Shiver

89 Capítulo 89


Notas iniciais
Boa leitura meus amores ♥

Selena correu as pontas dos dedos por sua coleção de anéis, até escolher um muito delicado, de ouro branco e pérolas, e também brincos combinando. “Se foi Aleifar quem pediu esse jantar,” disse, pendendo a cabeça para olhar para Morzan, “podemos supor que ele tenha descoberto alguma coisa útil?”

“Eu certamente espero que sim,” ele respondeu, e estava ainda sentado na cama, as costas contra as almofadas e as pernas esticadas à sua frente. Já vestia roupas elegantes o suficiente, Selena supunha, e não parecia interessado em se arrumar mais; em vez disso, tinha as sobrancelhas escuras um pouco franzidas ao terminar de ler um relatório sobre atividades rebeldes no norte do império. “Embora ultimamente eu tenha preferido manter minhas expectativas mais baixas.”

Selena fechou seu porta-joias com um baque suave, e gostava quando ele passava tempo em seu quarto daquela forma: que fosse Morzan quem descesse para seus aposentos, ao invés de ela ir aos dele, voluntariamente procurando por ela e por sua companhia. Era seu próprio espaço dentro daquela torre que era inteira dele, com seus vestidos pendurados no guarda-roupas e junto ao espelho, seus livros sobre a mesa de cabeceira, os quadros que ela escolhera nas paredes; e ainda assim, ficava ainda melhor com ele por ali.

“Bom, eu não tenho esse problema,” ela declarou, satisfeita. Serviu uma taça de vinho para levar para ele, se aproximando com calma de onde Morzan se sentava na cama. “E posso então ter a esperança ainda de que Aleifar tenha descoberto algo incrível que irá nos ajudar imensamente.”

Morzan sorriu de lado, mas como se genuinamente achasse graça, e aceitou de bom grado a taça que ela lhe oferecia, embora continuasse atento ao que lia. “Certamente seria um alívio, não é mesmo?” Ele não havia se dissuadido de seus planos ao ouvir o relato da conversa de Selena e Jaime com Alexis, por mais que houvesse expressado certa insatisfação e preocupação a respeito do que aquilo significaria a respeito das chances de Aleifar ser bem-sucedido. “E nos daria algo para fazer.”

Selena precisou rir um pouco. “Eu certamente aproveitei esse respiro entre minhas atividades como sua Mão Negra,” admitiu, sem se importar com o olhar rápido e irônico que ele lhe lançou. “Sinto um pouco menos pressão quando as consequências de falhar no que estou fazendo não parecem assim tão terríveis.”

“Se te faz se sentir melhor,” Morzan disse, a voz baixa e os olhos ainda no pergaminho em suas mãos, “você costuma se sair muito bem em ambos os casos.”

Ela sorriu. “Eu tento,” respondeu. “Você já está terminando?”

“Já terminei,” ele confirmou, depositando o relatório sobre a mesa de cabeceira de Selena e se abaixando para calçar novamente suas botas. “Vou deixar isso aqui para você ler mais tarde, porque acho que é importante que esteja também bem-informada.”

Selena fez uma pequena careta na direção do pergaminho. “Preciso mesmo?” perguntou, mais por preguiça do que qualquer outro motivo. “Você não poderia só me contar?”

“Não dessa vez.” Morzan tocou seu braço por um instante, a negativa suave. “Vamos?”

Ela assentiu, e permitiu que ele a guiasse escada abaixo e então para fora da torre. Cruzaram os corredores da cidadela com tranquilidade, conversando sobre assuntos mais leves enquanto corriam o risco de serem entreouvidos, parando apenas às vezes para cumprimentar um nobre ou outro. Foram recebidos às portas da torre de Aleifar e Alexis por um criado educado, mas que logo foi dispensado por Alexis em pessoa — que não parecia tranquila, exatamente, mas não se mostrou irritadiça para com eles daquela vez tampouco.

“Finalmente,” foi como os cumprimentou, descendo as escadas circulares que levavam para a sala principal da torre em passos rápidos, e estava também mais bem-arrumada do que na última vez que Selena a vira: seu vestido era branco com detalhes dourados, seus cabelos caíam em uma trança elaborada sobre um ombro. “Estava prestes a enlouquecer, trancada aqui com Aleifar.”

Morzan riu baixinho, se afastando de Selena para permitir que Alexis lhe desse um abraço rápido. “Não imagino que ele seja sempre a mais agradável das companhias,” disse, seu tom leve, e então encontrou o olhar de Alexis com mais seriedade em seu rosto. “Sabe se ele descobriu alguma coisa?”

Ela sacudiu a cabeça. “Não faço ideia,” disse, e então fez uma careta muito pequena. “Talvez. Ele certamente parece... satisfeito com alguma coisa, mas não está disposto a me contar. Ainda está bravo comigo.”

“Bem,” Morzan respondeu, e parecia um pouco divertido, “você realmente andou falando sobre ele para minha ‘criadagem’ sem sua permissão, não foi?”

Alexis chegou a revirar os olhos, e riu também. “Foi isso o que eu fiz?” perguntou, olhando rapidamente para Selena e lhe oferecendo um breve sorriso. “Eu apreciaria se pudéssemos parar de brigar entre nós mesmos, pelo menos. Deixar todo o conflito para os elfos.”

“Eu gostaria disso,” Morzan concordou, mas havia algo de mais seco no curvar de seus lábios dessa vez. “Posso contar com você para isso, Lex?”

A Cavaleira encontrou seu olhar, sem parecer se impressionar. “Promete me ouvir de verdade na próxima vez que eu levantar uma objeção aos seus planos?”

Ele pendeu a cabeça para o lado. “Se você prometer me contar todas as informações relevantes, é claro.” Uma pausa curta. “Não foi o caso de eu não te ouvir, você sabe disso.”

Alexis pareceu ceder um pouco. “É claro,” disse, ecoando suas palavras, e então olhou para Selena, se aproximando para tomar suas mãos nas dela. “Estou grata que estejam aqui, de verdade. Venham, vamos encontrar meu irmão.”

Ela os guiou através dos aposentos luxuosos para uma sala de jantar ampla e bem-iluminada, decorada com tapeçarias delicadas nas paredes e diversos cristais pendendo do lustre elaborado preso ao teto de pedra. Do outro lado da comprida mesa de madeira escura, Aleifar erguia um cálice de ouro para examiná-lo de perto enquanto falava com um criado, mas levantou os olhos verdes na direção deles ao ouvi-los entrar, dispensando o servo com quem conversava com um gesto breve da mão esquerda.

“Estão atrasados,” disse, à guisa de cumprimento, depositando o cálice de volta sobre a mesa posta. E aquelas não eram, Selena precisou refletir, primeiras palavras tão diferentes assim das de Alexis, ao recebê-los um pouco antes, embora certamente mais ásperas; alguma similaridade entre os dois mesmo nos pontos em que eram mais diferentes. “E não apenas por conta de minha irmã os enrolando com conversas sem sentido, eu imagino.”

Morzan riu pelo nariz, dando a volta na mesa para puxar uma cadeira para que Selena se sentasse; posta como estava, ele se sentaria de frente a ela, com Aleifar e Alexis em cada ponta, e não era a configuração que ela preferiria, se pudesse ser sincera, mas não era terrível tampouco. “Alexis foi, como sempre, companhia muitíssimo agradável.”

Ele não se afastou de imediato, apoiando os braços sobre a cadeira de Selena e tocando seu ombro com uma das mãos, o que ela tomou como um incentivo para falar também. “Nós apreciamos o convite e o jantar, meu senhor,” disse, oferecendo a Aleifar seu melhor sorriso.

“De fato,” Aleifar concordou, e havia mesmo algo de muito satisfeito em sua expressão. “Sentem-se, por favor,” pediu então a Morzan e Alexis. “Eu trago novidades.”

Ambos aquiesceram — Morzan lançando a Selena um olhar significativo ao se sentar, que a fez precisar sorrir um pouquinho —, e Alexis logo juntou as mãos sobre a mesa para encarar seu irmão de frente. “Descobriu alguma coisa?”

“Paciência,” Aleifar a advertiu, e estalou os dedos para chamar os criados. Aguardou em silêncio enquanto eles serviam a comida e também enchiam de vinho os cálices de cada um, e então partiu com calma a carne em seu prato antes de começar a falar. “Devo prefaciar essa conversa apontando alguns acontecimentos das últimas semanas. Começando pelo fato de que nenhum de vocês pareceu ter confiança de verdade nas minhas habilidades, quando, no final, serão elas a nos salvar. Um reconhecimento esse que irei exigir, não apenas agora, como também no futuro: no momento em que precisarem de mim de novo, e se mostrarem pouco inclinados a me ouvir. Não apenas Alexis, que preferiria outros planos até mesmo agora, mas também você, Morzan, que postergou essa estratégia até não ter mais escolha alguma.”

Alexis deixou escapar um suspiro pesado, e Morzan se endireitou um pouco sobre sua cadeira. “O risco que Alexis apontou sempre foi real,” afirmou, seu tom muito final. “E as possíveis consequências, antes—”

“Seriam irrelevantes, perto das vantagens que poderíamos já ter conseguido em troca,” Aleifar o interrompeu. “Mas isso é apenas o que ambos irão perceber agora.”

Selena percebeu a forma como Alexis estreitava os olhos, e tudo aquilo estava perto demais de se transformar em uma nova discussão. “Mas você realmente descobriu algo importante, então, meu senhor?” se adiantou para perguntar, numa tentativa impulsiva de tentar desanuviar um pouco a conversa.

Aleifar voltou os olhos verdes em sua direção. “Acho que foi você, Senhora Selena, quem ajudou a nos levar à conclusão de que as intenções de Fäelan pudessem estar ligadas a possivelmente governar sobre os elfos em nome do rei, e que por isso ele preferiu alianças mais fortes com os nobres das cidades nortenhas. Galbatorix confirmou essa teoria, mais tarde, mas, se se lembrarem bem, ele também disse que...” Ele estendeu uma mão, como se pedisse que completassem por ele a frase.

Foi Morzan quem o fez. “Que havia mais do que isso,” disse, algo de distante em sua voz, e havia sido diretamente para ele que o rei admitira aquilo, Selena sabia.

“E, de fato, há.” Aleifar fez uma pausa curta, tomando um gole de vinho, e sorria de verdade agora, impossivelmente arrogante. “Estou de posse da informação, fisgada da mente de Fäelan em pessoa, de que ele escolheu se aliar a alguns governantes em específico não apenas porque suas cidades e tropas estariam melhor posicionadas para ajudá-lo a governar sobre Du Weldenvarden, mas para melhorar essas cidades apenas para que possa tomá-las deles depois.”

Alexis tinha as sobrancelhas delicadas franzidas. “O que quer dizer?”

“Quero dizer, minha querida irmã, que Fäelan planeja melhorar as cidades nortenhas, ajudar seus governantes a torná-las grandiosas o suficiente para que sejam fonte de inveja de todo o Império, apenas para, no futuro, expulsar cada último homem que nelas reside e povoar todas elas com elfos recém dominados. Há um certo acordo sobre Kialandí e Formora dominarem algumas delas, e nenhum dos dois me parece tão certo sobre até que ponto apoiariam Fäelan e a partir de quando prefeririam ir atrás de seus próprios interesses, e é claro que é um plano que só funcionará a longo termo, mas, no final a verdade é essa. Fäelan está trabalhando tão duro para conseguir novos aliados apenas para trair todos eles depois.”

Selena sabia que talvez não devesse, mas não conseguiu esconder o próprio choque ao perguntar, “E o rei permitiria isso?”.

Ao mesmo tempo, Alexis se inclinava para frente sobre a mesa e insistia, “Você tem certeza? Tem certeza que esses são mesmo os planos de Fäelan?”

Aleifar revirou os olhos. “O rei permitiria, Senhora Selena, porque seria sua vantagem demonstrar para todo o mundo que conseguiu conquistar e curvar os elfos, que por tanto tempo escaparam de seu domínio, e porque eles são, afinal de contar, servos mais impressionantes do que meros humanos. E para responder sua pergunta, Alexis, sim, é claro que tenho certeza. Fäelan não—”

“Não importa,” Morzan interrompeu. Tinha os olhos díspares baixos, quase desfocados, e os ergueu para Aleifar em um movimento deliberado. “Não importa se são esses exatamente os planos dele ou não. A mera sugestão de algo dessa magnitude, a mera possibilidade... É plausível, e é o suficiente para dar pausa a qualquer um que considere se juntar ele.” Ele se voltou para Alexis, e então encontrou o olhar de Selena, finalmente. “Isso nós conseguimos usar.”

Notas finais