... Isso foi há alguns séculos — ela piscou para a filha em cumplicidade. — A relação das Bruxas com o mundo e com as pessoas era muito diferente. Não éramos tão próximos, o afeto não era uma coisa tão valorizada por nossos Clãs. Você poderia estar com uma mulher ou com um homem, poderia se deitar com um deles numa fogueira de Beltane ou em outra noite da Deusa, mas amá-los não era como uma opção. Obviamente, isso acontecia vez ou outra, mas não era comum. Bruxas sempre foram mais solitárias, realmente. Nenhuma de nós era criada para amar. — limpou a garganta, vendo os três pares de olhos atentos, aguardando que continuasse. — Ao longo dos anos, isso se tornou mais comum. Começamos a ver Bruxas abrindo mão da prática de suas magias para se enquadrarem no que era ideal ao mundo humano. Verdade seja dita, não há nada de extraordinário em ser normal. Entretanto, quando as caçadas se intensificaram, unir-se a humanos foi tido como algo próximo da blasfêmia. Estávamos sendo mortas, afinal. Qualquer envolvimento não colocava em risco apenas uma Bruxa, mas todas as que estavam ligadas a ela através de seu Clã de origem. — permitiu que um sorriso genuíno ganhasse seu rosto quando lembranças felizes cruzaram sua mente. — Mas em todas as épocas, qualquer uma delas, Bruxas sempre foram sedutoras como o fogo. Logo, se você se atraía por um jovem... Ou por uma jovem, — ela capturou a mão de Regina em um afago carinhoso. — Poderia cortejá-lo, beijá-lo sob a luz de uma lua cheia ou levá-lo a um belo jardim de girassóis para observar o pôr do sol enquanto sabia que tudo o que ele desejava observar era seu rosto esculpido pela Deusa. Ninguém te culparia verdadeiramente se um pobre indefeso caísse de amores, porque é de nossa natureza enamorar quem quer que seja, mas não podemos carregar a dívida quando fazem isso de bom grado, antes mesmo que tenhamos a chance de usar nossos... Dons naturais.

Um longo silêncio se instalou entre as mulheres que pareciam, cada uma a sua forma, perdidas em pensamentos distantes. Foi o riso travesso de Cassandra que rompeu a quietude.

— Eu tenho uma ideia.

***

Regina mal podia acreditar no que estava fazendo. Nem sequer teve dois segundos de lucidez para repensar a decisão quando Cassandra colocou em suas mãos um pote cheio de biscoitos assados por Perpétua. Zelena era cúmplice do plano prematuramente arquitetado e foi ela quem impediu a morena de se transmutar e fugir para a mais alta árvore.

Portanto, lá estava ela. Uma Bruxa, caminhando pela floresta enquanto a noite termina sua chegada e, pouco a pouco, toma o controle do céu até que chegue a hora da claridade do dia retornar. Uma Bruxa, calçando louboutins apertados e vestindo sua roupa bem passada enquanto conversa com as árvores através de toques silenciosos. Uma Bruxa, cujos olhos oscilam entre o fúlgido dourado e o castanho enquanto observam a escuridão tomar cada arbusto, folha e flor. Diferentemente de seus passos certos, o seu coração se apertava em batidas duvidosas.

Não era como se Regina não desejasse ardentemente estar perto de Emma.

Ela desejava.

Desejava tanto que por vezes precisava se controlar — e lembrar a si mesma de fazê-lo — para que seu desejo, ardente como as chamas da mais intensa fogueira, não se espalhassem por seu corpo ao ponto de se tornarem reais em suas mãos. Precisava se controlar para não fazer com que os livros ao seu redor flutuassem tanto quanto sua mente quando fugia em direção àquela mulher maldita de olhos esverdeados. Controlava-se quando tudo o que desejava era perder todo e qualquer controle que pudesse existir em torno de si. Residia dentro de Regina uma faísca silenciosa que parecia sentir a presença de Emma. Não seria surpresa ou exagero se dissesse que sentia a presença dela com todo o seu corpo, pois a sentia, verdadeiramente. Mas aquela faísca, minúscula e silenciosa, crescia dentro de si e se alastrava a cada pequeno pedaço despretensiosamente desbravado pela loira. Crescia também o desejo de permitir a Emma o desbravamento por inteiro, cada pequena parte de seu ser estremecendo pela ânsia de ser encontrada, enxergada e tocada. Entretanto, o ser de Regina existia em esferas que a loira jamais poderia encontrar, enxergar ou tocar. Jamais poderia, sequer, considerar a existência. Quando seus pensamentos tocavam aquela ferida incompreensível, ela se agarrava ao agradecimento pela descrença da mulher. A descrença era sua fuga. A descrença de Emma precisava e devia existir. Ela sabia disso.

Então por que seu coração se contorcia à vontade excruciante de se provar real?

Uma Bruxa nunca desejava pela metade. Quando desejava — se desejava — o fazia de todo corpo e alma. O desejo era embebecido pela entrega e pela lubricidade. Existia no ato, seja ele qual for, em toda sua honra e glória.

O que afligia Regina era o desejo — sempre o desejo — exacerbado de que Emma a enxergasse em toda a sua magnitude. Tinha consigo a certeza de que a desmontaria com o simples vislumbre da realidade que a outra, insistentemente, desacreditava. A descrença de Emma, tal como era, tão grande como se reafirmava, fazia com que Regina se sentisse ligeiramente apagada diante daquele olhar.

Mas eram os lábios de Emma que avidamente se arrastaram contra os seus em um toque rápido demais para que uma centelha de sua vontade fosse alimentada. Tocar Emma sem realmente tocá-la era em muito como oferecer palha seca a uma fogueira. E a Deusa sabia, Regina abrigava um incêndio dentro de si.

Por infelicidade — ou não — não só sua carne ansiava pela mulher. A mente da Bruxa se sentia curiosamente alimentada pela fome de saber da outra. Ainda que precisasse censurar toda palavra dita, o brilho que fazia morada nos olhos de Emma ao ouvir Regina era um júbilo inefável. Estar na presença da loira a engrandecia de uma forma prazerosa demais para ser explicada.

Quando o coração de Regina vacilava — se vacilava— era pela certeza de que caso perdesse seu controle, perderia por uma única vez antes que precisasse se despedir de Emma.

O que sentia por ela, em todas as esferas de seu desejo, era grandioso demais para ser tido como simples. Desdobrava-se em camadas de um sentir indizível que a confundia no labirinto de seu próprio eu.

Por isso sabia, tão certo quanto à escuridão da noite, que Emma seria única. Não apenas pelo jeito singular que a desarmara, mas pela certeza de que o peso de sua presença não cabia à realidade conflitante em que vivia.

No segundo após o desaguar de seu desejo mais ardente, ela teria de mandá-la embora.

E no entanto, viver sem tocá-la estava por se tornar uma tortura imensurável

Certamente demorou mais do que o necessário para caminhar pela floresta até a pensão de Granny, aproveitando-se de uma trilha especial que a levava até a porta dos fundos. Ela contornou o cercado, praguejando quando o espinho de uma roseira se prendeu contra sua pele. Respirou fundo, pedindo perdão a flor. Afinal, era ela o invasor e não o contrário. Os livros que carregava em seus braços eram a prova de que ela, no fim das contas, também fora cúmplice daquele plano dito não intencionado. Disse a todos que iria apenas pela insistência, pois, na verdade, estava cansada e precisava de sua cama. Mentira, descaradamente. Tão descaradamente que nem por um segundo sua implicância foi considerada pelas Bruxas. Escapou por um instante enquanto Cassandra revirava a cozinha de Perpétua em busca de uma vasilha para armazenar os biscoitos que haviam acabado de sair do forno. De modo que, agora, lá estava. Encarando, indecisa, a janela que já lhe era familiar, do quarto que também já lhe era familiar. O vento que soprou pelas árvores pareceu como um presente da natureza que estava sendo espectadora de sua confusão. Trouxe diretamente até suas narinas o cheiro que se tornara inconfundível e aguardado. Não precisaria contar com seus dons felinos para senti-lo. Regina se aproveitou das frações dos segundos para apenas inspirar e se aproveitar do frenesi que se espalhava por seu ser ao reconhecimento da presença próxima. Os seus olhos se fecharam e ela os manteve assim pelo o que pareceu um tempo curto demais. Porém o cheiro nada mais era do que a denuncia da proximidade e logo senti-lo de longe já não foi mais o suficiente para seu desejar aflito.

Considerou seguir pela porta da frente, mas optou pela dos fundos por pura ousadia de uma ideia rápida. Vagarosamente, a expectativa tomava frente e ganhava espaço ao imaginar o efeito que, de certo, seria causado na outra mulher. A morena podia visualizar com perfeição o rubor espalhado pelo rosto, a surpresa, o tom enegrecido que parecia domar o olhar esverdeado quando a luxuria lhe provocava a alma. Regina sabia que a provocação era frequente e por isso Emma quase não respirava quando ela estava por perto. Sorriu.

Bastou um feitiço rápido para que a porta se abrisse e ela cuidou para que nenhum barulho grandioso fosse feito. Não era tão tarde, mas pouco desejava encontrar alguém por ali. Seu destino era certo e os ponteiros do relógio andavam juntos a sua impaciência por chegar logo à porta que já lhe era conhecida.

Regina poderia ser uma completa confusão quando segredada somente a sua solidão, mas na presença de Emma, a natureza felina parecia ganhar força ao dominar sua essência e calar qualquer possível hesitação. No silêncio de passos certos, ela era o predador.

Ela podia ouvir o movimento dentro do quarto quando, cuidadosa, bateu com o indicador contra a madeira.

O olhar que a recepcionou era um misto hilário de felicidade e descrença.

— Regina? — a loira deu um passo à frente, olhando com mais atenção. — Oh céus, é mesmo você?

— Sim? — sua sobrancelha se ergueu, acompanhando o riso sarcástico. — Pelo menos desde a última vez que chequei.

— Claro, eu estou sendo estúpida, perdoe-me. — o riso sincero foi quase um desabafo encontrando fuga por seus lábios. — Mas é que eu jamais... Jamais imaginei que você fosse aparecer aqui. — sua boca se abriu em um choque prematuro. — Não que eu esteja dizendo que você não pode vir aqui ou que não deve vir aqui. Você pode ir onde quiser, claro. Você deve vir aqui... Não que você deva vir ao meu quarto, a menos que você queira, é claro... Eu só estou...

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— Surpresa? — Regina sorriu, a diversão quase a tornando grata pela insistência que a levou até ali. — Confusa? — inspirou fundo como se, ao fazê-lo, inspirasse os próprios sentimentos da mulher a sua frente. — Ansiosa? — ela declinou com sua visão, só agora percebendo que Emma vestia nada mais que uma fina camiseta branca e calças de flanela xadrez. — Excitada? — o olhar verde a fisgou, pasmo. Regina podia jurar que Emma desmaiaria a sua frente, mas a loira respirou fundo.

— Eu não poderia negar nenhuma delas. — segredou, refugiando-se ao arrumar desnecessariamente a barra de sua camisa. — Principalmente, estou curiosa para saber o que a trouxe até aqui.

— Eu...

A fala de Regina foi interrompida quando a porta de um dos quartos se abriu, revelando um homem alto que estava pronto a seguir pelas escadas, mas mudou a rota no instante em que reconheceu a bibliotecária.

— Regina! — um sorriso largo se alastrou por seu rosto e ele ansiosamente seguiu até ela.

— Olá Daniel. — cumprimentou, sem retribuir um terço da animação oferecida.

— Há quanto tempo não a vejo. — ele tencionou a abraçá-la, mas conteve diante do olhar sério com que a morena o encarava. O querer pelo toque se transmutou em clara frustração, espalhando-se pelas feições de seu rosto bem barbeado. — Eu tenho te ligado... Muitas vezes, na verdade. Gostaria de conversar com você. Se pudéssemos nos encontrar em qualquer dia, eu estaria a sua disposição.

— Temo que não seja possível, querido. — a postura de Regina enrijeceu, irritada pela interrupção, mas se conteve, consciente do olhar esverdeado que atentamente analisava a situação.

— Henry tem perguntado sobre você. — Daniel tentou, fazendo com que a Bruxa quase sorrisse pelo desespero nítido.

— É engraçado que diga isso porque Henry estava na biblioteca hoje e, veja só, nós nos cumprimentamos e ele não pareceu querer perguntar algo sobre mim. — a morena forçou o sorriso. — Na verdade, Daniel, foi um prazer encontrá-lo, mas eu estou ocupada com a senhorita Swan. — ela se virou para a mulher que ostentava bochechas coradas. Emma assentiu em cumprimento para um Daniel que parecia só agora ter notado a sua presença. — Nós estávamos no meio de uma conversa extremamente interessante e a qual eu estou muito ansiosa para continuar. Espero que entenda.

— Bem, eu... É claro. — o homem ergueu a mão, tencionando a tocar o ombro da morena, mas, novamente, parando antes de fazê-lo. — Eu espero que me ligue.

— Sim, claro. Com toda certeza o farei. — a morena acenou em despedida antes que ele se virasse para seguir pelo corredor. — Então, — bastou um segundo para que sua máscara impassível fosse substituída pelo olhar lascivo que ostentava, como se Daniel nunca a tivesse interrompido. — o que eu estava dizendo?

— Você ia me explicar o motivo de estar aqui. — a loira acompanhou sua mudança de humor e a Bruxa agradeceu aos céus por não acabarem em uma situação desconfortável. — Mas eu estou sentindo um cheiro muito bom de biscoitos e espero verdadeiramente que esse seja o motivo. — ela apontou para a vasilha que Regina carregava.

— E por que eu traria biscoitos para você, senhorita Swan? — indagou, escondendo a vasilha atrás de si como se anulasse sua existência.

— Bem... — Emma cruzou os braços e Regina não se privou de uma análise minuciosa dos músculos tencionados. — Eu apenas tenho esperança sobre isso. — o barulho de passos no andar de baixo chamou a atenção das duas mulheres, fazendo com que a loira se decidisse sobre algo. — Talvez eu devesse te trazer para dentro antes que mais alguém tente te roubar de mim.

A morena nem sequer pensou em hesitar quando a mulher abriu passagem e ofereceu sua mão como um gesto cortês para guia-la até o interior do quarto. O toque breve durou menos que meio segundo, mas fez com que um arrepio de reconhecimento se espalhasse pelo corpo da Bruxa. Ela olhou ao redor, curiosa. Já estivera antes no quarto de Emma e, de certo, o analisara com cuidado, mas nada se comparava a presença desejada. Ela estava lá pela vontade da loira. No quarto de Emma, ao lado de Emma e sendo analisada pelo olhar de Emma. Aquele olhar. Ainda que a loira se esforçasse em esconder a ânsia suplicante que dirigia a ela.

— Imagino que desde que fui convidada aos seus aposentos, — a Bruxa gesticulou indicando o cômodo aconchegante. — seria indelicado da minha parte não oferecer algo em troca de tamanha gentileza.

E havia muito que ela desejava oferecer, pensou.

Ela entregou a vasilha para a mulher que a abriu no mesmo instante, inspirando o cheiro adocicado. Era ridículo que Regina achasse tão bonita a forma cruamente honesta com que a gratidão se espalhou pelo rosto da loira, como se simples biscoitos fossem de fato um grande ato de gentileza. E no entanto, Emma fez parecer que aquilo era sim um grande ato quando capturou a mão da morena em um aperto sincero de agradecimento. Ela se acomodou na cama, amarrotando a colcha perfeitamente esticada, e indicou para que Regina também o fizesse, mas ela optou por puxar a cadeira que estava próxima à escrivaninha, sentando-se de frente para a outra. Um biscoito foi erguido e a loira parecia apreciá-lo como uma grande joia. Ela o levou a boca e seus olhos se fecharam no meio de um inspirar profundo, como se concentrasse cada dose de prazer em sua alma.

— Isso tem gosto de amor. — confessou em um sussurro, como se segredasse parte de seu sentir.

— A minha avó tinha acabado de fazê-los quando sai de casa. — a morena se adiantou em explicar, curiosamente surpresa pelo jeito quase carente com que Emma se dedicava de corpo e alma a cada mordida dada.

— Eu nunca comi algo tão bom. — deu de ombros, sendo arrebatada pela timidez inesperada. — Por favor, não diga a Granny que eu falei isso. Ela ficaria profundamente ofendida.

— Eu posso guardar seu segredo. — fingiu fechar a boca, jogando a chave imaginária para trás. Só então se deu conta dos livros que permaneciam em suas mãos. — Eu te trouxe dois livros. Desde que você tem um gosto especial por poemas, que eu definitivamente aprovo, — ergueu o rosto, aproveitando-se da brecha que as levava diretamente ao acontecimento daquela tarde. Soube, pelo verde escurecido de Emma, que ela não era a única que retornava ao momento compartilhado. — imaginei que talvez pudesse gostar destes aqui. Obviamente já deve conhecê-los e é provável que até já tenha os livros, mas eu queria que tivesse isso de mim. — ofereceu os exemplares que foram logo aceitos pela loira. — Conheci William Blake por volta dos meus quinze anos e há algo em suas palavras que me modificou de um jeito especial e inexplicável.

Ver um mundo em um grão de areia e o paraíso em uma flor selvagem, segurar o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora. — a loira recitou enquanto seus dedos se arrastavam com admiração pela capa do livro. — Há muito nesse poema que me faz pensar em você, realmente. — ela voltou sua atenção para o segundo exemplar. Quando ergueu o rosto, o mais brilhante dos sorrisos se sustentava em seus lábios. — Emily Brontë. Eu amo Emily Brontë.

Saberei conquistar-te apesar de ti mesma. — a voz de Regina saiu rouca, seca pelo desejo preso em sua garganta.

Ambas foram presas na fração dos segundos que se negaram a passar, sendo eles espectadores da ansiedade. As mãos de Emma seguravam firmemente aos livros, como se fossem eles a âncora que a impedia de se lançar ao desejoso precipício. Regina a devorava tão voluptuosamente que roubara de seu alcance toda e qualquer partícula de oxigênio. O coração acelerado parecia insistir em bater cada vez mais forte, capaz de romper a qualquer instante a fibra que o enlaçava ao peito.

— Lembre-se de respirar, Emma. — o tom da morena carregava uma ponta de diversão, mas era, em sua maioria, travesso. Sabia o efeito que provocava e intencionalmente se aproveitava dele. — São edições antigas, mas eu espero que tenha gostado. — ela apontou para os livros, só então permitindo que a loira se recordasse da âncora que a firmava.

— Eu... Regina, eu não sei o que dizer. — virou-se, perdida em algum lugar distante de seus pensamentos. — Isso é mais especial do que você pode imaginar.

— Oh Emma, são apenas livros. Eu imagino que você deva ganhar muitos deles. — arriscou, vendo na fissura das palavras uma oportunidade para invadir sua mente. A Bruxa desejou ter um terço dos dons de sua irmã para entender o motivo da feição tristonha que vislumbrou passar pelo rosto da mulher, ainda que Emma tenha se esforçado para esconder.

— Você se surpreenderia. — o riso sem graça foi dado, apenas como forma de alívio. A loira fitou Regina por um instante e a ela estava pronta para se desculpar pela suposição errônea quando Emma continuou. — Meu pai não era a pessoa mais simpática quando o assunto eram livros, histórias, poemas ou qualquer coisa que incentivasse a imaginação. Ele sempre foi incorruptível nesse aspecto. Sempre fiel à realidade da vida. Sempre tão severo com suas próprias verdades indubitáveis. Esses livros... — ela passou rapidamente as páginas de um deles, inalando o cheiro das folhas. — Eles são um presente para tantas fases de mim. Eu costumava fugir de uma aula ou duas para ir à biblioteca e aproveitar ao máximo, já que nunca conseguia levar os livros para casa. Acho que acabei criando o hábito e é por isso que você me vê quase todos os dias.

— E eu poderia jurar que você ia até lá só para me ver. — a morena cutucou, apenas pelo prazer de ver o sorriso tímido tomar o rosto de Emma, varrendo para longe a tristeza estarrecedora.

— Talvez seja um dos motivos. — ousou, fazendo com que uma expressão levemente desafiadora tomasse o rosto da Bruxa.

— Eu espero que seja o mais prazeroso deles. — ela se acomodou melhor na cadeira, cruzando as pernas parcialmente expostas pela saia. Tardou o movimento, intencionalmente, satisfazendo-se ao perceber que Emma o acompanhava. — Embora seja difícil competir com livros. Talvez, nessas condições, eu aceite estar perdendo.

— Você nem de longe está perdendo. — cantarolou em uma confissão quase inaudível, não contando com os dons felinos de Regina.

A loira se levantou, levando os livros até sua mesa de trabalho. Ela parou por um instante, parecendo incerta sobre o que fazer. Sua indecisão fez com que apertasse as próprias mãos, repetidamente. Decidiu-se, por fim. Ela caminhou até o outro canto do quarto, abrindo uma cumprida cômoda. Precisou se esticar para alcançar o pequeno bloco de anotações, mas, ao fazê-lo, recuou. Gemendo com a dor aguda que a acertou o ombro. A loira quase bradou em surpresa ao sentir as mãos de Regina em sua cintura. A morena alcançou o bloco revestido em couro, entregando-o para a mulher.

— É surpreendente que a altura seja uma grande inimiga pra você. — provocou, recebendo uma forçada expressão de choque.

— Nós não somos inimigas. Apenas brigamos, as vezes. — esclareceu com seriedade, como se falasse sobre um assunto de grande importância. — Não aceitarei críticas vindas de alguém que usa saltos tão altos nos pés e não acha que eles são uma tortura chinesa.

— Bom... Não sou eu quem está sendo derrotada pela altura aqui. — Regina se defendeu, também fingindo seriedade. Ela estava pronta para se sentar novamente quando notou a mão de Emma pressionando o ombro. — Está com dor?

— Oh... Isso? — apontou para a região agora avermelhada por seus apertos bruscos em busca de conforto. — Não é nada demais. Granny precisou de ajuda com algumas prateleiras e uma delas acabou se soltando bem em cima de mim. Acho que foi merecido, porque fui eu que a prendi mal. Já vai melhorar, não é sério.

— Sente-se aqui. — a morena puxou a cadeira onde outrora se acomodara, batendo contra o encosto. — Eu não estou aceitando um “não”.

— Então eu, com certeza, não estou dizendo um “não”. — Emma deixou que seu peso caísse sobre a cadeira, grunhindo em desconforto quando o movimento repuxou seu músculo.

Regina adiou o toque enquanto se ocupava em observar todas as nuances da pele clara. Pequenos sinais se espalhavam ao longo dos ombros de Emma e, pela segunda vez naquela noite, a morena agradeceu por ela vestir uma camiseta tão fina. Não só pelo tecido se assentar tão bem ao corpo da mulher, o que propiciava a mais bela das visões, mas por ser tão simples ao ponto de também permitir uma exposição maior de seu corpo. Por sua vez, o corpo de Regina ardeu. Os seus dedos hesitaram antes de seguir o rumo proposto, apenas pelo prazer de torturar seu próprio âmago inquieto. Quando finalmente tocaram, um suspiro ultrapassou seus lábios em resposta a corrente de energia que a atravessou. Tocar alguém era o mais perto que a Bruxa chegava de ler seus pensamentos, ainda que através do sentir. Sua natureza felina a presenteava com o dom de uma sensibilidade mais aflorada e, por isso, lia com mais facilidade todo fluxo energético trocado.

Tocar Emma era como mergulhar em uma lagoa de superfície calma, mas de profundidade misteriosa.

Permitiu que seus olhos se fechassem enquanto era atingida pelos inúmeros sentimentos vividos pela mulher. Existia ansiedade, curiosidade, inquietação. Tudo isso ao tempo em que também existia conforto, admiração e complacência. Quando seus dedos pressionaram forte, ela foi contemplada pelo desejo. Arfou. Se já era o seu desejo tão resplandecente, o reconhecimento do desejo da outra fez com que sua alma atormentada se revirasse ao reconhecimento. Mas eram os sentires tão complexos e tão diversos que não poderiam optar por algo senão o enlace. E ao enlaçar suas vontades às vontades que sentia fluir da loira, Regina criou dentro de si uma corrente fluída que voltou por seus toques e atingiu a mulher cuja rigidez polida se rompeu ante a correspondência.

Emma arfou.

Regina sorriu.

Não só porque o arfar da outra era a resposta para a troca de energias sentida, mas porque ela compreendia e reconhecia o desassossego luxurioso que não se continha à alma ou às emoções, exigindo do corpo um suspiro que colocasse a fora um terço do conflito interno.

O corpo de Emma voltou a se enrijecer e a Bruxa sabia que era pela surpresa do desbravamento. Ela poderia lidar com aquilo. Conforme sua pele se arrastava pela da outra e seus apertos se tornavam mais firmes a fim de dissipar cada nó de tensão ali instalado, ela dissipava também a armadura contida da loira e não demorou para que o corpo, outrora rijo, desmanchasse ao toque.

Do outro lado, Emma era uma bagunça de sentires tão diversos que não poderia, nem se tentasse dedicadamente, nomear qualquer uma das sensações que a atravessavam. Seria clichê dizer que o contato com a outra mulher exprimia em si o inefável, mas era isso e nada mais. Ser tocada por Regina ultrapassava qualquer noção de prazer que sua mente aflita poderia alcançar. Tinha consciência das mãos delicadas e obstinadas que agiam com cuidado sobre seus ombros, mas a loira a sentia por todo o corpo. Resistiu, desistiu, tentou resistir novamente por pura teimosia de não aceitar o desaguar provável e que, indiscutivelmente, mostrou-se insanável. Por fim, desaguou. E as sensações — sendo tantas — escorreram por sua alma tal qual a mais bela cachoeira. Arfou. Arfaria de novo e mais uma vez. Uma ponta dentro de si se sentia patética por se mostrar tão frágil e entregue, mas poderia, realmente, culpar-se? Poderia, de alguma maneira tola, cobrar de si qualquer dose de resistência quando a mulher que a tocava era aquela que por meses mal saia de seus sonhos e pensamentos?

— Está doendo? — a morena perguntou, apenas pela vontade incessante de ouvir a voz da outra falhar ao respondê-la. Ela sabia que falharia.

— N-não, não, — a garganta seca ardeu e ela a limpou para que suas palavras não parecessem tão pateticamente desmontadas. — está incrível. Eu já não sinto nenhum desconforto.

— Então, — interrompeu seus movimentos, mas manteve as mãos paradas junto à nuca alva, resistente em interromper o contato. — suponho que deva parar agora?

— Apenas se você quiser. — a afirmação carregava tom de súplica, ansiosa pela negativa.

Regina não queria.

Nem de longe desejava se afastar. Seu desejo era, no entanto, o de se unir ainda mais. Desejava que não somente suas mãos tocassem a outra mulher, como também todo canto de sua pele. Desejava a proximidade construída naquela manhã, quando seus lábios hesitantes eram separados por poucos centímetros. Então, ela os findaria. Finalmente, findaria qualquer espaço entre seus corpos e suas almas. O que ela desejava estava tão distante do afastamento quanto o céu estava da terra.

Ousadamente, os seus dedos escorregaram para a parte frontal dos ombros da mulher, traçando linhas por sua clavícula bem marcada. As unhas se arrastaram suavemente pela extensão do pescoço, levando-a de volta para os ombros. Àquele ponto, não era surpresa que a região dolorida já estivesse esquecida, ainda que a Bruxa tenha cuidado logo de início para que o desconforto fosse sanado.

Notou uma pequena cicatriz na nuca da loira, quase escondida pelos fios claros que ali nasciam e pela sombra de sua orelha. Era pequena, pouco mais de três centímetros, mas brilhava em um rosa claro.

— Onde conseguiu isso? — Emma podia jurar que seu coração parou por pelo menos alguns segundos quando o hálito quente da morena foi sentido tão próximo de seu rosto.

— Eu não sei. — sussurrou. Não ousaria falar mais alto, pois sua voz traíra certamente falharia, denunciando seu estado rendido. — É de nascença, acho. Não me lembro de uma época em que não esteve ai, embora eu quase sempre me esqueça dela.

— Parece um pequeno raio. — os pelos loiros se ouriçaram ao sentir o toque do indicador se arrastar pela área sensível. — Isso não deveria estar em sua testa, Harry Potter? — a pergunta arrancou uma gargalhada estridente de Emma, fazendo com que Regina sorrisse junto pela simples felicidade de vê-la assim.

— Não conte a ninguém, mas foi uma forma de protegermos a minha identidade secreta. — falou baixo, como se segredasse uma importante verdade. Os olhos de Emma permaneciam fechados, pois ela não sentia ter forças para abri-los. Nem queria, verdadeiramente. Privava-se de enxergar a cama que estava a sua frente, enquanto sua mente, por si mesma, enxergava para além.

O calor em sua nuca era o indicativo de que Regina se mantinha inclinada e sua boca estava próxima. Próxima demais para que qualquer semente de sanidade encontrasse espaço para germinar em meio ao caos. E ela era nada mais que o caos. Nada mais que uma bagunça profunda e ansiosa. Continha em si a vontade quase dolorosa de se virar para encontrar o castanho cujo seus pensamentos e sonhos já se declararam refém. No entanto, o que cultivavam agora, o momento alimentado pelas duas presenças voluptuosas, nascia de uma natureza mais íntima do que a loira poderia compreender. Ainda que desejasse mais — e ela desejava com ardência — não era capaz de romper o véu que as abrigava naquele cenário. Então, calou-se. Absorvendo cada gota de calor que vibrava do corpo de Regina.

Mais uma vez, naquela noite, seu coração falhou. Algum canto são de sua mente perdida a avisava que, se assim continuasse, ela não sobreviveria até o dia clarear. Contudo, o outro lado, o maior e mais rendido lado, respondeu depressa e sem cessar: aceitaria o desfalecer se isso lhe garantisse mais um segundo, minuto ou hora de tudo o que sentia e fazia, em consequência, seu coração tropeçar.

E ele tropeçou. Tropeçou quando os dedos de Regina se arrastaram por sua pele, rompendo o limite de seus ombros e descendo pela extensão de seus braços que, obedientes, repousavam na cadeira. A quentura de seu hálito ainda tocava a nuca de Emma, próximo demais de sua orelha e provocando o ápice da sensibilidade para que ela pudesse pensar. O abismo gritou por seu nome e ela estava a um passo de cair à sombra de sua resistência falha.

— Por favor, — lamuriou-se, quase suplicante. — não faça isso.

— Por quê, Emma? — a voz rouca se arrastou por seu nome, vagarosamente, como se não tivesse pressa em dizê-lo por completo. Mas disse. E quando o fez, o corpo da loira se contraiu em resposta imediata.

Seria de cruel mentira dizer que Regina não estava se divertindo com aquela situação, mas seria mais mentiroso ainda sequer pensar que não estava tão desmontada quanto a mulher que provocava. Se o corpo de Emma se arrepiava, o de Regina ardia em concordância. As energias que sentia e a atravessavam, outrora tão inéditas, agora pareciam conhecidas por seu ser. Rompiam suas barreiras, desbravavam seus sentires e faziam com que aquela fagulha dentro de si crescesse e crescesse, desejosa por mais.

— Eu quero você. — a loira confessou, refém de suas mais impuras emoções.

— Eu sei. — a Bruxa ardeu em suas palavras. Se Regina acreditasse em demônios e suas perversas intenções, ela diria, sem pestanejar, que algum despertara dentro de si. E o demônio de Regina era obstinado demais para que fosse calado.

O celular de Emma vibrou contra a mesa de madeira, fazendo com que a loira pulasse em uma surpresa desagradável. Praguejou, interna e externamente. Não aguentava mais as interrupções. Não aguentava mais se ver tão perto do abismo e, logo quando decidia por seu salto, ser interrompida. Se acreditasse em uma divindade, diria que estavam tentando insistentemente salvá-la do ato pretendido, talvez pela certeza de que não teria volta. Contudo, Emma não acreditava. Se acreditasse, no entanto, a amaldiçoaria aos quatro ventos.

A morena, em oposição à escritora, acreditava. Acreditava tanto que àquele passo, já tinha quase certeza de que a Deusa se esforçara um terço a mais para separá-la daquela mulher. Normalmente, Regina era apreciadora dos sinais deixados pelo destino, mas, naquele momento, decidiu que os ignoraria. Resmungou para si mesma que a Deusa teria de vir Ela mesma até aquele plano se quisesse a impedir de conseguir o que queria.

E por outro lado, cada interrupção era, indiscutivelmente, um combustível ao desejo que a queimava.

Nenhuma das duas mulheres se moveu, ainda que a tensão, outrora esmagadora, tivesse se dissipado. Não por completo, obviamente. Desconhecia-se o que poderia findar com a tensão que as rodeava, mas havia sido modificada agora. O celular insistiu. Uma, duas, três vezes. A Bruxa sentia a frustração de Emma fluir até a sua própria frustração e por isso se afastou. Já lutava para lidar com a própria. O som da mesa vibrando junto ao aparelho a incomodava e ela podia jurar que seus olhos estavam ligeiramente amarelados pelo instinto de fugir ante a irritação.

Emma se levantou, buscando o aparelho e impedindo que o som estridente continuasse. Se a chamada por si só a estressou, o nome que brilhava na tela fez com que quisesse esmagar o celular em mil pedaços. Não aguentava mais aquele nome. Não aguentava que mesmo longe, ele tivesse o dom de roubá-la a felicidade. Desligou, como já fizera nas outras centenas de vezes. Desta vez, desligou também o aparelho, apenas pela certeza de que não tocaria de forma alguma.

— Eu sinto muito. — precisou confessar, pois realmente sentia.

Sentia muito que a ligação tivesse atrapalhado o momento construído com Regina, mas, principalmente, sentia muito pela frustração que sabia estar aparente em suas próprias feições. Ela sentia muito agora, mas contraposto aos instantes passados, nada do que sentia era bom, nem mesmo chegava perto de ser. Existia, no entanto, uma compreensão inédita no olhar acastanhado e era ela tão receptiva que roubou de Emma qualquer ideia de resistência pretendida.

— Está tudo bem. — a morena tranquilizou.

— Você já foi casada? — a pergunta pegou a Bruxa de surpresa. Ela pretendia ir embora, ainda que quisesse ardentemente continuar naquele quarto, apenas para estar ao lado da mulher. Todavia, ainda que não pudesse comparar a troca intensa de energia que se estabelecia ao toque, ela pôde sentir o conflito doloroso enfrentado pela outra. Sentou-se, desta vez na cama. — Ou algo próximo disso, claro.

— Não, eu nunca fui casada. — ela sorriu brevemente, apenas como um incentivo a outra e a tentativa de atenuar a atmosfera presente. — Ou algo próximo disso.

— Bem, eu fui casada. — a loira caminhou até a cadeira, mas mudou sua decisão pouco depois, decidindo se sentar ao lado de Regina. — Para ser honesta, não foi algo que realmente quis para mim, mas, na época, pareceu certo. Nós nos conhecíamos há muitos anos, praticamente crescemos juntos. Ele trabalhava para o meu pai, então era um homem de confiança. Quando meu pai decidiu pelo casamento, não foi como se eu tivesse muitas escolhas sobre o que aconteceria, mas eu tentei me convencer de que era minha escolha e minha vontade. — o riso fraco se contorceu em seu rosto como uma memória dolorosa. A morena não pode resistir ao impulso de acolher a mão de Emma, ainda que isso a fizesse sentir todas as dores desconhecidas. Ela poderia lidar com aquilo. — Foi um casamento simples, não fomos a uma igreja ou algo parecido, desde que não era a crença de nenhum de nós, muito menos a do meu pai. Tudo durou pouco mais do que cinco anos. — ela se perdeu por um instante, enquanto aceitou o gesto de Regina e não desprendeu suas mãos. Aproximou-se, desenhando pequenos círculos na pele da Bruxa enquanto sua mente se perdia em lembranças escondidas. — É engraçado porque eu definitivamente não sou uma pessoa que acredita em coisas, você sabe disso, mas eu cheguei perto de acreditar no inferno enquanto estive ali. Todos os dias eram uma tortura, mesmo quando ele estava viajando a trabalho. A casa era fria, as minhas coisas não pareciam como minhas, eu não encontrava paz em lugar algum, mesmo que me dedicasse a tentar criá-la. Quando ele estava lá, só era pior. Sua voz, seu rosto, sua presença me incomodavam e eu mal conseguia existir. O meu pai disse a ele que eu tinha o mau hábito de inventar coisas e ele constantemente repetia isso, usando de justificativa para policiar minhas leituras, as coisas que eu assistia ou com quem falava. Eu não sei sobre esse hábito, não me lembro de uma época em que o fiz, mas eles repetiram tanto que eu simplesmente não negava. Então, sim, eu tinha o mau hábito de inventar as coisas e pensei, durante anos, que meus sentimentos ruins eram também uma invenção. — Emma não secou seu rosto quando lágrimas grossas queimaram a sua pele, nem mesmo se envergonhou de chorar.

Diante de toda a ferida exposta, existia um conforto que crescia dentro do seu corpo e ela não poderia explicar sua origem, mas crescia. Crescia e fazia com que ela sentisse que estava tudo bem falar. E ao falar, ela sentia se libertar de fantasmas que se escondiam nas sombras de sua existência. Foi Regina quem secou seu rosto em um gesto tão terno e acolhedor que acabou por libertar mais lágrimas. Não estava acostumada com a compreensão.

— Eu estou com você. — a morena afirmou. — Você pode levar o tempo que precisar. — ela capturou os últimos traços molhados no rosto rosado e pousou sua mão sobre a perna da mulher, dedicando-se a um carinho sincero. Suas mãos se esquentavam ao enviar, através de sua magia, os mais confortáveis sentimentos, munidos pela missão única de fazer com que a loira se sentisse um pouco melhor.

— Eu fazia terapia desde os onze anos. Foi quando minha mãe morreu e meu pai julgou ser necessário. Minha terapeuta parecia compartilhar dessa ideia de que eu criava coisas, de que inventava situações. Eu acreditei nisso durante anos. Eu me puni durante anos por sequer pensar diferente do que eles falavam ou exigiam de mim. Vivia num estado de extrema apatia e achava que isso era necessário. Um dia, ele esqueceu seu cofre aberto. Foi uma situação realmente atípica. Ele recebeu uma ligação e saiu tão, tão desesperado. Eu quase não tive coragem de olhar o que estava lá dentro. Aquela maldita sensação de auto sabotagem não me deixava em paz. Mas eu fiz. Eu olhei. — os dentes da loira rangeram pela força com que os apertou. — Eu encontrei todas as anotações da minha terapeuta. Todas as nossas conversas, absolutamente tudo o que falamos nos últimos meses, estavam lá. Existiam anotações nas bordas, observações de como algo que contei deveria ser respondido ou direcionado, mas não estavam na letra dela... Era a letra do meu pai. Meu pai, manipulando como o que eu sentia deveria ser levado. — o coração de Regina se contorceu e ela precisou respirar fundo para impedir que sua magia correspondesse à revolta instaurada em seu peito. Concentrou-se em enviar boas emoções a Emma. Bons sentimentos para que ela tivesse forças com que lutar com as memórias tortuosas. — Eu me senti horrível, mas não poderia ser mais grata agora. Aquilo rompeu algo dentro de mim. Eu não saberia explicar, mesmo se quisesse ou tentasse. Foi quando comecei a planejar fugir. Demorei mais ou menos quatro meses para ter tudo acertado e foi quando fiz. Nós morávamos em Baltimore. Primeiro fui para Dallas, onde fiquei durante alguns meses. Depois fui para Portland e também passei algum tempo em São Francisco antes de ir para Boston. Eu sentia que ele sabia onde eu estava, então acabava indo de um lado ao outro, mas tive a certeza quando recebi um envelope com os papéis do divórcio já assinados. Ele sabia onde eu estava, realmente sabia. Todo aquele tempo. Eu nunca entendi o motivo de ter me deixado ir ou de ter me libertado do casamento. Durante muito tempo, eu vivi com medo de que ele simplesmente aparecesse, mas não aconteceu. Então, quando vim para cá, ele começou a me ligar, mas eu nunca atendi. Não quero ouvi-lo ou vê-lo. — bufou, dando de ombros. — Na verdade, eu adoraria me esquecer de boa parte de tudo.

— Eu poderia sugerir um feitiço para a memória, mas eles sempre tão complicados e incertos. — a morena confessou, sincera. Não se deu conta do que disse até que Emma a olhasse com um sorriso divertido, abrigada pela descrença. Ela sorriu junto para reforçar a ideia de que havia sido apenas uma brincadeira.

O sentimento de revolta que se alastrava dentro de Regina era perigoso, mas ela não podia resistir ao ouvir coisas tão tristes. Principalmente se lágrimas enchiam aqueles olhos que lhe eram tão importantes. Sua vontade era caçar aquele homem, nem que isso levasse todas as suas seis vidas, apenas para garantir que Emma jamais voltasse a ser perturbada por ele.

E ela era capaz de fazê-lo.

— Eu provavelmente fui um grande infortúnio em sua noite. Desculpe-me, de verdade. Eu só comecei a falar e a falar... Nunca falei realmente sobre isso e, céus, eu me sinto dez quilos mais leve. — flexionou os braços, como se adequasse a própria forma, sem jamais soltar o aperto firme na mão da morena. — Tenho certeza de que não venho até aqui para isso, eu realmente sinto muito.

— Eu vim até aqui por você. Unicamente por você. — a Bruxa ergueu a mão, abrigando o rosto tímido em uma concha aquecida. — Nem em um milhão de eras você conseguiria ser um infortúnio, Emma, nem mesmo se tentasse. — os lábios quentes se esparramaram pela bochecha da loira, antes que Regina a abrigasse no mais sincero dos abraços. Desejava, agora, absorver para si toda a dor de Emma, mas sabia ser impossível. Havia tanto que queria perguntar, mas sabia não ser o momento. Não era o que a loira precisava.

Foi no silêncio do abraço compartilhado que Regina teve a certeza de que seu desejo não era e jamais poderia ser puramente sobre o corpo. Não com ela. Não com Emma. Se há minutos a sua alma ardia na vontade incessante de dominá-la pelo prazer, agora, ardia por abrigá-la e protegê-la. Ardia pelo desejo de compreender quantas eram as dores que moldavam a natureza da mulher que, sem resistências, aceitava o acolhimento de seus braços.

— A minha avó sempre diz que não há nada que não seja curado por um pouco de doce. — sem soltar do laço compartilhado, ela alcançou a vasilha, pegando um biscoito. — Ela também diz que não há nada que não seja curado por um pouco de amor. Então, desde que você disse que eles têm gosto de amor, imagino que seja a combinação perfeita.

— Eu não poderia discordar. — o biscoito ofertado foi aceito de bom grado e as feições tristes foram substituídas pela leveza. Regina usava muito da sua magia para oferecer luz a Emma e o faria enquanto não tivesse certeza de que conseguira afastar o máximo possível da dor sentida. As suas mãos estavam quentes pelo poder e ela as esfregou contra a mão fria da loira, que ainda mantinha segura a sua. — Obrigada por ter me escutado. Obrigada por ter me deixado falar. Eu me sinto mais leve, de verdade.

— Sempre que você precisar. — ela viu os olhos da mulher descerem por seu corpo, pousando na altura de seu busto. Segurou um comentário malicioso sobre aquilo, mas o questionamento que recebeu a pegou de surpresa.

— Onde está o seu cordão? Você costumava usá-lo todos os dias, mas não o vejo há algum tempo. — a morena piscou rapidamente, incerta sobre o que responder.

— Zelena quebrou. — revelou, não sendo de todo uma mentira. — É interessante saber que costuma observar tanto essa região do meu corpo ao ponto de reparar isso, Emma. — provocou, afugentando-se de qualquer outra pergunta. Soube que funcionara ao ver o rubor nascer nas bochechas claras.

— Eu tenho plena certeza de que ninguém me culparia por isso. — a resposta igualmente provocativa surpreendeu a Bruxa. — Você é uma ótima pessoa para se observar. — o comentário pareceu acender algo dentro de Emma e ela se levantou, rompendo o toque entre as mãos que fora até agora preservado. Ela foi até a cadeira, recuperando o pequeno livro de couro. — Eu não menti quando disse que os livros foram um presente muito importante, Regina. Eles foram mais do que eu jamais poderia esperar. Desde que me deu algo de você, eu quero que tenha algo de mim. — entregou-o as mãos da morena que, curiosa, estava pronta para folheá-lo quando foi impedida. — Veja... Veja quando estiver em casa. Por favor.

— Posso concordar com isso. — a curiosidade em seu peito se agitou, alimentada pelo impedimento. Só então se deu conta, olhando rapidamente pela janela, de que a lua já fizera grande parte de sua volta no céu. — Na verdade, eu preciso ir. Já está tarde.

— Eu posso te levar até a sua casa. — a loira tencionou a levantar, mas Regina a conteve.

— Não há necessidade, não se preocupe. Eu consigo chegar em menos de dez minutos e, além disso, a noite está bela demais para ser perdida.

Emma quis discordar. Ela quis pedir que Regina ficasse. Quis dizer que mal notara o correr dos ponteiros, pois pouco se importava com qualquer coisa quando estava em sua presença. E até mesmo quando não estava, era a morena quem domava os seus pensamentos. Eram seus olhos acastanhados que vigiavam seus sonhos.

Nada disse.

Sabia também que precisava de um momento de solidão para lidar com o turbilhão de sentires que a atravessara ao longo daquelas horas. Pensando por eles, o tempo pareceu ainda mais curto para que tivesse vivido tanto.

— Te vejo amanhã? — perguntou, apenas pela necessidade da confirmação. Passaria pela biblioteca, claro que sim. Era o seu destino de todos os dias e a motivação estava longe de serem apenas os livros.

— Eu esperarei por você.

Regina se inclinou para o abraço incerto, mas que se tornou certeiro quando a loira se chocou ao seu corpo no meio do movimento. Ambas buscaram uma pela outra, num último contato que conservasse pelo resto da noite a sensação de estarem tão perto. Tinham caminhado por uma trilha curiosa de intimidade e reconhecimento. Ainda que as lembranças de Emma fossem dolorosas, uma parte grande de si se sentiu feliz ao compartilhar. Principalmente por ter compartilhado com Regina. Os olhos castanhos agora a encaravam com um entendimento a mais e isso a reconfortava.

Foi com resistência que a Bruxa se separou, mantendo suas mãos ligadas por um instante a mais. Ela deixou o quarto, voltando-se contra a porta de madeira e sussurrando um poderoso feitiço para o sono. Não poderia livrar a loira de todas as suas memórias sofridas, mas poderia garantir uma boa noite de descanso e a Deusa trabalharia pelo resto. Os seus passos eram calmos e, conforme a afastavam da inebriante energia da loira, os seus conflitos retornavam, ansiosos para serem ouvidos.

Se Emma se sentia reconfortada pelo conhecimento mostrado nos olhos castanhos, Regina sofria pelo oposto. A loira, sem saber, tocara numa ferida aberta que sangrava, queimada pela maldita fagulha insistente. A intimidade construída naquela revelação fez com que a Bruxa se aproximasse ainda mais, como se já não estivesse rendida o bastante por aquela maldita mulher. Ao tempo em que seu peito doía por ter sempre que dosar suas verdades. Nunca realmente se importou sobre aquilo, até agora. Até ser abatida pelo desejo — mais um deles — de ser enxergada por Emma.

— Regina. — ela estava prestes a sair pela porta dos fundos quando ouviu o chamado, levando um segundo para reconhecer a voz.

— Granny. — sorriu sincera, sabendo que a senhora reconhecia sua natureza. Não olhava somente para Regina, olhava para a Bruxa.

— Você veio por Emma? — as feições surpresas da jovem mulher fizeram com que a mais velha se divertisse.

— Sim, mas já estou indo embora. Precisa de algo? — questionou, observando atentamente quando Granny se aproximou de seu rosto.

— Ela gosta de você. Não faça com que ela caía de amores por sua natureza, menina. — a senhora declarou, levando a mão até o peito em pesar. — Não destrua aquela mulher.

— Eu não poderia. — a Bruxa inspirou fundo, mantendo seus ombros eretos e imponentes. Estava pronta para ir embora, deixando a mais velha para trás, mas foi pega pela constatação que escapou por suas palavras. — Não sem me destruir.

Notas finais
Eu sei que algumas informações podem ser confusas e estou sempre aberta a qualquer dúvida. Obrigada por ler ♥ E que a Deusa abençoe a cada um de vocês para ter resistência nesses tempos tão difíceis e tempestuosos.