Notas iniciais
Desculpa não ter postado ontem, mas aqui vai mais um :))

Receber herança, uma coisa que eu me recusei a ir na morte do meu pai cinco anos atrás, passando todos meus bens para meu irmão. Talvez a imaturidade de ter, na época, vinte anos, tenha contribuído para essa decisão, mas eu não me arrependo de nada.
Um cara que nunca vi na minha vida, dizendo ser o advogado da minha mãe, coisa que também eu não tinha conhecimento pois sempre achei que minha mãe ainda mantivesse a filosofia que advogados são para pessoas vazias. Mas não, ela tinha um advogado, sim. Acontece que só agora, depois disso tudo, eu estou começando a conhecer minha mãe.
Meu irmão está sentado ao meu lado com seu terno feio e velho de suas antigas aulas de faculdade, quando queria se tornar um advogado, mas largou tudo por uma mulher, e hoje é entregador de pizza em New Jersey.
– Podemos começar? — pergunta o homem barbudo de cabelos castanhos, deixando mostrar por trás de seus óculos os seus olhos verde-escuros, e ao seu lado uma sacola grande de papel. Por que? Não sei.
– Pode — fala o David.
Não dou uma palavra, porque sei, em algum canto do meu ser, que esse homem não é o que a mamãe queria. Simplesmente o vejo pegando um envelope velho e um pouco manchado, abrindo-o e lendo em voz alta:
– Não fui capais em toda a minha vida de proporcionar uma bela herança para os meus filhos, como aquelas dos filmes de Hollywood, e também pouco me importo com isso porque, em uma das minhas tantas filosofias, o bem material não chega nem aos pés do amor, o amor que eu tanto dei aos meus filhos até onde pude.
– Me desculpe — interrompo-o. O discurso da minha mãe me comove, mas preciso saber uma coisa: — Quando esta carta foi escrita?
O advogado olha para mim e passa o olho pela carta, e vejo-o pousar seus olhos verdes no início.
– 18 de agosto de 1996. — fala ele.
Não falo mais nada, apenas silenciosamente na minha cabeça me lembro que esta foi a data que o papai não acordou de manhã, tendo falecido durante seu sono.
– Mais alguma coisa? — pergunta ele.
– Pode continuar — falo, ríspida.
Ele olha de volta para o papel velho e manchado.
– Mas, apesar da minha filosofia do amor, por questões óbvias, tenho que passar meus bens para alguém. Infelizmente, todos meus familiares com quem me importo faleceram antes de eu poder escrever esta carta, até mesmo meu marido. Meus filhos são minha maior benção, por isso, passo a minha filha Emily, como prometido desde que ela era uma pequena criança, meu modesto escritório da Torre Sul do World Trade Center.
O advogado para de ler, e olha para meu rosto. Percebo que meu irmão olha para mim também. O advogado abre a boca, mas não quero ouvir a voz dele a não ser em extrema necessidade. Digo:
– Não sou burra. Não precisa falar nada. Sei que por motivos óbvios esta parte do testamento não valerá. Prossiga.
Ele olha para meu rosto por alguns minutos, e depois volta seus olhos para o papel.
– Para meu filho, David, por necessitar, dado ao momento difícil de sua juventude, meu apartamento no qual está no meu nome, próximo ao Central Park, na Cidade de New York, será passado para ele. Assim como todos os móveis nele inclusos.
Não esperava outra coisa. Olho para meu irmão, e vejo que ele está surpreso. Não vejo o motivo, apenas sei que minha mãe se preocupava muito com ele e com sua estadia. Este apartamento não é surpresa.
O advogado abre a bolsa grande de papelão, e retira uma chave, passando pela mesa até a mão de David.
O advogado não fala mais nada, apenas prossegue com a leitura.
– Todos meus bens financeiros, encontrados em minha conta do banco, devem ser repartidos cinquenta por cento para Emily, e cinquenta por cento para David. Outro bem, que, de toda esta carta eu considero o mais valioso, é meu frasco de tampas de garrafa de Coca-Cola, o qual terminei de colecionar a cinco anos desde que esta carta foi escrita, e deixo instruções do que se fazer com tais moedas dentro do próprio vaso. Tais instruções devem ser seguidas por meus dois filhos, Emily e David, como meu último desejo em vida.
Não entendo bem a última parte. Tampas de garrafa? Como assim?
Vejo o advogado abrir a sacola, e enquanto isso encaro meu irmão nos olhos, já que ele parece estar tão perdido quanto eu. Vejo o advogado tirar um frasco pequeno, como um frasco de azeitonas, com várias tampas de garrafa dentro deles, e consigo visualizar um pequeno papel em baixo. O advogado passa para nós pela mesa.
– Ela deixa claro na carta que o vidro é desprezível, e podem quebra-lo.
– Não só o vidro mas como isso tudo! — falo, deixando minha mente falar por mim.
– A isso não posso fazer nada. — fala o advogado. — O dinheiro da conta dela estará nas suas contas até o final do mês.
O advogado não faz cerimônia para sair, apenas pega sua maleta e se retira do meu apartamento.
Olho para a cara de David, ainda sentada na pequena mesa de madeira.
– Vamos quebrar — fala ele.
– Como?
– Vamos quebrar. Ela deve ter tido um bom motivo para deixar isso para nós dois.
Não falo nada, apenas me levanto da mesa. O David está certo, minha mãe pode ter sido uma mulher viajada, mas ela nunca fazia nada em vão, simplesmente por fazer. Levo o frasco comigo para a cozinha. Deixo subentendido para ele vir comigo até a pia, para quebrarmos juntos e ler o que, afinal, está escrito neste pequeno papel.
Vejo que meu irmão só entende isso quando chego na frente do balcão da pia, e ele vem correndo para me ver jogar o frasco na pia.
Cacos de vidro e tampinhas de garrafa se espalham pela pia, e vejo o pequeno papel embrulhado e velho no meio. Meu irmão o pega, e vejo-o desdobra-lo para ler o que tem escrito. Não vejo nada além de coordenadas, uma atrás da outra, e várias. Desço meus olhos pelo papel, e vejo a mensagem escrita em seu final:

Favor, meus filhos, deixar cada tampinha em cada coordenada dessa, na ordem apresentada. Não fui inconveniente o bastante para deixar muito longe uma da outra, para deixar o mais acessível possível para os dois. Ao final, espero que reflitam sobre isso.
Beijos,
Ruth Sylvemore.

Olho para o meu irmão, e ele me olha de volta, e percebo que, silenciosamente, chegamos os dois á seguinte conclusão:
Não conhecíamos nossa própria mãe.

Notas finais
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