Depois do dia da piscina, fui para casa tomar banho e ir na casa da árvore com a Ingrid e John. Coloquei uma calça folgada e uma blusa mais justa no corpo. Meu corpo já estava levemente vermelho, queimado do sol.

—Nossa esqueci meu hidratante — Falei sozinha. Abri meu guarda roupa antigo e tentei procurar algum hidratante que estivesse dentro da validade, até que achei uma caixa perto da estante. Eu lembro que era uma caixa de memórias que eu havia feito. Um nó na garganta veio, enquanto eu segurei essa caixa verde clara bem pesada. Eu levei até a minha cama e pensei por segundos antes de abrir. Sabe a sensação que você está prestes e abrir sentimentos guardados? Era isso que senti naquele momento.

Assim que abri a caixa, observei alguns brinquedos antigos, algumas bonecas de pano e principalmente alguns objetos que lembravam minhas brincadeiras com o John. E finalmente achei o Walkie talkie. Aquilo fez meu rosto esboçar um sorriso. E foi quando meu celular tocou, me tirando daquele mundo. "Número desconhecido"

— Alô— Eu disse

Você não responde minhas mensagens, tive que te ligar. Porque é tão difícil menina?— Uma voz que eu ainda estava tentando reconhecer.

— Quem é?— Eu fiquei pensando por um momento.

Nossa, não me reconhece mais? Ainda está me devendo um jantar.

Oii JR. Pq está como número desconhecido?— Eu o perguntei um pouco surpresa. Eu não esperava a ligação dele naquele momento.

—Meu celular teve um problema, pedi seu número de novo pra Suh. Aí queria me certificar que você salvasse meu novo número— Ele respondeu.

Ah claro, vou salvar sim. E como estão as coisas na sua casa?— Eu o perguntei.

Estão bem. Meu pai acabou viajando a negócios e minha madrasta está no shopping. — Ele respondeu. Existia algo no JR que fazia você querer cuidar dele. Ele parecia triste e quebrado por dentro.

— Eu lamento. Você está bem?— Eu o perguntei.

— Está sim. Estou aqui na casa do Troy. E você como estão as coisas aí?— Ele me perguntou.

Está tudo bem, estou vermelha do sol. Mas tem sido um tempo bom com minha família— Eu olhei para a porta do quarto e estava a Ingrid me olhando. Aquela menina estava sorrateira demais, levei um susto por isso.

Nós vamos para casa na árvore?— Ela falou muito animada quase pulando. Ela estava tão linda com um short e uma blusa rosinha florida e seus cabelos molhados.

Vamos simm! Já estou indo tá?— Eu sorri

— Quem é?— JR continuou me perguntando.

— É minha prima. Vou visitar a casa de árvore com ela - De certa forma era minha prima também. Falar do John era muito complicado naquele momento.

Não vou mais te atrapalhar, mas ligar pra mim seria bom tá? Se divirtam— Ele suspirou no outro lado da linha.

Tudo bem, eu te ligo assim que voltar - Eu o respondi.

—Até mais JR

—Até mais Alice.— Nós dois desligamos o celular.

—VAMOS? — Ingrid estava praticamente pulando eufórica.

—Vamoss -Eu encostei meus dedos na barriga dela fazendo cócegas.

Nós duas caminhamos descendo as escadas. A Ingrid era uma criança fofa, ela havia segurado a minha mão para descer as escadas. O John estava no sofá sentado conversando com o meu pai. Óbvio que eles estavam falando de futebol, não perceberam quando nós duas descemos. Eu ainda estava atordoada com as lembranças da caixa e a ligação, mas me mantinha o mais serena possível. Talvez fosse bom irmos sozinhas. Eu caminhei com ela até a minha cozinha e peguei duas lanternas no armário debaixo.

— Vamos só as meninas? — Falei com ela baixo e ela pareceu muito animada.

Fui caminhando até o jardim a portinha que separava o cercado da minha casa com a do John. Quando eu abri a porta ouvi uma voz atrás de nós duas:

— Vocês não vão me deixar participar?

— Vamos correr Ingrid, é um monstro malvado querendo alcançar a gente — Eu comecei a correr com ela, enquanto John foi fingindo que estava atrás de nós duas. A Ingrid dava alguns gritinhos e gargalhadas. Nós duas ligamos a lanterna e até que alguns minutos depois, havíamos achado a casinha na árvore. Nós duas subimos com um pouco de dificuldade e cuidado. Acabei lembrando que o tio Rubem e meu pai haviam reformado a casinha, pois nossas famílias tinham crianças e elas sempre brincavam lá. Assim que chegamos na casinha, ela estava escura, mas dava pra ver que havia uma lamparina que iluminava toda a casinha. O John em seguida subiu dando susto na Ingrid e fazendo-lhe cosquinhas.

Depois de um tempo, nós 3 havíamos deitado no chão da casinha, era possível ver por uma parte superior que não tinha cobertura as estrelas. A Ingrid estava no meio de mim e do John. Ela foi falando sobre as estrelas com o John, enquanto eu permanecia admirando elas, isso me fez recordar da nossa infância do quanto observámos as estrelas. Enquanto o John falava eu percebi que Ingrid deitou a cabeça dela sobre o peitoral dele. Ele era muito bom com crianças. Eu estava ali como uma figurante, mas estava me divertindo e curtindo estar em silêncio um pouco. Ainda eram muitas coisas para processar. E foi aí que olhei para o lado e senti o dorso da mão do John encostar no dorso da minha mão. Nossas mão estavam tão perto que eu podia perceber o calor dela. Isso me fez um nó pela garganta. Como era possível sentir por tão pouco? Era como se uma pedra enorme e gigante fosse removida dentro de mim e agora tudo que eu não sentia por anos estava jorrando em sentimentos tão fácil naquele momento.

Para a minha surpresa naquele momento eu senti seu dedo indicador tocar o dorso da minha mão. Meu corpo naquele momento estremeceu e a justificativa que usei, foi que ele havia se confundido. E foi quando ele começou a subir o indicador do dorso da minha mão até o punho. Levou um tempo até perceber que ele estava fazendo um desenho. Ficamos alguns segundos assim. Até que percebi que era uma estrela. A estrela era nosso desenho favorito na infância, era algo que fazíamos sempre e desenhamos até o ensino médio em nossos nomes.

Porquê você faz isso? Você é o namorado da minha melhor amiga, você é alguém que enterrei tudo que eu sentia e quem você se acha no direito de vim aqui agora e bagunçar tudo? Eu gostaria de ter falado tudo aquilo pra ele, mas não tive forças o suficiente. Minha respiração começou a ficar funda e aos poucos retirei meu braço dali. Eu estava paralisada. Novamente paralisada de medo dos meus sentimentos.

— Eu preciso ir — Falei enquanto havia me sentado na casinha.

— A Ingrid dormiu

— Ingrid, acorda linda. Precisamos voltar — Eu havia literalmente sacudido a Ingrid. Eu só queria sair dali o mais rápido possível. A Ingrid acordou um pouco sonolenta. Eu desci as escadas da casinha de árvore e em seguida percebi que ela e o John estavam caminhando para casa deles. Eu simplesmente saí andado muito rápido, nem me recordo de ter dado boa noite.

Aos poucos fui me acalmando e fui jantar com meus pais. Fiquei um pouco com eles assistindo filme. Naquele momento era tudo que eu precisava. Distrair um pouco minha cabeça e não pensar em nada mais. Depois de algum tempo, subi para meu quarto. Eu estava realmente um pouco cansada. Até que finalmente eu lembrei de ver minhas mensagens, eu era péssima em redes sociais, mensagens e tudo relacionada a tecnologia. Será que eu era uma alma velha? Para mim era a teoria que fazia mais sentido. Respondi algumas da Laura perguntando como estavam as coisas, até que vi a Suzy me mandar mensagem naquele instante:

— Acho bom você ligar para o JR que ele está esperando.

— Como assim? Você está do lado dele?

— Lice, depois pessoalmente tenho muita coisa pra te contar. Mas acho que o JR está mesmo interessado em você.

— Como assim? Claro que não...

— Lice, o que você tem no beijo ? kkkkk — Suzy me perguntou

— O que?? Meu beijo é incrível hahaha — Fui irônica

— Ele está aqui na casa da família do Troy. Troy chamou ele pra ficar aqui. Ficamos com muita dó dele.

— Eu imagino, ele me falou.

— Como estão as coisas aí com o John?

— Pessoalmente te conto melhor. Mas estou uma bagunça. — Fui sincera

—Não deixa ele mexer com sua mente. Ele já teve a chance dele.

— Você tem razão Suh. Ele já teve a chance dele. — Eu suspirei lendo aquela mensagem. O John teve inúmeras chances de falar o que sente ou até mesmo de corresponder alguns sentimentos, mas ele escolheu ficar com a Laura. E era isso que fazia todo sentido pra mim. Que tudo não passava de uma ingenuidade dele e que ele amava a Laura.

— Vou ligar para o JR — Continuei.

— Amanhã você volta que horas pra casa? — Suh me perguntou

— Acho que umas 19 horas devo estar chegando.

— Certo! Vou chegar por volta desse horário e aí nós duas conversamos ok? — Pelo visto nós duas teríamos muita coisa pra conversar.

— Quero saber de tudo e como foram as coisas aí — Respondi

— Até amanhã e liga pra o JR — Ela encerrou nossa conversa.