Shiver

81 Capítulo 81


Notas iniciais
Boa leitura meus amores ♥

O vestido era escuro e simples, com um corpete de couro acolchoado que não a protegeria de verdade em uma batalha, mas que funcionaria bem para mantê-la segura em uma luta rápida — uma segurança a mais, se somando aos feitiços de proteção e à espada fina que carregaria em sua cintura. Selena se sentava em frente à penteadeira, terminando de arrumar seu cabelo antes de sair; puxava os fios em uma trança rente à lateral de sua cabeça, apenas para afastá-los de seu rosto e deixando o restante cair solto contra suas costas, mas estava tendo um pouco de dificuldade em terminar o penteado e prendê-lo no lugar.

“Deixe-me,” Morzan pediu, se aproximando e lhe entregando o próprio cálice de vinho para que pudesse ajudá-la. Ela se deu a liberdade de tomar um gole curto, e viu pelo espelho seu sorriso pequeno. “Cuidado,” ele advertiu. “Quero você atenta esta noite.”

Selena encolheu os ombros, sem se preocupar muito. “Gosta de bebidas tão fortes que só um gole iria me atrapalhar?”

“Só quando sei que você não vai ter a oportunidade de provar,” ele brincou, “e me julgar por isso. Pronto.” Deu um passo para trás, observando o próprio trabalho com um olhar levemente avaliativo, antes de fazer uma expressão de descaso muito breve que Selena sabia significar que não estava totalmente satisfeito, mas que não se importava de verdade tampouco. “Mas estou falando sério, Selena. Quero que tome cuidado.”

“Eu sei.” Ela lhe devolveu a taça. “Não acho que vá ser nada muito complicado. É só uma missão de reconhecimento, não é? Vou entrar e sair, e não devo encontrar nenhum problema.”

Morzan fez que sim. “Priorize passar despercebida a interagir com qualquer um,” adicionou, “e tome cuidado com feitiços defensivos e outras proteções ou armadilhas. Não se esqueça que estamos lidando com um maçom de destaque e que está diretamente envolvido nos planos de Fäelan.”

Selena lhe ofereceu um sorriso torto. “Já lidei com homens piores, você sabe.”

Ele riu baixinho. “Eu sei,” disse, mais suave. “Mas mesmo assim. E caso suspeite que está prestes a ser descoberta, me avise imediatamente. Vou te esperar acordado.”

Um comentário totalmente desnecessário, Selena refletiu, porque não havia nunca voltado de uma missão para encontrá-lo adormecido — tanto das mais longas, quanto das mais curtas, como aquela. Mesmo depois de tanto tempo ao seu lado, provavelmente poderia contar nos dedos de uma mão as vezes em que o vira dormir, para além dos momentos muito breves em que acordara de madrugada.

“Não na companhia de Aleifar, eu espero,” disse apenas, seu tom muito leve.

Morzan riu pelo nariz, quase desgostoso. “Ele deve estar ocupado aterrorizando uma garota qualquer,” dispensou, com pouco caso. “E não estou exatamente com paciência para aturá-lo nessa noite.”

Provavelmente ainda se lembrando de vê-lo dançando com Selena no banquete no dia anterior, embora não houvesse realmente comentado a respeito. Deixara seu incômodo mais ou menos claro de outras formas, nenhuma particularmente desagradável.

Ela sorriu consigo mesma. “Não posso dizer que ele faça falta,” concordou com facilidade.

Pensou que Morzan parecia satisfeito. Ele a tocou no ombro em uma despedida curta, e Selena desceu as escadas do castelo de Lorde Tarrant em silêncio — evitou sem grande dificuldade os guardas que patrulhavam os corredores, e saiu para a cidade por um portão discreto perto dos dormitórios dos criados, que ela destrancou com um feitiço curto, macio em sua língua.

Fez seu caminho pelas ruas silenciosas, tomando cuidado para passar longe dos vigias com suas lanternas e também das poucas janelas iluminadas por velas solitárias. Lembrou-se de Morzan comentando que Teirm era diferente de outras cidades nortenhas por ser no litoral, mas a verdade era que Ceunon também era — situada junto ao mar do norte, separada das rotas de comércio marítimas pela ponta afiada da Espinha e próxima demais da floresta onde se escondiam os elfos, a cidade tinha sua cota de pescadores, e o vento que soprava leve o rosto de Selena trazia consigo o perfume da água salgada.

Mas Ceunon se diferenciava principalmente por sua arquitetura singular: edifícios de madeira com telhados inclinados, dragões entalhados em seu topo. Talvez mesmo por influência milenar dos elfos, talvez por conta de alguma história há muito esquecida com os antigos Cavaleiros, Selena não fazia ideia — Morzan nunca lhe contara, e ela não perguntara tampouco —, mas a verdade era que as esculturas altas pareciam segui-la com os olhos na noite escura.

Não era incômodo. Pelo contrário, o chão de terra sob seus pés e algo no desenho das casas a fazia se sentir estranhamente confortável; Ceunon não era nada como Carvahall, e ainda assim algo no ar a fazia se lembrar de sua antiga casa.

Selena não demorou muito para chegar a seu destino. O maçom procurado por Lorde Tarrant era proeminente na guilda local, e sua casa ficava na parte mais rica da cidade, não muito distante do castelo. Seu nome era Dale, Selena descobrira, e ele contava com uma ótima reputação e bens consideráveis, para um homem do povo.

Sua casa tinha dois andares, e estava escura e silenciosa àquele horário. Selena parou em um beco próxima para observá-la, segura e bem escondida nas sombras; murmurou alguns feitiços para identificar proteções mágicas, e, quando não encontrou nada, considerou por um segundo o risco de ser algo mais perigoso e cuidadosamente disfarçado.

Por mais que Morzan houvesse insistido que ela tomasse cuidado, porém, ela não acreditava de fato que a casa de Dale estivesse protegida por encantamentos — sabia que sua preocupação vinha mais dos ataques a ela e a Jaime, certamente recentes demais em sua memória, do que de uma suspeita de algum perigo real e iminente naquela situação específica. A enviara lá sozinha, afinal de contas, e vinha a advertindo sobre ser cuidadosa com frequência demais.

Selena se aproximou devagar, então, parando ao lado de um estábulo vazio apoiado contra uma parede, e apoiou um pé tentativamente sobre um barril antes de usá-lo como impulso para subir sobre o telhado baixo de madeira e palha. De cima dele, conseguiu usar as vinhas esculpidas na parede da casa para se erguer até o parapeito da janela no segundo andar, se equilibrando com cuidado na faixa estreita de madeira ao apoiar a mão sobre a fechadura de metal e murmurar um feitiço curto.

A janela se abriu com um ranger baixo, e Selena se esgueirou com cuidado para dentro do estúdio. Havia um vaso com flores sobre a mesa sob ela, assim como um livro fechado intitulado A arquitetura das cidades humanas do Reino Broddring e de Surda. Ela entoou outro feitiço, dessa vez para iluminar as páginas e também impedir que a luz se espalhasse em demasiado — não queria ser descoberta ali, afinal de contas —, e abriu o livro, curiosa.

Havia uma dedicatória de uma mulher na primeira página, algo bem-humorado sobre um aniversário e os interesses monótonos do marido, que fazia com que o coração de Selena se apertasse um pouco. Nas páginas seguintes, um texto complexo que ela descobriu ter certa dificuldade em entender, embora não fosse de todo (como sugerira a dedicatória) desinteressante.

Acabou deixando o livro de lado, e então sobressaltou-se ao ouvir um som seco atrás de si. Se virou, assustada, mas era apenas um gato muito peludo sentado sobre uma estante, com manchas castanhas em seu pelo branco e olhos amarelos atentos sobre ela. Selena fez um Oh silencioso, se aproximando em passos lentos.

Abaixou-se para pegar o livro que caíra, e então ofereceu ao gato um sorriso quase sincero. “Oi,” disse, a voz muito baixa, no que talvez fosse um comportamento imprudente e impensado. “Só estou bisbilhotando um pouco,” prometeu, “não vou fazer nada de mal.”

Ergueu uma mão para acariciar o animal, mas ele miou e tentou rebater seus dedos com um movimento certeiro de uma pata, e Selena deixou escapar uma risada baixa e nervosa, sem conseguir se conter.

“Tudo bem,” disse, rendida, mas a situação não era exatamente segura. Pensou por um instante, e então, em uma voz muito suave, lançou sobre ele um feitiço de sono — inofensivo e passageiro, mas logo o gato dormia sobre a estante, a respiração estável e silenciosa.

Selena se permitiu fazer um carinho curto atrás de suas orelhas, se perguntando, despropositadamente, se Morzan estaria de alguma forma disposto a lhe dar um animal de estimação, antes de devolver o livro caído ao seu lugar junto aos outros.

Não sem precisar de alguma força de vontade, deu as costas ao gato. Correu um dedo pelas estantes até achar uma série de cadernos de capa de couro, e abriu o mais próximo para encontrar a lista dos clientes mais recentes de Dale. Leu os nomes rapidamente, e, é claro, lá estava Lorde Tarrant — mas os serviços prestados a ele estavam denominados apenas como “melhorias para a cidade”, o termo vago e frustrante.

Sobre a escrivaninha no centro do estúdio, encontrou alguns livros empilhados, todos também sobre arquitetura de grandes, e era um tema claro, mas também absurdamente amplo. Havia, inclusive, livros sobre técnicas de construção dos elfos e dos anões, e era impossível saber se seriam precisos, embora fosse notável que estivessem ali. Selena conhecia muito pouco sobre o tópico, se pudesse ser sincera, mas algo a fazia pensar que talvez as técnicas dos anões fossem mais úteis a um humano — era difícil imaginar que as cidades élficas, perdidas como eram na floresta de Du Weldenvarden, fossem minimamente parecidas com algo que os homens pudessem, ou mesmo quisessem, construir.

E, aberto sobre a mesa, um mapa de Ceunon, desenhado em carvão. Ela pendeu a cabeça para o lado ao estudá-lo: ele parecia exato o suficiente, mas Selena não conhecia a cidade nem de longe bem o suficiente para julgar se haveria qualquer diferença ou proposta de mudança. Se sim, seria de algo pequeno e bastante sutil.

Encontrou também pergaminhos enrolados com o que pareciam ser desenhos e plantas do local, mas pareciam inacabados, abandonados. Selena talvez fosse, ela começava a perceber, demasiado leiga para fazer qualquer avanço tentando analisá-los; começava a perceber que a melhor solução para descobrir os planos de Fäelan talvez fosse perguntar diretamente a Lorde Tarrant.

Certamente não conseguiria muita coisa de Dale daquela forma, não se quisesse ser discreta.

Ainda assim, tomou seu tempo examinando a escrivaninha. Leu as correspondências guardadas ali, embora as únicas que faziam qualquer referência a algum nobre fossem um tanto antigas e sobre obras particulares, e os minutos foram passando devagar.

Foi só quando havia lido pelo menos um pouco de cada um dos documentos e também examinado os títulos de cada livro nas estantes que Selena se deu por satisfeita, e já era tarde o suficiente para que ela temesse que o dia fosse raiar em breve, tornando continuar ali arriscado em demasiado.

Com um último olhar em volta, e então novamente para o gato adormecido na estante, ela finalmente se afastou. Era difícil não se sentir um pouco como se voltasse de mãos vazias, mas também com a consciência de que fizera o melhor trabalho possível, dadas as circunstâncias.

Selena já tinha, depois de tanto tempo, confiança o bastante em si mesma e nos próprios talentos para saber julgar uma missão bem-sucedida — ou ao menos finalizada —, e, ao trancar a janela novamente atrás de si e descer mais uma vez para o chão firme lá embaixo, sentia os próprios passos muito leves sobre as ruas de terra.

Notas finais
Acham que o Morzan daria um gatinho para a Sel se ela pedisse de verdade? Espero que tenham gostado ♥