Shiver

6 Capítulo 6


Notas iniciais
Capítulo dedicado a Miller, leitora muito amor que aparentemente ainda não leu nada, mas que eu amo de coração e que fez aniversário essa semana. Espero muito impacientemente por você, dearest.

Selena entrou em casa por volta de meia hora antes do nascer do sol e se esgueirou para seu quarto, silenciosa. Em vez de trocar seu vestido por uma camisola e tentar aproveitar o pouco tempo que ainda teria para dormir, optou por apenas vestir roupas limpas e se sentar embrulhada em cobertores – parte dela perdida em memórias da noite anterior, parte preocupada com a conversa inevitável que teria com Garrow e seu pai mais tarde.

Esperou apenas o dia começar a clarear do lado de fora de sua janela para se levantar e ir até a cozinha e começar a vasculhar os armários à procura das ervas corretas para fazer o chá que sua mãe ensinara, tanto tempo atrás, e rezando a todos os deuses que conhecia para não esquecer nenhum detalhe. Só tivera motivo para fazê-lo uma vez antes, e na época ela estivera incomodada com estar tendo todo o trabalho em troca de uma experiência muito insatisfatória.

Quando seu pai apareceu na cozinha, Selena estava sentada à mesa com uma caneca bem quente de chá adoçado com mel entre as mãos. Ofereceu-lhe um pequeno sorriso. "Bom dia."

Seu pai lhe lançou um olhar desconfiado. "Bom dia. Como está acordada tão cedo?"

Tive uma noite maravilhosa. Selena encolheu os ombros. "Não estava com sono."

"Seu irmão ainda está dormindo?" Cadoc perguntou, se servindo de uma fatia de pão.

Ela tomou um gole de chá. "Acho que sim." Hesitou. “Queria conversar com você sobre uma coisa.”

Seu pai lhe lançou um olhar inquisidor, e Selena se mexeu na cadeira, desconfortável. Pedir favores ao primeiro dos Renegados subitamente lhe pareceu muito mais fácil do que informar sua decisão a própria família, e ela não fazia ideia de por onde começar. Optou por beber um grande gole de seu chá – seria tão bom se fosse algo mais forte – e começou, cuidadosamente, “Você sabe que eu sempre sonhei em viajar o Império e conhecer as grandes cidades.”

“Selena–”

“Não, me deixe terminar.” Ela mordeu o interior da bochecha. “Por favor.”

“Eu sei o que vai dizer, e não é uma boa ideia.”

Selena deixou escapar um suspiro. “Por favor,” repetiu.

Cadoc a estudou calmamente por alguns instantes, considerando seu pedido, os olhos castanhos que ambos os seus filhos haviam herdado muito pensativos. Então ele assentiu, erguendo o queixo em um sinal para que ela continuasse.

“Eu já estava pensando nessa possibilidade há uns anos,” Selena continuou. “Até cheguei a falar com a mamãe sobre isso, antes que... Antes. E eu sei – eu sei— que não é exatamente a opção mais segura e que o que eu deveria fazer é escolher um marido aqui em Carvahall e me conformar com a vida que nasci para ter, mas realmente não acho que conseguiria ser completamente feliz assim.”

“Nós não viemos para esse mundo para ser completamente felizes, Sel,” seu pai argumentou em uma voz muito gentil, e ela achou que ele a entendia. “Nenhum de nós.”

“Não acho que eu poderia me perdoar se não tentasse, também.”

“Talvez não agora. Quando ficar mais velha, no entanto, iria entender que fez a escolha certa.”

Selena hesitou. “Acha mesmo?” perguntou, muito calma.

“Eu não acho,” Cadoc disse, devagar, “que você tenha começado essa conversa para pedir minha permissão.”

Não. Ele a conhecia bem demais. “Eu conversei com os mercadores,” Selena explicou. “Encontrei um que está disposto a me dar um emprego, me levar com ele.” A mentira pesou só um pouco. “Posso viajar com ele até juntar dinheiro o suficiente para encontrar um modo de viver em uma das cidades.”

“E que modo seria esse?”

“Encontrar trabalho,” Selena encolheu os ombros. “Qualquer trabalho. Sabe que opções não faltam.”

“Não qualquer trabalho, espero.”

“Não,” Selena concordou rapidamente, mais para tranquilizar o pai do que a si mesma.

“E como sabe que pode confiar nesse mercador?”

“Falei com ele. Perguntei a outros mercadores.” Selena hesitou, e o que disse a seguir não foi por inteiro uma mentira. “Não tenho certeza, não realmente, mas... Não acho que tenha me enganado sobre ele. E estou disposta a aceitar o risco. A lidar com as consequências.”

“Sabe que, se você realmente for, Garrow não vai aceitar bem sua partida.”

“Eu sei disso,” Selena insistiu, e aquilo realmente a incomodava. “Mas Garrow sempre se adaptou bem a vida de fazendeiro, ele sempre esteve mais do que satisfeito com o que temos aqui.” Seu irmão era parecido demais com o pai. “Ele não entende, mas eu não sou assim.”

“Não.” Cadoc suspirou. “Eu preferiria que você não fosse, Selena. Pelo menos não agora. É uma decisão muito grande para se tomar em apenas alguns dias; seria melhor se deixasse esses planos para a próxima vez que os mercadores viessem a Carvahall.”

Selena hesitou. “Mas não é uma decisão súbita, não de verdade. Eu já venho considerando a opção há um tempo, e não sei se posso ficar adiando o momento cada vez mais. Tenho dezenove anos, pai, já tenho idade suficiente.”

“E não está pedindo minha permissão,” Cadoc disse novamente, sua voz quase pesarosa.

“Gostaria de tê-la, ainda assim.”

Seu pai assentiu devagar. “E vou lhe dar permissão e minha bênção, mas apenas porque sei que, mesmo que eu te trancasse no quarto pelo resto do ano, você acabaria por fugir mais cedo ou mais tarde. É muito parecida com sua mãe.”

“Mas mamãe nunca saiu de Carvahall.”

“Sua mãe tinha o suficiente para viver satisfeita aqui; como eu disse, o tempo esclarece que ficar é a melhor escolha. O que não quer dizer que ela nunca tenha pensado em partir, e Lyra nunca se conformou com nossos costumes. Estava sempre desafiando uma regra ou outra.”

“Ela queria partir?” Selena repetiu, surpresa. Nunca tinha ouvido aquilo antes; nem mesmo da própria Lyra, que sempre soubera que a filha queria viajar pelo Império.

“Ela quis, por um tempo. E se decidiu por ficar.”

Selena entendeu, então. “Ela ficou por você.”

O sorriso de seu pai foi triste. “Por mim, por Garrow, e eventualmente por você.”

E aquilo nunca poderia se aplicar a Selena. Não havia ninguém em Carvahall importante o suficiente para tentá-la a ficar. Não seu pai, que ela teria que deixar mais cedo ou mais tarde. Não Garrow, que estava noivo de Marian e logo seguiria a própria vida. E principalmente não nenhum outro homem: todos na vila estavam preparados para levar uma vida calma e rotineira, e Selena ansiava por novidade e aventuras. Carvahall não era o lugar para ela, e nunca seria.

Selena ergueu os olhos para encarar o pai. “Sinto muito,” disse, completamente sincera. “Não aguentaria ficar.”

Cadoc inclinou um pouco a cabeça para ela, e se levantou. “Agora vai precisar ir e explicar tudo a seu irmão.”

Ele se afastou da mesa, dando as costas à filha, e deixou Selena sentada sozinha. Ela bebeu de uma vez o resto de seu chá, se preparando mentalmente para o que viria a seguir. Deixar Garrow doeria mais do que qualquer outra coisa.

Notas finais
Capítulo bem curtinho (o mais curto até agora ooops), mas importante, acho. Chamei a mãe da Selena e do Garrow de Lyra em uma decisão impulsiva, e vai ficar assim mesmo; qualquer coisa é culpa do cânon que não nos dá essa informação. Agora Lyra da minha cabeça é uma pessoa muito real que merece também ter sua história contada, mas não tenho tempo pra isso. So ela vai ir aparecendo na memória da Sel aos poucos. Espero que tenham gostado, e muito beijos.