O céu estava indescritível, eu podia sentir os raios do sol sobre a minha pele. Meus sentidos estavam todos funcionando ao mesmo tempo: o calor sobre meu corpo, cheiro do mar, gosto salgado e a brisa tocando o meu rosto me trazia uma sensação de nostalgia. Crescer em um lugar assim lhe trazia muitas recordações e principalmente quando fazia muito tempo que você não visitava o lugar. De repente, eu senti uma água gelada na lateral direita do meu corpo. Eu literalmente tomei um susto e tentei ver o que tinha acontecido. Era o John que não parava de rir do susto que eu havia levado.

— JOHNN! — Eu quase berrei e fiquei com raiva dele enquanto ele subia no deck que tinha no meio da praia. Era uma pequena plataforma pequena que as vezes algumas pessoas iam para lá. Eu tentei ir atrás dele no deck, mas ele havia se jogado de novo na água. Sem pensar muito, mergulhei e assim que o encontrei na superfície, comecei a jogar água nele. Nós dois rimos por um momento e depois ficamos em silêncio. Eu tinha mania de sempre puxar assunto com o John, pois ele sempre foi mais calado. Sempre foi na tentava cobrir o constrangimento, mas naquele momento eu estava me tornando alguém diferente. Quando eu percebi que ele não ia falar nada, eu subi pelo deck de novo e me sentei com os pés na água. Ele fez o mesmo e sentou do meu lado, meus olhos ficaram fixos para onde nossos pais estavam sentados, debaixo de uma tenda (como se fosse uma barraquinha).

—Eu achei o walkie talkie — Ele puxou assunto.

— Nossa, sério? Eu ainda não procurei o meu. Vou tentar achar hoje — Eu o encarei.

— Na verdade eu descobri uma caixa que guardei muitas coisas da escola. — John falou para minha surpresa.

— Eu achava que só meninas guardavam essas coisas. — Eu o respondi.

—Na verdade minha mãe guardou né? — Ele sorriu. O John estava com uma bermuda escura. O John era um magro bem definido, sua pele estava mais bronzeada que a minha. Seus cabelos estavam começando a crescer, então ele estava com um curativo para não deixar o sol direto na pele, na sua perna estava algumas cicatrizes da cirurgia e alguns arranhões nas costelas.

— A sua mãe guardou mais coisas minhas do que a minha mãe — Nós dois rimos lembrando que a tia Kelly havia guardado uma caixa com alguns brinquedos meus.

— Eu acho que ela é acumuladora — Ele afirmou enquanto balançava os pés na água.

—Você está bem? — Eu o olhei, sinalizando sobre o corte na cabeça.

— Sim. Posso te perguntar uma coisa? — Ele ficou com uma expressão mais séria. Eu apenas balancei a minha cabeça afirmando positivamente.

— Por que você demorou de me visitar no hospital? — No final da pergunta, meu corpo ficou gelado. Eu não tinha palavras para pensar instante. O John tinha seus momentos que me deixavam sem resposta e sem saber o que responder.

— Eu fiquei paralisada. — Foi a única frase que havia ensaiado pra falar com ele.

— O que isso quer dizer? — Ele continuou. O John quando queria compreender alguma coisa, ele ia até o fim.

— Eu fiquei paralisada de medo. — Eu olhei para frente para o mar, não conseguia encarar ele. Meu estômago borbulhava e meu coração estava acelerado. E continuei a falar:

— Eu tive medo de perder você. Achei por um momento não fosse mais te ver — Eu tentei ser mais sincera possível.

— É um paradoxo Alice. Você estava com medo de me perder e não foi me ver? — Ele observou. Por minha sorte eu já havia conversado isso com minha terapeuta.

— As nossas reações não fazem sentido. A minha não fez, mas eu tive medo do sofrimento e preferi fugir. — Óbvio que eu não iria falar mais nada do que além disso. Eu não diria: EU PERCEBI QUE AMO VOCÊ. Era isso que meu consciente gritava pra ele. Para minha surpresa ele segurou a minha mão que estava apoiada no Deck.

— Eu lamento ter feito você sofrer. — Aquela reação dele me fez dar um nó na garganta. Meu corpo se estremeceu, senti sua mão segurando a minha. Inevitavelmente uma grossa lágrima escorreu pelo meu rosto molhado e graças a Deus ele não percebeu isso. DROGA! Acho que estou de tpm, só pode.

— Eu senti falta do meu amigo — Eu tentei amenizar as minhas palavras e esbocei um leve sorriso.

— Eu também senti falta da minha amiga — Ele esboçou um sorriso e para disfarçar um pouco meus sentimento eu o empurrei para dentro da água. Aos poucos eu fui sentindo meu corpo voltando ao normal. Ele ameaçou me pegar para jogar de novo na água, mas nossos pais haviam gritado para a gente ir almoçar em casa.

*****

— Eu não acredito que você está desse tamanho — Eu olhei para a prima do John que se chamava Ingrid. Ela era tão fofa, recordo-me de carregar ela no colo.

— Eu já sou uma menina, não mais criança.- Ela me respondeu, passando gloss nos lábios. A Ingrid já tinha 12 anos.

Aquela tarde foi muito agradável no almoço. Fiquei muito feliz de ver a Ingrid, crianças sempre dão alegria para casa. Praticamente nossa tarde foi na piscina e com algumas brincadeiras com a Ingrid. Era como se eu e o John tivéssemos voltando para a infância. Quando foi no final de tarde a mãe da Ingrid a chamou para tomar banho. A mãe da Ingrid era irmã do Tio Rubem (pai do John).

— Vamos levar a Ingrid no nosso lugar? — John me perguntou.

—Nossa, onde? — Eu tentei pensar que lugar era esse.

— Eu que bato a cabeça e você que esquece Alice? — John também tinha um humor ácido as vezes.

—Nossa... a casa da árvore — Eu fiquei espantada por ter esquecido disso. Acho que a última vez que fomos lá, deveríamos ter 13-14 anos. Ela ficava bem escondida na mini floresta da casa do John.

— Vamos ensinar a Ingrid ser uma criança raíz — Ele afirmou.

—Deixa eu só tomar banho, olha minhas mãos — Eu mostrei minhas mãos enrugadas pela água. John afirmou que também precisava e subiu para o seu quarto. Eu estava quase indo embora, mas olhei a tia Kelly arrumando a cozinha e a minha mãe não estava lá, então fui ajudá-la.

— Ver você e o John hoje me lembrou de quando vocês eram crianças — Tia Kelly sorriu enquanto estávamos lavando a louça.

— Eu também me senti dessa forma — Eu sorri.

— Preciso confessar que quando vocês eram crianças, eu e sua mãe falávamos o tempo todo que vocês casariam. — Eu realmente havia estremecido naquele momento. Eu lembrei de quantas vezes eu alimentei meu sentimento pelo John, apenas pelo simples fato da nossa família ser tão próxima. Não era a primeira vez que ouvia a tia Kelly falar sobre a minha relação com o John. Principalmente na adolescência: ''John não gosta daquela menina'' ou ''Ele gosta de você, só não percebeu ainda.'' Percebi mais do que nunca que a nossa família nutriu de certa forma meus sentimentos por ele.

— Ah tia... não somos mais crianças né? — Eu sorri tentando trazer um pouco de realidade.

— Sim. Passa tudo tão rápido. Vocês já estão na faculdade, não falta muito para se formarem — Graças a Deus a tia Kelly mudou de assunto.

— E você Alice, tem conhecido alguém? Já faz um tempo que terminou com aquele menino não é? — Tia Kelly amava saber da minha vida amorosa. E o fato é que ela era muito mais discreta que a minha mãe quando se tratava desse assunto. Ela não contava pra minha mãe, pois eu saberia que ela não iria guardar só pra ela. Houve um tempo na minha adolescência que até minha mãe teve um pouco de ciúmes de mim e da tia Kelly, pois eu contava tudo para ela. A primeira pessoa que contei sobre meu primeiro beijo.

— Faz tempo sim que eu terminei tia. Que copo lindo, de onde é? — Respondi mais curto possível.

— Então você está saindo com alguém. Como ele é? — Ela era muito boa. Ela me conhecia muito bem ao ponto de saber que toda vez que desviava de uma pergunta, era porque algo estava acontecendo.

— É um menino da faculdade. Não é nada sério, nos beijamos em uma festa e saímos pra jantar. — Eu tentei ser o mais breve possível e dar menos detalhes. Mas ela continuou.

—O que ele faz? -Ela me perguntou

—Ele faz engenharia civil — Eu respondi.

— Ele é amigo do John? — De fato eu nunca havia parado pra pensar se eles dois se conheciam. Eu achava que não pelo fato do grupo de amizades ser bem diferente. Acho que nem a Suzy sabia disso, se não ela teria me avisado.

—Eu acho que não — Eu a respondi enquanto guardava os pratos.

— A sua mãe sabe? — Ela me perguntou, era um interrogatório sem fim.

—Claro que não. Eu nem tive nada demais com ele e ela vai fazer disso um circo — Nós duas rimos, pois essa era verdade sobre minha mãe.

— Alice, você é uma mulher agora. Você é especial e merece alguém muito especial que te ame por tudo aquilo que você é. É isso que segura nossos casamentos hoje. A Paixão ela é maravilhosa, mas ela passa. O que sobrou, foi nós construindo o amor. Assim como sua mãe e seu pai e eu com o tio Rubem.

— Você tem razão. Talvez eu precise me valorizar mais — Eu afirmei. Ela se virou de frente pra mim e olhou dentro dos meus olhos, me segurando com suas duas mãos pelo meu ombro.

— Você é linda Alice, não se ache menos que isso. Saiba seu valor e os outros saberão. — Ela me abraçou. Eu amava a tia Kelly como se fosse minha segunda mãe. Aquilo era totalmente verdade, eu precisava desenvolver dentro de mim. Me amar e não aceitar migalhas de nada, me amar o suficiente não para ser auto suficiente, mas pra permitir encontrarem a Alice que ainda está escondida por tantos muros dentro de mim com medo.