Shiver

29 Capítulo 29


Notas iniciais
Here I am again!! Boa leitura, pessoinhas!

Eles chegaram ao castelo pelo ar, depois de uma noite voando sobre o Lago Leona, com o sol nascente a suas costas iluminando a paisagem. A Espinha se erguia diante deles, montanhas altas e cobertas por uma floresta impenetrável que faziam com que Selena se lembrasse do Vale Palancar, e, entre elas e a água, o castelo. Protegida por muralhas de pedras claras e enormes portões de ferro, a propriedade de Morzan contava jardins de rosas, caminhos de pedrinhas, e um riacho cristalino que passava por debaixo dos muros para desaguar no lago. Não havia muitas pessoas vivendo nos campos ao redor – apenas um punhado de agricultores e pastores – e as poucas embarcações atracadas nas margens do Lago Leona eram o único canal de acesso ao resto do Império.

O castelo em si era uma estrutura feita do mesmo material claro das muralhas, e se erguia alto para o céu. O dragão de Morzan desceu em largos círculos em volta dele, permitindo que Selena o observasse de todos os ângulos, antes de finalmente pousar no grande pátio diante das portas de entrada. Alguns dos guardas que treinavam, um pouco distantes, pararam para observar, mas apenas dois homens se aproximaram para cumprimentar seu senhor.

Um deles tinha talvez cinquenta anos, longos cabelos trançados, e a pele de um tom escuro muito bonito – como Selena só vira uma vez antes, em um dos mercadores em Carvahall – e usava uma túnica vermelha sobre a cota de malha e uma espada na cintura. O outro parecia cerca de vinte anos mais novo, com cabelos castanhos claros e vestes azuis que realçavam seus olhos. Ambos esperaram pacientemente enquanto Morzan ajudava Selena a descer do dragão e escorregava para o chão ao lado dela, as cabeças inclinadas em um cumprimento respeitoso.

“Lorde Morzan,” o mais jovem disse, muito calmo. “Seja bem-vindo de volta. Teve uma viagem proveitosa, eu espero?”

“Obrigado, Damien.” Morzan passou um braço pela cintura de Selena, a trazendo mais para perto de si. “Foi bastante proveitosa, embora talvez longa demais. Estou feliz em estar de volta.”

“Estamos felizes em tê-lo aqui, meu senhor.” Damien sorriu. “Mas não por muito tempo, suponho?”

“Não, só ficarei aqui por uma noite ou duas. Preciso voltar para Urû’baen.” Morzan se voltou para ela. “Selena, este é Damien. Ele é administrador de minha propriedade, e teve o cuidado de separar bons aposentos para você.”

“Com certeza, minha senhora. Aposentos, roupas, e até mesmo uma criada.” Ele se voltou para Morzan. “Eu escolhi Mira para o trabalho, meu senhor, mas se achar que ela é muito velha, posso encontrar outra pessoa.”

“Mira será suficiente.” Morzan dispensou suas preocupações com um aceno da mão. “E este, Sel, é Adedayo, capitão de minha guarda aqui.”

O homem mais velho inclinou a cabeça. “É um prazer, minha senhora.”

Selena sorriu para ele. “Tenho certeza que sim.”

“Adedayo capturou um espião dos Varden alguns anos atrás,” Morzan lhe contou, seus cabelos escuros se movendo com a brisa suave. “Minha guarda tem sido muito eficiente sob seu comando.”

“Eles estão sempre tentando se esgueirar para dentro, mas até agora nenhum conseguiu.” Adedayo confirmou. “Mas as coisas estão calmas já há algum tempo.”

“Não há nada para relatar, então?” Morzan perguntou, puxando Selena consigo na direção do castelo.

“Apenas algumas adições oficiais à guarda que precisam de sua aprovação, meu senhor.” O capitão da guarda fechou as mãos atrás das costas ao falar, andando ao lado deles.

“Mesmo?” Ele sorriu. “Finalmente decidiu fazer uso de nossos melhores talentos?”

“Julguei que já era hora.”

“Sim, creio que sim,” Morzan concordou. “Ele já tem idade suficiente, e é bastante promissor. O mantenha perto de si, sim?”

“Sim, meu senhor.”

“Bom. Estão dispensados.” Ele entrelaçou os dedos nos de Selena. “Damien, mande alguém trazer comida para nós. Selena e eu temos muito o que conversar.”

E realmente tinham, por mais que Selena esperasse que não fosse tanto assim. Ela permitiu que Morzan a guiasse pela escada de pedras que levava às grandes portas de madeira, e não escondeu seu interesse ao examinar o saguão de entrada do castelo. Grandes tapeçarias vermelhas cobriam as paredes laterais, os detalhes dourados refletindo a luz das velas, e, à frente, um par de escadarias levava ao andar acima. Entre elas, ainda outro portal, alto e elegante.

“Para onde vamos?” ela perguntou.

“Vamos subir,” Morzan respondeu, mas estendeu uma mão na direção do outro cômodo ao passar por ele. “É o salão de festas, que liga também ao salão de jantar e ao de jogos. Nesse piso também fica o estúdio onde recebo outros nobres para tratar de assuntos sérios. São todos principalmente para aparências, e tudo que é mais interessante fica mais para cima.”

“Uma biblioteca?” Selena perguntou, incapaz de se conter.

Ele sorriu, apenas um erguer de um dos cantos de seus lábios, como se houvesse algo em sua pergunta tão franca que o agradasse em demasiado. “Sim, mas você vai precisar esperar antes de explorá-la.”

“Estou mesmo mais ansiosa por respostas,” ela concordou facilmente. “Mas sabe que nunca tive contato com muitos livros; só os mesmos de Therinsford, e então o que Eron me deu. Sempre amei ler, no entanto, e me perder em histórias.”

“São esses seus preferidos? Livros de histórias?”

“Ou que pelo menos falem de acontecimentos importantes, ou pessoas.” Selena pendeu a cabeça para o lado ao segui-lo por um corredor de pedras. “Você prefere outros?”

“Gosto de aprender algo útil quando leio,” ele respondeu simplesmente. “E suas letras? Quão bem você escreve?”

“Eu...” Ela engoliu em seco. “Nunca tive muita oportunidade para praticar.”

Morzan assentiu como se já esperasse por aquela resposta, a guiando por mais escadas, por outros corredores. “Vou garantir que tenha agora.”

Ele parou diante de portas de madeira, e elas deslizaram para trás sem fazer qualquer barulho quando ele as abriu. Selena entrou pela primeira vez em aposentos que eram realmente de Morzan, e examinou cada detalhe com atenção; os armários em cada lado da porta, cada um da altura de sua cintura, em cima dos quais ele poderia apoiar objetos; a mesa baixa cercada por dois sofás muito elegantes; a lareira, agora apagada; e, encostada na parede ao fundo, a cama com dossel, com cobertores muito macios e muito vermelhos. As janelas tinham vista para os jardins de seu castelo, e, atrás das muralhas, o Lago Leona.

Ela não pediu sua permissão para se aproximar da mesa de cabeceira e erguer o livro que descansava sobre ela. “A História e os Segredos da Magia,” leu o título. O abriu, cheia de expectativa, mas não havia ilustração alguma a ser apreciada, apenas páginas e páginas de palavras.

“Volume cinco,” Morzan completou. “Sobre transformação e manipulação daquilo que ainda é vivo.”

“Acha que eu poderia aprender magia com um livro assim?”

Ele riu. “Provavelmente só serviria para te confundir. Não são livros para iniciantes.” Ele se sentou em um dos sofás, apoiando o tornozelo sobre o joelho da outra perna. “Eu te devo algumas respostas, sim? E existem algumas coisas que quero te contar, também, antes de irmos para a corte.”

Selena abandonou o livro de volta onde o achara, e se aproximou dele, quase hesitante, para se sentar ao seu lado. “Eu estive pensando sobre isso, e realmente não encontrei uma resposta,” admitiu. “Alguém que eu já conheça, e que tenha me dado motivos para acreditar que já esteve em sua cama. É estranho, porque acho que estive sim em uma posição apta a desconfiar desse tipo de coisa, mesmo que apenas por ciúmes.”

O sorriso de Morzan foi quase gentil. “Nesse caso, acho que é alguém de quem você não desconfiaria sem um motivo bastante explícito, e que tinha a preocupação de não deixar muito transparecer.” Ele enroscou os dedos nos de Selena. “Existe alguém de quem você já suspeite?”

É claro. “Só Alexis, mas nunca a conheci.”

Ele assentiu lentamente. “A Senhora Alexis dos Treze Servos,” disse, como se experimentasse o gosto de seu nome. E então, “Sim, você tem razão.”

Selena engoliu em seco. “Ela é linda.”

“O que tem te incomodado sempre que pensa no assunto, não é? Alexis e eu nos conhecemos há muito tempo, Sel, desde que éramos crianças treinando com os Cavaleiros. Nós já dormimos juntos mais de uma vez, e já chegamos a fazer disso um hábito, mas minha relação com ela nunca, nunca foi nem mesmo similar a que eu e você temos. Você poderia dizer que Alexis e eu somos amigos, de certa forma. Não mais, e talvez menos.”

Talvez menos. Selena se prendeu àquelas duas palavras com todas as suas forças. “Não mais,” repetiu, no entanto. “Mesmo?”

“Mesmo,” ele confirmou. “Você tem minha palavra.”

“Mas você já teve relações parecidas com a que tem comigo?”

Morzan assentiu. “A última,” ele disse, calmo, e estudando seu rosto com muita atenção, “acabou há cerca de dez anos.”

Era pior, Selena pensou, se fora alguém por quem ele sentira até mesmo um pouco de afeto. Muito pior, de fato, do que apenas alguém com quem ele dormira; e talvez por isso mesmo Morzan houvesse demorado tanto a lhe contar. “Quem?”

Quando ele falou, falou em voz baixa, mas o nome em seus lábios veio sem qualquer resquício de emoção. “Jaime.”

Impossível, ela quis dizer, mas pensava em tudo o que vira de Jaime nas últimas semanas, e sabia que não. Que aquilo era errado lhe passou pela cabeça, e Selena afastou o pensamento. Vira muitas coisas erradas recentemente, e, por mais que inesperada, essa não era uma delas. O que fora, mesmo, que Jaime lhe dissera em Feinster? Em seu lugar, eu aceitaria de bom grado, ela se lembrou.

“Oh,” Selena disse, entendendo. “Mas, Morzan...”

“Você vai ter que acreditar em mim,” ele disse, “quando eu lhe digo que isso não é errado.”

Ela sacudiu a cabeça. “Não, eu... Não era sobre isso que ia perguntar.” Precisou de um momento para achar as palavras certas. “Jaime. Ele ainda sente algo por você?”

“Sim.” Foi uma resposta sincera, ela percebeu, e fácil.

“Então... ” Ela hesitou. “Ele precisou nos ver juntos esse tempo todo.”

Morzan ergueu uma sobrancelha. “Você está preocupada com ele,” disse, descrente. “Como?”

“Não sou eu quem mais sofre com isso, sou? Faz sentido, agora, que ele não me quisesse por perto.” Selena mordeu o interior da bochecha. “É incrível que ele não me odeie.”

“Jaime não tem tanta facilidade em odiar pessoas,” Morzan respondeu, calmo. “E ele está ciente de seus deveres; sabe que o que aconteceu entre nós e seu posto como capitão da minha guarda são coisas separadas. Isso é algo em que ele sempre insistiu, na verdade.”

“Mas é quase cruel, não é? Nós estarmos tão obviamente juntos, e ele ter que assistir.”

“Jaime não esteve nos assistindo, Selena.” Ele sorriu um pouco. “É... interessante, que essa seja sua reação. Se aceitar meu conselho, recomendo que converse com Jaime sobre isso, quando chegarmos a Urû’baen. Pode tornar as coisas mais claras, no que diz respeito a ele.”

“Eu posso? Falar com ele sobre isso?”

“E por que não?”

Talvez não houvesse motivo, desde que ela tomasse cuidado com suas palavras. “Vou procurar por ele, então.”

“E até lá, tente de abster de julgar.”

“Eu não o julgaria,” Selena protestou. Talvez até mesmo o admirasse mais, percebeu, embora os sentimentos dentro de si ainda fossem muitos e confusos. “Eu também me apaixonei por você, não é?”

Morzan riu baixo. “Me julgar, Sel.”

“Ah.” E então, “Nunca.”

“Isso é bom.”

“E você...” ela hesitou. “Você não sente nada por Jaime?”

“Nada assim,” Morzan prometeu, e ela sorriu.

Notas finais
Acho que a essa altura todo mundo já sabia, não? Espero que tenham gostado ♥