Shiver

82 Capítulo 82


Notas iniciais
Boa leitura, meus amores ♥

O estúdio de Lorde Tarrant possuía duas paredes cobertas por estantes de livros, as capas de couro polido refletindo a luz das velas, e tapeçarias decorando as duas restantes, ao lado da porta de entrada e também das janelas altas que mostravam Ceunon de noite. Sentada sobre um sofá baixo ao lado de Morzan, Selena não conseguia discernir os títulos, mas tinha um livro em suas mãos de toda forma — Lorde Tarrant o havia presenteado a ela mais cedo naquela noite, e era uma coleção de poemas que ela apreciara de verdade, tomando inclusive a liberdade de examiná-lo com maior cuidado enquanto Morzan jogava cartas com o governador.

Lorde Tarrant se sentava no sofá oposto, e, na mesa baixa entre eles, seus criados haviam depositado uma bandeja com pequenas porções de doces e tortas diminutas. Morzan havia comido apenas uma ou duas das tortinhas salgadas, ignorando os doces, e parecia manter a atenção mais na conversa com Tarrant e nas cartas em sua mão. Selena, que se considerava incapaz de abrir mão de uma torta doce que fosse, havia provado algumas, mas agora se aproximava mais de Morzan para espiar melhor suas cartas.

Tomou a liberdade de apontar para uma delas, erguendo um pouco as próprias sobrancelhas, e Morzan sorriu ao encontrar seu olhar, os olhos díspares brilhando.

A inteiração não passou despercebida a Lorde Tarrant. “Se eu soubesse que gostava de jogar, Senhora Selena,” disse ele, “a teria convidado a se juntar a nós, mas presumi que preferiria o livro, em vista do que já ouvi falar a seu respeito. Peço desculpas.”

Morzan riu daquilo, e foi ele quem respondeu. “Ah, não. Selena certamente aprecia mais um livro de poemas do que um jogo de cartas. Seu presente foi oportuno e muito bem-vindo.”

“De fato,” Selena concordou, e precisava sorrir um pouco disso tudo. “E dessa forma eu posso acompanhar o jogo e agir como se fosse ótima nele, sem realmente precisar arriscar perder. Não é ótimo?” Se satisfez ao ouvir o governador rir. “De verdade, eu gosto de assistir, e adorei o livro, meu senhor.”

Lorde Tarrant devolveu seu olhar com graciosidade, embora houvesse sempre algo de muito atento em seu rosto. “Fico feliz em saber. Está gostando de sua estadia em Ceunon, eu acredito?”

Ela fez que sim. “Sinto que fui muitíssimo bem-recebida,” respondeu, com facilidade. “O baile há algumas noites foi delicioso, e tive até mesmo a oportunidade de andar um pouco pela cidade. Apenas não consegui ainda visitar os mercadores, e ouvi dizer que fazer os enfeites de madeira que eles fazem nessa época do ano são maravilhosos.”

Para quem falava da própria cidade, Lorde Tarrant parecia um pouco duvidoso. “Um pouco rústicos, talvez, em comparação com o que está acostumada, Senhora Selena.”

Mas Morzan sacudiu a cabeça para aquilo. “Não, eles certamente têm seu charme.” Olhou para Selena como se a entretivesse, tanto para o benefício dela quanto de Lorde Tarrant, ela tinha certeza. “Podemos passar por lá amanhã antes de irmos embora, e eu posso comprar algo para você.”

Selena lhe ofereceu seu sorriso mais doce. “Eu adoraria.”

“E falando em gostar da cidade,” Morzan continuou, se voltando a Tarrant mais uma vez. “Estive conversando com alguns de seus conselheiros, e ouvi algo a respeito de planos para melhorá-la? Preciso admitir que fiquei curioso.”

Lorde Tarrant pareceu hesitar dessa vez, algo de mais cauteloso em seus olhos cinzentos. “Não é algo que estejamos querendo divulgar tão cedo,” admitiu, “uma vez que ainda está nas primeiras fases de planejamento. Estamos considerando obras demoradas, para aprimorar Ceunon a longo prazo, e eventualmente atrair maiores riquezas, comércio e turismo à cidade.”

Morzan ergueu as sobrancelhas, abaixando um pouco as próprias cartas, e quase parecia genuinamente interessado. “Que tipo de obras?”

“De infraestrutura, inicialmente. Contratei o melhor maçom da cidade para desenhar um sistema de esgoto subterrâneo, assim como melhorias em nossas muralhas e no mercado central. Recebi as primeiras plantas no começo da semana, mas estive procurando uma segunda opinião antes de autorizar qualquer nova movimentação nesse sentido; até agora, enviei mensageiros para as guildas de Gil’ead, Dras-Leona e Belatona, e estou aguardando que enviem alguém em resposta.”

Selena não entendia o que qualquer um em Dras-Leona tivesse a oferecer sobre melhorar cidade alguma, mas guardou suas dúvidas para si mesma. Sentou-se melhor onde estava, segurando com as duas mãos o livro sobre seu colo, e comentou, “Me parece um plano longo, trabalhoso, e custoso. Não haveria risco de Ceunon perder um pouco de sua identidade, meu senhor?”

“Estamos levando isso em conta,” Lorde Tarrant garantiu. Abaixou as próprias cartas, as deixando viradas para baixo sobre a mesa entre eles. “Não iria querer incomodar em demasiado a população, tampouco. E, sim, são planos demorados, mas acredito que trariam benefícios para gerações inteiras no futuro, mesmo que estejam longe de ser uma solução imediata para meus problemas.”

Mas Morzan sacudiu a cabeça com facilidade. “Não, é certamente uma ideia interessante. Não tenho certeza se um maçom de Dras-Leona seria de muita ajuda, embora seja verdade que eles tenham...” Ele pareceu mudar de ideia sobre o que ia dizer, ou perder a linha de raciocínio. “Alguém de Belatona provavelmente seria mais útil, eu acredito. Você já falou com o rei a respeito? Ele aprovou algum fundo?”

“Ainda não.” Lorde Tarrant desviou os olhos por um instante, e então pareceu escolher admitir, “Lorde Fäelan se comprometeu a me apoiar com o pedido junto ao rei, mas, como disse, nossos planos estão ainda muito no começo. Foram sugestão dele, na verdade, quando lhe contei algumas das dificuldades que estava tendo, além de outras medidas de curto prazo que têm surtido algum efeito.”

O rosto de Morzan continuava muito tranquilo. “Estou feliz que Fäelan tenha conseguido ajudar,” disse, apenas, a voz macia. “Certamente parecem ideias promissoras. Você disse que já havia recebido algumas plantas? Se importaria se eu as examinasse?”

Lorde Tarrant sacudiu a cabeça. “De maneira alguma,” garantiu, e se levantou. “Por aqui,” chamou, e Morzan abandonou suas cartas sobre a mesa baixa para segui-lo até sua escrivaninha.

Após um momento curto de hesitação, Selena se levantou para acompanhá-los também, ainda levando consigo seu livro. Observou a escrivaninha com mais interesse do que talvez devesse, não tendo tido a oportunidade antes: havia pena e tinteiro a um canto, junto a cera e um sinete, assim como alguns livros empilhados em outro. A maior parte da superfície estava livre, porém, e Tarrant estendeu sobre com facilidade o pergaminho que retirou de uma gaveta fina.

Selena teria que admitir que analisar mapas ou plantas com qualquer cuidado maior, ou atenção aos detalhes, estava um pouco longe de suas capacidades. Ainda assim, estudou os desenhos com cuidado, ouvindo as explicações de Lorde Tarrant sobre as reformas nas muralhas, na praça do mercado, e nas ruas, assim como sobre o sistema de esgoto subterrâneo que consideravam construir.

Realmente se parecem versões finalizadas do que eu vi na casa de Dale, Selena comentou mentalmente com Morzan. Embora lá não houvesse nada próximo disso. Mas o traço se parece com o dele?

De fato, ele concordou. Encontrou brevemente o olhar de Selena, um brilho leve em seus olhos, antes de abaixá-los novamente para os pergaminhos sobre a mesa.

Morzan fazia um ótimo trabalho em mostrar um interesse benevolente nos planos de Lorde Tarrant, ela julgou, ao vê-lo apontar coisas no mapa, fazendo perguntas inteligentes sobre logística e estratégia que jamais ocorreriam a Selena. Não falara em Fäelan de novo, talvez querendo evitar deixar muito óbvio que era o elfo a verdadeira razão de sua preocupação, mas apontou alguns fatos sobre a história de Ceunon e os interesses de diferentes parcelas de sua população.

“Essa está longe de ser minha especialidade,” foi o que ele acabou admitindo no final, “mas me parece, no todo, uma ótima ideia, Lorde Tarrant. Eu admiro sua iniciativa, e estarei acompanhando de perto seus desenvolvimentos. Faço votos que tudo corra bem e que seus planos sejam um sucesso,” completou, tão generoso, “e me coloco à disposição para ajudá-lo com o que for preciso.”

“Eu agradeço, Lorde Morzan,” Tarrant respondeu, e talvez parecesse sincero o bastante; até mesmo, Selena suspeitava, quase aliviado. Ofereceu-lhe um sorriso quando ele se voltou para ela. “A estamos entediando com esses assuntos, eu receio, Senhora Selena.”

Ela precisou rir um pouco. “É bem verdade que não entendo tão bem,” disse, encolhendo os ombros, “mas não chamaria de entediantes.”

Lorde Tarrant, porém, aproveitou da deixa para guardar novamente os pergaminhos, e então convidá-los para que se sentassem ao sofá mais uma vez. O assunto foi aos poucos deixado de lado, enquanto ele e Morzan retomavam as cartas e o jogo, a conversa se voltando para tópicos menos importantes.

Selena se contentou em continuar a assistir aos dois, às vezes se permitindo um breve respiro ao ler um ou outro poema mais curto. Foi só bem depois, quando ela e Morzan deixaram o estúdio do governador de Ceunon para que pudessem voltar aos próprios aposentos, que ela estendeu a mente para tocar a dele outra vez.

Vamos mesmo ajudá-lo? perguntou, curiosa, e ele lhe respondeu com um sorriso torto.

Se ele pedir minha ajuda, é claro que sim, foi o que Morzan disse, tão fácil, apoiando uma mão na porta do quarto que Lorde Tarrant lhe cedera na cidade. Enquanto isso, é claro, estaremos fazendo o possível para atrapalhar e impedir qualquer um de seus planos de se concretizarem.

Algo de irônico em seu tom, e Selena sorriu um pouco consigo mesma enquanto ele tocava suas costas para guiá-la para dentro do cômodo escuro e silencioso.

Notas finais
O capítulo ficou mais curtinho, mas espero que tenham gostado (no mínimo, concluí um pouco o passado? hahah)! Estarei nesse domingo no show da Taylor Swift em São Paulo com algumas das leitoras daqui e outras amigas fanfiqueiras ainda, então Shiver ficou um pouquinho em segundo plano dessa vez hahah mas nos vemos nos comentários, meus amores ♥