Shiver
12 Capítulo 12
Notas iniciais

Selena se inclinou contra o balcão, brincando com o caneco de cerveja, e arriscou um olhar na direção do fundo da estalagem. Morzan estava sentado sozinho, vestindo roupas cinzentas simples e discretas, e ainda assim havia algo sobre ele que era desconcertante. Ele sorriu para ela.
“Pare de olhar,” Jaime a repreendeu, a voz muito baixa.
Selena deixou escapar um suspirou e se voltou para ele. Jaime estava usando uma túnica verde que realçava seus olhos claros, e, entre isso e os cabelos um tanto rebeldes, ela tinha que admitir que ele estava surpreendentemente atraente.
“Estou nervosa.”
“E está aparentando.”
Selena franziu o nariz. “Você não está ajudando.” No que Jaime não se deu ao trabalho de responder, ela insistiu, “Não vamos convencer ninguém que estamos juntos se só sentarmos em silêncio.”
“Não estamos fingindo estar juntos,” e Jaime fez a ideia soar tão absurda que Selena ergueu uma sobrancelha, ofendida.
“Não que isso fosse funcionar, é claro,” replicou. “Você é velho demais pra mim.”
Ele lhe lançou um olhar irritado e bebeu um gole da própria bebida, sacudindo a cabeça em desaprovação. Observando suas sobrancelhas castanhas ligeiramente franzidas, Selena sentiu uma pontada de culpa.
“Desculpe,” disse baixinho. “Não quis dizer assim.”
Para sua surpresa, ele riu. “Sei que não.” Quando Jaime voltou os olhos verdes para ela, parecia apenas pensativo. “Faz ideia de quantos anos Lorde Morzan tem?”
“Sei quanto ele aparenta ter,” Selena respondeu, encolhendo os ombros. “E sei que ele é mais velho que você. Por quê?”
“Ele é mais velho que eu,” Jaime ecoou, simplesmente. “Quão mais velho, exatamente, eu não saberia te dizer.”
“Não?”
“Nunca perguntei.” Ele desviou os olhos. “Se alguém te perguntar, pode dizer que é minha sobrinha.”
Selena sorriu. “Sim, senhor,” respondeu de prontidão, e recebeu um revirar de olhos como recompensa. “Não acha que realmente deveríamos estar conversando, no entanto? Não seria mais realista?”
Jaime deixou escapar um suspiro. “Sobre o quê quer conversar?”
Ela encolheu os ombros. “Qualquer coisa, realmente. Como se tornou capitão da guarda?”
“Eu...” Jaime começou, e então parou. “Esse é exatamente o tipo de assunto que pode nos trazer mais atenção do que queremos.”
“Oh. Há algo que você possa me contar? Sobre si mesmo, quero dizer. Adam me disse que ele é de Dras-Leona.”
“E ele é. Ficou bastante feliz em deixar a cidade, também.” Jaime hesitou. “Vivi a vida inteira em Urû’baen,” acabou por admitir, “Mas não acho que você gostaria muito de ouvir um relato sobre minha infância. Porque não me conta sobre você em vez disso?”
“Não achei que estivesse interessado,” Selena respondeu em voz baixa, observando, nervosa, Adam e Neil aparecerem nas escadas que levavam aos quartos e começarem a fazer seu caminho até o balcão. “E não é nada muito empolgante.”
Ele encolheu os ombros. “Preciso saber um pouco, já que está viajando conosco. É minha responsabilidade.”
“Não confia no julgamento dele?” Não ousou dizer o nome de Morzan em voz alta, não agora.
“Mais do que confio no meu próprio,” Jaime afirmou. “Mas ainda assim.”
“Carvahall não é um lugar ruim,” Selena disse devagar, mantendo um ouvido atento a conversa casual que Adam e Neil começavam. “Me sinto bastante protetora de lá, na verdade; tem muitas qualidades positivas, e as pessoas em geral são boas. Mas é pequeno e isolado, e eu realmente sempre quis sair de lá. Viver como fazendeira seria quase inaceitável, e...”
“Você achava que poderia ser mais,” ele supôs.
“Ou ao menos conviver com mais.”
“E foi por isso que permitiu que ele se aproximasse de você?”
Selena precisou se controlar para não lançar um olhar na direção de Morzan. “Em parte,” confessou, julgando que não faria sentido mentir. “Mas não tinha muita certeza de que isso me levaria a algum lugar.”
Ele assentiu. “Eu entendo. Ambição não é algo ruim por si só; se não fosse por isso, acho que ele não teria se dado ao trabalho de passar tanto tempo com você. Só não pense em traí-lo.”
Selena riu baixinho. “Não acho que isso seria muito inteligente.” Ela olhou de lado para Jaime. “Mor– ele só falou comigo porque queria me levar para a cama, não é?”
“Inicialmente. Você ter interrompido Adam e Neil também o impressionou – tanto que você está aqui agora –, por mais que eles fossem ter continuado a discussão se ele não houvesse os mandado parar.”
“Mandado parar?” Selena repetiu, as sobrancelhas franzidas. “Ele estava sentado do outro lado da taverna, como conseguiu se comunicar com eles?”
Magia?, ela se perguntou, mas não teve coragem de inquirir em voz alta. Pensou que Jaime a entendesse mesmo assim. Percebia também que a discussão atrás dela se tornava aos poucos cada vez mais acalorada, e não pôde evitar se impressionar um pouco com como os dois guardas haviam trazido atenção para o que falavam sem nem mesmo dirigir a palavra a qualquer cidadão de Bullridge.
“Com seus pensamentos,” Jaime respondeu. “Pode perguntar a ele depois.”
Selena concordou com a cabeça uma vez, e finalmente se permitiu se virar e olhar para onde Adam e Neil estavam em pé junto ao balcão, não tão longe dela e de Jaime. Aos poucos, outras pessoas se levantavam das mesas e se aproximavam para ouvir melhor o que os dois estavam dizendo, e, muito diferente do que acontecera em Carvahall, um bom número parecia até mesmo concordar eles.
Os que discordavam também eram numerosos, no entanto. Selena demorou um pouco para perceber todos, uma vez que apenas um punhado realmente dava respostas ao que Neil afirmava, mas outros lançavam olhares nervosos – até mesmo assustados – na direção do balcão ou sacudiam a cabeça em desaprovação.
Foi quando Neil afirmou que era apenas graças a Galbatorix e o Império que as pessoas tinham a tudo o que tinham, e que na verdade deveriam agradecer, não reclamar, que Selena entrou na discussão.
Com uma risada debochada que não era completamente forçada, devolveu, “Agradecer por tudo o que temos, ou por tudo o que não temos?”
Foi Adam quem respondeu, tão agressivo quanto ela. “Galbatorix já é bom o bastante ao permitir que pessoas como você o culpem pelos próprios fracassos, então agradeça pelo que bem entender.”
Se ela não o conhecesse, teria se ofendido de verdade; saber que se tratava de uma encenação aliviou um pouco a pontada que seu orgulho sentiu.
“Galbatorix não se importa conosco,” insistiu. “Nunca se importou, nem se importará. Se algo que ele fez já nos beneficiou de algum modo, foi apenas porque era conveniente para ele.”
“Se não fosse pelo rei,” Neil respondeu, falando devagar como se estivesse explicando algo muito óbvio para alguém que julgava incapaz de compreender, “estaríamos todos à mercê de monstros como elfos, urgals, e os Varden.”
Selena ergueu uma sobrancelha. “Os Varden não são monstros.” Sentiu a mão de Jaime se fechar sobre seu pulso, o ouviu dizer seu nome em um aviso baixo, e não lhe deu atenção; aquilo também não era real. “Eles lutam por liberdade. Por justiça. Por nós.”
Adam ergueu o queixo, desafiador, e repetiu a mesma pergunta que fizera em Carvahall. “Por que não se junta a eles, então?”
As pessoas que ouviam estavam subitamente muito quietas, e aos poucos algumas davam as costas para eles. Aquele não era um tópico que nenhuma delas ousava discutir, aparentemente. Selena engoliu em seco, hesitante mesmo sabendo que não corria perigo algum, e disse, dando de ombros, “Nunca consegui encontrar um deles.”
Ouviu alguém arquejar em algum lugar atrás dela. Jaime tirou algumas moedas do saco que carregava na cintura e as depositou sobre o balcão antes de segurar Selena firmemente pelo braço. “Já basta,” disse baixinho, e a puxou escada acima. Quando alcançaram o corredor do primeiro andar e ouviram o murmúrio das conversas recomeçando lá embaixo, ele lhe ofereceu um sorriso mínimo, quase que a contragosto. “Nada mal,” comentou.
Selena sorriu também, um pouco hesitante, um pouco orgulhosa. Desviou os olhos para as escadas, esperando ansiosamente o momento que Morzan as subisse para encontrá-los.
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