Shiver
90 Capítulo 90
Notas iniciais
O lugar se passaria por uma mansão, visto de fora por um olhar desatento, mas, com toda a honestidade, Selena sabia que as pessoas sabiam. Ela e Morzan não haviam entrado pela porta da frente, tanto porque toda a intenção era passarem despercebidos, quanto porque ele sabia que ela não se sentiria confortável lá, não de verdade, mesmo depois de tudo o que vivera; consciente demais dos nobres que o frequentavam e das mulheres que lá trabalhavam.
Em vez disso, esperavam em segredo em um jardim privativo, às sombras do telhado da varanda, que podia ser acesso exclusivamente via um dos quartos mais caros. Conversavam via seus pensamentos apenas para que não ficassem inteiramente em silêncio, e Selena apreciava a distração, brincando com os cordões de sua capa ao responder os comentários espertos de Morzan.
Interrompeu-se ao ouvir as portas se abrindo um pouco à sua direita, pendendo a cabeça para o lado em um movimento silencioso para observar o nobre que saía para a noite em passos estáveis o suficiente para que ela soubesse que não havia bebido tanto assim, afinal, e que não estaria com muito sono tampouco. Ele parou junto à fonte no centro do jardim pequeno, tomando um gole do cálice de prata que trazia em uma mão, e pareceu respirar fundo ao erguer o rosto para o céu estrelado.
Selena esperou um, dois, três segundos, e então deixou a proteção das sombras, se adiantando também em direção dele. “Lorde Garlan,” chamou, sem se surpreender com a forma como ele se virou como se esperasse encontrar outra pessoa por inteiro, e com como seus olhos se arregalaram apenas um pouco ao se ver frente a frente com a Mão Negra de Morzan.
Ele ergueu o queixo em sua direção, porém, em uma pose tão defensiva quanto tentava parecer corajosa. Tinha os olhos cinzentos de seu irmão e cabelos castanho-claros, mas era mais novo do que Tarrant — ainda sem ter alcançado os trinta anos, não era assim tão mais velho do que a própria Selena. “O que está fazendo aqui?” ele perguntou, e havia, felizmente, se dado ao trabalho de vestir calças escuras e uma camisa de veludo antes de sair para a noite fria.
Ela inclinou a cabeça para o lado, como se achasse a pergunta curiosa (era, na verdade, muito previsível). “Gostaria de conversar com você.”
“Aqui?” Garlan repetiu, quase incrédulo.
Selena encolheu os ombros. “A escolha de local foi inteiramente sua.”
“E Morzan permite que venha lugares como esse? Se um rumor se espalhasse...”
Estava mesmo preocupado com sua honra? “E como?” Selena perguntou, sua voz tão suave. “Você planeja contar às pessoas que me encontrou durante sua última visita?”
O irmão mais novo do governador de Ceunon endureceu um pouco sua expressão. “O que você quer?” exigiu saber, fazendo uso de um tom autoritário que certamente lhe vinha muito fácil.
Ela se limitou a estudar seu rosto, aguardando, e percebeu observando seus olhos o momento em que Morzan deixou a escuridão da varanda atrás dela, se aproximando lentamente até parar ao lado de Selena. “É importante para nós,” ele falou, “que você perceba a facilidade com que Selena conseguiu evadir seus guardas e pegá-lo de surpresa, Lorde Garlan. E não menos relevante, eu tenho certeza que irá compreender, o fato de que absolutamente nada e ninguém se adiantou para protegê-lo de uma possível emboscada. E se não está devidamente protegido aqui, no centro do Império, estaria em outros locais?”
Garlan esvaziou seu cálice de vinho em um único gole. “É claro,” disse, devagar, quase irônico. “É sobre isso, então. Sinto-me honrado por merecer a atenção, Lorde Morzan.”
Selena riu pelo nariz, sem se impressionar. “Como eu disse,” precisou insistir, “nós queremos apenas conversar. Não quer se sentar?”
Ele devolveu seu olhar por um instante, e então desceu os olhos para a espada fina que Selena trazia na cintura; com certeza percebendo também que Morzan não estava armado, mas é claro que não precisaria estar. Acabou por aquiescer, sentando-se sobre a beirada da fonte circular, deixando a taça vazia sobre a pedra fria ao seu lado. “Sobre o quê?”
“Sobre a escolha de seu irmão de aceitar a ajuda de Lorde Fäelan dos Treze Servos, é claro,” Morzan respondeu, simplesmente. “E sobre como ela passa longe da decisão mais sábia que ele poderia ter tomado.”
Eles sabiam que Garlan tinha suas dúvidas — e muitas delas — sobre a aliança com Fäelan, porque nas últimas semanas Aleifar trabalhara com afinco para identificar quais dentre os aliados do elfo seriam os mais fáceis de convencer a mudar de lado, e então para incentivá-las e direcioná-las no sentido que eles precisavam. Ainda assim, o nobre era leal ao seu irmão mais velho, e não permitiu que nada daquilo transparecesse em seu rosto. “É mesmo?” perguntou, seu tom muito seco. “Vocês achariam que sim, tenho certeza.”
Eles tinham, é claro, um viés muito óbvio, mas Morzan não pareceu se importar ao começar a responde-lo. “Visitei Lorde Tarrant há algum tempo,” foi o que disse. “E ele confiou a mim algumas informações a respeito de seus planos para reformas e melhorias em toda Ceunon, e explicou também sobre como Fäelan tem ajudado, levado suas petições ao rei e apoiado suas ambições. São objetivos nobres e bem-direcionados, eu acredito, e não vejo motivo pelo qual necessitariam falhar, mas devo oferecer a você um alerta sobre as alianças que escolheram fazer para que se concretizem. Um alerta valioso não apenas para seu irmão, mas também para todos que tomaram decisões similares, recentemente.”
Por um instante, Selena acreditou que Garlan chegaria a revirar os olhos, mas ele pareceu se conter. “Não consigo ver como seria um conselho bem-intencionado, uma vez que para oferecê-lo você sentiu necessitar armar uma emboscada na calada da noite, meu senhor.”
Morzan riu baixo. “É um bom ponto,” admitiu, “mas eu precisava que entendesse que Fäelan não está empenhado em protegê-lo. Selena sozinha teria conseguido surpreendê-lo, e não teria tido dificuldades em te fazer mal, se desejasse, ainda mais pego de surpresa. E comigo aqui...”
Selena juntou as mãos atrás das costas e deu um passo para frente. “A verdade é, é claro, que não queremos, visto que você continua incólume. Mas a situação poderia muito bem ter sido outra, Lorde Garlan, e nem Fäelan nem seus guardas teriam feito algo a respeito.” Ela fez uma pausa curta. “Foi antes de minha chegada à corte, e há tempo o suficiente para que você não tivesse idade para acompanhar os acontecimentos tampouco, eu acredito. Mas você deve saber o que houve cerca de vinte anos atrás, quando Fäelan optou por deixar a corte; ele se entediou, ou se cansou do que fazia, e abandonou cada um de seus aliados à própria sorte. Parece alguém em que possa confiar agora?”
Garlan sacudiu um pouco a cabeça, deixando escapar uma risada baixa e um tanto descrente. “Digamos que parte minha esteja inclinada a concordar,” cedeu, devagar. “O que esperam que eu faça sobre isso? É inegável que Fäelan tem nos oferecido uma ajuda inestimável recentemente, e não temos provas de que planeje parar em um futuro próximo. Meu irmão não se voltará contra ele sem um bom motivo.”
Morzan sorriu de lado. “Uma questão de honra?” perguntou, e então dispensou sua resposta com um gesto muito breve. “Tenho uma informação que será valiosa para você, então, neste quesito. Descobrimos, por meio de fontes confiáveis, que Fäelan tem planos para as cidades nortenhas com que seus governantes não concordariam em hipótese alguma. Ele intenciona, no futuro, ajudar o rei a atacar e tomar controle dos elfos, que permaneceram inimigos formidáveis do Império durante todo o século, embora certamente acanhados e escondidos. Uma vez domados, Fäelan espera conseguir a permissão e a honra de governar sobre eles, embora, é claro, sob o comando do rei; mas mais do que apenas o domínio das flores onde eles se escondem, ele planeja estender sua presença e domínio sobre o norte do Império. E, para isso, destituir as famílias que governam sobre nossas principais cidades.”
Selena achou que Garlan parecia um pouco pálido. “Ele não faria isso,” afirmou, mas não parecia nem de longe tão seguro em sua posição quanto poderia estar. “O rei não permitiria isso.”
Morzan encolheu os ombros. “Se, no futuro, ele planeja governar sobre toda a Alagaësia, o rei precisaria fazer algumas alterações na configuração de seus domínios. Por que não essa, se em troca receberia novas alianças e servos poderosos?”
Garlan sacudia a cabeça. “Essas são apenas suposições. E, mesmo se fossem verdade, o Império não tem a força necessária para tomar a floresta. O rei não—”
“Eu tomaria muito cuidado,” Selena optou por intervir, a advertência clara, “ao questionar exatamente até onde os poderes do rei se estendem, e o que ele seria capaz de fazer.”
Ele encontrou seu olhar, os olhos cinzentos mais inseguros do que estiveram em qualquer ponto naquela noite, e então sua expressão se endureceu ao se voltar novamente para Morzan. “Você tem provas?”
“Minha palavra terá de ser suficiente, eu receio,” ele respondeu, mas sem parecer preocupado. “Mas considere com cuidado a possibilidade, Lorde Garlan, e a investigue a seu contento. De quem foi a sugestão das reformas em Ceunon, afinal de contas? E Fäelan não fez modificações, melhorias, nas plantas do maçom recomendado por ele mesmo, de forma que ficassem mais próximos de algo que os elfos pudessem aprovar? Você viveu a vida inteira às margens da floresta. Sabe o perigo que eles representam.”
Garlan desviou os olhos, em silêncio por um instante longo. “Eu precisaria de tempo para pensar,” acabou por dizer. “Não posso prometer nada agora, não posso tomar uma decisão ou mesmo considerar o que me contou sem cuidado, reflexão e preparação.”
Morzan apenas fez que sim. “Eu não esperaria menos.”
“E se eu chegasse à conclusão de que você está certo,” o nobre continuou, suas palavras lentas. “E de que o que me disse é a verdade. Como ficariam os planos para melhorias de Ceunon? Eles são importantes para meu irmão.”
“Eles continuariam com o meu apoio, e o apoio do rei, é claro.”
“E o que impediria Fäelan de seguir com os planos dele, daqui a algumas décadas? De fato, o que nos protegeria de sua ira agora, se decidíssemos voltar atrás em nossos combinados?”
Morzan pendeu a cabeça para o lado, como se a resposta fosse óbvia. “Ao contrário do que ficou evidente a respeito de Fäelan nesta noite, eu protejo meus aliados. Você, seu irmão, e todos os que se voltassem contra Fäelan, passariam então a estar sob minha proteção, e estariam seguros.”
Garlan hesitou um instante, e então fez que sim com a cabeça. “E eu posso contar a outros nobres sobre o que me disse aqui, e que essa informação veio de você? Se Lorde Fäelan planeja mesmo nos trair, outros de seus aliados também não poderiam confiar nele.”
Morzan quase sorriu.
“Eu recomendaria certa discrição,” disse, e é claro. “E pediria que não lhes contasse sobre o envolvimento de Selena em nossa conversa, ou mesmo sobre o local em que ela aconteceu. Mas é claro que sim. Eu espero uma resposta, Lorde Garlan, nem que na forma de movimentações sutis na corte, em até um mês. Quando tiver a certeza de que posso contar com vocês, vocês terão também minha proteção.”
Garlan estudou seu rosto de volta por alguns segundos antes de aquiescer.
“Um mês,” concordou, e o trabalho deles naquela noite estava feito.
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