Shiver
96 Capítulo 96
A espera parecia interminável.
Selena havia escolhido trocar suas roupas por um novo vestido de início, para que pudesse deixar a torre e fazer alguma coisa caso Morzan voltasse ou precisasse de sua ajuda, mas então a tarde se passara sem novas notícias, e depois do anoitecer ela optara por trocá-lo por uma camisola delicada e seu robe vermelho pesado, bem fechado pelos cordões dourados amarrados ao redor de sua cintura. Se sentara sobre a cama espaçosa de Morzan, as costas contra a cabeceira, e chegara a até mesmo tentar ler um pouco, para ver se conseguia se distrair, mas sem sucesso; acabara por abraçar as próprias pernas, apoiando o queixo em um joelho, para apenas esperar.
Algumas horas depois, Jaime se juntara a ela também; ele batera na porta e pedira licença, primeiro verificando se estava tudo bem com ela, e depois se sentando na cadeira frente à escrivaninha que Morzan tinha no quarto. Eles conversaram por algum tempo, mas não havia muito a ser dito de qualquer forma, e em breve caíram novamente em um silêncio mútuo, mais confortável apenas porque Selena não precisava mais esperar sozinha.
De tempos em tempos, Jaime se levantava para andar até a porta e perguntar algo a um dos guardas a postos do lado de fora: para pedir notícias sobre a situação da guarda ou receber um relato sobre algum acontecimento específico. Eventualmente, ele começou a organizar os papéis e artefatos sobre a mesa, quase como se precisasse de algo com o que se ocupar, ou apenas não suportasse muito bem estar de frente ao estado levemente caótico em que Morzan a deixara.
Depois de um tempo, quando não havia muito mais a ser feito, ele acabou por apoiar o rosto contra um cotovelo, correndo os dedos da outra mão sobre a chama da vela que Morzan tinha para derreter a cera para aplicar seu selo sobre algum pergaminho ou documento, e Selena assistiu um pouco fascinada, porque não conhecia Jaime assim ainda; naquele silêncio tenso, sem ter muito o que fazer que não aguardar, algo de nervoso em seus movimentos que não aparecia sempre. Era melhor, de toda forma, do que se sentar sozinha no quarto, observando a lua fazer seu caminho no céu escuro lá fora.
Foi só depois da meia-noite que eles ouviram o som inconfundível de um dragão pousando no andar superior, mesmo que abafado pela camada grossa de pedra que compunha o teto do quarto e o piso lá em cima, e então um instante longo de silêncio. Jaime se levantou quando o barulho de passos ficou nítido, mas Selena não se moveu de onde estava sentada, apenas erguendo o rosto para a escada circular, a própria respiração presa em sua garganta.
Morzan vestia as mesmas roupas que antes, é claro. Calças pretas, a camisa em um tom escuro de vinho, e ele não estava usando a capa de viagem, que preferia vestir sempre que voava em seu dragão, porque obviamente não a tivera consigo mais cedo. Seus cabelos negros um tanto bagunçados pelo vento, seu rosto parecendo mais pálido do que de costume — ou Selena estaria imaginando? —, seus olhos díspares ilegíveis enquanto ele olhava primeiro para Jaime e então para ela.
Selena não sabia muito bem o que lhe dizer. “Eles estão...?” tentou, a pergunta morrendo em seus lábios antes que se formasse por completo.
“Mortos,” ele disse, algo de distante e dissociado em sua voz, mas como se a emoção estivesse mal contida por baixo, prestes a transbordar. E então de novo, o desgosto mais claro em seu tom daquela vez, “Estão ambos mortos.”
Um instante mínimo em que Selena pensou em respondê-lo, por mais que não houvesse nada que ela pudesse dizer naquele momento, antes que ele xingasse, o som súbito e mais alto no quarto até então silencioso, e se virasse em um movimento rápido e instintivo para socar o espelho atrás de si; uma, duas vezes, o cristal se partindo com um barulho agudo e pedaços caindo para o chão.
Jaime deu um passo em sua direção, uma mão erguida como se avisasse Selena para não sair de onde estava, mas ela o ignorou. Levantou-se da cama para se aproximar de Morzan, o tocando primeiro no ombro e então descendo a mão para puxar a dele para perto de si, vendo sem ver o reflexo dos dois no espelho partido; ele tinha os nós dos dedos arranhados e sangrando, mas nenhum corte fundo de verdade, e Selena desviou sua atenção para erguer os olhos para seu rosto novamente.
“Eu sinto muito,” ela disse, algo quebradiço em sua voz também, antes de passar os braços ao redor de seu pescoço.
Não sabia se Morzan aceitaria o abraço, não de verdade, e ele talvez também não, porque demorou um instante para reagir. Mas então ele a puxava para perto de volta, a força mal contida em seu movimento, quase se dobrando sobre ela, um braço ao redor de seus ombros e o outro mais baixo contra suas costas, seu rosto escondido em seu cabelo.
Ela podia sentir o subir e descer do seu peito, e não era que sua respiração estivesse errática, exatamente, mas sim como se ele estivesse se esforçando para controlá-la. Selena suspirou, o ar saindo de seus lábios para mexer suavemente os fios dos cabelos escuros de Morzan, o momento se estendendo como se estivessem os dois suspensos no tempo.
E então ele se afastou um quase nada para se endireitar e pressionar os lábios contra sua testa, talvez aplicando ainda força demais nas mãos que tinha sobre sua cabeça, em seu ombro. Ela fechou os olhos, sentindo uma lágrima teimosa escorrer por seu rosto, e não sabia se Morzan teria os olhos fechados também, ou se olharia para Jaime em vez disso. Algo de terrível e aterrorizante na situação, mas era também impossível ignorar a forma como ele a segurava contra si.
Selena secou a lágrima em sua bochecha com as costas de uma mão, o movimento frenético e quase irritadiço, e perguntou, ouvindo a própria voz muito baixa, “E agora?”
Morzan deu um passo para trás, se afastando de verdade dessa vez, e encontrou seu olhar antes de responder. “O rei voltará de sua viagem mais cedo do que o planejado inicialmente,” disse, algo de distante ainda em sua voz. “Amanhã ou depois no máximo. E então veremos.”
A espera se estendendo mais e mais, e Selena não sabia como lidar com o buraco que a situação ameaçava abrir em seu estômago. Ela cruzou os braços sobre a barriga, hesitante, mas Jaime falou primeiro.
“Já conversou com ele, meu senhor?”
O assentir de Morzan foi mais lento dessa vez. “Sim,” ele disse, sem parecer querer elaborar mais do que isso. Encontrou o olhar de Jaime. “Como estão as coisas por aqui?”
“Quietas, meu senhor.” Jaime encolheu um quase nada os ombros. “Eu ordenei que toda a criadagem voltasse para a torre, e não estamos permitindo que ninguém saia, por enquanto, e também recusando qualquer visita. Tivemos algumas tentativas de contato, mas nada extremamente significativo. Tenho tudo registrado para um relatório mais completo, quando você quiser.”
“Amanhã de manhã, talvez,” Morzan respondeu. “Vamos manter tudo dessa forma por enquanto. Acredito que poderemos reavaliar a situação em um dia ou dois.”
“É claro.” Jaime juntou as mãos atrás das costas, e Selena não saberia interpretar a forma como ele olhava para Morzan naquele momento. Parecia um pouco cansado, mas ela própria sentia que os eventos daquele dia haviam exaurido todas as suas forças, então não era de todo estranho. “Se não precisar de mim no momento, meu senhor, eu peço licença para voltar e acompanhar a guarda mais de perto.”
Morzan o dispensou fazendo que sim com a cabeça, e falou apenas quando o capitão de sua guarda já se adiantava para deixar o quarto. “Obrigado, Jaime.”
Ele respondeu apenas com um inclinar leve do rosto, e Selena o observou se afastar, fechando a porta atrás de si, e admitiu, quase sem querer, “Eu não sei o que teria feito sem ele hoje.”
Para sua surpresa, Morzan riu um pouco, o som baixo mesmo no quarto silencioso. “Eu imagino,” ele respondeu, e Selena não saberia interpretar seu tom tampouco. “Tem mais alguma coisa que você precise me perguntar agora, Sel?”
Ela ergueu os olhos para ele, sacudindo a cabeça devagar. “Nada que não possa esperar,” disse, porque não seria capaz de lhe exigir absolutamente nada naquele momento. Entendeu uma mão em sua direção, o gesto cuidadoso. “Posso?”
Morzan não disse nada, mas permitiu que ela tomasse sua mão nas dela. Ela tocou os pontos machucados apenas com a ponta dos dedos, mais cuidadosa do que havia sido com qualquer coisa em sua vida inteira, e murmurou o feitiço de cura tão simples que sabia que seria suficiente. A pele se juntando em frente aos seus olhos, como se nada nunca houvesse acontecido, e então Morzan esticou os dedos para fechá-los ao redor dos dela.
“Kialandí jura que Fäelan não tinha a intenção de realmente matar Aleifar quando o desafiou para enfrentá-lo. É claro que a partir do momento em que Aleifar foi estúpido o bastante para aceitar, tudo estaria um pouco arruinado para nós, mas Kialandí parece acreditar que as intenções de Fäelan não eram, originalmente, tão... extremas.” Selena ergueu os olhos para ele, mas Morzan não olhava para ela; em vez disso, tinha o rosto ainda baixo, a atenção em seus dedos entrelaçados ao continuar a falar. “Eu estou... inclinado a acreditar nele.”
Selena engoliu em seco. “Ele não causou mais problemas?” Quando Morzan só sacudiu a cabeça, ela reuniu coragem para perguntar também, “E Alexis?”
Morzan abriu um sorriso pequeno e muito amargo. “Está muito menos propensa a acreditar no que quer que Kialandí diga,” respondeu. “Ela está lidando tão bem com a situação quanto você pode imaginar, é claro, então bastante mal. Mas eu acho que consegui acalmá-la um pouco. O suficiente, por enquanto.”
Ela franziu um pouco as sobrancelhas. “Ela não está brava com você também?”
“Não exatamente.” Morzan moveu um quase nada o polegar, a carícia mínima contra a pele de Selena. “Sel, eu preciso...” Pareceu se conter, e ergueu os olhos para ela finalmente. “Eu vou descer e tomar um banho antes de me retirar para a noite, e teremos um dia cheio amanhã também. Mas você pode ficar por aqui, se quiser.”
Ele parecia absurdamente distante naquele momento, e, paradoxalmente, também muito próximo.
“É claro,” Selena disse, e não havia qualquer outra resposta possível.
“Eu devo voltar em breve.” Ele estudou seu rosto por um instante, lhe oferecendo então um sorriso muito pequeno. “Tente dormir um pouco.”
Selena fez que sim com a cabeça, dando um passo para trás enquanto ele se afastava. O fechar da porta novamente, um baque suave, e ela se sentou na beirada da cama mais uma vez, sozinha em seu quarto espaçoso.
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