Shiver
93 Capítulo 93
Notas iniciais
Os primeiros dias na ausência do rei passaram rapidamente. Morzan havia estado ocupado, saindo cedo de manhã e às vezes voltando à sua torre apenas muito tarde, e não era sempre que Selena o acompanhava; ela sempre o esperava de noite, porém, para beber uma taça de vinho em sua companhia e ouvi-lo contar sobre os acontecimentos do dia. Achava cada mínimo detalhe fascinante, desde as audiências e as petições e as informações que ele guardaria para compartilhar com o rei em seu retorno à oportunidade de entender ainda melhor os interesses de diversas famílias nobres e também dos mercadores mais ricos do Império.
Não era insignificante, também, toda a influência que ela sabia que Morzan conseguiria tirar dessa experiência; a chance de conseguir argumentar com o rei a favor dos interesses de seus aliados, de provar novamente as vantagens de tê-lo ao seu lado, e também a enorme quantidade de informações que passava por ele naquele momento. Às vezes, ele pedia a Selena para levar uma mensagem para alguém ou que saísse em busca de informações, mas eram sempre missões curtas e relativamente tranquilas, que nunca lhe tomavam mais do que algumas horas.
Tiveram a oportunidade de algum descanso apenas no sétimo dia após a partida de Galbatorix, e Alexis aproveitou aquele momento para chamá-los para um almoço em um dos jardins do palácio. Era um lugar recluso, com uma mesa de madeira escura sobre grama muito verde, perto de uma fonte de pedra cujo burburinho delicado tomava sempre conta do ambiente. Para combinar com o clima que esquentava rapidamente, Alexis aparentemente decidira servir apenas comidas leves — vinho, pães e queijos, frutas doces e nozes.
Contava, agora, sobre a conversa que tivera com Lorde Garlan no dia anterior, e sobre suas ambições de se casar com a sobrinha da Senhora Lorana. “Ele não foi demasiado insistente,” explicou, os dedos longos brincando com um cacho de uvas verdes enquanto falava. Ela tinha os cabelos loiros presos em uma trança sobre um ombro, e vestia um corpete marrom sobre o vestido branco. “E certamente não foi desagradável. Estou quase convencida de que, mesmo pelo ponto de vista de Lorana, ele seja uma das melhores opções, embora ela esteja procurando também entre os nobres de Belatona. Ela sente que há uma proximidade maior com pessoas vindas de outras cidades do sul, e também se sente mais confortável para escolher dentre eles porque acredita que os conhece melhor.”
Morzan riu daquilo. “Há também o detalhe que costumam ser substancialmente mais ricos,” apontou, e é claro. “Não sei se, no lugar dela, eu escolheria Garlan. Ele não está tão distante na linha de sucessão ao governo de Ceunon, e até pouco tempo atrás era de fato o herdeiro de Lorde Tarrant. É bem possível que, apesar de todas as suas virtudes, ele se sinta um pouco tentando a governar no lugar de sua esposa.”
Alexis pendeu um pouco a cabeça para o lado, mas como se discordasse um pouco. “Bem, sim, mas exatamente por ter vindo de uma cidade distante, ele teria menos aliados na corte em Feinster, mesmo que traga consigo sua própria comitiva. Se Lorana jogar bem suas cartas, sua sobrinha estará cercada de pessoas que fortaleceriam sua posição, e Garlan não terá muitas chances de se sobrepor a ela. De toda forma, homens como ele não são tão difíceis de domar.”
Selena precisou sorrir para isso, ouvindo também a risada sincera de Morzan ao seu lado, e tomou um gole de vinho antes de sugerir, sua voz muito macia, “Talvez,” disse, “Lorana devesse consultar a opinião de sua sobrinha, que é provavelmente a maior interessada nessa decisão, e deixar que ela escolha com quem quer se casar.”
Tomou nota do olhar divertido que Morzan lhe lançou, mas foi Alexis quem se dispôs a respondê-la.
“Infelizmente, essa seria uma boa forma de priorizar apenas seu conforto em vez da melhor estratégia para a cidade, e a garota é jovem muito jovem, além disso. Não é impossível que ela mesma se arrependesse de sua escolha mais tarde. Mas Lorana, sendo quem é, provavelmente acabará por fazer algo assim. Deixar que ela escolha dentro de uma pequena quantidade de candidatos selecionados anteriormente, e então...”
Ela se interrompeu ao ver um criado se aproximar, porém, desviando sua atenção enquanto ele se abaixava para lhe dizer alguma coisa que Selena não conseguiu distinguir, e então lhe entregar uma carta aparentemente curta, o lacre cinza-escuro já violado. Alexis a recebeu com as sobrancelhas delicadas levemente franzidas, e então Selena assistiu seu semblante mudar enquanto ela lia seu conteúdo; seus olhos verdes inicialmente apenas um pouco preocupados, e então cada vez mais sérios, talvez realmente assustados. “Não,” ela murmurou, e talvez falasse consigo mesma. “Não, não, não, ele não seria tão estúpido. O que exatamente Aleifar te disse?”
O servo parecia um pouco alarmado por sua reação, mas a respondeu de prontidão. “Que você o conhece bem, minha senhora, e que ele não é covarde a ponto de fugir de um desafio.”
“Não,” Alexis disse de novo, sacudindo a cabeça, e já se levantava de onde estava sentada. “Eu não acredito, nem mesmo Aleifar—”
“Alexis,” Morzan a interrompeu, a voz mais dura e autoritária do que Selena jamais ouvira antes. “O que aconteceu?”
Ela olhou para Morzan, algo de frenético em seus olhos, e sacudiu a cabeça de novo. “Eu te avisei,” foi o que disse, apenas, irracionalmente e quase como se estivesse brava com ele. “Eu te avisei tantas vezes, e você nunca me ouviu! E agora isso?”
“Lex,” ele disse de novo, se levantando também e usando dessa vez o apelido, mas era claro por seu tom que estava lhe dando uma ordem. Uma ordem, Selena sabia, que ele não poderia dar de fato. “Conte-me. É Fäelan?”
Selena abaixou os olhos para a carta que Alexis ainda segurava nas mãos, e não havia um brasão sobre o selo. Mas a cera era cinza-chumbo, quase preta, de fato das cores que o elfo parecia sempre favorecer; ela se lembrou de seus olhos duros quando o rei anunciara que deixaria a cidade sob os cuidados de Morzan, e ele não havia lhe parecido tão enfurecido assim. Havia?
Ergueu o olhar para Alexis novamente, mas ela só encarava Morzan de volta como se não estivesse disposta a lhe dar uma resposta, ou talvez como se não fosse capaz de colocar uma em palavras. Uma sombra tomando conta de todo o jardim, e o dragão de Alexis pousou desajeitadamente no espaço pequeno, quase colidindo contra eles; as escamas douradas brilhando sob a luz do sol, as garras de uma de suas patas dianteiras se fechando contra a mureta baixa da fonte e quebrando a pedra delicada, água se esparramando sobre a grama e até a mesa.
“Veja você mesmo,” Alexis disse, a voz muito dura, ao bater a carta sem qualquer cerimônia sobre a o tampo de madeira da mesa, e não esperou qualquer resposta antes de lhes dar as costas; marchou em passos rápidos até seu dragão, sem parecer se importar que a água da fonte molhasse seus sapatos e a barra de seu vestido, e ele alçou voo novamente antes mesmo que ela estivesse plenamente sentada sobre a sela em suas costas.
As grandes asas douradas batendo uma, duas vezes, criando um vento forte o suficiente para tombar as taças de vinho sobre a mesa, e então o dragão se erguia no ar com facilidade, subindo em direção aos céus. Selena se voltou para Morzan se sentindo por inteiro desamparada, e não sabia exatamente identificar qual a emoção em seus olhos díspares enquanto ele lia também a carta.
“Morzan...” tentou, mas interrompeu-se ao vê-lo amassar o pergaminho entre os dedos em um gesto inconfundível de raiva e frustração.
Ele sacudiu a cabeça devagar, como se nem mesmo a ouvisse, e talvez estivesse ele mesmo se sentindo impotente, talvez ele mesmo pego inteiramente de surpresa pela situação. Morzan xingou baixo, e então terminou de amassar a carta em um movimento que foi quase um espasmo, a jogando contra a mesa antes de erguer os olhos para o céu como se procurasse por alguma coisa.
“É Fäelan,” ele disse, algo de deslocado e distante em sua voz antes que ele fechasse os olhos por um instante e se voltasse para Selena, subitamente mais presente. “Ele diz que sabe o papel que Aleifar teve em descobrirmos seus planos, que ele esteve tentando espionar sua mente e as dos outros elfos, e o desafia a encontrá-lo sobre a rocha lá em cima,” ele fez um gesto vago para a protuberância de pedra que cobria parte de Urû’baen. “Para que eles possam resolver o assunto.”
Selena franziu as sobrancelhas, um pouco horrorizada e sem entender de todo. “E o que isso significa?”
Mas Morzan só sacudiu a cabeça, lançando um olhar rápido para o alto de novo, e então se abaixou para buscar a espada que havia deixado sobre o banco ao seu lado enquanto comiam. “Eu não sei,” respondeu, prendendo Zar’roc em seu cinto, sem parecer conseguir conter de todo a emoção em suas palavras — seria raiva? Frustração? Impotência? Ela não tinha certeza. “Nada bom. E com o rei ausente...”
Com o rei ausente, não havia ninguém capaz de manter sob controle os Renegados, não de verdade, porque Morzan, por mais que estivesse com o controle da cidade no momento, não tinha qualquer autoridade real sobre eles. Encontrando seu olhar, Selena entendeu tudo aquilo, e entendeu também que ele não teria escolha que não ir atrás dos dois e tentar interferir de toda forma, porque o que mais poderia fazer?
Não se surpreendeu ao ver o dragão de Morzan aparecer entre as nuvens, descendo na direção deles em uma velocidade prodigiosa, apenas para pousar violentamente onde o dragão de Alexis estivera minutos antes. Morzan cruzou o jardim em passos largos em sua direção, subindo em suas costas em um movimento ágil e quase gracioso, e só parou quando Selena chamou seu nome mais uma vez.
“Morzan,” ela insistiu, sem acreditar de todo que ele fosse mesmo deixá-la para trás, deixá-la sozinha em um momento como aquele.
Ele encontrou seu olhar, inclinando a cabeça para o lado em um gesto curto de indecisão e hesitação, e então pareceu ver alguma coisa em seus olhos, seu rosto se endurecendo ainda mais. Um instante muito breve, uma batida a mais do coração de Selena, antes que ele estendesse uma mão em sua direção para ajudá-la também a montar em seu dragão.
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