Shiver

67 Capítulo 67


Notas iniciais
hello, loves! gente será que eu estou de volta de verdade? questions! não terminei o tcc ainda, mas tive um tempinho e estava inspirada e consegui atualizar a história dois domingos seguidos!! muito orgulhosa de mim mesma sim (por fazer o mínimo hahah) !! boa leitura e espero que gostem ♥

Selena revirou o pergaminho estreito nas mãos, considerando. A caligrafia em tinta escura era caprichada e elegante, delicadamente inclinada, e o bilhete viera completo com assinatura e selo — em cera de um tom dourado e mostrando um glifo na Língua Antiga que ela não era capaz de reconhecer —, oficial demais para as palavras tão casuais.

Ela mordeu o interior da bochecha, indecisa, e ergueu os olhos. “Morzan disse que só estará de volta depois do jantar.”

“Você saberia melhor do eu, minha senhora.” Jaime encontrou seu olhar, e tinha as mãos juntas atrás das costas, impecável no uniforme da guarda. Ele também soava duvidoso. “Suponho que possa sempre recusar.”

“Se eu recusasse,” Selena tentou, “acha que pareceria rude, covarde, ou ambos?”

Ele riu daquilo, abaixando um pouco o rosto. “Posso ir com você, se preferir,” ofereceu, absurdamente prestativo. “Mas, depois de Lorde Aleifar, uma tarde com a Senhora Alexis não deve ser tão desafiador.”

Selena não tinha certeza de que alguém como ela — ou como Jaime, ou Adam, ou qualquer outra pessoa normal — fosse algum dia realmente estar pronto para lidar com um dos Renegados; não discordava, porém, de que fosse capaz de sobreviver àquela tarde com relativa facilidade. Duvidava que Alexis tivesse intenção de lhe fazer mal, ou ao menos não agora.

“Morzan sabia que eu iria jantar na companhia de Aleifar,” apontou, no entanto, porque sentia que precisava; era uma segurança a mais que poderia fazer falta. Releu o bilhete mais uma vez, tentando ver além das palavras gentis, e então de novo. “O que acha que ela quer?”

“Honestamente, minha senhora? Não faço ideia.” Ele tinha os olhos verde-pálidos cautelosos. “O convite ter vindo quando Lorde Morzan não está não deve ser uma coincidência.”

Ela se perguntou, distraidamente, se ele chamaria Morzan daquele jeito formal quando estavam os dois sozinhos, também, ou se era apenas na presença de outras pessoas. Aquele soldadinho de quem ele gosta tanto, se lembrou, e mordeu o lábio. Não fazia a menor ideia do que Alexis pensaria sobre aquilo tudo tampouco. “Você vem comigo?”

“É claro,” Jaime respondeu com facilidade.

“Vou me trocar, então,” Selena se decidiu. “E te encontro na entrada da torre?”

“Parece bom para mim, minha senhora.” Ele não parecia se importar com quão insegura ela soava. “Estarei te esperando lá embaixo.”

Ela observou Jaime se afastar, e então chamou Emma para ajudá-la a se vestir. Perdeu algum tempo escolhendo a roupa adequada, e acabou por se decidir por um vestido marfim decorado com fios de prata e pérolas muito delicadas, que Emma também trançou em seus cabelos castanhos, e se deu por satisfeita ao observar a própria imagem no espelho. O colar de rubi e diamante que Morzan lhe dera era o ponto de cor mais forte que usava, pendendo discretamente de seu pescoço, e ela estava bonita o bastante.

Serviu-se de uma única taça de vinho antes de descer, e ofereceu a Jaime um sorriso muito pequeno ao encontrá-lo e começar a fazer o caminho pelos corredores ao seu lado. “Quão bem você a conhece?”

“Não muito bem, minha senhora. Não costumo encontrá-la com frequência, e os Trezes costumam tomar cuidado para não deixar transparecer muito de si.”

Mas ele era o capitão da guarda de Morzan. Selena tentou de novo, “Quanto você sabe sobre Alexis?”

“Bastante,” Jaime admitiu, sorrindo um quase nada. “Não é a mesma coisa que a conhecer, no entanto. Só sei o que Lorde Morzan me contou, e está muito longe de qualquer conhecimento aprofundado.”

“Bastante,” ela repetiu apenas, e supunha que realmente fosse. “Sabe o que aconteceu entre Alexis e Morzan?” perguntou, e, honestamente, deveria ter previsto a olhar que Jaime lançaria em sua direção. “Você não pode discutir isso comigo e eu deveria perguntar a ele, eu sei. Mas sabe se ela ainda sente algo por ele? Ou se Morzan partiu seu coração, quando o que quer que aconteceu entre eles acabou?”

“Não perguntou a ele sobre isso?”

“Não,” Selena respondeu simplesmente, encolhendo os ombros.

“Você deveria, se quer tanto saber. Não está preocupada com isso, está, minha senhora? Porque não acho que precise se preocupar, seja com a Senhora Alexis ou qualquer outro.”

Ela conteve um suspiro, se arrependendo um pouco de ter perguntado aquilo a ele. “Não, não estou preocupada. É só que Aleifar fez algumas insinuações, em Feinster, e fiquei me perguntando. Foi por isso que não perguntei nada a Morzan, inclusive, porque eu havia acabado de dizer a ele que não havia me impressionado com o que Aleifar disse, e o quê pareceria se eu começasse a perguntar sobre Alexis logo em seguida?”

“Então você não disse nada e veio perguntar para mim em vez disso?” Jaime perguntou, como se para ter certeza, e era mesmo um pouco absurdo. “Acho que isso tudo diz mais a respeito de Aleifar do que de Alexis, minha senhora.”

“Acha que Aleifar gosta dele?”

“O quê? Não,” Jaime respondeu, de pronto, como se a ideia nunca houvesse lhe passado pela cabeça, e Selena mordeu o interior da bochecha, incomodada, porque como iria saber se era possível ou não? “Não, eu só acho que Lorde Aleifar possa ter suas próprias opiniões a respeito das coisas que Lorde Morzan possa ou não ter feito.”

“Que ele é protetor da irmã, então, mas que não tem motivos reais para isso?” Selena confirmou, duvidosa. “Será?”

“Você deveria perguntar a Lorde Morzan,” Jaime insistiu, resoluto. “Mas imagino que seja mais complicado do que apenas isso.”

“Está bem,” ela se rendeu, embora um pouco a contragosto. E então, “Já foi aos aposentos de Alexis antes? Porque eu já fui aos de Enduriel, e eles são lindos, e também já vi os de Aleifar em Feinster. De novo, lindos. São todos muito diferentes, também, então é interessante pensar sobre. Consegue imaginar os dos elfos? Será que Fäelan usa decorações, ou os deles são apenas paredes nuas e móveis escuros e coisas de ferro?”

Jaime riu baixinho, parecendo quase surpreso por isso, e Selena sorriu um pouco em retorno, satisfeita. “Coisas de ferro?” Ele repetiu. “Suponho que você vá descobrir sobre todos mais cedo ou mais tarde, minha senhora.”

Ela certamente esperava que sim. Alexis e Aleifar dividiam uma mesma torre, ela descobriu (com sorte, no entanto, o Cavaleiro não estava por lá), e os guardas parados à entrada usavam túnicas de um tom muito claro de dourado. Um deles se curvou discretamente para Selena, sem dar qualquer atenção a Jaime, e pediu a ela que o seguisse.

Por dentro, os aposentos se pareciam com os de Feinster: móveis muito delicados, tapeçarias em tons claros, muitos detalhes em ouro e também muitos em prata. O guarda os guiou por uma escada circular, subindo um, dois andares, e então bateu respeitosamente em uma das duas portas antes de a abrir.

Era um estúdio bonito. Os almofadados dos sofás eram daquele tom amarelado tão claro, decorados com fios brilhantes, as estruturas de madeira todas muito escuras; estantes com livros grossos cobriam uma das paredes e, na detrás da escrivaninha, uma pintura a óleo de uma família nobre — um homem e uma mulher muito loiros, e, à sua frente, um menino e uma menina. Sobre a mesa, uma bandeja de prata com pães, queijo e frutas.

Alexis estava sentada na cadeira alta atrás dela, lendo um pergaminho comprido, mas se levantou ao ver Selena entrar. Estava usando roupas quase masculinas: calças marrons justas, uma camisa branca e um corpete escuro decorado com detalhes dourados por cima, uma espada na cintura. Eram vestes que Selena esperaria de Formora, mas nunca dela, e foi difícil não demonstrar a própria surpresa. A Cavaleira continuava, é claro, absurdamente bonita.

“Senhora Selena,” disse, e se aproximou para tomar as mãos de Selena nas suas. “Obrigada por vir. Meu convite foi inesperado, eu sei. E Jaime,” e sorriu para ele. “Faz tempo que não conversamos. Sentem-se, por favor.”

Não havia muito a fazer além de obedecer. Sentando-se em uma das cadeiras em frente à escrivaninha, Selena perguntou, “Ao que devo essa honra, minha senhora?”

Alexis só sorriu, os olhos verdes brilhando. “Já faz tempo que estive querendo te convidar para me visitar,” ela disse, “e então meu irmão foi e o fez antes de mim. Ele é impossível, honestamente, e não pude permitir que fosse o único a ter a oportunidade de conhecê-la melhor. Ainda tenho esperanças que você se decida por aceitar participar de uma das minhas reuniões com minhas damas e companheiras, mas pensei que seria melhor convidá-la para uma primeira visita em um ambiente menos... exigente. Estão com fome? Fiquem à vontade, por favor.”

Exigente? “Eu adoraria me juntar a uma de suas noites de cartas e conversas,” Selena a assegurou, e, embora certamente não fosse verdade, a perspectiva lhe era agora menos desagradável do que fora algumas semanas ou meses antes. Escolheu uma cereja da bandeja, por educação. “Mas gostaria de ter a oportunidade de avisar Morzan antes de aceitar qualquer convite.”

Alexis riu baixo, muito delicadamente, e seu sorriso foi compreensivo. “Desculpe-me por isso,” pediu. “Se eu a houvesse convidado quando ele estiva por perto, porém, Morzan teria vindo junto e mediado toda a conversa. Eu o adoro, é claro, mas ele gosta demais de controlar as coisas. Além do mais, meu irmão não está na cidade tampouco, e suspeitei que você fosse se sentir mais confortável sem Aleifar por perto.”

Selena conteve a vontade de trocar um olhar com Jaime.

“Eu aprecio o cuidado, minha senhora.”

“Era o mínimo que eu poderia fazer,” Alexis lhe garantiu. Tinha os cabelos loiros presos em uma trança elaborada jogada por cima de um ombro, e suas orelhas, como as de seu irmão, eram pontudas como as de um elfo. “Como foram suas viagens, Senhora Selena? Está gostando de estar de volta à capital?”

Era uma pergunta inocente o bastante. Selena a respondeu com cuidado, escolhendo outra fruta da bandeja, e agradeceu com um sorriso quando Alexis se levantou para buscar taças de vinho para os três. Continuou se perguntando sobre o motivo do convite, desconfiada enquanto mantinha a conversa leviana, e só entendeu um bom tempo depois, quando a Cavaleira se sentou melhor sobre sua cadeira e perguntou, quase como se não importasse, “Como estava Aleifar, quando o encontrou em Feinster?”

Selena engoliu em seco. “Ele me pareceu estar bem, minha senhora, e não diferente do normal. Mas eu não o conheço tão bem.”

“Ele não te pareceu estranho, então?”

“Estranho?”

Alexis pareceu hesitar um instante mínimo. “Você tem irmãos, Senhora Selena?” perguntou. “Eu sei que Jaime tem.”

Selena pensou que Jaime se incomodaria com o comentário, e talvez houvesse se incomodado de fato, mas ele apenas dirigiu a Alexis um sorriso seco. “Irmãos demais.”

“Eu tenho um,” Selena admitiu, mas não queria pensar em Garrow ou Carvahall naquele momento, e também não estava disposta a dizer mais. “Mas não o vejo há algum tempo.”

Alexis não pareceu se importar. “Você sabe como é, então. Eles não te contam quando há alguma coisa errada, mas ficam incomodados e acabam tomando decisões impulsivas. É difícil não se preocupar.”

Na verdade, entre Garrow e Selena, era muito mais provável que fosse ela a se incomodar e fazer algo impulsivo. Ela assentiu devagar, no entanto, como se entendesse, e se limitou a perguntar, “Acha que Lorde Aleifar está incomodado com algo?”

A Senhora Alexis dos Treze Servos chegou a revirar os olhos. “Eu sei que ele está incomodado porque Morzan e eu preferimos que ele não usasse suas habilidades para tentar descobrir os segredos de Fäelan, Kialandí e Formora, e agora Aleifar está alternando entre ficar emburrado ou sorrir como se fosse mais esperto do que nós.” Ela encontrou o olhar de Selena, e parecia mais sincera naquele instante do que jamais lhe fora antes. Talvez estivesse genuinamente preocupada, e sem se importar muito em deixar transparecer; talvez, Selena pensou, porque aquilo não fosse algo que surpreenderia Morzan em momento algum. “Ele pensa que escolhemos a estratégia errada, mesmo que sua ideia fosse perigosa demais, e não está feliz com isso.”

“Ele me disse algo sobre isso,” Selena admitiu, “mas não entrou em detalhes. Apenas que você e Morzan escolheram não utilizar seus melhores talentos e que vão pedir sua ajuda quando for tarde demais.” Ela hesitou. “E algo sobre estar cansando de conviver com vocês dois enquanto planejavam coisas juntos.”

Alexis suspirou muito baixo. “Nada mais?”

Aleifar havia dito muito, é claro, mas era difícil entender suas motivações. Havia parecido a Selena apenas tão inconveniente quanto se mostrara antes. “Eu não o conheço bem o suficiente para saber, minha senhora. Não considerei seu comportamento anormal, na época, mas talvez tenha deixado algo passar.”

“Eu apreciaria,” Alexis pediu, delicadamente e muito franca, “se você pudesse se manter atenta. Sei que vão relatar essa conversa a Morzan, e se ele pudesse se manter atento, também, seria ideal. Essa situação toda é mais grave do que parece, eu temo.”

Selena franziu um pouco as sobrancelhas para aquilo e, se Alexis estava sendo tão sincera e aberta, talvez não se importasse com uma pergunta real em retorno. “Mas Lorde Aleifar é um Cavaleiro, minha senhora, vocês todos são. Não vejo como poderia existir qualquer perigo real, não para vocês, e certamente as consequências de qualquer decisão impulsiva não seriam assim tão ruins?”

“Existem muitos tipos de consequências ruins, Senhora Selena,” foi o que Alexis respondeu, simplesmente. “É bem verdade que o rei não gostaria de nos ver mortos, e não nos descartaria tampouco, então as chances de perdermos todo o nosso poder são mínimas, mas isso não é tudo que poderia acontecer. Estamos lidando com Fäelan, e para meu irmão...” Ela encontrou seu olhar. “Só me prometa que vai me contar se ele disser mais alguma coisa, ou se você se lembrar de mais alguma coisa.”

Selena mordeu o interior da bochecha, mas promessas na língua comum dos homens eram vazias. “Está bem,” concordou, a própria voz muito baixa, e torcia para não estar fazendo algo muito errado. Olhou para o quadro atrás da escrivaninha mais uma vez, se demorando sem querer nos gêmeos tão novos.

“Eu agradeço,” foi tudo o que Alexis respondeu. “E agradeça a Morzan por mim também.”

Notas finais
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