Shiver

76 Capítulo 76


Notas iniciais
hey hey hey ♥ apesar de ficar meio feio todo capítulo eu chegar aqui pedindo desculpas pela demora para atualizar, gostaria de deixá-las aqui de toda forma. para compensar, é uma atualização dupla, então ficam dois capítulos para vocês aproveitarem! espero que gostem!

O dragão abriu as enormes asas para pousar, e vistas de baixo e contra a luz elas eram translúcidas, os padrões das veias por baixo uma confusão em tons de vermelho. Selena se afastou da árvore contra a qual estivera recostada, dando um passo para frente, mas então não se aproximou mais. Engoliu em seco ao ver Morzan olhar em volta, absorvendo a cena; mesmo à distância era possível perceber seu maxilar rígido e seus olhos duros. Ela tinha vontade de se aproximar e abraçá-lo, ou ao menos entrelaçar os dedos nos dele, mas se forçou a permanecer aonde estava enquanto Morzan soltava as fivelas que prendiam suas pernas à sela e descia das costas de seu dragão.

Quando ele falou, se dirigiu a Alexis, não a ela. “Você matou todos?”

A Cavaleira estivera ajoelhada ao lado de Georgei, que, já curado, mas ainda abatido, se sentava contra o tronco de uma árvore caída, e sacudiu a cabeça devagar. “Não, eu guardei um para você.” Ela olhou em volta rapidamente, como se não se importasse o suficiente para se lembrar, e então indicou um dos homens caídos com um movimento do queixo. “Aquele.”

Morzan se aproximou devagar, parando ao lado do homem desacordado e usando a ponta do sapato para virar seu rosto de forma a vê-lo melhor. O examinou por um instante curto, ainda com aquela expressão de desagrado e sem parecer impressionado, antes de finalmente se voltar para Selena.

“Você está bem?”

Ela se limitou a assentir uma vez. “Sim.”

Morzan estudou seu rosto por um instante curto, fez que sim com a cabeça. “Precisamos conversar.” Uma pausa, e então: “Em particular. Sem querer ofender, Alexis, mas não confio em seu... companheiro.”

Alexis não pareceu particularmente incomodada, mas Georgei não foi capaz de manter a expressão neutra, a emoção em seus olhos em algum lugar entre o choque e a revolta. Ainda tinha as vestes cobertas de sangue, embora parecesse quase limpo, ao lado de Alexis.

“Georgei arriscou sua vida por nós,” Selena se viu forçada a dizer. Quando o olhar que Morzan lhe lançou foi rápido e descrente, ela se corrigiu, “Quero dizer, por Alexis. Mas era eu quem queriam atacar, então, de certa forma, por mim também. Então...”

“Morrer é fácil,” Morzan a interrompeu, a voz dura e impaciente. “É nele vivo que não confio.” Ele nem mesmo olhou na direção de Georgei para procurar por sua reação, se focando inteiramente em Alexis em disso. “Você vem?”

Ela se limitou a sacudir a cabeça uma vez. “Vou esperar por meu irmão. Dar a vocês a chance de conversar com mais privacidade.” E talvez ela mesma quisesse alguns instantes a sós com Georgei, apesar de não parecer demasiadamente incomodada — ele, por outro lado, ainda parecia ofendido, para além do choque do que havia acabado de passar. Talvez precisasse ser convencido que as palavras de Morzan, duras como haviam sido, não devessem ser levadas muito a sério. “Eu encontro vocês em alguns instantes.”

Morzan fez que sim com a cabeça. Olhou em volta mais uma vez, os olhos de cores diferentes parando no homem desacordado no chão, e disse um feitiço curto na Língua Antiga, e o corpo do mercenário se ergueu no ar, flutuando a poucos palmos do chão. Ele então se aproximou de Selena, a tomando pelo braço e a puxando em direção ao caminho entre as árvores que levava à pequena lagoa do outro lado; o homem desmaiado sendo magicamente transportado à frente deles.

Selena sentia seus dedos ao redor de seu braço apertando quase o suficiente para doer, e era um pouco difícil acompanhar seus passos, mas ele a soltou assim que deixaram a sombra das árvores. Morzan permitiu também que o corpo do homem caísse ao chão sem qualquer cerimônia, e então se voltou para ela muito lentamente. “Você não se machucou?”

Ela cruzou os braços sobre a barriga, sacudindo uma vez a cabeça. “Esse sangue é de Georgei.” Quando Morzan desviou os olhos, parecendo ainda exasperado e irritado, ela se deteve um instante no mercenário no chão antes de perguntar, “Você conseguiu fazer o que queria com Aleifar hoje? Os homens que atacaram Jaime estão todos mortos?”

Morzan encontrou seu olhar, e havia algo mais suave em seu rosto agora. “Desde ontem. Hoje fomos atrás do nobre a quem serviam.”

“Ah,” ela fez baixinho. “E o encontraram?”

A expressão dele era difícil de ler. “Sim,” respondeu, mas não elaborou mais.

“E hoje Alexis matou todos que me atacaram,” Selena concluiu, devagar. Olhou por um instante para o homem desacordado. “Ou quase. Não foi muito inteligente, eu acho, me atacar com ela por perto. Quase como se não houvessem sido bem preparados.”

Morzan estudou seu rosto por um instante breve, e então olhou novamente para o homem desacordado no chão. “Não é mesmo?” perguntou, sua voz baixa carregada de desgosto. Não parecia esperar uma resposta, e se abaixou em vez disso, se agachando ao lado do desconhecido; o observou por alguns segundos, e então murmurou uma palavra na Língua Antiga.

O estranho acordou lentamente, à princípio, piscando confuso, antes de parecer perceber onde estava. Arregalou os olhos — e tinha olhos muito azuis, Selena percebeu quase sem querer —, tentando se levantar, mas conseguindo apenas se arrastar um quase nada para trás antes que Morzan o parasse, o segurando pelos cabelos — os dedos em sua nuca como se em um carinho, mas segurando com força o suficiente para doer, Selena sabia, a julgar pela expressão do estranho.

Tentou dizer alguma coisa, e novamente Morzan o impediu. O interrompeu com uma palavra curta na língua da magia, e o homem pareceu engasgar na própria voz, seus lábios se movendo sem emitir som algum. Morzan ergueu seu rosto um quase nada, talvez para vê-lo melhor, antes de fechar os olhos em concentração.

Selena viu o desconforto no rosto do estranho quando a mente de Morzan tocou a dele, e sabia que poderia ser um processo extremamente doloroso, ter sua consciência invadida; sabia que seria sempre no mínimo desconfortável, mesmo que a outra pessoa tomasse cuidado. Não achava que Morzan tivesse qualquer interesse em tomar, e preferiu desviar o rosto — voltou-se para o caminho entre as árvores que levava aonde estavam, observando o movimento das folhas na brisa suave.

Notou os passos que se aproximavam pouco tempo depois, e apertou um pouco os lábios, cruzando os braços e ajeitando melhor sua postura. Alexis apareceu em seu campo de visão primeiro, mas com o rosto voltado para trás, dizendo algo em voz baixa, e era seguida de perto por seu irmão gêmeo. Aleifar parecia sério ao falar com a irmã e carregava algo nos braços, mas encontrou o ar de Selena com um quê de diversão nos olhos verdes, talvez até mesmo certo deboche.

Ela se limitou a cumprimentá-lo com um inclinar da cabeça, sem disposição para mais do que isso e torcendo para que fosse suficiente. Não achou que o Renegado parecesse particularmente impressionado.

“Já agradeceu a minha irmã por ter salvado sua vida?” Foi o que Aleifar perguntou, porém, seu tom enganosamente leve.

Selena franziu as sobrancelhas, prestes a responder, mas Alexis falou primeiro. “Tenho certeza que Selena teria sido capaz de se defender bastante bem sozinha,” disse apenas, e se abaixava junto ao tecido que cobria o pedaço de chão onde elas duas haviam estado sentadas mais cedo. Ela ergueu um pouco o rosto, encontrou o olhar de Selena. “Na última vez que Fäelan te atacou ele mandou quantos, dez? Certamente quinze não seriam um desafio tão grande.”

Selena lhe ofereceu um sorriso pequeno, só um pouco forçado. Havia sido cinco, apenas, embora a história houvesse crescido demasiadamente desde então, com mais versões do que ela era capaz de acompanhar — grande parte delas dizendo inclusive que haviam sido homens de Morzan que ela enfrentara, não do elfo, e que ela precisara lutar contra eles como um teste para entrar em seu serviço. Não tinha certeza se Morzan nunca havia contato a história real e completa aos gêmeos, se Alexis apenas não se lembrava direito, ou se estaria, talvez, dizendo um número falso de propósito.

Foi salva de responder por Morzan, que se pôs de pé ao seu lado em um movimento lento. “Selena teria sido capaz de lidar com eles sozinha, sim,” confirmou, soando mais seguro do que ela jamais conseguiria em seu lugar. Parecia já mais calmo. “Mas apreciamos a ajuda de toda forma.”

Alexis removeu os objetos sobre o tecido no chão, e então o ergueu e sacudiu uma vez, como se para tirar a sujeira. “Não há de quê,” respondeu, graciosa. Lançou um olhar um pouco mais reprovador a Morzan então, ao andar até a margem da lagoa pequena. “Embora você pudesse ter tentado ser um pouco mais gentil com Georgei. Terei de me esforçar um pouco mais para recuperar sua boa vontade, agora.”

Morzan não se impressionou. “Tem certeza que ele vale o esforço?”

Aleifar riu pelo nariz, quase como se concordasse, mas Alexis apenas sacudiu um pouco a cabeça. “Ele consegue ser uma companhia bastante agradável,” ela disse, apenas. Ergueu o tecido no ar, avaliativa, e ele escondia seu corpo de vista por inteiro. Parecendo satisfeita, Alexis murmurou algo na Língua Antiga, e, quando o soltou, o pano continuou flutuando no lugar. “É claro que sim.”

“Valendo o esforço ou não,” Aleifar se intrometeu, “não me pareceria justo Alexis perder seu amante só porque Fäelan queria matar a sua, Morzan, e ainda apenas para te provocar.” Ele se aproximou da irmã e lhe estendeu, por cima do tecido no ar, metade do que segurava nos braços; eram peças de roupa, Selena percebeu tardiamente, vestes para substituir as que Alexis havia sujado. “Aqui.”

Ela iria mesmo se trocar ali? Selena franziu um pouco a testa, e sacudiu a cabeça de leve para limpar a cabeça. “Tanto eu quanto Georgei continuamos vivos,” disse, e estava cansada também deles falando sobre ela como se ela não estivesse ali. “Então essa discussão não tem muito propósito. Ambas as tentativas de assassinato recentes de Fäelan falharam, o que ou sugere que ele é mais incompetente e menos perigoso do que pensamos de início, ou que seus propósitos eram outros.”

Aleifar se aproximava dela, e encolheu os ombros como se não se importasse, rindo de novo. “Como eu disse, o objetivo de Fäelan era provocar Morzan, e isso eu diria que ele conseguiu.” Ele olhou para Morzan um instante, e então de volta para Selena. “Aqui. Não vão servir, mas pelo menos não estão sujas de sangue.”

Ela ergueu um quase nada as sobrancelhas, em surpresa e estranhamento, e o Renegado revirou os olhos verdes.

“Alexis me pediu para trazer roupas limpas para ela, você, e Georgei. Nunca permita que digam que não sou um irmão dedicado.” Empurrou as vestes para os braços de Selena. “Não precisa me agradecer por isso tampouco.”

Selena as aceitou porque não tinha outra opção, e eram calças de um tom claro de bege e uma camisa branca bonita; ela as observou por um instante longo, sem saber bem o que fazer, porque por via de regra não usava calças — não gostava, de fato, nem mesmo da ideia de usar calças —, e também porque não tinha qualquer vontade de fazer como Alexis e erguer um pedaço de pano para se trocar no que ainda era um ambiente muito exposto.

Ergueu os olhos para Morzan, e o descobriu a observando de volta. Ele riu pelo nariz, então, quase como se achasse a situação um tanto absurda, e sacudiu a cabeça, mas já levando uma mão à capa vermelha pesada que usava para tirá-la e oferecê-la a ela também. O olhar que lhe lançou talvez fosse um pouco cúmplice, talvez um pouco divertido, mas trazia uma instrução clara.

Selena suspirou muito baixo, aceitando a capa e a erguendo no ar, como Alexis fizera antes, e serviria bem o bastante, supunha. Abaixou o olhar para as roupas em seus braços, torcendo o nariz um quase nada, e viu apenas pelo canto dos olhos Aleifar se agachar ao lado do mercenário que Alexis poupara, ainda mantido imóvel e silencioso por meio do feitiço de Morzan.

“Já conseguiu dele o que queria?” Aleifar perguntou, a voz baixa, seu tom estranho.

“Fique à vontade,” foi a resposta de Morzan, despreocupada e um tanto seca.

Aleifar fechou os olhos, se preparando ele mesmo para invadir a mente do homem, e, se antes Morzan não tomara cuidado para não lhe causar dor, ele talvez a quisesse infringir de propósito; algo de perigoso e perturbador em seus olhos verdes. Selena lhes deu as costas, preferindo não olhar, e se concentrou em trocar seu vestido pelas roupas emprestadas.