Shiver
42 Capítulo 42

Tão tarde na noite, os corredores da cidadela ficavam estranhamente vazios. As únicas pessoas à vista eram guardas posicionados estrategicamente ou fazendo rondas em duplas, e, além da ocasional cabeça abaixada em respeito, em sua maioria eles os ignoravam.
Selena havia entrelaçado os dedos nos de Morzan enquanto ele lhe contava sobre as notícias que Jaime trouxera — que os guardas haviam sido bem sucedidos em capturar outro dos bandidos, mais discretamente desta vez, e que o plano corria sem imprevistos — e ele não soltara sua mão ao puxá-la escada abaixo.
E, estranhamente, ela sentia menos horror em relação ao que estavam prestes a fazer do que teria sentido duas semanas antes. Se era o toque de Morzan a reconfortando, ou o fato de que ela já havia feito pior, ou até mesmo o quanto ela se descobria investida na missão e o conhecimento sempre presente de que aquelas não eram boas pessoas, ela não sabia.
Do lado de fora, a lua já se abaixava no céu, mas, quando eles saíram para os jardins, o ar não estava frio. As cores pareciam estranhamente pálidas, perdendo toda a sua intensidade sob a luz fraca e perolada, e Jaime já esperava por eles ao lado da entrada para os calabouços. O capitão da guarda de Morzan ainda parecia cansado, os cabelos castanhos só um pouco amassados, fazendo com que Selena refletisse, mais uma vez, sobre quão tarde estava.
Quase lhe perguntou se estivera mesmo dormindo, mas já sabia a resposta, e talvez soasse rude.
Morzan a parou antes do corredor, a virando para ele, brincando um uma mecha solta de seus cabelos castanhos. Ele estava tão bonito quanto sempre em seu gibão preto e dourado, as mangas de sua camisa vermelhas como sangue, os olhos díspares quase carinhosos. “Você sabe o que vamos fazer?”
Vamos, no plural, e Selena tomou conforto nisso. “Toda a parte de conseguir o juramento,” disse, hesitante. “É você quem vai fazer, certo?”
“Sim,” ele assentiu. “Mas quero que você tente, ao menos, invadir a mente do homem você mesma. Não deve ser difícil, e, mesmo que ele tenha algum treinamento, não espero que ofereça tanta resistência. Eles não costumam oferecer.”
Selena sorriu, um pouco a contragosto. “Bem, estive praticando com você. Ele não tem como ser melhor.” Ela levou uma mão ao colar de pérolas em seu pescoço, sentindo falta do pingente de rubi que Morzan lhe dera — com o feitiço que a ligaria a ele, e agora uma reserva de energia, também, para caso ela precisasse fazer um feitiço que exigisse mais. “Eu consigo.” Mudou o peso de perna. “Acha que o plano vai funcionar?”
“Eu imagino que sim.” Morzan pendeu a cabeça para o lado. “Quando estiver pronta.”
Ela cruzou os braços sobre a barriga, assentiu uma vez. Olhou para Jaime e se surpreendeu em ver alguma emoção em seus olhos verdes normalmente tão resguardados — desarmados pelo cansaço, talvez? Ele encontrou seu olhar, e Selena deu um passo rápido para trás, se afastando de Morzan. Alisou a saia de seu vestido, desconfortável, se perguntando se não se pareceria com uma princesa, tão fora de lugar nos calabouços.
“Eu estou,” garantiu. “Não quero demorar.”
Morzan apertou seu braço em um carinho reconfortante, passando por ela em direção ao corredor frio, e Selena o seguiu de perto. A porta da cela era de madeira, com uma janela pequena protegida por grossas barras de ferro, alta o bastante para que ela precisasse se erguer na ponta dos pés para espiar por ela. Os dois homens não tinham esse problema, ela sabia.
Dentro, o prisioneiro tinha os braços presos à parede por amarras firmes, mas estava sentado sobre uma cama dura, mais confortável do que o último. Selena ergueu o queixo, endurecendo o olhar, e era absurdo que sentisse a vontade de cumprimentá-lo como a uma pessoa normal. Mas Morzan estava lá, e preparado para falar.
Ele pendeu a cabeça para o lado, se aproximando devagar, um predador para sua presa. Não se importava com o homem, não tinha como se importar, mas a curiosidade em seus olhos díspares era quase tenra. Morzan ergueu o rosto do prisioneiro com um dedo sob o queixo, o forçando a encará-lo, e havia algo muito íntimo no gesto.
Não tanto no olhar que recebeu de volta. Em Belatona, quando Selena o vira questionar um agente dos Varden pela primeira vez, Morzan fora recebido com ódio profundo, e, quando ela mesma o fizera, seu prisioneiro a recebera com medo. Esse tinha cabelos loiros sujos rebeldes, apenas determinação nos olhos castanhos.
Em outro momento, Selena talvez o houvesse achado bonito. Seu nariz poderia já ter sido muito reto, mas já havia sido quebrado ao menos uma vez, seus lábios eram cheios e orgulhosos, sua pele feita áspera por um começo de barba. Ele tinha músculos discretos sobre a camisa velha, e havia algo de muito mundano em sua aparência, muito distante da beleza impecável dos Treze Servos. E ele era, é claro, um bandido e ladrão. Selena se perguntava se talvez não seria mais.
“Lorde Morzan, não é?” O homem perguntou, desdém em suas palavras. “Não pensei que fosse vê-lo. Cansou de ver sua mulher falhar em nos encontrar?”
Morzan sorriu. “E quem disse que não foi ela que o encontrou?”
Não fora; embora o plano fosse originalmente ideia de Selena, Morzan o melhorara e vinha o acompanhando de perto, e haviam sido os guardas a capturar o prisioneiro. Os olhos castanhos do homem encontraram os dela. “Não suponho que ela tenha um nome?”
Falava como se ela nem mesmo estivesse ali. “Não para você, não,” Selena devolveu, irritada.
Morzan não se perturbou. “As pessoas normalmente têm,” disse. “Qual é o seu?”
“Você não me trouxe aqui para saber meu nome.”
“Não?” Ele sorriu. Estendeu um braço para Selena, a chamando para perto, e apoiou a mão na base de sua coluna. Tomando conforto em seu toque, ela estudou o rosto do prisioneiro, procurando por qualquer sinal de receio em seus olhos. Imaginou ter encontrado. “Contato físico pode ajudar,” Morzan a lembrou, a voz macia baixa.
Ela assentiu. Não queria tocar o homem, não de verdade, mas sabia bem como Morzan tratava inimigos capturados, cruel e ao mesmo tempo quase gentil. Precisava ser assim também, ou tão próximo quanto conseguisse. Selena ergueu uma mão para afastar os cabelos loiros da testa do estranho, e ele tinha a pele clara quente e úmida de suor, desconfortável contra seus dedos.
Encarou os olhos castanhos imaginando se a cor não seria próxima dos seus próprios, e respirou fundo uma vez ao erguer outra mão para tocar a têmpora do homem. Naquele momento, esqueceu a mão de Morzan em suas costas, Jaime parado em algum lugar na cela, o peso das pérolas em seu cabelo e o lugar onde estava; era como se o mundo desaparecesse, e, estando prestes a fazer o que faria, talvez fizesse sentido que todos os outros deixassem de existir.
Selena fechou os olhos, e o primeiro contato com a mente estranha foi quase um choque. Ela estava acostumada a praticar com Morzan, e apenas Morzan, e não conseguira se preparar inteiramente para o contato com outra pessoa, para a lembrança de que o homem com que estava lidando era muito real. Não pôde passar daquele primeiro toque, no entanto; seus pensamentos estavam protegidos por barreiras fortes, erguidas com a facilidade de quem tinha ao menos algum treinamento.
E, ainda assim, ela tinha vantagem. Por mais que fosse verdade que tivera uma noite movimentada, que tinha muito em sua mente, que o momento não lhe era o mais confortável, Selena não precisava enfrentar o desconforto de uma cela, a incerteza sobre seu futuro, o medo do que aconteceria a seguir. Ela pressionou, com ímpeto, sua consciência contra a do homem, sabendo que a mera força do contato seria inquietante, uma distração insistente de que ele não poderia escapar.
Sentiu a primeira falha instantes depois, mesmo que para ela parecessem dias, o murmúrio de um pensamento disperso, e então lampejos de tudo o que o homem era — o sorriso de sua mulher, uma espada sendo afiada, o sol se pondo de onde ele o via pela janela de sua casa, o gosto forte de vinho, lágrimas nos olhos de seus filhos.
Ele resistiu ainda um pouco, tentando também se lançar contra ela e se apossar de sua consciência, mas Selena descobria que, embora Morzan tivesse interesse demasiado em incentivá-la a afiar suas habilidades, o homem fora treinado quase desleixadamente. Ela tomou o controle de sue mente sem maiores dificuldades, se perdendo por breves momentos em suas memórias antes de deixá-lo relaxar e dar um passo para trás.
Abriu os olhos para encontrar Morzan a observando com satisfação, talvez até mesmo orgulho e um quê de admiração, um sorriso já se formando em seus lábios cheios.
“Não acho que ele saiba nada,” Selena lhe disse, porque tinha que ter tirado algo de sua inspeção, ao menos. Se recusava a permitir que suas ações fossem em vão, procurando por propósito no que deveria ser apenas prática. “Mas deve servir para o que precisamos.”
“Tenho certeza,” Morzan respondeu, uma mão ainda na base de sua coluna. Ele se aproximou para beijar o topo de sua cabeça, e o breve roçar de seus lábios foi um elogio silencioso.
Selena se afastou para abrir caminho para ele, e desta vez o prisioneiro não conseguiu evitar que seu medo transparecesse. Morzan ergueu seu rosto em um movimento gracioso, mas não exatamente cuidadoso, os dedos longos segurando seu queixo com firmeza. Ele tinha os olhos díspares semicerrados, os lábios levemente entreabertos, e havia uma intimidade tão grande — tão frágil — ali que Selena mudou o peso de perna, desconfortável e sem saber bem o que era que estava sentindo.
Desviou o olhar, cruzando também os braços. Percebeu que Jaime a observava, mas manteve a atenção treinada no chão frio até Morzan se mover. Ele deixou que sua mão caísse, soltando o homem, e pendeu a cabeça para trás, soltando o ar devagar.
Era claro que estava pensando, fazendo a parte do trabalho que Selena não saberia fazer, e por isso ela esperou tão pacientemente quando pôde, se adiantando para segurar sua mão. Ele correu o polegar sobre seus dedos em uma carícia macia, mas demorou ainda um instante para lhe dizer qualquer coisa.
Finalmente, deixou escapar um suspiro. “Vou demorar um pouco,” disse, e ergueu o rosto para ela. “Você deveria ir. Tente descansar um pouco.”
Selena hesitou, mordendo o interior da bochecha. “Eu não deveria ficar? Ver isto?”
“Não, não acho que seja necessário.” Morzan negou com a cabeça. “Podemos conversar sobre os detalhes amanhã. Está tarde.”
“Acha que tudo vai dar certo?”
Ele sorriu. “Sim. Você teve a ideia certa.” Morzan lançou um olhar distraído para o prisioneiro. “Vou descobrir seu nome verdadeiro, fazê-lo jurar o que for preciso na Língua Antiga, e então o soltaremos de volta para a cidade, nosso próprio espião.”
“E ele nos levará direto ao seu líder,” Selena concluiu. E, se não ao líder, a qualquer que fosse a conexão entre os bandidos e a pessoa que vinha arquitetando os ataques. Ela não podia evitar sorrir também, e os olhos de Morzan brilhavam. “E então o capturaremos.”
“E então o capturaremos,” ele repetiu, divertido pela reação de Selena.
Ela sabia que talvez estivesse se precipitando, que ainda não conseguira de fato concluir missão alguma, mas sentia o sucesso tão próximo, e era maravilhoso, fazia tudo ter valido a pena. Seus calcanhares deixaram o chão quando Selena passou os braços ao redor do pescoço de Morzan, e ela podia sentir o curvar de seus lábios quando o beijou.
Fale com o autor