Shiver
68 Capítulo 68
Notas iniciais

A chuva que caia do lado de fora da cidadela era muito fina. Selena tinha os braços cruzados ao olhar pela janela, mordendo o interior da bochecha, e tentava aquietar os sentimentos mais melancólicos dentro de si ao insistir em detalhes pequenos.
“Não acredito que não está nevando.” Estavam no último mês do ano e o ar já cortava gelado, mas ela esperara por uma paisagem branca e mágica, e os arredores da capital não estavam muito diferentes do que de costume. “Estaria nevando em Carvahall. Em Carvahall, já teríamos tido a primeira neve há semanas.”
Morzan se aproximou dela, ajeitando o punho da camisa, e tinha o anel de rubi e prata em um dedo da mão direita. “Neva mais cedo no norte,” disse, distraído como se não se importasse, impossivelmente bonito vestindo um gibão preto com detalhes dourados e uma camisa vermelha por baixo. Havia cortado os cabelos poucos dias antes, e os fios escuros não chegavam a tocar seus ombros. “Espere mais duas semanas.” Ergueu os olhos díspares para ela. “Está pronta?”
O vestido de Selena também era preto, mas suas saias eram cortadas para exibir a camada vermelha por baixo e dezenas de pequenos rubis haviam sido bordadas em seu corpete. As pedras pendiam dos fios prateados muito finos entrelaçados em seu cabelo, também, e ela tinha o colar que Morzan lhe dera em Belatona no pescoço.
Ela respirou fundo uma vez, afastando todos os seus pensamentos mais tristes, e assentiu. “Sim.” Aceitou o braço que ele lhe oferecia, satisfeita por tê-lo tão perto, e permitiu que ele a puxasse escada abaixo. Lançou mais um olhar incomodado para a janela mais próxima. “Você não conseguiria fazer nevar, conseguiria?”
Morzan só riu. “Não mesmo.” Parou diante das portas de madeira da sala principal de sua torre, se voltando para ela para examinar seu rosto uma última vez. Tocou uma mecha de seus cabelos castanhos, a enrolando em dois dedos quase distraído, e encontrou seu olhar mais uma vez. “Quando estiver cansada e desejando que todos fossem embora, lembre-se que pediu por isso.”
Ele tinha os olhos brilhando, e Selena devolveu seu sorriso. “Eu quero isso,” garantiu.
E queria mesmo. Desde a morte de sua mãe pouco mais de dois anos antes, seu aniversário se tornara uma data complicada, e estar longe de Carvahall e de sua família não ajudava em mais pontos do que piorava a situação. Ela estava decidida a aproveitar a data independente de tudo isso, porém, e queria criar novas memórias, relacionadas apenas a uma nova vida. Havia explicado tudo aquilo a Morzan, e achava — esperava — que ele fosse capaz de entender. Respirou fundo, ergueu o queixo, e sorriu seu melhor sorriso enquanto ele abria as portas.
Não eram muitos convidados — talvez vinte, não mais que trinta. Alexis e Aleifar haviam ambos vindo, uma vez que Morzan fora firme em insistir que seria uma ofensa não convidar qualquer um dos dois, e Enduriel havia sido chamado, mas não estava em qualquer lugar a vista. Eles não haviam se preocupado em convidar os outros elfos, no entanto.
No mais, estavam espalhados pela sala os lordes e damas com quem Morzan possuía maior afinidade, e também os poucos de quem Selena particularmente gostava. Eles estavam reunidos em grupos pequenos, segurando cálices de prata nas mãos e conversando entre si em voz baixa, mas se voltaram para Selena quando Morzan a guiou para dentro do cômodo.
Os guardas de Morzan alinhavam as paredes a intervalos regulares, estóicos e atentos. Jaime estava entre eles, mais relaxado do que os outros e lá apenas para se certificar que tudo correria bem, e encontrou o olhar de Selena do outro lado da sala para lhe oferecer um sorriso mínimo.
Ela o devolveu, e então permitiu que uma das damas mais próximas tomasse suas mãos nas dela, dizendo congratulações talvez não tão sinceras quanto poderiam ser, e descobriu que gostava da atenção. Fez seu caminho pela sala, a o braço de Morzan confortável em volta de sua cintura; sem a pressão dos olhares hostis e perigosos de Fäelan e seus aliados, o ambiente era mais agradável do que o normal da corte.
Aceitou uma taça de vinho de um criado que passava, experimentando um gole, e se deixou levar pelo assunto sobre que conversavam algumas das damas de Alexis. Já conhecia a corte bem o suficiente para participar e aproveitar da fofoca, e até mesmo Morzan eventualmente fazia um ou outro comentário cortante que provocava risadinhas ao redor da roda (Alexis às vezes revirava os olhos em resposta, e o humor de Selena para com ela vinha melhorando consideravelmente desde a conversa das duas).
O tempo passou com rapidez, e Selena logo estava sentada no sofá vermelho ao lado de Morzan, terminando uma fatia de torta de maçã e afastando seu prato para abrir o primeiro de seus presentes — e não era aquela a maior vantagem da noite?
Alexis e Aleifar lhe deram presentes que combinavam: ela, um colar de ouro e diamantes muito pequenos, transparentes e reluzindo na luz das lanternas sem chamas; ele, um conjunto de brincos, pulseiras, e rede para usar nos cabelos. Selena correu as pontas de dois dedos pelo colar, encantada, e agradeceu sinceramente, mesmo que Morzan já tirasse os presentes de suas mãos, os entregando para um criado guardar e a lembrando, mentalmente, que não deveria experimentar nada antes que ele tivesse a oportunidade de garantir que os objetos não haviam sido enfeitiçados.
Aquelas não foram as únicas joias que Selena ganhou, embora certamente fossem as mais valiosas. Além dos presentes dos gêmeos, outros nobres lhe deram caixas de madeira delicadas para guardar seus presentes, brincos, colares e broches, e até mesmo — o que ela considerou particularmente ousado — um punhal delicado com rubis decorando o punho.
Ficou na dúvida se Morzan teria apreciado o gesto, e ele realmente encarou a arma com um vinco mínimo entre as sobrancelhas escuras. Quando Selena a ofereceu a ele, Morzan a aceitou com um comentário curto sobre certamente vir a ser útil, mas a entregou ao criado que guardava os presentes quase que com pouco caso.
E então, finalmente, se endireitou para entregar a Selena seu próprio presente. Não era o primeiro — ele já havia lhe dado uma pequena coleção de novas joias e vestes de inverno naquela manhã —, mas o mais importante. Ela reconheceu que seria um livro por ser formato, envolto em seda vermelha fina como estava, e o desembrulhou com cuidado.
A capa de couro era decorada com desenhos dourados, e Selena entreabriu os lábios sem querer ao ler o título: Lendas e contos do Reino Broddring, e embaixo, em palavras exatas demais para não serem propositais, Uma coleção de pequenas aventuras.
Se estivessem sozinhos, o presente talvez houvesse trazido lágrimas aos seus olhos. Em público como estavam, Selena apenas o abriu para vê-lo por dentro, deixando escapar uma risada baixa e surpresa ao correr os dedos pela dedicatória — na caligrafia elegante e descuidada de Morzan, Aproveite com moderação — e se maravilhando com a beleza das iluminuras que o ilustravam.
“É perfeito,” admitiu. Era apenas o segundo livro que ganhava (o primeiro, menor e de poesia, viera de Jaime horas mais cedo), e continha, certeiro, tudo o que Selena mais amava, da beleza intrincada de todos os seus detalhes às histórias de romance e aventura por dentro. Ela encontrou o olhar de Morzan. “Obrigada.”
Morzan sustentou seu olhar por um instante antes de lhe sorrir de volta. “Apenas para você,” disse, firme no que parecia uma promessa, e a puxou para perto para beijar sua testa. “Feliz aniversário, Sel.”
Em algum lugar atrás deles, Aleifar deu uma risadinha quase debochada, e a sala estava cheia de nobres que, por melhores que fossem, estavam longe de ser verdadeiramente confiáveis. Alguns os observavam muito atentos, outros não tanto; do outro lado do aposento, Dorian se recostara na parede fria ao lado de Jaime para lhe dizer alguma coisa em voz baixa.
Mas Morzan tinha um braço ao seu redor, os olhos díspares brilhando apenas para ela, e, naquele momento, era quase como se estivessem sozinhos. Naquele momento, ninguém mais importava. Morzan se aproximou para beijá-la, e, com uma mão sobre o livro tão significativo que acabara de ganhar e a outra sobre sua camisa, Selena se entregou a ele por inteiro.
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