Shiver
88 Capítulo 88
Notas iniciais
Selena e Jaime foram recebidos na entrada dos aposentos conjuntos de Alexis e Aleifar por um criado, e guiados por ele até o estúdio de Alexis em um silêncio quase tenso. Ela já havia estado lá antes — também na companhia de Jaime, inclusive — e, como da última vez, sentiu-se um pouco aliviada por não encontrar Aleifar pelo caminho.
Não era, porém, como se Alexis estivesse particularmente satisfeita com Morzan no momento, e talvez tampouco bem-disposta para com qualquer um que servisse a ele. O criado bateu na porta de seu estúdio uma vez, anunciando apenas Selena, e a Cavaleira não se levantou de onde se sentava atrás de sua escrivaninha para recebê-los.
Ela tinha os cabelos compridos soltos, caindo em cachos claros e um tanto rebeldes sobre seus ombros, e usava um vestido prateado um pouco amassado, como se houvesse dormido com aquelas roupas, ou passado a noite acordada. Não havia, claramente, se preocupado em se arrumar para aquele encontro. Havia estado escrevendo alguma coisa, mas afastou pena e pergaminho ao vê-los entrar, voltando os olhos para a porta e observando Selena e Jaime por alguns segundos.
“Morzan não está medindo esforços para me reconquistar, ao que parece,” Alexis comentou, então, a voz seca, e gesticulou na direção das suas cadeiras à sua frente. “Sentem-se, por favor.”
Não havia escolha que não obedecer, mas Selena precisou evitar olhar na direção de Jaime ao escolher uma das cadeiras; não achava que podiam, naquele momento, demonstrar insegurança. “Eu agradeço por ter concordado em nos receber, minha senhora.”
Alexis sorriu de lado, como se de alguma forma achasse graça. “Eu aprecio sua companhia, Senhora Selena, na maior parte das vezes. E Jaime é sempre bem-vindo, especialmente porque não é sempre que temos a chance de conversar.” Ela ajeitou a posição do tinteiro sobre sua mesa. “Essa, porém, não é exatamente uma conversa que anseio por ter, não quando promete ser apenas uma repetição do que já foi discutido a fundo nos últimos dias. Morzan é mesmo tão incapaz de abrir mão de que todos os mínimos detalhes sejam como ele deseja? Ou o problema é enfrentar discordâncias em seus conselhos de guerra?”
“Nós não estamos em guerra ainda, minha senhora,” Jaime disse, devagar, algo de cansado em seu sorriso tão pequeno. “E acredito que ele gostaria de vê-la mais tranquila sobre o rumo que a situação está tomando. A intenção é, é claro, sermos bem-sucedidos no final.”
“É claro,” Alexis concordou, irônica. “Não me escapa que vocês dois tenham sido vítimas de ataques de Fäelan, e que sobreviveram em certa parte porque tiveram sorte. Jaime porque os feitiços de proteção de Morzan duraram por tempo suficiente para que outros fossem capazes de interferir na situação, e Selena porque eu estive lá para parar seus atacantes. Eu disse a Aleifar que você teria sobrevivido de qualquer forma e que saberia pará-los sozinha, mas não tenho tanta certeza assim, na realidade. Então seria o caso de Morzan tê-los enviado porque imagina que eu os veria como pessoas mais capazes de enxergar a situação pelo meu ponto de vista, talvez? Não se incomodam que ele esteja usado seu sofrimento dessa forma?”
Não era fácil respondê-la, mas Selena tentou mesmo assim. “Eu não necessariamente enxergo a situação dessa forma,” disse, devagar. “Não posso falar por Jaime, mas, para mim, que Fäelan tenha nos escolhido como alvos apenas indica a importância que temos para Morzan. Eu vi a reação dele a todos esses eventos, vi como isso o afetou, e vi como ele escolheu agir depois. E que ele esteja se esforçando tanto para convencê-la, para tê-la de acordo com seus planos, apenas mostra que ele se importa também com você. Não acha?”
Alexis riu daquilo. “Ou que se importa com seus melhores criados, suas melhores ferramentas, com seus planos e o comportamento de seus aliados e o que pode atrapalhar seus próximos movimentos. Já com as pessoas... sim, suponho que se importe.” Um movimento breve de suas sobrancelhas, um inclinar tão leve do rosto, quase duvidoso; os guiando na direção de sua conclusão. “Mas talvez devesse se importar mais?”
Foi Jaime quem a respondeu. “Ele se importa,” disse, a voz mais baixa. “Selena sabe disso, eu sei disso, e imagino que a senhora saiba também. Saber que ele se importa nem sempre... nem sempre ajuda. Nem sempre parece certo, ou a altura de todo o resto, ou particularmente justo. E que Lorde Morzan se importe com as pessoas — com certas pessoas — não necessariamente significa que ele concorde com elas sobre a melhor forma de lidar com situações, ou que os sentimentos dos outros estejam nem mesmo próximos de suas prioridades. É às vezes frustrante, e, no caso de Selena e eu, a decisão final é sempre dele. Mas ele se importa. Comigo, com Selena, e, eu acredito, com você e Lorde Aleifar também. A decisão de nos mandar aqui não foi feita independente disso, mas por conta disso.”
“E Morzan sabia que você viria aqui para falar dele dessa forma?”
Jaime pareceu respirar fundo. “Nós conversamos,” admitiu, “sobre possíveis assuntos—”
“Essa é então uma estratégia previamente combinada?”
“—que talvez fossem vir à tona, e que eu poderia responder suas perguntas sinceramente. Eu perguntei a ele e pedi sua permissão,” ele reiterou, “como um sinal de respeito.”
Alexis pendeu a cabeça para o lado e estudou o rosto de Jaime por um instante longo, pensativa, antes de bater uma vez com o indicador sobre sua escrivaninha e se levantar. Ela se afastou até um armário próximo, tirando de lá uma bandeja de ouro sobre a qual serviu três taças de vinho, e as trouxe de volta para a mesa em um silêncio que Selena talvez não soubesse interpretar corretamente mesmo se a conhecesse melhor.
“Suponho que Morzan já tenha te contado algumas coisas sobre a Queda dos Cavaleiros,” ela acabou por dizer, sentando-se de novo sobre sua cadeira de encosto alto; bonita demais com o vestido prateado e os cabelos loiros soltos como estavam. “Mas imagino também que ele não tenha muitas histórias dessa época; não foram tempos fáceis para nenhum de nós, independentemente do nosso triunfo no final, e nem sempre temos a força de vontade para revisitá-los. Você sabe que eu e Aleifar nascemos em uma família nobre, e que ambos nos tornamos Cavaleiros aos dez anos de idade.
Uma pausa curta. “Para mim, antes disso, as expectativas eram muito claras. Eu teria o melhor casamento que meus pais conseguissem para mim; um nobre, com certeza, e com sorte com um título ainda mais elevado do que os de meus pais. Que meu dragão tenha nascido para mim foi certamente incrível e superior a tudo o que eu podia ter esperado até então, e mudou minha vida em maneiras principalmente positivas. Eu aprendi e tive acesso a coisas que não teria de outra maneira, e me descobri em uma posição mais afastada em que era possível examinar o que minha vida teria sido, e que eu talvez não quisesse, tendo a opção de escolher, tudo o que teria sido meu direito e meu dever.” Alexis abaixou os olhos para a mesa antes de continuar, “O casamento, por exemplo. Mas outras facetas dessa vida para que meus pais começaram a me preparar sempre me atraíram, e foi com base nelas que construí minha posição na corte de Galbatorix, eventualmente. Minhas damas, a influência mais discreta que exerço por meio delas, as festas e os bailes e os eventos sociais.”
“Coisas que você faz muito bem, minha senhora.” Foi Jaime quem falou, tão suave. “E que são muitíssimo apreciadas, eu gostaria de reiterar.”
Alexis abriu um sorriso pequeno e um tanto irônico. “É um papel que me cai bem. Tornar-me uma Cavaleira me trouxe mais coisas do que me tomou, é a verdade, e me concedeu maior liberdade e novas possibilidades. Para meu irmão, porém, não foi exatamente assim.” Ela tomou um gole de vinho, os dedos longos envolta da haste dourada da taça. “É claro que elevou sua posição, porque muito poucos se colocariam acima da Ordem dos Cavaleiros, mas Aleifar estava posicionado para herdar toda a fortuna, as terras, e o título de meu pai. Ter uma origem nobre certamente lhe foi uma vantagem de toda forma, porque no mínimo significava que já tínhamos conexões e uma boa educação desde pequenos, mas como um noviço entre os Cavaleiros, ele era apenas mais um dentre muitos. E ele sempre quis mais do que isso; ele sempre quis a atenção e o destaque que sentia que lhe eram devidos. E estava determinado a consegui-los.”
Fazia sentido, Selena supunha, embora fosse mais do que jamais ousara saber a respeito do Renegado; não imaginava que ele se considerasse totalmente bem-sucedido, porém, não quando o favorito do rei entre os Treze continuava sendo Morzan, e seu maior adversário Fäelan. “Foi por isso que ele decidiu treinar tão bem sua mente?” perguntou, apenas, a própria voz mais baixa.
“Precisamente,” Alexis respondeu, inclinando a cabeça na direção dela. “Pessoalmente, eu nunca me destaquei entre os Cavaleiros; sempre me esforcei para fazer bem e ter bom domínio de tudo que me era pedido e ensinado, e não diria que tenha falhado nisso alguma vez, mas nunca fui excepcional em campo algum. Quando o rei se voltou contra nossa antiga Ordem, foi Morzan quem quis também nos recrutar, e ele sempre me valorizou como aliada. Mas, dentre nós dois, era meu irmão quem Galbatorix realmente queria lutando ao seu lado, e eu apenas uma pequena vantagem a mais.” Ela riu baixo. “Ele não iria recusar um novo servo, é claro, fosse quem fosse. Meu irmão, porém, ele realmente valorizava. E então, depois de algum tempo, Fäelan começou a prestar atenção nele também.” Alexis voltou os olhos na direção de Jaime. “Não suponho que Morzan tenha contado isso nem mesmo a você?”
Jaime só sacudiu a cabeça, e Selena sabia, pela seriedade em seus olhos pálidos, que ele dizia a verdade. “Nunca, minha senhora.”
“Não acho que ele considere relevante,” Alexis disse, sem parecer surpresa. “É possível que tenha até mesmo se esquecido. Havia... tanto acontecendo naquela época. Nós conhecíamos Fäelan desde antes, é claro, embora não houvéssemos tido muito contato até aquele ponto; quando eu era mais nova, chegava mesmo a ter um pouco de medo dele. O achava tão... frio. Nunca Aleifar, porém. Ele sempre admirou Fäelan, e insistia que ele era apenas muito competente, ambicioso, que sabia o que queria e como conquistar todos os seus objetivos. Acho que Fäelan sabia disso, e ele trouxe meu irmão para perto, prometeu ensiná-lo mais e mais e que Aleifar teria uma parcela do que quer que conquistassem juntos. Ele fez uso de seus talentos, e acho que realmente o apreciou, por um tempo. E então nossos dragões perderam seus nomes,” ela contou, sua voz muito estável, “e tudo mudou. Aleifar se tornou mais instável, mas estávamos todos nós instáveis, e em algum ponto Fäelan decidiu que ele não valia mais seu tempo. Planejaram juntos algum tipo de emboscada para alguns Cavaleiros que viajavam para Vroengard, e Fäelan achou por bem usar meu irmão de isca. Não apareceu para salvá-lo no momento combinado, e Aleifar quase perdeu sua vida por isso. Galbatorix ficou possesso, é claro, e fez Fäelan jurar que nunca mais arriscaria a vida de outro de seus servos assim. E a aliança dos dois, tão breve, acabou por aí.”
Selena tinha os lábios entreabertos, as sobrancelhas um pouco franzidas, e demorou um momento para conseguir colocar seus pensamos em ordem. “E você acredita que Morzan nem mesmo se lembra disso tudo?”
Alexis lhe ofereceu um sorriso quase gentil. “No meio de tudo o que estava acontecendo, esse foi um incidente quase pequeno. Tenho certeza que Morzan se lembra de que Aleifar passou algum tempo andando com Fäelan, e que então se afastaram, mas ele tinha, muito sinceramente, outras preocupações na época. Nós não tínhamos condições de prestar atenção em tudo que os outros estavam fazendo, tampouco, mesmo que Morzan e eu passássemos bastante tempo juntos também. Nenhum de nós estava bem, e estávamos lutando uma guerra. Mas eu não me esqueci, e sei que meu irmão não se esqueceu.” Ela apertou um pouco os lábios. “E não acho que Fäelan tenha se esquecido tampouco.”
“Eu imaginaria que não,” Jaime disse, algo de reflexivo em seu tom. “Mas era uma outra época, minha senhora. Certamente nada parecido teria qualquer chance de acontecer agora, e a rixa de Fäelan é, atualmente, com Lorde Morzan. Eu entendo que seja uma lembrança inquietante, e que torne as motivações de Lorde Aleifar mais... complexas, mas a melhor forma de parar Fäelan, e de mantê-lo sob controle, é impedir que consiga cada vez mais influência. Você não concorda?”
Alexis riu pelo nariz, seu sorriso um pouco torto, e de alguma forma conseguia fazer até mesmo um gesto como aquele parecer delicado. “É claro que entendo a lógica e os argumentos propostos. Eu nem mesmo discordo mantê-lo mais fraco seja o caminho correto. Eu só não tenho total confiança que meu irmão esteja apto a tentar espionar a mente de um dos elfos mais poderosos que já conheci com o cuidado que essa tarefa exige.”
Não era exatamente fácil discordar, não sem parar para refletir com mais cuidado sobre todas aquelas novas informações, mas Selena sentia que precisavam lhe dar uma resposta mesmo assim. Estava entreabrindo os lábios para falar quando a porta atrás deles se abriu com um baque surdo, e Aleifar entrou no estúdio de sua irmã.
Ele vestia roupas de viagem: calças de couro e um gibão quente, uma capa escura e pesada sobre seus ombros, os cabelos loiros presos para trás com uma fita de veludo. Havia algo de incrédulo em seus olhos verdes, e algo de profundamente irritado também, e era óbvio que aquela era uma conversa que ele não deveria nunca ter entreouvido.
“E estamos de volta, minha querida irmã, na questão de quão pouca confiança você tem em mim. Eu adoraria poder convencê-la do contrário,” disse, a voz dura, “e tenho certeza que irei, no momento em que você precisar reconhecer que fui bem sucedido. Por enquanto, porém, acredito que essa seja uma conversa que precisamos ter sozinhos.” Os olhos verdes parando por um instante em Selena e Jaime. “E certamente não na frente da criadagem de Morzan, por mais extraordinários que ele insista que eles sejam.”
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