Shiver

59 Capítulo 59


Notas iniciais
hello, lovelies ♥ feliz natal!! ou véspera, or smth. (para todos vocês que comemoram, é claro). vou me abster de fazer um discurso enorme aqui sobre a demora, mas preciso dizer que prometi há um certo tempo o próximo capítulo para a ana banana, so, darling, this one is yours. eu planejo atualizar assim que puder, porque realmente queria postar esse capítulo juntinho com o próximo, mas vamos ver! não podia deixá-los sem nada no natal e tudo. boa leitura, e amo vocês!

A próxima cidade — e a primeira ao sul de Urû'baen — que visitaram foi Dras-Leona, e foi estranho para Selena perceber o que antes só sabia em teoria. Estava acostumada, é claro, com a calma e naturalidade com que Morzan navegava a corte na capital, e não era que ele parecesse menos confortável nas outras cidades do Império: mais cuidadoso, talvez, por estar em um território que talvez não conhecesse tão bem, tendo que ler pessoas que não via com tanta frequência, mas ainda assim era claro para Selena que ele tinha uma familiaridade com Lorde Brendan e a Senhora Adara que não possuía com nenhum dos outros governantes.

Eles haviam sido recebidos com um jantar luxuoso com todos os nobres importantes presentes, e então seguido para um salão de jogos mais vazio apenas com o governador da cidade e sua esposa. Lorde Brendan jogava cartas com Morzan, mas Selena optara por se sentar ao lado do Cavaleiro no sofá baixo e confortável e apenas opinar sobre sua mão por meio de seus pensamentos em uma conversa paralela secreta e muito mais ousada e interessante do que seria permitido em voz alta.

Não haviam ainda falado sobre Fäelan, e, surpreendentemente (embora não talvez não devesse ter sido, Selena tinha consciência, e pudesse ser algo que ela deveria ter sido capaz de antecipar), foi a Senhora Adara quem tocou no assunto pela primeira vez.

A dama tinha os cabelos grisalhos presos em um coque elegante e um livro pequeno nas mãos, sem dar muita atenção ao jogo de cartas, e virou uma página despreocupadamente ao falar. “Eu havia imaginado,” ela disse, “que a essa altura você haveria nos contado as novidades do norte.”

Morzan ergueu os olhos díspares de suas cartas, por um instante silencioso, mas seu sorriso veio tão facilmente quanto sempre vinha. “E que novidades são essas?” Perguntou, por mais que Selena suspeitasse saber, e, se ela sabia, ele certamente saberia também. “Confio em sua capacidade de se manter informada, Senhora Adara, mas seria um prazer esclarecer o que for preciso.”

“O retorno de Lorde Fäelan,” foi Brendan quem respondeu, “nos deixou bastante surpresos.”

“Ah,” Morzan fez. E então, “Admito que não o estava esperando, tampouco, ou pelo menos não naquele momento; ele foi capaz de pegar a maior parte da corte despreparada. Não foi, Sel?” Ele entrelaçou os dedos nos dela, segurando suas cartas em apenas uma mão, e Selena apreciou o esforço para incluí-la na conversa; estava ciente, também, de que aquela talvez fosse uma tentativa silenciosa de dizer a ela que participasse mais.

“Chegou na metade do baile de outono,” ela contou. “Depois do banquete, quando já estávamos dançando. Acho que ninguém sabia que viria além do próprio rei e Lorde Kialandí e a Senhora Formora.”

“A quem Fäelan havia contado que voltaria, sem dúvidas,” Morzan adicionou. “Mas Enduriel não sabia de nada.”

Adara fechou seu livro, marcando a página onde estava com um dedo. “Não sabia, ou não te contou que sabia? Sabe que não é a mesma coisa, Lorde Morzan.”

Morzan apenas sorriu. “Enduriel não sabia. Ele não faria o melhor dos aliados, de qualquer forma.”

“Lorde Fäelan está se juntando aos outros elfos, então? Ou não?” Perguntou Lorde Brendan. “O que é que ele está fazendo? O que quer?”

“Ele buscou pelos outros elfos, certamente, mas não sei se foi porque são elfos, porque ele já sente uma inclinação natural a eles, ou porque Fäelan considera que, estrategicamente, eles fariam os melhores aliados. Mas ele está entre humanos agora, e não pode conseguir nada sem nós, então é claro que precisa de mais do que apenas Kialandí e Formora. Os dois sabem disso, também.”

“Sabemos que ele tem viajado,” Selena acrescentou. “Para visitar os governadores das cidades. Mas não ouvimos nada sobre ele ter contatado outros nobres antes de voltar a capital, e, se ele o houvesse feito, teria sido muito mais difícil manter secreto seu retorno. Então...”

“Então é seguro pensar que ele não o fez,” Morzan completou. Ele traçava círculos na mão de Selena com o polegar, um gesto que parecia distraído, mas provavelmente não era. “E afastou todos os seus antigos aliados quando decidiu abandonar a corte para passar uma década enfurnado em seu castelo. Não, eu acho que ele está adquirindo influência agora, e precisamos aproveitar o momento para pará-lo.”

Lorde Brendan se recostou contra o sofá onde estava sentado, abaixando suas cartas para repousá-las, viradas para baixo, na mesa. “E se você estiver enganado, Lorde Morzan? E se,” e ele ergueu um dedo, parando a resposta de Morzan, “os antigos aliados de Lorde Fäelan, os que ainda têm algum valor, o houverem perdoado, simplesmente porque ele pode lhes oferecer muito? E se ele tiver encontrado aliados entre mercadores, ou soldados, ou entre as pessoas comuns? O quê então?”

Morzan soltou a mão de Selena. Juntou as próprias cartas em um monte perfeito e o depositou sobre a mesinha de centro com cuidado, e tomou um momento para beber um gole de vinho antes de falar. “Ele te contatou, Lorde Tábor? Ofereceu a você promessas e riquezas e poder, oportunidades e segurança além de tudo o que você já conquistou, a ponto de fazê-lo se esquecer de quem eu sou? O encantou com palavras bonitas para de alguma forma fazê-lo imaginar que ele tem qualquer chance de usurpar meu lugar, ou de lhe proporcionar algo que eu não possa? Para fazê-lo acreditar que, mesmo que ele consiga, exista qualquer chance de você sobreviver para aproveitar das recompensas?”

Lorde Brendan parecia muito pálido, mas mesmo assim falou com firmeza. “O rei sabia que Lorde Fäelan voltaria. Sabia quando, como, e certamente sabe por quê. Mas você, seu servo mais próximo e mais influente, não fazia ideia. Como explica isso?”

“Não fazia ideia? Ah, eu sabia que ele voltaria. Talvez não quando, exatamente, ou para quê, os quais sejam seus planos agora, mas você realmente acredita, Lorde Brendan, que eu não sei quando meus inimigos se movimentam? Tenho preocupações maiores que Fäelan e não é apenas ele que preciso observar, porque, por mais que seja um elfo e um Cavaleiro, ele não é capaz de proteger nem mesmo seus próprios criados.”

“Lorde Fäelan estava atacando os mercadores da capital,” Selena disse, reconhecendo sua deixa. Juntou as mãos no colo, comportadamente, e sorriu para Lorde Brendan. “Roubando suas mercadorias e perturbando a economia das terras do rei. Devem ter ouvido os relatos, Lorde Brendan, Senhora Adara; sei que são bem informados. Fui eu quem Morzan mandou investigar o que ocorria, e quando encontrei o homem que comandava as operações em nome de Lorde Fäelan, eu tinha apenas um guarda ao meu lado. Eles tinham uma vantagem numérica absurda, e, ainda assim, estão todos mortos. O líder tinha um broche élfico bastante bonito, impossivelmente valioso, que pertencera ao próprio Lorde Fäelan e deveria mantê-lo a salvo. E agora ele é nosso.”

Morzan sorriu para ela. “É uma joia linda.”

“Sim,” Selena concordou. “Eu a mantenho em uma caixinha em minha mesa, mas, honestamente, tenho melhores.”

Era mentira, é claro. Ela não havia visto o broche em formato de dragão desde que o depositara sobre a mesa de Morzan, meses antes, mas imaginava que ele o teria guardado em algum lugar. E tornara o relato tão vago quanto podia, de forma a permitir que quaisquer rumores exagerados que houvessem chegado os ouvidos de Lorde Brendan não fossem desmentidos.

O governador de Dras-Leona parecia chocado, mas sua esposa observava Morzan e Selena com um cuidado muito calmo. “Ouvimos falar sobre o que aconteceu,” a Senhora Adara admitiu. “Você vem sido chamada de a ‘Mão Negra’, Senhora Selena. Pessoalmente, achei difícil de acreditar quando ouvi, mas, conhecendo Lorde Morzan, supus ser verdade.” Ela deixou seu livro de lado. “Lorde Fäelan não nos contatou. Quero dizer, contatou, mas apenas para repetir as cortesias costumeiras. O que ouvimos, porém, das cidades do norte, é que ele vem prometendo mais para outros. O quê, exatamente, não sei dizer.”

O olhar que Morzan dirigiu a ela ainda foi um tanto duro. “Mais?”

“Nós, das famílias que controlam as grandes cidades, tomamos o cuidado de nos manter próximos—”

“Vocês conversam, eu sei,” Morzan interrompeu. “O que foi que ouviu, Senhora Adara? Conte-me.”

“Não muito, para ser sincera. Mas sei que Fäelan prometeu dar atenção especial para os governadores que se comprometerem a ajudá-lo, e a interferir em seu favor com o rei. Aqueles que ficarem ao seu lado, acho que podemos dizer.”

“Os que apoiarem seus planos?” Selena resumiu.

“Exatamente.”

“Mas apenas ao norte de Urû’baen?” Perguntou Morzan. “Ele não ofereceu nada a nenhum governador do sul do Império?”

“Pelo que eu ouvi, não,” Adara confirmou. “Ainda não, de qualquer forma. Mas pode ser que o que quer ele busque seja algo que não podemos lhe dar.”

Selena se voltou para Morzan, estendendo sua mente para tocar seus pensamentos. Nós passamos em todas essas cidades, disse, conversamos com cada um de seus lordes. Nenhum nos contou coisa alguma.

Morzan encontrou seu olhar, sacudindo a cabeça minimamente antes de desviar a atenção mais uma vez. “Talvez. Eu aprecio a informação e sua sinceridade, Senhora Adara. Senhor Brendan, vocês ainda têm minha gratidão, e um lugar ao meu lado, se o desejarem.”

“Nunca quisemos deixá-lo,” o governador de Dras-Leona respondeu. “Peço perdão se dei a entender algo diferente.”

“Mas a verdade, Lorde Morzan,” Adara disse, “é que não posso dizer que não tenha preocupações, tampouco. O que Fäelan ofereceu aos governadores do norte parece ter sido tentador, e mesmo o conflito mais sutil entre dois dos Treze pode se provar perigoso. Precisamos de garantias.”

“Garantias?” Morzan repetiu, seco. “Que garantias, minha senhora?”

“Você considera que nos ter ao seu lado agora é de seu interesse,” ela explicou. “Mas será que isso continuará sendo verdade em cinco anos? Dez? Vinte? Quando eu e Brendan morrermos, você irá querer Marcus como aliado? Você o protege agora, como nosso filho, mas, quando ele for governador de Dras-Leona, será que ainda vai considerar valer a pena mantê-lo a salvo? Precisamos de aliados que se disponham a nos ajudar em longo prazo.”

Selena franziu um pouco a testa ao ouvir aquelas palavras, se recordando de algo que escutara não muito tempo antes, mas a que não dera valor algum. Voltou-se para Morzan, pronta para perguntar mais a ele, mas o Cavaleiro tinha os olhos díspares fixos na Senhora Adara.

“E o que você quer, minha senhora? Uma promessa de que continuarei a favorecer seu filho no futuro, mesmo que não ganhe com isso? Que não o abandonarei ou machucarei, mesmo que ele seja mais um problema do que um aliado valioso?”

“Ele é meu filho,” Adara disse, “apesar de tudo. Então, sim, eu gostaria de ter essa promessa.”

Morzan sorriu, se levantando e puxando Selena consigo. “O melhor jeito de protegê-lo,” disse, “teria sido criá-lo de modo a garantir que ele se tornasse alguém que todos quereriam ao seu lado. Não posso te prometer coisa alguma, minha senhora, mas posso lhe dar o suficiente agora,” ele tocou as costas de Selena com uma mão, “para que o risco valha a pena.”

E, com isso, Morzan se despediu para se retirar para a noite. Com um braço entrelaçado no dele, Selena o acompanhou sem prestar muita atenção aonde iam, seus pensamentos um turbilhão confuso. Ela se voltou para Morzan, prestes a falar, mais de uma vez, só para então morder o lábio e continuar em silêncio, desviando os olhos para as pedras dos corredores do castelo.

Ele deixou seu braço cair quando chegaram nos aposentos que Lorde Brendan lhes cedera, soltando o ar por entre lábios entreabertos no que era quase um suspiro, e disse, “Isso foi... preocupante.”

“Preocupante?” Selena repetiu, um pouco distraída, percebendo apenas vagamente que a palavra não parecia apropriada.“Eles são seus aliados mais próximos dentre os governantes das cidades, não são?” Antes que ele a respondesse, ela continuou, “Morzan, teve algo que a Senhora Adara falou, bem, sobre ajudar em longo prazo...”

O olhar que Morzan lhe lançou foi estranho, e ele se afastou para se servir de mais um cálice de vinho. “Não está me perguntando se eu deixaria mesmo de ajudar Marcus, está? Sel, se ele me servisse melhor morto do que vivo, eu não teria motivo algum para deixá-lo viver.”

“Não é isso,” ela respondeu, sacudindo um pouco a cabeça, sem se permitir refletir muito sobre suas palavras. “Não, é só que... Em Gil'ead, na manhã depois que nós...” Selena fez uma careta pequena. “A criada que veio me ajudar a me vestir no dia seguinte fez um comentário sobre estar feliz que os Treze estivessem interessados em uma aliança a longo prazo com a cidade, e, na hora, eu pensei que ela estivesse falando de maneira geral, ou sobre algo que havia suposto, ou realmente sobre você. Não pensei muito sobre, na verdade, porque estava preocupada com outras coisas. Mas e se ela estivesse falando se algo concreto? E se o que Fäelan prometeu aos governantes do norte tenha sido ajudá-los, não apenas nos próximos anos, mas nas próximas décadas? Ajudar suas cidades a florescer, e crescer, e, bem, ajudá-los a conseguirem o que quiserem do rei?”

Morzan se virou para ela muito devagar. “Você ouviu de uma criada dos nobres de Gil'ead algo a respeito das intenções de Fäelan lá, e não me disse nada sobre isso?”

Selena cruzou os braços sobre a barriga. “Eu te disse, não pensei que fosse algo importante. Não pensei que fosse sobre ele. Além disso, nós não estávamos exatamente nos falando.” Ele permaneceu em silêncio, concedendo o ponto, e ela perguntou, “Morzan, isso faz sentido? É possível que ele realmente esteja oferecendo algo assim? Por que ele iria querer se aliar às cidades do norte, de qualquer forma? As do sul são em geral mais ricas, mais influentes...”

“E não precisam tanto de sua ajuda,” Morzan completou. “Além do fato de seus governantes já terem, em sua maioria, laços fortes com outros de nós. Se Fäelan ajudasse cada uma das cidades do norte a crescer, os nobres de lá poderiam, potencialmente, se sentir endividados para com ele.” Ele apertou os lábios. “Talvez.”

“Mas é um jogo tão longo,” Selena apontou. “Sei que o tempo é diferente para elfos, mas será que isso vale a pena? O que as cidades do norte podem oferecer a ele que ele não conseguiria mais rapidamente no sul?”

Morzan olhou para ela como se lhe dissesse que havia acabado de lhe explicar exatamente aquilo, e Selena mordeu o interior da bochecha, incomodada e insatisfeita. Aproximou-se dele devagar, tomando a liberdade de roubar sua taça e beber um gole de seu vinho, e apoiou a cabeça em seu ombro.

Sorriu um pouco quando ele passou um braço ao redor de sua cintura, e foi em uma voz bem baixa que perguntou, “E é mais próximo de onde os elfos estão escondidos, não é? Da floresta? Ceunon é perto demais de lá, e Gil'ead... Gil'ead é onde fica a maior parte do exército do rei.”

“...E? Não é como se um exército humano fosse capaz de invadir e tomar as terras élficas, Sel. Apenas com o rei os liderando teríamos qualquer possibilidade, e os planos de Galbatorix, pelo menos por enquanto, são outros.”

“Sim, mas os planos de Fäelan não são curtos, são? Seus objetivos não são imediatos. Ele está se aliando com Kialandí e Formora, e você mesmo já deu a entender que ele não tem interesse nas intrigas da corte humana. Eu sei que seria algo realmente ambicioso, mas se ele quisesse, não sei, conquistar os elfos e governá-los em nome do rei... Galbatorix concordaria com isso?”

Morzan se virou para olhar melhor para ela, e, muito a contragosto, disse, “Talvez. Para agir no momento certo.”

“E isso seria ruim para você?”

“Fäelan no comando de milhares de elfos?” Morzan perguntou, e riu. “Sel, nós não poderíamos nunca deixar isso acontecer.”

Notas finais
♥♥♥