Shiver
91 Capítulo 91
Notas iniciais
Diferente do ambiente suntuoso, mas sério, da sala de jantar que dividia com seu irmão, Alexis recebia suas damas em uma sala espaçosa com mesas baixas e sofás confortáveis, mas também com um tapete grosso cobrindo o chão de pedras e almofadas macias espalhadas sobre ele. Algo de divertido na cena inteira, mas também um pouco perigoso, um pouco eletrizante, e não menos afiado; haviam passado horas jogando cartas e conversando, os assuntos variando de rumores sussurrados sobre os nobres da corte de Galbatorix à detalhes confessados das próprias damas de Alexis, e Selena havia até mesmo se descoberto confiante o suficiente para participar, principalmente pela segurança da presença de Morzan ao seu lado.
Não era nem de longe a jogadora mais habilidosa ali, mas não era das piores tampouco, e se dispusera até mesmo a entrar nas apostas, arriscando perder — e realmente perdendo — algumas de suas joias menos valiosas, apenas para que as reconquistasse em seguida, não sem a ajuda de olhares pontuais muito convenientes de Morzan em sua direção. Alexis percebera a comunicação entre eles, Selena acreditava, e só achara graça, sem realmente comentar a respeito.
Algumas horas mais tarde, e as damas de Alexis haviam se dividido em grupos menores, mais confortáveis, conversando entre si em voz baixa. Algumas haviam até mesmo adormecido nos cantos dos sofás, ou apoiadas umas às outras, e de fato a noite já estava alta e muito escura do outro lado das janelas; lá dentro, eles haviam descido para o chão, sentados sobre as almofadas, e Morzan parou um criado para pedir que deixasse por perto a bandeja de prata com tortinhas diminutas.
“Você vai gostar dessas,” ele disse, escolhendo uma com facilidade, a bandeja abandonada sobre uma almofada qualquer, e Selena a aceitou de bom grado.
O doce era pequeno o suficiente para que ela o segurasse com facilidade entre o polegar e o indicador; a massa delicada se desfez em sua boca, e Selena notou primeiro que o recheio era de morango, o gosto por trás muito suave. Percebeu o que era pouco tempo depois, surpresa, e precisou cobrir os lábios com os dedos livres para rir baixinho. “É apimentado,” exclamou, acusatória, e estreitou os olhos para Morzan. “Por que não me disse?”
“Não tanto assim,” ele respondeu, encolhendo de leve os ombros, e é claro que não se importava. Mas lhe ofereceu sua taça de vinho de toda forma. “Não gostou?”
Ela gostara de fato, e não ardia o suficiente para que incomodasse de verdade, a sensação leve de formigamento mais agradável do que qualquer outra coisa. Ainda assim, tomou um gole de vinho, sorrindo consigo mesma e sacudindo a cabeça, e quase perdeu as próximas palavras de Alexis.
“É um grande favorito de amantes em todo o reino,” ela disse, os olhos verdes brilhando um pouco ao ouvir a forma como Morzan riu pelo nariz em resposta, e Selena apenas esperava que estivessem entretidos demais um com o outro para notarem seu rosto corado.
“E por isso você o está servindo para todas as suas damas, eu suponho?” foi o que Morzan perguntou, sem parecer se impressionar. “Um favorito seu, eu diria, Lex.”
“Algumas delas realmente apreciariam, se fosse só esse o motivo,” Alexis respondeu, tão fácil. “É claro que é um de meus favoritos. A verdade é que...”
Ela se interrompeu, porém, a voz mais baixa, e Selena seguiu seu olhar para ver Aleifar adentrando a sala em passos lentos. O Renegado parou por um instante para observar com cuidado os convidados presentes, sem parecer ter pressa, antes de se aproximar do local em que eles estavam sentados.
“Esses seus eventos nunca parecem ter fim, parecem, Alexis?” foi o que perguntou, um pouco ácido, mas talvez não realmente intencionando a incomodar. “Não acha que está ficando um pouco tarde?”
Alexis não se perturbou. “Eu te convidei,” disse, uma inclinação suave em sua voz. “E você continua muito bem-vindo, é claro, se quiser se juntar a nós.”
Aleifar revirou os olhos para isso. “Não, não acredito que seria o melhor uso de meu tempo. Achei por bem vir avisá-la de que recebeu uma nova carta de Lorde Garlan,” emendou, “embora ele não diga nada muito inesperado. Mesmo assim, talvez queira colocá-la como uma prioridade em seu dia amanhã.”
Mas sua irmã estreitou um pouco os olhos em sua direção, arqueando então uma sobrancelha delicada. “Leu minha correspondência pessoal?”
Ele deu de ombros. “Não seria pessoal de fato, seria? A não ser que houvesse prematuramente se cansado de Georgei, o que claramente não é o caso, por mais que não o tenha convidado esta noite. Eu estava entediado,” pareceu confessar, “e nem todos têm a sua boa disposição para eventos como esse, Lexi.” Voltou os olhos vagarosamente para Morzan, depois pela sala, e então de volta para ela. “Não suponho que possa abrir mão de um co nvidado na noite de hoje? Eu permitiria que escolha qual.”
Alexis deixou escapar um suspiro muito baixo, já se voltando na direção de Morzan, e ele sustentou seu olhar por um instante longo antes de rir baixo, sacudindo a cabeça. “Está bem,” acabou por dizer, se levantando em um movimento ágil e rápido. “Vou entreter seu irmão por algum tempo. Temos mesmo alguns assuntos importantes sobre que conversar.”
Mas ele voltou os olhos díspares para Selena antes de se afastar, a pergunta neles tão clara quanto era silenciosa, e esperou que ela lhe devolvesse um sorriso pequeno para lhe dar as costas, já inclinando a cabeça para o que quer que Aleifar lhe dissesse — algo desagradável como sempre, ela tinha certeza.
“Ele me chamava de ‘Lexi’ quando éramos crianças,” foi o que Alexis disse ao seu lado, porém, quase pensativa ao observar seu irmão e Morzan deixarem o cômodo. “Fez algum esforço para parar, depois que nos tornamos Cavaleiros, mas até hoje ainda escapa, às vezes, quando ele está distraído.”
Selena se voltou para ela, os lábios entreabertos, e não fazia ideia de como responder aquele comentário. Acabou se decidindo por tentar outro assunto por inteiro, e perguntou, “O que Lorde Garlan queria?” Um instante a mais, e se lembrou de seus bons modos. “Se me permite a pergunta, minha senhora.”
Alexis sorriu um pouco consigo mesma, e não parecia particularmente incomodada pelo assunto que ela escolhera. “Você conhece a Senhora Lorana, de Feinster, eu presumo?”
Ela fez que sim com a cabeça. “É claro.”
“Ela não tem filhos,” Alexis explicou, estendendo uma mão para buscar a própria taça de vinho. “Não é impossível que ainda venha a ter, eu suponho, mas altamente improvável, a essa altura. Não tem irmãos tampouco, então o governo de Feinster passaria depois dela para seu tio, irmão mais novo de seu pai, mas dificilmente ele viverá mais do que ela. Próximo na linha de sucessão é o primo de Lorana, um pouco mais velho do que ela, e ele tem apenas uma única filha, que atingiu a maioridade apenas recentemente. Até segunda ordem, ela seria eventualmente a herdeira, e, portanto, possui também um certo número de pretendentes.”
Selena pensava que entendia. “Lorde Garlan entre eles, eu suponho,” tentou adivinhar, embora um pouco duvidosa. Garlan era jovem o bastante, supunha, e parecia nobre e educado, mas não deixava de ser verdade que o haviam emboscado em um bordel. Talvez ela o estivesse julgando demais. “E ele te procurou querendo de alguma forma ser passado à frente da lista? Seria porque você tem esse hábito de arranjar casamentos, ou porque você e Lorde Aleifar são próximos de Lorana e da corte de Feinster?”
“Um pouco dos dois, eu imagino,” Alexis respondeu, encolhendo de leve os ombros. De alguma forma, ela fazia mesmo gestos como aquele parecerem muito delicados. “No final, Lorana é quem terá a palavra final, é claro, e sua prioridade seria alguém que não tentasse passar por cima de sua sobrinha. Veremos, eu suponho, embora Garlan não seja de todo uma opção ruim, tudo considerado.”
“Eu havia entendido que ele já havia concordado em se juntar a nós,” Selena teve de dizer. “Mas ainda está pedindo novos favores? Achei que fosse ele inclusive um dos principais fatores em afastar outros nobres do círculo de Fäelan.”
“De fato. É menos que ele esteja fazendo novas demandas para se aliar conosco, e mais que insiste em colher todos os possíveis frutos de nosso acordo. Não foi barato, eu acho, se afastar de Fäelan.” Alexis fez um instante de silêncio, pensativa. “De fato não poderia nunca ter sido, mas parece que muitos acharam voltar ao nosso círculo de influência realmente a melhor escolha. Cobram bastante em retorno, mas ainda assim, ao que parece o plano de Morzan e a influência de meu irmão estão funcionando bem. Faz com que eu me sinta mais tranquila, pela maior parte do tempo.”
Selena fez que sim, e realmente era verdade. “Eu não posso afirmar ter muita experiência com tudo isso, minha senhora,” disse, cuidadosa, “mas também estou me sentindo mais otimista. Morzan também, eu diria.”
Alexis concordou com a cabeça, seu assentir muito lento, seu olhar distante, algo ainda reflexivo em seu rosto, e então voltou sua atenção para ela mais uma vez. “Sim,” disse, e sorriu de leve. “Eu acredito que sim. Aproveitando o assunto, Senhora Selena, posso te fazer uma pergunta só um pouco indiscreta?”
Ela deixou escapar um riso nervoso, e talvez corasse um pouco em antecipação. “É claro, minha senhora.”
“Você mesma já tem idade o suficiente para que estivesse casada, eu acredito, em outras circunstâncias. É muito bonita, também, inteligente, e bastante capaz, mesmo que para tarefas que não as que Morzan exige de você como sua Mão Negra. Você realmente nunca se casou, no lugar tão misterioso de onde veio? Sabe que eu não a julgaria, não importa a resposta.”
Selena desviou o olhar, e não estivera esperando aquela pergunta, não de verdade. Lembrou-se de todos os avisos que Morzan lhe dera logo que ela chegara a Urû’baen, e das formas sutis como Alexis tentara conseguir informações no passado; pensou em Aleifar, também, com seu talento para fisgar informações da mente dos outros, e considerou quanto poderia lhe contar.
“Não,” acabou por dizer, ouvindo a própria voz baixa. “Eu na verdade nunca me interessei, exatamente, por nenhum dos homens do local onde cresci. Toda essa vida, casamento e filhos e passar a vida inteira em um lugar só, nunca foi uma perspectiva que me agradava, não de verdade, e eu no fundo sempre quis mais do que isso. Talvez nunca tivesse tido a escolha, se não fosse por Morzan, mas da maneira como as coisas aconteceram... Eu me sinto muito grata por tê-lo conhecido, eu acho.”
Alexis fez que sim como se entendesse perfeitamente. “Mas havia homens demonstrando interesse em você, eu tenho certeza?”
Selena encontrou seu olhar. “Bem, sim, principalmente no final. Minha mãe faleceu cerca de um ano antes de eu conhecer Morzan, entende, então eu tive certo período de respiro. De luto, é claro, e mesmo que eu sonhasse em me casar com alguém de lá, acho que teria precisado desse tempo de toda forma, e todos sempre foram muito compreensivos. Mas no final eles voltaram a aparecer mais vezes, a insistir mais, e é provável que eu logo precisasse fazer uma escolha, ou arriscar ficar sozinha o resto da vida.”
“Eu não sabia sobre sua mãe,” foi o que Alexis comentou, os olhos verdes compreensivos e atentos sobre ela. “Deve ter sido difícil.”
“Sim,” Selena precisou admitir. “Foi mesmo.”
Alexis lhe ofereceu um sorriso apertado. “Eu te perguntaria sobre ela, e sobre o resto de sua família, mas imagino haver um limite no que pode me contar. É mesmo um mundo complicado esse em que vivemos.” Ela tomou um gole de vinho. “Mas, de minha parte, também fico feliz que tenha conhecido Morzan quando o conheceu. Para além de aproveitar de sua companhia, que é de fato um deleite, acho que você faz bem para ele.”
Selena encontrou seu olhar, as próprias sobrancelhas franzidas. “Mesmo?” perguntou, porque não esperava ouvir aquilo, vindo dela ou de quem quer que fosse.
“Sim,” Alexis confirmou, girando o líquido em sua taça. “Eu não vi as coisas dessa forma desde o começo, devo admitir, mas agora... Eu acredito que sim.”
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