Shiver
94 Capítulo 94
Notas iniciais
O vento batia forte e afiado contra o rosto de Selena enquanto o dragão de Morzan subia mais e mais alto sobre a cidadela de Urû’baen, e ela se arrependeu de ter insistido para vir junto quase imediatamente; entendeu de uma só vez que não havia realmente tido a experiência de voar em um dragão antes, não de verdade, porque nenhuma das outras vezes fora como aquela. As enormes asas batendo furiosamente, o ângulo absurdo, a sensação de vertigem e insegurança que nem mesmo o braço firme que Morzan mantinha ao redor de sua cintura era capaz de dissipar. Ele alcançou a enorme rocha que se sobrepunha à cidade mais rapidamente do que Selena julgava ser possível, e então subiu ainda mais, o suficiente para que eles pudessem ver, do ar, a cena lá embaixo.
Havia um forte e uma muralha sobre a superfície de pedra que cobria parte da capital do Império, mas os Renegados não estavam perto deles; ao invés disso, se encontravam mais distantes, mais próximos ao centro da rocha do que à sua beirada. Do alto, foi fácil identificar, de um lado, o dragão cinza escuro de Fäelan e também o roxo de Kialandí, e do outro Aleifar e, um pouco mais atrás, sua irmã. Havia um certo espaço entre os Cavaleiros elfos e os humanos, e aquilo deu a Selena alguma esperança — se não mais nada, eles não estavam em conflito aberto, não ainda.
O dragão de Morzan pousou com um pouco mais de suavidade do que voara até lá, por mais que o impacto contra o chão duro ainda fosse forte o suficiente para que Selena precisasse se segurar para não ser jogada para frente contra os espinhos ao longo da coluna do animal, e que a voz de Morzan continuasse impossivelmente séria ao lhe dizer, tão baixo, “Não desmonte.”
Ele mesmo desceu para o chão em um movimento rápido, se adiantando até parar ao lado de Alexis, alguns passos atrás de Aleifar. “O que, exatamente,” começou, e era possível perceber que estava mesmo furioso que tentassem aquilo enquanto o rei o deixara a cargo de proteger a cidade, “vocês pensam que estão fazendo?”
Mais adiante, Fäelan sorriu. Ele tinha os cabelos muito claros caindo, lisos, atrás de suas costas, e usava uma armadura de aço muito escuro que refletia a luz do sol em um brilho opaco, se parecendo mais com grafite do que com metal, detalhes delicados decorando o peitoral. “Você está atrasado, Lorde Morzan, e exigente demais para alguém que não tem poder nenhum sobre qualquer um de nós.”
Com Morzan de costas para ela, Selena não conseguia ver seu rosto, e seria impossível julgar sua reação. Ainda assim, não era difícil de imaginar, e seu desagrado era claro quando ele falou novamente, “Em sua ausência, eu falo com a voz do rei.”
Um franzir leve das sobrancelhas do elfo, embora, àquela distância, Selena não fosse capaz de estudar sua expressão com qualquer cuidado tampouco. “Mesmo? Eu me lembrava dele soar diferente.” Ele ergueu os olhos escuros na direção dela. “Vejo que trouxe seu brinquedo. Não tem receio de que ela possa quebrar?”
Selena talvez o houvesse respondido ela mesma, em outras circunstâncias, mas naquele momento apenas segurou a sela do dragão de Morzan com mais força, os nós dos dedos brancos, e esperou que ele dissesse algo em seu lugar. Mas foi Aleifar quem falou.
“Nenhum de vocês deveria estar aqui,” e ele se dirigia a Morzan e a Alexis, ela percebeu. “Isso é entre ele e eu.”
Aleifar também vestia armadura, porque tivera tempo de se preparar antes de ir até lá. Diferente de Fäelan, a sua era prateada, com detalhes em dourado; padrões delicados que talvez formassem o desenho de um dragão, com as asas muito abertas e o rabo comprido ondulado. Não vestia elmo, e tinha o cabelo loiro solto, balançando um pouco com o vento.
“De fato.” Fäelan tinha uma mão sobre o punho de sua espada, e se aproximou um, dois, três passos. “Pensei que, a essa altura, você talvez já fosse um pouco mais sábio, mas vejo que esperava demais. Você precisa aprender seus limites, garoto.”
Garoto, quando Aleifar tinha provavelmente mais de um século de vida. Era fácil, às vezes, se esquecer de quanto os Cavaleiros viviam, e também do que exatamente significava que Fäelan fosse o mais velho dentre os Treze. Não era tão diferente da forma como ele se referira a Jaime, tanto tempo antes, ou de como eles às vezes falavam sobre a própria Selena.
Mas Aleifar só riu. “Eu aprendi muita coisa,” foi o que disse, e, em um movimento lento, desembainhou a própria espada. Mais atrás, Alexis deu um passo em sua direção, mas Morzan ergueu de imediato um braço para impedi-la, e seu irmão lhe lançou um olhar rápido por cima do ombro, um aviso claro em seus olhos verdes. “Permaneça onde está, Alexis. Não quero você envolvida nisso,” advertiu, antes de se voltar novamente para Fäelan. “Eu pensei que talvez pudéssemos trabalhar juntos, uma vez. Não teria me oposto a isso, eu acredito, mesmo depois de tanto tempo, porque não tenho problemas em admitir que há muito em suas ações que sou capaz de admirar. Mas você cometeu o erro de me subestimar, Lorde Fäelan, e isso será sua ruína qualquer uma e todas as vezes em que nos encontrarmos em oposição.”
“Já basta,” Morzan o interrompeu, e ele soava irritado e impaciente. “Qual é o seu plano aqui, Fäelan, tentar ensinar a Aleifar uma lição e depois sofrer um pouco mais quando Galbatorix voltar e decidir punir ambos vocês por toda essa bagunça? O seu conflito é comigo.”
O elfo não pareceu impressionado. “Você é normalmente um adversário mais digno,” respondeu, como se concedesse o ponto ou como se não se importasse, “mas não estou interessado em você no momento.” Ele olhou para Aleifar mais uma vez, tirando também a própria espada da bainha, apenas para erguê-la na direção dele. “Hoje, minha intenção é ensinar a você o preço de tentar espionar meus pensamentos.”
Aleifar riu mais uma vez. “Tentar?” perguntou de volta. “Romper as barreiras da sua mente foi tão fácil quando romper as de qualquer um que eu encontre na rua. Não arruinei seus planos tentando espionar seus pensamentos, arruinei seus planos tendo sucesso uma dezena de vezes, e você nunca nem mesmo desconfiou. Coloquei algumas coisas de volta, também, para compensar pelo que tomei. Acha que já encontrou todas elas?”
Ele não pareceu se surpreender quando Fäelan avançou em sua direção, e dançou para fora do caminho com facilidade, ambos se movendo tão rápido que Selena mal era capaz de acompanhá-los. Ela havia visto Alexis massacrar um grupo de mercenários antes, a cena inteira assustadora, e ainda assim não era nada como aquilo: dois espadachins com décadas, séculos de experiência, se atacando e se defendendo com força e velocidade muito maiores do que as de qualquer humano comum. E, atrás deles, seus dragões circulando devagar, rosnando, a mais ligeira ameaça de chamas aparecendo atrás de seus dentes e pequenas nuvens de fumaça escapando de seus focinhos.
Alexis tentou dar um passo para frente, talvez para inferir a favor de seu irmão, mas Morzan a segurou pela cintura; o vestido dela muito branco contra suas roupas mais escuras, e nenhum dos dois teria qualquer defesa em uma luta como aquela, não com vestes comuns contra armadura de ferro. E, ainda assim, a vontade de interferir era inegável, e Selena sabia porque sentia o impulso também: sem saber exatamente o que fazer, mas sentindo-se incapaz de assistir a tudo parada sobre o dragão de Morzan.
Ele talvez pressentisse aquilo também, porque voltou o rosto em sua direção, ainda segurando Alexis no lugar. A emoção em seus olhos díspares impossível de identificar, não quando Selena nunca o conhecera em uma situação como aquela, e ela não entendeu de imediato quando ele encontrou seu olhar e exclamou, “Gánga!”
Vá, e não fazia sentido que ele estivesse falando com ela na Língua Antiga, mesmo naquele instante. Mas então o dragão abaixo de si abriu as enormes asas vermelhas em um movimento que pareceu quase lento comparado a todo o resto, e Selena compreendeu que o comando não fora em momento algum direcionado a ela.
Ele começou a alçar voo, e ela assistiu em um estupor a forma como Aleifar empurrou Fäelan para longe de si, erguendo a espada em sua direção em um gesto enfurecido. As asas do dragão faziam ventar forte ao redor de Selena, mas Aleifar deveria estar gritando, porque de alguma forma ela o entendeu. “Suas defesas são patéticas,” ele afirmou, desprezo em toda a sua fala, “e mesmo agora você não pode me parar. Mesmo agora eu sei o que é que você deseja, e sei que eles não irão nunca se concretizar. Cada um dos seus aliados o abandonando, todas as pessoas que já o admiraram finalmente vendo o que você realmente é, o favor do rei se esvaindo como fumaça entre os seus dedos, e tudo isso graças a mim. E agora você não terá escolha que não se esconder de novo em seu castelo como o—”
Ele se interrompeu, parando no meio da frase como se engasgasse com alguma coisa, e Selena percebeu tarde demais a forma como os lábios de Fäelan se moviam. Ouviu o grito horrorizado de Alexis como se de muito longe, e, daquele novo ângulo, ela conseguia ver também o rosto de Aleifar. Um instante de silêncio, e outro, algo de aterrorizante na forma como ele pareceu se desequilibrar um quase nada no lugar, e a primeira sugestão de vermelho mais escuro em seus lábios foi quase imperceptível.
E então ele tossiu, e sangue escorreu por seu queixo, e seu pescoço, manchando sua pele e então sua armadura prateada. Seus olhos verdes surpresos, assustados, antes de encontrarem os de Fäelan mais uma vez, e finalmente endurecendo com uma última luz de aterradora determinação.
Selena sabia que era possível utilizar magia sem falar, em teoria, mas também que era impossivelmente perigoso, e só soube que fora aquilo que acontecera quando viu os músculos do elfo se enrijecendo, e então a forma como ele levou uma mão à garganta como se não conseguisse respirar, como se todo o ar a sua volta houvesse subidamente desaparecido.
Os próximos segundos se passaram muito rápidos e também impossivelmente lentos: Aleifar caindo de joelhos e então tombando no chão, Morzan desembainhando Zar’roc para se aproximar da cena em passos largos, Alexis correndo para se ajoelhar ao lado do irmão, cada um dos dragões em volta ameaçando também alçar voo. Selena não conseguiu identificar Kialandí naquele momento, incapaz também de adivinhar qual seria sua reação, e então perdeu tudo de vista quando o dragão de Morzan se virou no ar para descer em direção à cidade, o movimento súbito a desorientando por completo.
E então, finalmente, a mente de Morzan tocando a sua. Jaime, ele lhe disse, breve e quase incompreensível. Encontre Jaime.
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