Shiver

7 Capítulo 7


Notas iniciais
Alerta para Morzan aparentemente amorzinho. Don't trust him.

Selena sentia o coração muito pesado ao cruzar o limiar de Carvahall e entrar no acampamento quase completamente desmontado dos mercadores lado a lado com Adam. Morzan mandara o guarda de cabelos escuros para ajudá-la carregar suas coisas de sua casa até carroça onde Neil e Jaime estavam organizando tudo para partir, mas ela acabara por perceber que não havia tantos pertences que precisasse levar consigo, e a trouxa amarrada ao cavalo de Adam não era particularmente impressionante.

Adam fora muito discreto ao buscá-la; cumprimentara Cadoc respeitosamente, se passando com maestria por um criado que estava ali apenas para ajudar, e então se ocupara em ajeitar a bagagem de Selena no cavalo, dando privacidade para que ela se despedisse do pai. Do pai, apenas, porque Garrow mal falara com ela desde que Selena confessara ao irmão que deixaria Carvahall, surdo para os argumentos de que ela não seria feliz lá, de que o próprio Garrow logo se casaria e traria outra mulher para casa – Marian poderia facilmente assumir seus afazeres – e de que Selena teria que deixá-los de qualquer jeito, se se casasse.

Selena batera na porta do irmão naquela manhã, querendo uma despedida, mas sem sucesso. Acabou por abraçar o pai em frete à casa, se esforçando para conter as lágrimas e assentindo sem forças enquanto ele insistia para que ela perdoasse o comportamento do irmão, repetindo que Garrow estava bravo apenas porque a amava, e que com o tempo sem dúvida a perdoaria por partir. Aquilo tudo era pouco consolo para Selena, mas por pior que ela se sentisse, não era o suficiente para que escolhesse ficar.

Cadoc ainda lhe dera uma pequena bolsa de couro repleta de moedas que ele juntara ao longo dos anos. “Guardei para você,” explicou, “para quando deixasse nossa casa. Era, na verdade, para fazer parte de um dote de casamento repleto de outros bens, mas como você decidiu por viajar pelo Império, é tudo que posso lhe dar.”

Selena aceitara e agradecera com um sorriso fraco, sem saber o quê dizer, lançou mais um olhar para a casa que fora seu lar todos aqueles anos, e partiu. Ao andar ao lado de Adam, que puxava as rédeas de seu cavalo em silêncio, Selena se sentiu muito consciente de que aquela talvez fosse a última vez que andaria por Carvahall em toda sua vida. O guarda de Morzan a olhava pelo canto dos olhos, aparentemente sem saber o que dizer, e Selena não sentia a menor vontade de iniciar uma conversa com ele. Insistia para si mesma que aquele peso em seu peito passaria assim que deixasse a vila para trás – e realmente ainda se sentia muito empolgada para partir – e que logo deixaria de pensar em seu irmão, mas estava tendo dificuldade em convencer a si mesma.

Quando alcançaram Morzan e os outros guardas, Adam se adiantou para encaixar a trouxa de Selena na sacola, e ela cruzou os braços, parando um pouco afastada dos homens. Morzan estava parado junto a Jaime, falando em voz baixa, e a cumprimentou primeiramente apenas com um olhar e um aceno de cabeça. Ele parecia prestes a andar até ela quando Selena ouviu o chamado.

“Lena!” E, ao ouvir a voz do irmão, ela travou por um instante. “Selena!”

Selena se virou para ver Garrow vindo rapidamente em sua direção, os cabelos castanhos bagunçados pelo vento frio. Ela não hesitou; correu até o irmão e jogou seus em volta de seu pescoço, o puxando para um abraço forte. “Você é tão idiota,” ela murmurou, mas as lágrimas em seus olhos eram de puro alívio. “Não acredito que quase me deixou ir sem me despedir.”

“A intenção era te fazer de desistir de ir,” Garrow admitiu, se afastando um pouco. “Deveria saber que não funcionaria.”

Selena sacudiu a cabeça. “Eu não me perdoaria se ficasse.”

Seu irmão assentiu com um sorriso triste. “Sei que não. Ainda assim, tinha esperanças.”

“Você não precisa de mim, Garrow,” ela insistiu pelo que parecia ser a milésima vez em apenas dois dias. “Sabe disso.”

“Não tenho tanta certeza.” Garrow secou uma lágrima no rosto dela com os dedos. “Mas se você realmente acha que só será feliz assim, eu não poderia ser egoísta o suficiente para estragar tudo.”

“E quase fez isso de qualquer jeito,” Selena o repreendeu.

“Já disse, queria que você ficasse. Tem certeza que realmente tomou a decisão certa, Lena? Cruzei com Eron vindo para cá, e ele me disse que não acreditava que você seria tão estúpida a ponto de fazer o que está fazendo.”

Selena bufou, revirando os olhos. “Eron tem uma opinião muito alta de si mesmo, aparentemente,” desdenhou, mesmo sabendo que o problema não era aquele, “se considera alguém recusar seu pedido de casamento ‘estupidez’.”

A risada de seu irmão foi fraca. “Vou sentir sua falta.”

“E eu a sua. Mas vamos nos ver de novo.” Era impossível ter certeza, na verdade, mas Selena sentia que sim. “Eu prometo.”

Garrow a puxou para mais um abraço, a apertando forte contra si. Ele cheirava a roupas velhas e fumaça de lareira. “Tenha cuidado, Lena.”

“Eu vou.”

Sem a soltar, Garrow continuou, “e não faça nada estúpido.”

“Não vou fazer,” Selena garantiu, e brincou, “vou me casar com o primeiro joalheiro loiro que encontrar.”

Ele riu baixinho, e, mesmo depois de Garrow de despedir e sumir de vista na direção do vilarejo, foi aquele riso que manteve o sorriso no rosto de Selena. Ela sentiu que ficou parada no lugar por bastante tempo, olhando para Carvahall como se ainda pudesse ver o irmão, embora talvez não houvesse passado tempo algum. Nem ao menos percebeu Morzan se aproximando, e só desviou os olhos quando ele parou ao seu lado e perguntou, “’Lena’?”

Morzan a observava com olhos díspares muito atentos, mas Selena apenas correu o olhar por seu rosto e pela camisa negra que usava antes de encolher os ombros e dizer, “Só meu irmão me chama assim.”

“Quer dizer que eu não posso?”

Ela não encontrou seu olhar. “Preferiria que não.”

“Que apelido devo usar, então?” No que ela permaneceu em silêncio, Morzan sugeriu, “’Sel’?”

“Eu gosto,” Selena admitiu, finalmente erguendo o rosto para ele.

Morzan pendeu a cabeça para o lado. “Você está bem?”

“Bem melhor agora, na verdade.”

“Isso é bom.” Ele lhe ofereceu um sorriso um pouco torto. “Estamos prestes a partir, e eu ficaria muito decepcionado se me dissesse que desistiu de ir junto.”

Selena sorriu de volta, e deu às costas a Carvahall. “Por quê? Sou assim tão agradável?”

Ele riu alto. “Ah, sim. E pode ser ainda mais, tenho certeza.”

Ela corou forte, mas conseguiu dizer, “Você também não é nada mal.”

A resposta de Morzan foi apenas um sorriso e um leve erguer das sobrancelhas escuras, e ele encostou uma mão à base da coluna de Selena para guiá-la na direção da carroça e dos cavalos. Jaime se afastou quando eles se aproximaram, indo falar algo com Adam e Neil, mas não antes de lhes lançar um olhar descontente.

“Não acho que ele goste de mim,” Selena confessou em voz baixa.

Morzan apenas olhou de relance para Jaime. “Ele tem seus motivos.”

“E são bons motivos?”

Ele considerou a pergunta. “Não, na verdade. Mas são válidos o suficiente para que eu possa respeitá-los.”

Selena não achava nada agradável pensar que Morzan considerava válido qualquer motivo para alguém não gostar dela, mas supunha que não podia realmente querer que ele descartasse as preocupações do capitão de sua guarda apenas por apreço a alguém que conhecera recentemente, então não respondeu.

Se Morzan notou seu silêncio, não reagiu; a levou até um grande cavalo de pelos muito escuros, claramente apropriado para mais do que apenas viagens, e perguntou, “Se importa de cavalgar comigo, ou prefere ir sentada na carroça?”

Ela sabia bem a resposta, mas optou por dizer apenas, “O que for melhor para você.”

“Comigo, então. Não vai ser por muito tempo, de qualquer jeito."

Aquela foi uma afirmação estranha; Selena não teve oportunidade para questioná-la, no entanto, antes que Morzan lhe oferecesse uma mão para ajudá-la a montar. E quando ele se sentou atrás dela, passando os braços ao redor de sua cintura para segurar as rédeas, ela já não se importava mais. Se permitiu se recostar contra ele, e Morzan se aproximou para perguntar em seu ouvido, “Pronta?”

Selena assentiu, e, ao acompanharem os mercadores pela estrada, deixando Carvahall, não olhou para trás nenhuma vez. Perdeu-se no momento, pensando apenas em como estava finalmente conseguindo concretizar todos os seus sonhos, e viajando com Morzan, dentre todas as pessoas, e em como tudo era tão melhor do que ela jamais imaginara.

Só acordou de seus devaneios muito depois de Carvahall ter sumido de vista, quando Morzan aproximou seu cavalo do de Jaime e disse, “Já estamos longe o bastante, acho.”

Jaime concordou com a cabeça, e anunciou para Neil e Adam, “Alcanço vocês mais para frente.”

Se afastaram então da coluna que os mercadores formavam, parando ao lado da estrada para esperá-los passar, e Selena franziu a testa, confusa. “Longe o bastante para o quê?” Quando Morzan não respondeu, ela se mexeu para conseguir olhar de volta para ele. “Morzan, por que estamos parando?”

Ele só sorriu. “Você não tem medo de altura, tem?”

Selena sentiu o sangue gelar. “Quê? Por quê?” Novamente, ele não ofereceu explicações. “Morzan...”

Morzan desmontou e entregou as rédeas do cavalo a Jaime. Para Selena, disse apenas, “Espere aqui.”

Ela quis protestar quando ele se afastou ainda mais da estrada, suas botas pesadas deixando pegadas na fina camada de neve que cobria o solo, e ergueu o rosto para o céu. Seu coração batia forte em seu peito, e Selena não sabia exatamente o que a estava deixando nervosa. Arriscou olhar para Jaime, só para ver que ele a encarava com clara desaprovação. Quando encontrou o olhar dela, no entanto, ele balançou a cabeça e riu de leve, como se resignado. “Só espere,” instruiu.

Selena engoliu em seco, só um pouco mais calma, e voltou a atenção para Morzan. Ele ainda estava de costas para eles, ainda com a cabeça erguida para o céu. Ela examinou as montanhas da Espinha que cercavam o vale Palancar, e em um primeiro momento, não viu nada. Finalmente percebeu um pequeno ponto vermelho – era vermelho? – contra as manchas brancas e verde-escuras da floresta coberta de neve. Mas ainda demorou um pouco para entender do que se tratava.

Quando o dragão pousou em frente a Morzan, no entanto, Selena já tinha os olhos arregalados e cobria a boca com uma mão. Sabia que não deveria estar surpresa – afinal, que Morzan era um Cavaleiro não era novidade – mas, de alguma forma, em meio a tudo que estava acontecendo, ela simplesmente não parara para considerar aquele detalhe.

“Vá em frente,” Jaime disse. “Lorde Morzan está te esperando.”

Ele não parecia estar. Morzan havia se aproximado do dragão e encostado a testa contra seu focinho, e de alguma forma aquele pareceu um momento íntimo no qual Selena não queria se intrometer. Ainda assim, ela desmontou e se aproximou, hesitante. O dragão tinha escamas que variavam de um vermelho muito vivo a um tom muito escuro, cada uma brilhando como uma pedra preciosa, e seus olhos eram grandes e negros como a noite. E ele era enorme.

Morzan deu um passo para trás e olhou para Selena. “Venha,” chamou. “Te ajudo a subir.”

Notas finais
Finalmente saindo de Carvahall para começar a fic propriamente, ai ai. Estou tão empolgada! Espero de coração que tenham gostado, e vejo vocês nos comentários. beijinhos ♥