Shiver
44 Capítulo 44
Notas iniciais

Selena os ouviu antes de os ver, passos sem dono na noite escura. E então eles surgiram na entrada do beco, fechando o caminho, cinco espadas desembainhadas refletindo a luz fraca da lua minguante. À frente, um homem mais velho; com talvez sessenta anos, ele tinha cabelos prateados e olhos cinzentos muito frios. Ele vestia roupas discretas, porém ricas. Calças escuras, camisa cinzenta, e uma capa comprida presa sob seu ombro por um broche em formato de dragão. Ele sorriu.
“Temo que não vá a lugar algum, minha senhora,” e seu tom era surpreendentemente educado, sua voz macia. “Entendo que esteve procurando por mim, e preciso admitir conseguiu atiçar minha curiosidade. Nos conhecemos finalmente.”
Ela desceu uma mão para o punho da própria espada, cautelosa, e Neil deu um passo para frente, se colocando entre ela e os desconhecidos. Atrás deles, os cavalos se mexiam nervosos. “Você não é como eu esperava,” respondeu, fingindo calma, tentando encarnar em sua voz a confiança arrogante de Morzan. “Embora que tente atacar deslealmente em um beco escuro não é de todo surpreendente.”
“Mas deve ser,” o homem respondeu, divertido, “ou não estaria tão despreparada. Eu compreendo; você é inexperiente em tais assuntos. Já seu mestre talvez devesse ser mais cuidadoso.”
Selena o examinou com cuidado, dos cabelos grisalhos às botas de cavalgada. Tinha certeza que nunca o vira antes, e não havia nada que a ajudasse a identificá-lo. “Ele me emprestou um guarda,” devolveu. Um de seus melhores guardas, de fato, mas, bom como era, Neil não poderia derrotar cinco. “Você não se parece com um bandido comum,” comentou, seca.
Ele riu. “E você há muito descobriu que não é o que somos.”
“Descobri? Bandidos comuns podem organizar assaltos eficientes.” Ela mexeu o rosto para afastar uma mecha de cabelos castanhos dos olhos. “Mas não se vestem como você, e certamente não falam como você. Não suponho que tenha um nome?”
“Tenho, como todos os homens, mas não há porque te dizer. Você não viverá tempo o suficiente para que nomes importem, Senhora Selena.” Ele pendeu a cabeça para o lado, parecendo quase pesaroso, talvez procurando em seu rosto o choque por ouvi-lo dizer seu nome. “Por isso peço desculpas. Você demonstra promessa, e eu gostaria de saber quem se tornaria depois de alguns anos de prática.”
Ela engoliu em seco. Seus instintos pediam que se afastasse, que montasse em um dos cavalos e deixasse que Neil tentasse os segurar enquanto ela fugia, mas mesmo um passo para trás demonstraria seu nervosismo. “E se eu já for o suficiente hoje?”
“Acho que não.” Havia algo amargo naquele sorriso, um traço mal escondido de maldade. “Você é apenas o brinquedo novo de Morzan, se metendo onde não deve. Não terá a oportunidade de aprender com seu erro, mas sua queda talvez ensine a ele uma lição.”
Neil desembainhou a espada, deu um passo à frente. Ele tinha um braço aberto, insistindo que ela ficasse atrás dele, talvez desejando lhe dar apenas a oportunidade de fugir; ele morreria antes de deixar que os homens a alcançassem, mas não lhe serviria de nada morto.
Selena considerou estender a própria mente para tocar os pensamentos do guarda, deixar que ele tomasse a decisão com toda a experiência que tinha a mais que ela. Ao invés disso, então, deixou que sua consciência tocasse o estoque de energia que Morzan depositara em seu colar — parecia, ao menos no momento, imenso.
Ergueu o queixo e falou, sempre atenta à pronúncia, e a palavra estrangeira soou pelo beco parecendo carregar tanto poder quanto deveria, mas nada aconteceu. Os homens deveriam ter caído ao chão, inconscientes, mas permaneceram onde estavam, intocados pela magia.
Seu líder riu. “Você ainda tem muito o que aprender, minha senhora. Eu esperava que seu mestre já lhe houvesse explicado que é possível utilizar magia para proteger, além de atacar. Ou será que ele explicou, e você mesma está protegida por inúmeros feitiços, e só pensou em tentar a sorte, uma última esperança?” No que Selena não respondeu, sem querer admitir que era esse exatamente o caso — e, se não lhe dissesse quais eram suas proteções, talvez tivesse mais chances de escapar — e o homem sacudiu a cabeça, repreensivo. “Não há encantamento que possa nos fazer mal.”
Selena levou a mão ao colar, nervosa, e olhou em volta mais uma vez. Ela e Neil nem mesmo usavam armadura, vestidos como estavam para não chamar atenção, e ela duvidava que suas proteções mágicas durassem muito em um luta. Talvez fosse a hora de pedir ajuda; uma frase pequena e Morzan saberia que ela precisava dele, uma frase e ele estaria a caminho. Será que demoraria muito para chegar, voando em seu dragão?
Ela estava prestes a chamá-lo quando percebeu o significado das palavras do homem. Não há encantamento que possa nos fazer mal. Soltou o colar e deu um passo para frente, desembainhando a própria espada.
Neil, chamou com os pensamentos, tentando não dar atenção a quão estranho era tocar sua mente. Se eu incapacitar os homens, consegue impedir que o líder escape?
Os olhos castanhos do guarda se voltaram muito rapidamente em sua direção, e então novamente aos inimigos. Ele assentiu uma vez, o movimento mínimo, sem questionar suas palavras, sem parecer duvidar de sua capacidade por um instante que fosse.
Selena se apossou das reservas de energia, se permitiu entender por completo o que era que planejava fazer. A intenção do mago era frequentemente mais importante do que o cuidado para formular uma frase inteira, Morzan lhe dissera, para guiar um feitiço. Ela só esperava ser forte o bastante.
“Waíse heil,” disse. Seja curado.
Seja curado da raiva, do medo, da ambição e da ganância, da dor e do ódio, de todas as emoções que levariam um homem a matar. Selena deixou escapar um suspiro surpreso quando o encantamento tomou efeito, a força escapando de seu corpo muito rapidamente. Mesmo com toda a energia em seu colar, o feitiço a deixou se sentindo fraca, um pouco tonta, e foi com esforço que ela ergueu os olhos para avaliar o resultado.
Neil continuava parado no lugar, a espada erguida em posição, mas seus cinco adversários abaixavam as próprias armas. Eles relaxam onde estavam, espadas apontando para o chão como gravetos inofensivos, os rostos estranhamente pacíficos.
Não havia nada em seus olhos, ela percebeu, além de fraco contentamento. Não uma sombra de medo, não o brilho discreto da atenção e inteligência.
Seu líder franzia as sobrancelhas, por um instante confuso, até que o entendimento distorcesse suas feições. Em seu rosto, finalmente, algo que não aquele desdém distante de quem nem mesmo se importava.
“Neil,” Selena chamou, inteiramente uma ordem.
O guarda se moveu mais rapidamente do que ela esperara, cruzando o beco em passos largos, e o líder dos bandidos estava próximo o suficiente para que ele o alcançasse quase de imediato, ainda surpreso o suficiente para nem mesmo tentar fugir.
Neil o segurou com um braço forte, colocando sua lâmina contra seu pescoço, e nenhum dos homens se moveu para tentar pará-lo. O homem ergueu os olhos para Selena, e de alguma forma sua arrogância retornara. E agora?, ele parecia perguntar.
Selena afastou também as próprias emoções, ao menos por hora. Insistiu para si mesma que os homens eram ladrões e assassinos, que haviam vindo ali para matá-la, que serviam um mestre poderoso que não a considerava muito, mas a considerava mesmo assim. Um mestre que se julgava em posição de ensinar a Morzan uma lição.
Poderiam parecer inofensivos agora, mas não haviam sido, minutos antes. Eles seriam condenados à morte, não tinham nem mesmo mais a chance de uma vida real. E ela não queria testemunhas do que fizera. Apertando mais o punho de sua espada, dando força aos dedos que já pareciam fracos, Selena deu um passo a frente, se aproximando do homem mais próximo, e cortou sua garganta.
Sangue espirrou contra ela, forte e desconfortavelmente quente, manchando seu vestido e seus ombros e o pouco de pele na base de seu pescoço que sua roupa não cobria. Selena observou, como se de muito longe, o homem cair de joelhos e então desabar totalmente, e se dirigiu ao próximo.
Quando finalmente se voltou para o líder, estava imunda, os dedos molhados e melados, alguns fios de cabelo grudados pelo suor em sua testa. Neil parecia chocado, até mesmo horrorizado, por mais que com certeza já houvesse visto pior e não tivesse direito algum. E o homem sorriu.
Era o sorriso de quem percebera o próprio erro, de quem desistira da esperança e aceitava de bom grado o próprio destino. Selena percebeu sua intenção tarde demais, apenas um instante atrasada, e os lábios do homem formaram uma última palavra, baixa demais para que ela a compreendesse.
Seus olhos rolaram pra trás, e ele deixou escapar um suspiro muito fraco. Seu corpo pareceu perder toda a força de uma só vez, subitamente flácido, e Neil o deixou cair. O guarda deu um passo para trás, surpreso, e ela se aproximou.
Exceto por uma mancha de sangue em uma de suas narinas e os ângulos estranhos de seus membros, o homem poderia estar dormindo. Selena tomou nota mais uma vez de suas roupas ricas, de seus cabelos grisalhos. Percebeu que ele não carregava nada consigo, pendurado no cinto ou em outro lugar, e estava quase desistindo de extrair dele qualquer informação quando avistou mais uma vez seu broche.
Era de metal escuro e tinha o formato de um dragão, as asas abertas em voo; labaredas de ouro vermelho saiam de sua boca, e seu olho era um único e cristalino diamante. A joia era mais delicada, mais rica, mais detalhada do que Selena jamais vira, e era difícil acreditar que havia sido feita por mãos humanas. Não deveria ser forte o suficiente para segurar a capa do homem no lugar, mas lá estava.
Selena estendeu uma mão para pegá-la, e seus dedos mancharam o metal de sangue.
Fale com o autor