Shiver

92 Capítulo 92


Morzan parara em frente ao espelho para verificar seu reflexo uma última vez, e Selena por sua vez pausou junto à porta para vê-lo ajustar a capa curta vermelho-sangue sobre um ombro, e então estender uma mão para buscar o cálice de vinho que deixara sobre sua mesa e tomar um gole curto.

“Vai dar certo,” ela disse, ouvindo a própria voz baixa. Notou a forma como ele ergueu os olhos em sua direção, e lhe ofereceu um sorriso que esperava ser reconfortante. “Nossa influência na corte só tem crescido nas últimas semanas, e já recuperamos boa parte do que Fäelan havia conquistado. Não vejo motivos para o rei escolher favorecê-lo agora, a não ser que algo muito significativo tenha nos escapado, e eu não...” Deixou que a frase morresse, porém, perdendo um pouco sua linha de pensamento. “Qual é mesmo o resultado ideal hoje?”

O rei havia anunciado, alguns dias antes, que faria uma viagem breve à Gil’ead, para inspecionar o estado de suas tropas, que ficavam alojadas por lá em tempos de relativa paz, antes de ir então também a Ceunon e passar alguns dias também por lá, para apenas depois voltar à capital. Não era um evento de extrema significância por métrica alguma, mas ele também iria se decidir por quem iria acompanhá-lo, e, potencialmente, quem iria ficar responsável por liderar a corte em Urû’baen durante a sua ausência.

Morzan tinha os olhos díspares um pouco distantes, e bateu duas vezes com a ponta do indicador contra sua taça antes de responder. “Idealmente,” ele começou, devagar, “o rei anunciará que pretende me deixar responsável pela cidade enquanto ele estiver fora, e deixará Fäelan também aqui, de certa forma abaixo de mim. Outro resultado seria ele decidir me levar consigo e deixar Fäelan para trás, mas não com o comando da cidade, porque isso mostraria que ele tem confiança o suficiente para me querer por perto, para aconselhá-lo e ajudá-lo da forma que for necessário.” Uma pausa curta. “Dessa forma, eu teria que pensar no que fazer com você e Jaime enquanto isso, é claro, porque não poderia deixá-los sozinhos na cidade nessas condições, mas não seria nada impossível de resolver. Do contrário... Se o rei escolhesse deixar a cidade sob o comando de Fäelan, ou de qualquer forma demonstrar que tem mais confiança nele do que em mim...” A mera ideia parecia deixá-lo desgostoso. “Mostraria que não conquistamos seu favor, independentemente de nosso aliados entre os nobres, e isso poderia prejudicar muito do que conseguimos até aqui.”

Selena mordeu o interior da bochecha por um instante, refletindo sobre suas palavras. “Mas por que ele faria isso?” acabou perguntando, apenas, e então sorriu um pouco. “Se fosse para ser assim, ele poderia até mesmo decidir levar apenas Enduriel consigo, e deixar Aleifar no comando das coisas por aqui. Já pensou nessa possibilidade?”

Conseguiu sua risada baixa, satisfeita com a forma como Morzan sacudiu de leve a cabeça. “Isso o tornaria ainda mais insuportável, eu acredito. E você está certa, é claro, Sel. O rei provavelmente irá se decidir em nosso favor.”

“Vou manter em mente bons pensamentos,” Selena prometeu, mesmo sabendo que Morzan acharia a mera sugestão um tanto quanto absurda. “Vamos? Jaime já deve estar pronto, esperando por nós lá embaixo.”

Ele fez que sim, o movimento lento, e então terminou, de uma só vez, o vinho restante em sua taça. “Vamos,” confirmou, a tocando muito brevemente na base da coluna ao guiá-la para fora do quarto.

Desceram as escadas em silêncio, e Jaime estava de fato os esperando no andar de entrada da torre, vestindo o uniforme completo da guarda, da cota de malha à túnica vermelha por cima, e até mesmo uma capa escura, presa junto ao seu ombro por um broche no formato do brasão de Morzan. Ele falava em voz baixa com Adam, talvez lhe dando algum tipo de instrução, mas se adiantou prontamente ao vê-los, os cumprimentando com um inclinar de cabeça discreto.

“Meu senhor,” ele disse, tão fácil. “Minha senhora.”

“Está pronto?” Morzan lhe perguntou, reconhecendo a presença de Adam apenas ao lhe dirigir um aceno muito breve. “Não pretendo atrair atenção demais para vocês, mas, hoje principalmente, preciso demonstrar a solidez da minha presença na cidade, e tudo começa e termina com o capitão de minha guarda.”

Jaime lhe ofereceu um sorriso muito pequeno, quase seco. “Não será minha primeira vez aparecendo em público, meu senhor. Não deve ser exatamente a tarefa mais difícil que já me pediu para realizar, eu tenho certeza.”

Morzan riu daquilo também, talvez até mesmo com mais facilidade do que das palavras de Selena pouco tempo antes. “De fato,” concordou, descendo os olhos pelas roupas de Jaime como se para verificar que estivessem apropriadas, mas também como se mal as visse. “Alguns passos atrás de mim, sempre. Você sabe como é.”

“É claro,” Jaime concordou, e realmente já dava um passo para o lado para abrir caminho para que deixassem a torre à sua frente; uma dança antiga cujos movimentos pareciam lhe vir com a tranquilidade de quem a praticava há anos.

Selena aceitou o braço que Morzan lhe oferecia, e os três atravessaram juntos os corredores do palácio. Nobres e servos se afastavam igualmente para deixá-los passar, abrindo caminho para o primeiro dos Treze Servos como se nada lhes fosse mais natural — e, de fato, Selena refletia, pouco seria. A distância entre a torre e a sala do trono era considerável, mas eles a cruzaram com facilidade, e logo passavam pelas enormes portas douradas, com toda corte de Urû’baen muito segura atrás delas.

O rei não estava presente ainda, mas o restante dos Treze sim. Fäelan, é claro, tão perigoso em suas vestes cinza-escuras, flanqueado por Kialandí e Formora; Enduriel mais isolado à um canto, recostado contra uma coluna, observando a entrada de Morzan com olhos muito azuis; e Alexis e Aleifar, juntos, resplandecentes em tons claros de dourado, esperando apenas que eles se aproximassem.

Aleifar abriu um sorriso torto ao vê-los. “Veio com todo o suporte possível, eu vejo,” disse, a voz arrastada, mas Morzan não pareceu impressionado por suas palavras.

“E fui o único?” perguntou de volta, seu tom mais seco.

“Dificilmente. Acha que está demonstrando força ou insegurança?” Aleifar olhou de relance para Fäelan e os outros dois elfos, do outro lado do salão, arrogante demais. “Julgo que o humor de nosso adversário favorito está mais escuro hoje do que o de costume. Ele não—”

Mas silenciou-se quando Alexis o interrompeu com um shhh muito baixo, censura e certa reprovação em seus olhos verdes. Viraram-se para ver o rei entrar no salão, se curvando como os demais presentes no momento correto, e as próximas horas se passaram lentamente. Não era, é claro, um dia atípico na corte, e haviam proclamações a serem feitas e petições a serem ouvidas, e Galbatorix não estava acima de fazer mesmo seus servos mais valiosos esperarem, não sem alguma ansiedade, por seu julgamento.

Eles aguardaram pacientemente — ou com algo que pudesse se passar por paciência, mesmo para olhares atentos, o que não era tão diferente assim, no final das contas —, até o momento em que o rei tamborilou os dedos longos contra o braço de seu trono, finalmente, e correu os olhos escuros pelo salão antes de dizer, “E há o assunto, é claro, da minha iminente viagem. Dentro de uma semana, partirei para visitar duas de nossas mais importantes cidades, assim como para inspecionar nosso exército e garantir a contínua segurança de meu Império e todos os meus súditos. Dessa forma, é importante que leve, dentro de meu séquito, alguns de meus servos mais capazes e inteligentes, e, portanto, decidi trazer comigo dois dos meus Treze Servos. Sendo eles, é claro, a Senhora Formora e Lorde Enduriel.”

Selena ergueu um quase nada as sobrancelhas ao ouvir aquelas palavras, olhando pelo canto dos olhos para tentar entender a reação de Morzan. Enduriel? perguntou a ele, usando apenas seus pensamentos. E não Kialandí?

Mas Morzan não a respondeu; não pareceu nem mesmo registrar suas palavras. Mantinha os olhos díspares fixos no rei, atentos, e não era surpreendente de todo, não quando ele tinha em suas mãos o poder de solidificar ou dissolver todos os seus esforços dos últimos meses.

“E, com minha ausência,” Galbatorix continuou, pausadamente, “surge também a necessidade de assegurar que a Urû’baen continue em ordem e em segurança. Considerando o fato de que a cidade é a capital de meu reino e também o centro da minha corte, a decisão a respeito de quem a lideraria em meu lugar, mesmo que por um período tão curto, foi de tremenda importância, e considerei diversos fatores ao ponderá-la. A capacidade de governar sobre todos os meus súditos aqui dentro, é claro, e também de influenciar e conduzir politicamente todos os nobres que aqui permanecerão.” Uma pausa comprida em que ele observou com cuidado os presentes. “Portanto, declaro que decidi deixar Urû’baen, de minha partida até o momento do meu retorno, sob os cuidados e proteção de Lorde Morzan dos Treze Servos.”

Selena percebeu a forma como Morzan deixou escapar o ar por entre os lábios entreabertos, abaixando a cabeça em muda concordância, e notou o sorriso satisfeito que se formava em seus lábios quando ele ergueu novamente o rosto. Ela procurou olhar para Fäelan, então, mas não conhecia o elfo nem de longe bem o suficiente para ler sua expressão; daquela distância, percebeu apenas que seus olhos cinzentos pareciam muito duros.

Não tão diferentes, no fim, de como pareciam ser sempre.

Notas finais
fazendo votos para que as coisas continuem acontecendo sempre como o morzan quer! *barulhinho de brinde* até domingo que vem, meus amores ♥