Shiver

58 Capítulo 58


Notas iniciais
Bom dia, meus amores!! Fica muito feio se eu agir aqui como se tudo estivesse normal e não fizesse um SÉCULO desde a última atualização? Desculpem pela demora anyways ♥ Esse capítulo é em teoria o capítulo de aniversário da Cecília (hmm, já faz quase um mês? uops), então Ceci feliz-aniversário-de-novo-só-que-em-outubro para você!! Te amo demais etc etc no huge bday texts cause in theory i already wrote u one !! Te amo ♥ Boa leitura, meus amores!

Selena estava sentada ao lado de uma mureta baixa no pátio do palácio onde a guarda de Morzan treinava, sobre um tecido confortável que cobria as pedras e dispondo de uma bandeja de frutas e pães, bem preparada para aproveitar do sol que já se tornava cada vez mais fraco. Ela tinha um livro aberto sobre o colo, e apoiava na mureta uma caderneta onde anotava com cuidado as características e os efeitos de diversos venenos.

(Não era difícil entender porque Morzan instruíra que os estudasse: eram informações que certamente lhe seriam úteis, de uma maneira ou de outra).

Ela supunha que sua presença ali fosse, de certa forma, inapropriada. Tentava manter sua atenção voltada inteiramente ao que deveria estar fazendo, mas não conseguia impedir os próprios olhos de subirem de vez em quando, sempre para constatar a mesma coisa: que estava cercada apenas por homens, em sua maioria vestindo armadura e uniforme, mas também por aqueles que optaram por tirar as camisas ao treinar com espadas sem fio; todos cobertos de suor por conta do exercício.

O próprio Morzan havia abandonado seu gibão e camisa aos cuidados de Selena já fazia algum tempo. Ele não descia para praticar esgrima com os guardas com tanta frequência — embora certamente se exercitasse diariamente — mas suas visitas eram o suficiente para que tivesse com eles um método que os homens assumiam sem precisar de muita instrução.

Morzan enfrentava dez de cada vez, embora os guardas não o atacassem todos ao mesmo tempo. Assistindo, Selena não tivera dúvida alguma que eles devessem ao menos tentar, e assim ter uma chance real de atingi-lo. A verdade era que, fosse por ser um Cavaleiro, fosse por praticar com a espada há mais tempo do que os homens estavam vivos, fosse por já ter lutado em diversas batalhas reais, Morzan se movia com uma velocidade e habilidade que eles não eram capazes de acompanhar. Ele os derrubava ao chão, um após o outro, sem falta e sem misericórdia, e, na expectativa da derrota, os guardas hesitavam em atacá-lo e só se colocavam em ainda maior desvantagem.

Como eles tinham qualquer esperança de conseguir proteger a torre de outro dos Treze Servos, ela não fazia ideia. Comentara aquilo com Jaime, quando ele estivera sentado na mureta ao seu lado, observando à distância o treino dos homens, mas ele só rira baixo.

“Nós não temos. Não de verdade.” Ele encolhera um pouco os ombros. “Podemos proteger os aposentos de Lorde Morzan dos agentes do resto dos Treze, de outros humanos como nós. Podemos observar e perceber quem procura saber mais sobre ele, e podemos tomar nota de seus métodos, mas, realmente, contra outro Cavaleiro, não teríamos muita chance.”

“E se um deles resolvesse atacar?”

Jaime mantivera os olhos cuidadosamente voltados aos seus homens. “Daríamos nossas vidas por ele. E então ele saberia o que aconteceu.”

Não fora uma resposta que a agradara. “Tenho certeza que vocês servem melhor a Morzan vivos do que serviriam mortos.”

O capitão da guarda de Morzan rira daquilo, finalmente devolvendo seu olhar. “Eu certamente espero que sim, minha senhora.” Algo no rosto de Selena fizera com que sua expressão se suavizasse. “É um sacrifício que você precisa estar disposto a fazer,” disse, mais gentilmente, “quando escolhe se juntar à guarda.”

“A morrer por Morzan? Pelo Império? Ou pelo que você acredita?”

“Não é algo específico da guarda de Lorde Morzan, então suponho que pelo que você acredita, mas não é bem isso tampouco. Eu diria que é mais sobre fazer o seu dever,” Jaime dissera. “Até o fim. Mas sim, eu estaria disposto a morrer por ele. Você não?”

Selena não soubera bem como responder; ela não achava que estaria. “Eu acho,” devolvera devagar, “que sou jovem demais para morrer por quem quer que seja.”

Jaime a observara com atenção por um longo instante, absorvendo suas palavras, e Selena chegou a se perguntar se ele não a estaria julgando. “Sim,” ele acabou por concordar. “Eu suponho que seja.”

Era Jaime quem lutava contra Morzan agora, mas apenas os dois, e não em meio a um grupo como os outros guardas antes; era quase estranho de se assistir, porque Jaime, apesar de ser um espadachim perfeitamente decente, estava longe de ser o mais habilidoso da guarda, e ainda assim chegava mais perto de atingi-lo do que qualquer um dos outros.

Inicialmente Selena pensara que era apenas porque Morzan diminuíra o próprio ritmo para um que o guarda fosse capaz de acompanhar — e ele realmente diminuía — mas logo percebera que aquela não era toda a resposta. Por mais que não fosse de fato capaz de nem mesmo chegar perto de ser capaz de derrotar seu senhor, Jaime se desviava de seus golpes com menos dificuldade que os outros, e pareceria responder a seus movimentos com facilidade. Ele o conhecia bem demais, Selena percebeu, e aquilo fazia uma diferença imensa.

Mas também era impossível negar que Morzan estivesse facilitando para ele. Apesar de todo o mérito que Jaime tivesse ao acompanhá-lo e ver através de suas fintas, o Cavaleiro nunca permitia que qualquer dos golpes que passassem pelas defesas de Jaime o atingissem com força. Ele tocava a túnica do capitão de sua guarda de leve com a espada, com um sorriso que mal curvava seus lábios, mas se mostrava muito claro em seus olhos díspares, e traçava com os lábios a palavra morto, aparentemente sem fazer som algum.

Selena pôs de lado a caderneta em que anotava ao observá-los, julgando seus estudos do dia já satisfatórios, e os assistiu de longe recomeçar a luta mais uma vez. Estavam já os dois cansados, ela supunha, mas isso não parecia impedir Jaime de se esforçar ao máximo; ele parecia determinado a aumentar a velocidade de seus movimentos, e Morzan o acompanhava com facilidade. Selena os observou trocar golpes cada vez mais rápidos, a própria respiração presa na garganta, até que Morzan bateu contra o punho da espada de Jaime em um movimento que ela não foi bem capaz de acompanhar, e a arma caiu deslizando pelo chão com um tinir alto.

O sorriso de Jaime foi quase pesaroso quando Morzan encostou a ponta da própria espada em seu pescoço, a usando para erguer também seu queixo. Selena nunca vira Jaime olhar assim para outra pessoa: havia uma diversão relutante em seus olhos verdes tão pálidos, combinada a um quê de censura e descrença, e também algo mais que ela não foi capaz de reconhecer. Os lábios de Morzan formaram outra palavra dessa vez: meu.

Selena quis desviar o olhar, mas não pôde. Assistiu, então, Morzan abaixar a espada e oferecer um braço para ajudar Jaime a se firmar, tocando as costas do homem muito brevemente enquanto os dois faziam o caminho até onde ela os esperava sentada.

Jaime parou a alguns passos de distância para lavar o rosto com água gelada, mas Morzan se limitou a passar um pano umedecido pela pele antes de se sentar ao lado de Selena. Ele se recostou contra a mureta de pedras, pendendo a cabeça para trás para olhar para o céu azul — as nuvens eram poucas.

“Se divertindo?”

Selena encolheu os ombros. “É uma vista bonita,” respondeu, se satisfazendo ao vê-lo rir pelo nariz. “Você?”

Ele voltou os olhos díspares para ela. “Não tive chance de aproveitar a vista, receio.” Indicou a caderneta de Selena com o queixo. “Posso?”

Ela assentiu, dobrando as pernas para abraçar os próprios joelhos, engolindo o toque de nervosismo em seu estômago. Seria assim que os jovens nobres e filhos de mercadores se sentiam, quando seus tutores pediam para examinar seu trabalho? Seria pior? Ela imaginava que o que estava estudando talvez fosse fácil, em comparação. Com certeza se comparado com os estudos dos antigos noviços dos Cavaleiros — não que ela já houvesse visto algum exemplo, mas sabia que Morzan poderia lhe contar, se quisesse saber.

Selena voltou a estudar seu rosto, notando como seus olhos passavam devagar e com atenção, correndo sobre tinta preta e páginas claras. Seria sua letra ainda muito ruim? “Você consegue ler bem?” Perguntou, incapaz de se conter.

Morzan voltou o olhar para ela com certa diversão. “Sim, Sel, consigo.” Olhou de relance para a caderneta. “Teria sido melhor se você houvesse desenhado as plantas, porém—”

“Eu não sei,” ela interrompeu. E então, “Desculpe. Eu só... Eu poderia ter desenhado, quero dizer, mas sem qualquer garantia de que seria algo minimamente reconhecível, e com certeza não teria o nível de detalhe necessário. Então...”

Ele sorria. “Não tem problema, Sel. Não preciso necessariamente que você conheça cada uma das plantas, embora certamente seja útil ser capaz de reconhecê-las. E não é vital que você saiba preparar os venenos, apenas como e quando usá-los. Você anotou tudo isso, de qualquer forma.”

Aquilo era bom? “Eu tentei ser metódica.”

“Claramente.” Morzan ergueu os olhos para Jaime, que se aproximava devagar. “Você aprovaria,” disse a ele.

“O quê?” O capitão da guarda perguntou, e então aceitou graciosamente a caderneta que seu senhor lhe estendeu. Seus olhos claros percorreram a página com menos atenção do que de costume; talvez aquilo não fosse assim tão importante. “O assassinato de seus inimigos com veneno? Não acho que seja essa minha especialidade.” Havia um quê de humor em sua voz, e ele devolveu a caderneta a Selena. “Está certamente bem organizado, minha senhora.”

Ela a aceitou com um sorriso pequeno. “Eu tento.”

“Você conseguiria me responder se eu te perguntasse sobre o que estudou?” Morzan perguntou, e ela lhe ergueu os olhos em alarme.

“Eu...” Selena hesitou. “Talvez? Acho que sim.”

“Esse é um exercício para mais tarde, porém. Agora quero que me diga: qual é a melhor forma de se proteger de envenenamento?”

Ela ergueu as sobrancelhas, surpresa. O livro não falava sobre aquilo, ou, ao menos, a parte que ela lera não tratara do assunto. “Não comer nada envenenado?” Quando Morzan a respondeu apenas com um olhar repreensivo, ela lhe ofereceu um sorriso como pedido de desculpas. “Eu não sei. O método tradicional para nobres é ter alguém que prove suas comidas, não é? Mas isso não deve funcionar contra venenos que demoram a agir; quero dizer, você talvez tenha a certeza que foi de fato veneno, e é mais fácil salvar alguém de um desses, porém não vejo como isso seria qualquer garantia de segurança. Magia talvez seja um método mais efetivo.”

Morzan sorriu. “E como você sugeriria fazer isso com magia?” Vendo a confusão no rosto de Selena, ele adicionou, “Quais são as opções?”

Jaime também a observava com atenção. Selena mordeu o interior da bochecha. “Eu acho... Bem, você poderia curar os efeitos do veneno depois de tomar, mas não seria ideal, porque há o risco de estar muito mal para conseguir fazer o feitiço. E existem feitiços de proteção preventivos; você poderia fazer um que te alertasse sobre o veneno, suponho, ou que já prevenisse e impedisse seus efeitos.”

“E qual deles você usaria?”

Selena percebeu Jaime abrir a boca como se para responder, e então fechá-la de novo e desviar o rosto; ele sabia a resposta, ou pelo menos tinha uma ideia, e pareceria estar se controlando para não falar.

“Se você apenas usar o feitiço de aviso,” ela disse, mais determinada ainda a acertar, “corre o risco de ele falhar, ou de não perceber o aviso por algum motivo. Por outro lado, com ele você saberá que a tentativa de assassinato ocorreu, e poderá tomar providências decorrentes dessa informação; descobrir que alguém que considerava um amigo na verdade é um inimigo, ou então que há uma hostilidade já desse nível. É importante se ter a informação. Já com o feitiço de proteção contra o veneno em si, você tem maior garantia de que está de fato protegido, porque ele funcionará quer você perceba o que ocorreu ou não. Mas é possível que você não perceba, e não tenha a noção do perigo que corre e da gravidade da situação.”

Morzan inclinou a cabeça em sua direção, quase como se a elogiasse. “Então?”

Ela não hesitou tanto desta vez. “Eu diria para usar os dois? Ter o feitiço do aviso, e então também o segundo como segurança caso ele falhe em te proteger. A opção de se curar após o envenenamento viria apenas em último caso, na ocasião de todas as suas outras proteções falharem. Embora eu não tenha certeza de que seria fácil se curar de um veneno que driblou tantos encantamentos.”

Jaime a observava com a expressão neutra, seguindo seu hábito de ouvir sem devolver qualquer julgamento, mas Morzan sorria. Ele se aproximou para prender uma mecha solta dos cabelos de Selena atrás de sua orelha, e então para tocar com os lábios sua testa em um beijo muito suave.

Quando se afastou, seus olhos brilhavam. “Certíssimo.” Pendeu a cabeça para o lado, quase pensativo. “Eu acho, Sel, que você está pronta.”

Notas finais
E aí, gostaram? Nos vemos nos comentários e prometo tentar não demorar muito dessa vez! ♥♥♥