Shiver

97 Capítulo 97


Notas iniciais
boa leitura ♥

Morzan não levara Selena consigo em sua audiência com o rei, é claro, e ela se encontrou esperando por seu retorno mais uma vez. O choque dos eventos do dia anterior havia passado, até certo ponto, deixando para trás um sentimento estranho de vazio; ela escolhera um de seus livros de poesia para tentar se distrair, mas não conseguiu ler por mais do que alguns minutos. Acabou se sentando sobre um dos sofás da torre, os pés protegidos apenas por meias finas, olhando pela janela enquanto se perdia em seus próprios pensamentos.

Parte dela gostaria que Morzan houvesse escolhido levá-la consigo, embora soubesse que, qualquer que fosse a reação de Galbatorix ao ouvir novamente o relato sobre a morte de dois dos seus Treze Servos, Morzan certamente não iria querer audiência alguma para aquela conversa. Ela se encontrou pensando de novo e de novo em Alexis, também, e em como Selena viera a conhecê-la melhor desde a primeira vez em que foram apresentadas. Ela havia se sentido intimidada por ela no começo, se lembrava bem; deslumbrada por sua beleza e ameaçada por sua proximidade a Morzan, mas tudo aquilo não fazia mais tanto sentido assim.

Pensou em Alexis se oferecendo para lhe contar sobre os relacionamentos passados de Morzan; nela massacrando os mercenários que Fäelan havia enviado para matar a própria Selena; na preocupação em seus olhos claros enquanto ela falava sobre seus receios sobre a estratégia que seu irmão e Morzan haviam escolhido adotar. Ele me chamava de ‘Lexi’ quando éramos crianças, e como ela deveria estar se sentindo agora?

Selena se lembrava de quando sua mãe adoecera e falecera, anos antes, e fora clara demais a sensação de insuficiência e impotência frente a tudo o que acontecera; a maneira quase palpável que pareciam lhe vir seus últimos momentos juntas, e todos os pontos antes, todos os momentos em que ela talvez pudesse ter feito alguma coisa, tomado qualquer decisão diferente que talvez mudasse tudo. O abismo que era contemplar uma vida inteira pela frente sem sua presença, e isso porque Selena não tinha nada que lhe prometesse uma eternidade.

Pensou em como Morzan lhe dissera que Alexis não estava, exatamente, brava com ele, e seria esse o motivo? Porque encarar de frente o fato de que se ele a tivesse ouvido, se ele houvesse escolhido diferente, significava encarar também a possibilidade de que ela mesma talvez também pudesse ter feito mais? Selena não sabia, e podia apenas especular, mas talvez fosse mesmo mais fácil procurar culpados em outro lugar.

E Morzan lhe confirmara que os dragões de Fäelan e Aleifar haviam também morrido. Seria de uma crueldade inimaginável, Sel, ele lhe dissera na noite anterior, deixar que continuassem vivos depois que seus Cavaleiros se foram. Mas não estava exatamente claro se era algo que simplesmente acontecia — um feitiço, ou alguma parte implícita da ligação entre Cavaleiro e dragão, ou se fora algo que eles haviam precisado fazer, e ela não conseguia imaginar, tampouco, precisar destruir tudo o que restara de alguém antes mesmo de ter o tempo de aceitar a morte da pessoa. Principalmente um irmão, especialmente um irmão gêmeo.

E Selena não fazia ideia do que ela mesma sentiria a respeito da morte de Aleifar, em um nível pessoal e para além do impacto que isso teria para Morzan, se não fosse por Alexis. Ela não sabia bem o que sentir agora, sendo as coisas como eram, e não deveria estar se sentindo pior? Triste, de alguma forma, por mais que Aleifar não houvesse lhe mostrado muita generosidade durante o tempo em que se conheceram?

“Minha senhora.” As palavras de Jaime a tiraram de dentro do fluxo dos próprios pensamentos com uma eficiência quase assustadora. Selena deixou o ar escapar por entre os lábios, abaixando os olhos para o copo de cerâmica que ele lhe oferecia. “Aqui. Posso me sentar?”

Era chá — quente e forte e adoçado com algumas gotas de mel. Selena bebeu um gole e então outro, grata pela forma como o líquido a esquentava por dentro e também como o copo esquentava suas mãos, por mais que o clima lá fora já não pedisse mais por tudo isso. Ela permitiu que Jaime se sentasse na ponta do sofá, as mãos juntas sobre o colo, e aguardou que ele falasse primeiro.

“Pensei em vir ver como você está,” foi o que ele disse, lhe oferecendo um sorriso pequeno. “Não sei se você se lembra de Ivan, que estava em meu estúdio quando você chegou ontem, mas eu estive falando com ele alguns minutos atrás. Ele é o mais jovem na guarda atualmente, e é sempre... complicado deixar que os novos recrutas entrem tão jovens, mas temos também a vantagem de poder os treinar desde cedo. Ele tem tido algumas dificuldades em se adaptar — nada fora do comum, não se preocupe —, e está achando essa situação toda particularmente intimidadora. Então tive que dedicar alguns minutos para lembrá-lo que, apesar de eu precisar sempre ter os melhores interesses de Lorde Morzan em mente, eu também tenho uma responsabilidade para com cada um dos homens sob meu comando.”

Selena franziu a testa, sem entender exatamente o que queria dizer e seu próprio lugar dentro daquela comparação. “Aonde quer chegar?” perguntou, só um pouco desconfiada.

“Quero apontar que não é insignificativa a parte do meu trabalho que consiste em manter alta a moral da guarda, e também em acalmar e tranquilizar cada um dos homens individualmente, se necessário. O que não quer dizer, por outro lado, que eu mesmo não me sinta... afetado por momentos como esse.” Ele pareceu hesitar, os olhos pálidos procurando por alguma coisa no rosto de Selena. “Foram alguns poucos momentos na minha vida, e em especial desde que me juntei à guarda de Lorde Morzan, em que algo aconteceu que pareceu ameaçar tirar o mundo dos eixos e mudar tudo de maneira definitiva. Mas esse seria um deles, minha senhora, e as coisas irão mudar, mesmo que não necessariamente da forma como esperamos. Eu só gostaria de reforçar que esses momentos passam, e que nós nos adaptamos, e no final tudo acaba ficando no passado, de uma forma ou de outra. Você tem se saído muito bem até agora, e eu gostaria de lhe dizer que não acho que haja nada mais vindo, em um futuro próximo e como consequência imediata dessa situação, com que você não consiga lidar.”

Selena entreabriu os lábios, sem saber muito bem como responder, e sem saber o que fazer com o fato de que Jaime achara por bem — ou necessário — lhe dizer tudo aquilo tampouco. Considerou, por um instante, lhe confessar absolutamente tudo o que passava por sua cabeça, mas acabou dizendo apenas, “Eu só queria que tivesse algo que eu pudesse fazer.”

“Eu acho...” E Jaime se interrompeu por um instante quando a porta da torre se abriu, e Morzan entrou em passos largos. “Que logo haverá”, completou, e então se pôs de pé, as mãos atrás das costas e a cabeça inclinada no cumprimento costumeiro. “Meu senhor.”

Morzan se aproximou, sem comentar sobre terem estado os dois conversando e sem parecer querer falar sobre sua audiência com o rei tampouco. Ele ainda parecia mais pálido do que o comum, Selena achava, mas talvez fosse impressão sua por conta da situação; talvez fosse apenas o contraste de sua pele clara com suas roupas muito escuras.

“Ótimo,” foi o que ele disse em vez disso tudo. “Estão ambos aqui. Precisamos falar sobre os nossos próximos passos.”

Selena queria perguntar como fora sua conversa com o rei, mas, se Morzan não a mencionara, tocar no assunto provavelmente seria uma má ideia. Ela não sabia muito bem o que fazer da forma objetiva como ele chamara os dois, tampouco, e deixou o ar escapar por entre os lábios antes de se sentar melhor onde estava e repetir, “Nossos próximos passos?”

Morzan puxou uma cadeira para se sentar em frente a ela, pedindo para que Jaime se sentasse novamente também com um gesto breve da mão direita. “As mortes de Fäelan e Aleifar mudam as coisas por aqui. Não tenho certeza de como, exatamente, irão se configurar as relações de força na corte nos próximos meses e anos, e não temos como prever sem saber as próximas movimentações de diversas pessoas. Mas há alguns riscos claros, e também algumas oportunidades.”

Selena franziu um pouco a testa, abaixando os olhos para o copo de cerâmica em suas mãos, o chá escuro ainda levemente fumegante. “Oportunidades?” repetiu, ouvindo sua própria voz um pouco distante.

Um instante curto de silêncio, e ela ergueu o olhar para descobrir que Morzan observava seu rosto com cuidado. “Amanhã,” ele disse, mais devagar, “teremos um funeral. Galbatorix não gosta de divulgar a morte de nenhum de nós, mas uma cerimônia é necessária, eu acredito, se não mais nada para honrar o restante de nós, e para manter a moral na corte também. Para este evento você está convidada, Sel.” Ele faz uma pausa curta. “Depois disso,” continuou, “irei te mandar para o sul.”

Ela fechou os olhos por um momento. “Para onde no sul?” perguntou, apenas, quando o que queria dizer era que parecia muito cedo depois de tudo o que acontecera para que ela deixasse a cidade em mais uma missão. Era possível, de toda forma, que fosse necessário.

“Feinster, eu acho, inicialmente. Aleifar tinha influência por lá, e seus antigos aliados vão estar perdidos sem uma referência entre a nobreza e especialmente entre os Treze. Não quero você na corte de Lorana dessa vez, mas na cidade de fato; procurando quem era próximo de Aleifar entre os mercadores, os artesões, até mesmo entre bandidos e mercenários. Quero você atuando como minha Mão Negra, Selena, não como uma dama, e é possível que seja temida por lá, mas imagino que devam te dar ouvidos. Faz sentido para você?”

Não exatamente. “Você não acha...” começou, e então hesitou, procurando as melhores palavras. “Será que os antigos aliados de Aleifar não seriam também desde já aliados de Alexis, ou pelo menos pessoas que a veriam como a resposta óbvia para tomar seu lugar? Não faria mais sentido, talvez, tentar conseguir para o nosso lado as pessoas que trabalham com Fäelan?”

Mas Morzan só sacudiu a cabeça. “Aleifar e Alexis sempre trabalharam de formas muito diferentes, e nem sempre com as mesmas pessoas. É possível, é claro, que ela seja vista como a herdeira mais lógica de seu irmão, mas a verdade é que eu não acho que Alexis tenha condições de nos ajudar com isso no momento, e não acho que seria prudente esperar por ela. E sobre Fäelan, bem, é possível que Kialandí e Formora saibam quem eram seus aliados mais próximos e já estejam planejando recrutá-los, e eu preferiria evitar que você entrasse em conflito direto com seus agentes.” Ele se inclinou na direção dela, os olhos díspares muito sérios. “Quero que fique claro para você, Sel, que obviamente parte de meus motivos aqui passam pela necessidade e pela oportunidade de sairmos desse momento complexo tão bem quanto seria possível, mas eu também fico preocupado com a sua segurança. Eu realmente acredito que você estará mais segura se desaparecer da corte por algumas semanas ou mesmo meses, e eu ficarei mais tranquilo sabendo que você está a salvo, pelo menos até que eu possa saber como as coisas se darão daqui para frente. Nós manteremos contato, é claro, e nos falaremos sempre que possível.”

Era lógico o suficiente, ela supunha, embora parte sua se preocupasse, também, que ele estivesse pensando apenas naqueles termos — Morzan precisava reconsiderar sua estratégia naquele momento, é claro, mas Selena suspeitava que ele usasse aquilo como um motivo para não precisar refletir muito sobre outras coisas também. Ainda assim, ela assentiu.

“É claro,” foi o que disse, porque o que mais poderia dizer? “Eu vou sozinha?”

“Eu estava pensando em mandar Adam com você,” Morzan respondeu, e ela se sentiu estranhamente aliviada. Porque não queria ir sozinha, afinal de contas, e que ele sugerisse Adam mostrava uma inegável preocupação com o bem-estar e o conforto de Selena que talvez não estivesse tão clara antes. “Se não for um problema para você, Jaime?”

Selena se voltou para o capitão da guarda pela primeira vez naquela conversa desde que Morzan chegara, mas Jaime tinha os olhos verdes pálidos fixos no rosto de seu senhor. “É claro que não,” ele disse, e seria difícil ler sua expressão. “Darei de imediato a ordem para que ele comece a se preparar para a viagem, meu senhor.”

Morzan só assentiu. “Eu agradeço,” disse, mas sinalizando para que ele não se levantasse ainda. “Por enquanto, porém, quero repassar com vocês tudo o que acontecerá amanhã, para que tudo corra bem tanto no funeral quanto por aqui, e então analisar os feitiços que proteção que lancei sobre ambos vocês, para que eu possa ter certeza que estarão seguros. Podemos começar, ou tem alguma coisa que precisem discutir antes?”

Não havia nada, é claro, então Selena apenas permaneceu em silêncio, esperando que ele continuasse, e Jaime não disse nada tampouco.

Notas finais
gente, nós estamos tão próximos do final da fic, i cant even !! espero que tenham gostado e nos vemos nos reviews ♥