Shiver
43 Capítulo 43

Embora Selena fosse perfeitamente capaz de vestir sozinha os vestidos que Morzan lhe dera para aquele tipo de ocasião — simples, de couro, rodados o suficiente para que ela pudesse se mover e lutar com facilidade os usando — Emma ainda a ajudava, fosse por aquele ser seu papel ou por ser ela mesma perceptiva o bastante para não querer deixá-la sozinha em momentos como aquele.
Sentada em uma cadeira de frente ao grande espelho enquanto Emma prendia seus cabelos, Selena perguntou, “É muito diferente, servir a mim? Do que era para sua ama antiga, quero dizer.” Emma ergueu os olhos âmbar para ela pelo reflexo, um sorriso discreto nos lábios cheios. “Não imagino que minhas atividades sejam muito comuns.”
“É diferente, minha senhora,” Emma admitiu. Sua pele mais escura adquiria um tom muito bonito sob a luz das lanternas sem chamas, seus cabelos castanhos cacheados alguns traços de dourado. “Mas não apenas por isso. Tudo isso das missões em que Lorde Morzan a manda é muito empolgante,” ela riu baixo, o som muito suave, “mas a verdadeira mudança vem no dia-a-dia. A Senhora Amarei era um pouco mais nova que você, e passava a maior parte de seu tempo com outras damas; a servindo, eu ouvia todo o tipo de rumores. Seu pai era um nobre importante, suponho, por mais que tenha saído das graças do rei e da corte mais recentemente. Mas a verdade é que aqui me sinto realmente em meio às pessoas relevantes.”
“E você gosta,” Selena adivinhou. “Não posso dizer que a culpo.”
Emma corou, graciosa e absurdamente bem-comportada. “Sim.” Sorriu mais uma vez. “E então há você, minha senhora.”
“É diferente para mim também,” ela admitiu. Morzan insistira para que não contasse a ninguém de onde vinha, sem exceções além dos guardas que já sabiam, então não elaborou. “E em dias como hoje...”
“Mas não deve haver risco, não é mesmo, minha senhora? Não deve nem ser reconhecida, e com certeza levará alguém consigo para proteção?”
“Sim,” Selena admitiu. “Neil estará comigo.” Emma ergueu os olhos do que fazia por um instante. O penteado era bastante simples, apenas as mechas da frente presas atrás de sua cabeça, designado para não chamar a atenção e também manter os cabelos de Selena longe de seu rosto. “Nem mesmo demoraremos a voltar, provavelmente. Se descobrirmos mesmo onde os bandidos se encontram, ou seus planos para o próximo ataque... Seria maravilhoso. Só quero resolver esse problema e deixar isso para trás.”
“Tenho certeza que vai,” a aia concordou. “E então irá aproveitar de seu sucesso.”
Selena encontrou seu olhar através do espelho. Seu sucesso significaria algo, ela tinha certeza, mas teria menos impacto do que um fracasso; desconfiava que construir uma reputação por ali era muito mais difícil do que destruir a própria imagem. E Emma deveria saber disso, é claro, mas confiança era a única coisa presente em seu rosto delicado.
“Pronto, minha senhora,” a aia avisou, se afastando um passo para examinar o próprio trabalho. “Vai ser a mulher mais bonita na taverna.”
Talvez fosse a única mulher na taverna. O prisioneiro de quem Morzan extraíra um juramento de lealdade finalmente voltara a eles com informações úteis, e o homem escolhido para receber as instruções para o próximo assalto o faria em um local afastado e frequentado por clientes nada admiráveis. Havia naquilo um cuidado enorme, Selena percebia, em manter secreta a identidade de quem quer que estivesse agindo contra os mercadores, e ela mordia o lábio, inquieta, ao contemplar as possibilidades.
Mas aquela seria uma missão silenciosa, onde ela teria apenas que observar e procurar informações, e não deveria nem mesmo ter contato com qualquer estranho. Morzan decidira que levar mais tempo era um preço justo a se pagar por segurança e precisão em quaisquer ações futuras, e Selena não correria perigo algum naquela noite. O pingente de rubi repleto de energia para feitiços mais complicados escondido sob seu vestido era apenas uma precaução, assim como a espada em sua cintura.
Ela sorriu para Emma, agradecendo o elogio. Vestiu a capa pendurada ao lado do espelho, se certificando que não era possível perceber que estava armada mesmo quando seu ombro direito ficava exposto, e, vestida como estava, era quase como se ainda fosse a garota que deixara Carvahall, acostumada a uma vida simples em uma vila pequena. Ela se sentia extremamente confortável ao aparentar ser menos, e se incomodava um pouco exatamente por isso.
A batida na porta foi suave, e Emma se adiantou para atendê-la.
“Neil,” ela cumprimentou, sua voz um tanto fraca. “Você... Olá.”
Selena desviou os olhos do próprio reflexo por um instante, desconfiada. Emma estava de costas, mas ela conseguiu perceber as covinhas nas bochechas de Neil quando ele sorriu.
“Emma. Como está?” O guarda ruivo estava usando roupas tão simples quanto as dela, mas não havia nada que escondesse sua espada. Ela não pôde ouvir a resposta de sua aia. “A Senhora Selena está pronta?”
Tão pronta quanto poderia estar. “Bastante,” Selena o respondeu. Pendeu a cabeça para trás para olhá-lo melhor. “E você?”
Neil ergueu os olhos castanhos para ela, inclinando o rosto em um cumprimento respeitoso. “Estou, minha senhora.”
Ela se afastou do espelho, andando em direção à porta. “Sabe que não vai poder me chamar assim quando estivermos na rua,” disse, e sorriu um pouco. “Para não corrermos o risco de nos desmascarar.”
“Não é nada que eu não consiga fazer, minha senhora,” ele prometeu, mas não lhe ofereceu o próprio braço ou se aproximou mais do que deveria. “Vamos? Lorde Morzan está nos esperando lá embaixo.”
Ele não os iria acompanhar, no entanto, por ser facilmente reconhecido e por ainda querer que Selena treinasse sair em missões sem sua ajuda — o que, ela sabia, só viria a se tornar a condição permanente de tudo que ele lhe pediria. Então Morzan só beijou sua testa e riu quando ela pediu que ele lhe desejasse sorte (afirmando não achar que ela precisasse), e a mandou para as ruas da cidade com a promessa de que estaria esperando por ela quando voltasse.
Neil buscou os cavalos nos estábulos, e a noite caía sobre uma Urû’baen ainda muito acordada; as pessoas apenas começavam a se retirar, velas eram acesas dentro das casas, as ruas se esvaziavam aos poucos. Eles cruzaram da melhor parte da cidade para outra onde os edifícios eram menores, de certa forma mais frágeis, onde os moradores vestiam roupas simples e tinham olhos cautelosos.
O guarda de Morzan a guiou pelas ruas estreitas, sabendo melhor que ela aonde iam, e não se encaixava tão bem no cenário. Neil tinha uma aparência educada, um ar de propriedade em sua postura que não desaparecia por completo, e Selena se encontrou tentada a perguntar, “Você não nasceu em Urû’baen, nasceu?”
Ele sacudiu a cabeça, os cabelos ruivos perdendo um pouco da cor sob a luz da lua minguante. “Não,” respondeu, e era perceptível como ele se esforçava para não chamá-la da forma correta. “Vim de Belatona, na verdade, mas minha família se mudou para cá quando eu era pequeno.”
“Jaime me disse que seus avós eram nobres que se casaram com mercadores?”
“Ele disse?” Neil pareceu surpreso, um pouco sem graça, e correu uma mão pelos cabelos. “Eles eram nobres menores, não muito importantes, e precisavam do dinheiro. Meus pais queriam resgatar seu lugar na corte, e por isso me enviaram para servir Lorde Morzan, mas... Bem, já não tínhamos direito algum.”
Selena pendeu a cabeça para o lado. “Você gostaria que houvesse sido diferente?”
Ele ergueu o queixo na direção de um beco estreito, e ela o seguiu para lá. “Não, acho que não,” Neil admitiu por fim, encolhendo os ombros. “Eu... Eu fico feliz com o que tenho. A guarda é uma família melhor do que a minha jamais foi. Não que eles não fossem bons, mas não tinham como cuidar de tantos filhos, acho, ou tempo para isso. Meus pais tomaram os cuidados que seu orgulho exigia que tomassem, mas fora isso...”
“Eu entendo,” Selena garantiu. “Sabe que amo minha família, mas minha vida de antes não se compara à que tenho aqui.” Ele ajudou que ela desmontasse, se adiantando também para amarrar seu cavalo a uma viga de madeira, e ela sorriu. “Como nunca conversamos, Neil? Você esteve presente desde o começo.”
Neil corou um pouco, quase imperceptível na luz fraca. “Eu procuro não me intrometer.”
Ela mordeu o lábio inferior, e disse em um sussurro conspiratório, “Bem, como devemos parecer estar juntos esta noite, me reservo no direito de fazer quais perguntas quiser.” Passou o braço pelo dele, e riu um pouco. “De me intrometer, digamos.”
“Já poderia antes,” ele respondeu de prontidão, sua voz baixa deixando claro que dizia aquilo porque a considerava superior, no direito eterno de saber qualquer coisa que fosse. “E serei tão sincero quanto posso.”
“Eu aprecio isso,” Selena garantiu, agradecendo com um sorriso quando Neil abriu para ela a porta da taverna.
Eles entraram juntos, e ela quase torceu o nariz para o local. Era vazio, mal-iluminado, com necessidade urgente de limpeza. Não havia poeira sobre as mesas apenas porque um homem baixo andava entre elas passando um pano sobre os tampos, e o estado das cadeiras dependia exclusivamente de elas terem ou não servido de assento para alguém recentemente.
“Precisamos mesmo comer algo aqui?” ela perguntou em um sussurro horrorizado, se aproximando de Neil para que ele a ouvisse. Lugar algum em Carvahall carecia tanto de cuidado.
O guarda sorriu. “Beber, ao menos,” ele disse, a voz uma mistura de humor e pesar. Seus olhos castanhos examinavam discretamente os poucos clientes. “Se quiser escolher uma mesa, peço as bebidas.”
Selena assentiu, soltando seu braço para se dirigir a uma mesa afastada, se sentando de costas para a parede para conseguir observar as outras pessoas sem maiores dificuldades, sem precisar temer ser observada de volta. Neil se juntou a ela pouco depois, trazendo consigo dois canecos grandes de cerveja.
Ela olhou desconfiada para o líquido dentro do seu e optou por apenas fingir beber. Retomou a conversa em voz baixa, ainda que se mantendo sempre alerta. Neil lhe explicou sobre seus seis irmãos mais velhos, sobre as histórias que sua avó costumava contar, sobre como sua mãe costurava bem e bordava melhor.
O bordado de Selena não era de forma alguma incrível, por mais que ela se esforçasse, e ela não comentou sobre o assunto. Se ocupou em ouvir e correr os olhos pela taverna, procurando pelo homem cuja descrição decorara com cuidado: cabelos castanhos já se tornando grisalhos, barba malfeita, de porte forte, mas não alto.
Supostamente teria uma cicatriz no lábio superior, e estaria lá para se encontrar com outro que lhe explicaria os detalhes do próximo assalto, e seria esse segundo homem o mais digno de nota. Morzan tinha esperanças de que ele fosse alguém reconhecível, ou ao menos que sua aparência os ajudasse a resolver por fim aquele mistério.
Mas não havia nem mesmo alguém que se parecesse com o primeiro homem ali, e, conforme os minutos se estendiam e se tornavam horas, a conversa de Neil e Selena foi ficando mais baixa, mais distraída, mais preocupada.
Clientes iam e vinham, comiam da refeição duvidosa oferecida, bebiam em silêncio ou fazendo discursos incoerentes. Selena passou a bater o pé sob a mesa, menos impaciente do que inquieta, não inteiramente capaz de acompanhar o raciocínio de Neil sobre como era viver em uma casa cheia e empobrecida.
E, mesmo assim, o guarda demorou tempo o suficiente para desistir. Foram talvez horas depois, quando a taverna se encontrava ainda mais vazia, que engoliu em seco uma última vez, que começou em voz muito baixa, “Minha senhora...”
Selena assentiu uma vez, de prontidão. Já estivera pensando naquilo, nas possibilidades e nos riscos. “Deveríamos ir,” disse.
Com o coração batendo forte, ela seguiu Neil para fora, para o beco onde os cavalos ainda estavam bem amarrados, sem conseguir cruzar o espaço rápido o suficiente. Quanto mais rápido saíssem dali, melhor; era provável que apenas houvessem recebido a informação errada, mas também era possível que as pessoas erradas soubessem que estavam ali.
Ela se sentiria mais segura ao montar e começar o caminho de volta, mas haviam apenas alcançado os cavalos quando Neil franziu as sobrancelhas muito levemente, que ergueu um dedo para pará-la, pedindo silêncio.
E então, fraco e perturbador, veio o ruído dissonante de metal raspando o couro, de espadas sendo desembainhadas.
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