Shiver
11 Capítulo 11
Notas iniciais

Bullridge era uma mancha escura no horizonte, pintada em tons dourados pelo sol poente. Depois de cavalgar o dia inteiro, tudo o que Selena queria era se perder ao meio de cobertores macios, a cabeça no peito de Morzan e fogo ardendo na lareira. Se mexeu na sela, deixando escapar um suspiro.
Ao lado dela, Morzan riu. “Você se acostuma,” disse, quase como se lesse seus pensamentos. “E não devemos demorar muito mais que uma hora para chegar agora.”
Selena lhe lançou um meio sorriso. “Não estou reclamando. Trabalhar na fazenda é muitas vezes pior.”
Ele sorriu de volta. “Fico feliz que isso esteja no seu passado, então.”
Ela assentiu, e estava prestes a responder quando Jaime aproximou seu cavalo. Ele estivera mais para trás, falando baixo com Adam e Neil, e até o momento só dirigira a palavra a Morzan quando fora chamado. Seus olhos verdes muito claros encontraram o olhar de Selena por um instante, e ele inclinou a cabeça em um cumprimento curto antes de se voltar para Morzan. “Meu senhor, precisamos conversar.”
Selena desviou o olhar, engolindo em seco, e não viu o rosto de Morzan quando ele perguntou, “A sós?”
“De preferência.” A voz de Jaime não traíra emoção alguma, e mesmo assim Selena mordeu o interior da bochecha, inquieta.
Ergueu os olhos quando Morzan chamou seu nome. “Selena,” ele disse, e sorriu, “diga a Adam que eu o mandei mantê-la entretida.”
Ela hesitou por um instante antes de concordar com a cabeça uma vez. “Certo,” murmurou, e se permitiu ficar para trás.
Adam a alcançou em questão de segundos, e, sem que ela precisasse realmente lhe dizer qualquer coisa, perguntou, “O Império está atendendo às suas expectativas?”
Ela sorriu. “É melhor do que eu esperava, na verdade.”
“Mesmo?” Ele ergueu uma sobrancelha escura. “E você ainda nem viu as melhores partes. Bullridge,” e ergueu uma mão na direção do horizonte, “é só uma vila, e Gil’ead é grande, admito, mas também só impressiona por isso. E se você gostar de ver soldados marchando pelas ruas, suponho. Eu nunca gostei–”
Selena franziu a testa, rindo um pouco. “Por que não?”
“Más memórias de infância, provavelmente. Eles me passam a impressão que estou fazendo algo de errado.”
“Mas você faz parte da guarda de Morzan.”
Ele assentiu. “E agora sempre me comporto. Já fui diferente.”
“De onde você é?” Selena perguntou.
“Dras-Leona. Também não é uma das cidades mais bonitas.” Adam hesitou, então deixou escapar um suspiro resignado. “Não a parte onde nasci, pelo menos. Mas é um lugar... interessante.”
“Isso já é alguma coisa,” Selena replicou. “Carvahall é...”
“Um vilarejo encantador,” Adam supriu. “Talvez não um onde eu gostaria de viver minha vida, mas não tenho reclamações sobre o tempo que passei lá.”
“Morzan disse que nosso vinho é ruim.”
Adam riu alto, e Selena reparou em como tanto Morzan quando Jaime lhes lançaram um olhar rápido antes de voltarem a conversar em voz baixa. “Lorde Morzan tem gostos sofisticados. E duvido que ele já tenha provado das coisas que meu pai costumava beber. Mas eu estava te contando sobre as partes do Império que realmente merecem ser vistas.”
Selena mordeu o lábio. “E Dras-Leona não é uma delas?”
“Depende muito, acho. Se você tiver certo apreço pelo macabro, talvez, mas nunca senti falta do lugar. Gosto mais de Urû’baen.”
“Suponho que seja difícil fazer melhor que os charmes da corte.”
“É mais que isso. A cidade inteira é maravilhosa, e é triste que essa nossa viagem não vá passar por lá, mas iremos a outros lugares. Teirm, por exemplo, é um dos lugares mais bonitos por onde já passei, e é para onde vamos depois de Bullridge. Também gosto muito de Feinster e Aroughs.”
“Todas no litoral,” Selena comentou.
“O que você logo vai compreender.”
Ela assentiu, quieta, e olhou para onde Jaime e Morzan conversavam. Sentia-se mais confortável ao estudar Jaime pelas costas, mesmo que apenas por não correr o risco de encontrar seu olhar. De longe, era quase impossível reparar que havia fios grisalhos entre seus cabelos castanhos, e ele se sentava sobre a sela com a postura perfeita. Parecia ser estar em tão boa forma quanto o próprio Morzan, e, àquela distância, Selena não desconfiaria que Jaime na verdade parecesse ser dez anos mais velho.
“Ele não gosta de mim,” disse baixinho.
Adam franziu as sobrancelhas. “Quem?”
“Jaime.”
“Não significa nada que ele tenha pedido para falar com Lorde Morzan em particular,” Adam garantiu. “Eles fazem isso conosco também.”
“Não é isso,” Selena insistiu. “Ele mal falou comigo desde que vocês chegaram a Gil’ead, e já havia deixado claro que desaprovava da minha presença antes. E tudo bem, acho; ele não precisa gostar de mim. Mas eu gostaria de saber por quê.”
Adam hesitou. “Você perguntou a Lorde Morzan?”
“Em Carvahall. Ele disse que Jaime tem seus motivos.”
“Não posso lhe dizer também, então, e... Bem, duvido que sejam os motivos que você pensa.” Adam abaixou os olhos. “A meu ver, existem duas coisas que você pode fazer. A primeira seria tentar perguntar a Lorde Morzan outra vez, é claro, mas não acho que isso ajudaria muito. A segunda seria falar com o próprio Jaime.”
“Não posso simplesmente falar com ele sobre isso!” Selena protestou. “Ele...”
“Provavelmente não vai te contar, é verdade, mas talvez passe a te respeitar mais. Ele não tem te tratado mal, tem?”
“Não,” Selena admitiu. “Jaime é perfeitamente educado.”
“Viu? Honestamente, o problema dele com você não é pessoal.”
Selena assentiu lentamente. “Eu imaginei. Como capitão da guarda de Morzan imagino que ele precise ter certas preocupações, e tenho certeza que são válidas, mas...” Parou de falar ao ver as sobrancelhas franzidas de Adam. “O quê?”
Ele piscou. “Nada. Mas?”
“Mas me passa a impressão que sou um incômodo. Que estou atrapalhando vocês ou algo do tipo.”
“Não está,” Adam lhe assegurou. “Recomendo que converse com Lorde Morzan se realmente se sente insegura sobre isso, mas a verdade é que não importa realmente o que Jaime pensa sobre você; se ele gosta, ou desgosta, ou mesmo se é indiferente. Você está aqui por um motivo, e apenas um motivo: porque Lorde Morzan gosta de você. Isso é tudo com que precisa se preocupar.”
Selena deixou escapar um suspiro, olhando para onde Morzan cavalgava, alguns metros a frente. Estudou seus cabelos escuros, sua túnica vermelha com detalhes dourados, a espada em sua cintura, e se perguntou se Adam estaria certo. “Você tem razão,” disse baixinho, e lhe ofereceu um meio sorriso.
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