Shiver
30 Capítulo 30
Notas iniciais

Uma pequena parte de Selena tinha consciência de que aquela biblioteca não seria a maior que veria em sua vida – não quando logo estaria vivendo no palácio em Urû’baen –, mas, ao seguir Morzan pelas grandes portas de madeira, não pode evitar se maravilhar. Havia muito pouco das pedras claras que compunham o castelo a vista; as paredes eram cobertas por estantes e estantes repletas de livros, e uma plataforma de madeira escura polida dava alcance a ainda um segundo andar, onde as prateleiras se alternavam com janelas antas que permitiam a entrada da luz do sol. O chão era forrado por um tapete vermelho como o vinho, e uma comprida mesa de madeira se estendia pelo cômodo, decorada por bustos e pequenas estátuas de mármore a intervalos regulares. Ela nunca vira algo tão belo em toda a sua vida.
“Os livros sobre mitos, lendas e histórias estão lá em cima,” Morzan disse, encostando uma mão na base de sua coluna. “Quer vê-los?”
Selena assentiu, por um instante incapaz de encontrar sua voz. Ele a guiou na direção de uma escada circular de madeira elegante, porém um tanto íngreme, e murmurou uma palavra de aviso ao permitir que ela subisse na sua frente.
“Há algo que preciso te contar,” Morzan confessou. Ele parou diante de uma estante e correu os dedos pelos livros antes de puxar um deles, de capa de couro e o título em letras douradas. “Algumas coisas que precisa saber, antes de ir para a corte.”
“Sobre os nobres?” Selena perguntou. “Ou o rei?”
Ele não respondeu de imediato, ainda a guiando sobre a plataforma, passando por um mapa da Alagaësia pendurado na parede, e finalmente indicando uma estante com o queixo. “Aqui. São em sua maior parte livros sobre humanos, mas há alguns sobre elfos e anões também.”
Selena franziu um pouco as sobrancelhas ao observá-lo, sentindo algo de errado, mas Morzan devolveu seu olhar com a mesma tranquilidade de sempre. Com um suspiro, ela se voltou para os livros, examinando títulos e os tocando com as pontas dos dedos, e não olhou para ele ao perguntar, em uma voz muito baixa, “Ou o que quer me contar é sobre você mesmo?”
“Sobre os Treze,” ele respondeu. “Nossos dragões, na verdade.”
Ela lhe lançou um olhar questionador, mas Morzan fitava o pátio pela janela a seu lado, os olhos quase pensativos. Ele pressionava os lábios, no entanto, e seus dedos estavam esbranquiçados devido à força com que segurava o livro em suas mãos. Selena seguiu seu olhar para ver um jovem de quinze, talvez dezesseis anos, treinando contra outros três espadachins e se movendo com mais graça e habilidade do que Selena já vira em qualquer um além do próprio Morzan. Não poderia ser ele que o incomodava.
“Morzan?” ela perguntou, hesitante.
Seus olhos díspares encontraram os dela. “Durante a Queda dos Cavaleiros,” ele disse, “quando os outros dragões perceberam o que estávamos fazendo, ficaram furiosos.”
Ele pausou, como se esperasse por algum tipo de protesto; que ela afirmasse que o que eles fizeram fora perseguir e matar meticulosamente outros dragões e destruir os Cavaleiros, que Galbatorix e os Renegados se voltaram contra todos os reinos e instituições vigentes, que destruíram centenas de vidas, tudo em busca de poder. Selena engoliu em seco, e esperou.
“Tão furiosos,” Morzan continuou, e ele parecia ter de se esforçar para dizer as palavras, “que se juntaram em busca de vingança contra os treze de sua própria raça, os treze que os traíram. Juntos, eles lançaram um encantamento.”
Selena cruzou os braços sobre a barriga, mordendo o interior da bochecha. “Um encantamento?” repetiu.
“Dragões não são como humanos, elfos, ou anões. Eles só podem usar magia quando supridos por inspiração, e não fazem uso da Língua Antiga para isso. São capazes, no entanto, de coisas mais assombrosas e complexas do que qualquer outro ser.” Morzan sorriu um pouco, sem qualquer humor, e balançou a cabeça. “O que eles fizeram, então, foi destruir os nomes de nossos dragões.”
Ela sabia, apenas pelo modo como ele contava a história, pela emoção mal contida em sua voz, que aquilo era algo horrível. Mas Selena não entendeu como aquilo era possível, como funcionaria, e nem mesmo sua real dimensão. “Como assim?” se forçou a perguntar.
“Eles apagaram seus nomes – nessa língua, e seus nomes verdadeiros na Língua Antiga – e você sabe que são nossos nomes que fazem de nós o que somos. Com esse feitiço, a intenção dos outros dragões era destruir os nossos treze, reduzi-los a... a animais comuns e ignorantes, sem qualquer resquício de personalidade ou sentimentos ou inteligência. Não foi exatamente o que aconteceu.” Ela nunca vira Morzan assim antes; sua fala repleta de pesar e raiva e desgosto. “Nossos dragões, como os conhecíamos, estão perdidos, mas suas mentes sabem o que perderam. Estão fadados a uma eternidade de vazio, de busca incessante, e de um anseio desesperado pelo que uma vez foram.”
Selena levou uma mão ao colar em seu pescoço, mas não ousou dizer uma única palavra, não arriscou o interromper. Aquele lado de Morzan lhe parecia tão humano, tão vulnerável, como se qualquer coisa o pudesse quebrar... Ou provocar uma reação muito, muito pior.
“Você sabe...” Morzan deixou escapar uma risada seca. “Eu não os odiava antes disso. Nós estávamos lutando contra os Cavaleiros, mas era por um propósito, e não tinha relação alguma com emoções e sentimentos. Não contra eles, não para mim. E então eles tomaram de mim o que eu tinha de mais precioso.”
“Você os odeia agora.”
“A cada dia que passa, os odeio mais.” Ele sorriu, um erguer de um canto dos lábios que era mais um esgar. “Nós não poderíamos os perdoar pelo que fizeram a nós, e eles nunca nos perdoariam pelo que fizemos a eles. Você vê o problema aí, tenho certeza.”
“Sim,” Selena conseguiu dizer.
“No fim, o preço que eles pagaram foi maior.” Morzan deixou escapar um suspiro, e pendeu a cabeça para o lado. “Você vê, então, Selena, que quando me perguntou e eu te disse que meu dragão não tem um nome, a verdade é que ele já teve, e o perdeu.”
Ela engoliu em seco. “Eu não fazia ideia.”
“Eu sei.” O sorriso que ele lhe ofereceu foi mais suave desta vez. “Você vai precisar tomar cuidado com suas palavras perto do resto dos Treze; não são todos que perdoariam um deslize assim tão facilmente.”
“Eu vou,” ela disse. “Eu prometo.”
Morzan assentiu. “Bom.”
Ele tinha lágrimas nos olhos, Selena percebeu, só de falar sobre o assunto, e apesar de claramente lutar contra suas emoções. Ela hesitou apenas um instante antes de dar um pequeno passo para frente, e mais um, e arriscou passar os braços por seu pescoço em um abraço.
“Não sei o que dizer,” admitiu em uma voz abafada contra seu pescoço.
Morzan demorou ainda um instante para reagir, mas finalmente ergueu a mão livre para tocar as costas de Selena, e respondeu, “Não há nada a ser dito.”
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