Quebranto.

51 O Grito do Banshee.


Notas iniciais
Mais um capítulo pra vocês, pessoal! Agora só faltam quatro para o fim da segunda temporada de Quebranto. Parece que foi ontem que comecei a postar. ;-; #Emocionado. Agora, leiam que esse tá tenso! Boa leitura, morceguinhos!

Victoria.

Quando os gritos no andar superior começaram, Topázio ficou subitamente pálida. Não só ela, mas também todos nós, nos perguntamos o quê exatamente estaria ocorrendo logo após a pequena escada que nos separava do restante da casa. Aproveitando a distração e todo o barulho que se espalhava por todos os cômodos, forcei ainda mais as corrente que me mantinham imóvel. Flexionando o antebraço, senti uma fisgada nos pulsos devido ao esforço intenso. Contudo, quando pensei em liberar minhas forças, exausta, a adrenalina começou a preencher minhas veias. Era Nora, tão forte e presente quanto no dia em que ela quase assassinara Carolina por ciúmes. Eu a mantivera presa por tempo demais, e como toda fera que se liberta, ela parecia ansiosa por esticar as garras. Com um pouco de dor, senti a pequena argola de ferro que fora fixada ao meu pulso, cortando minha pele. Mas para minha surpresa, foi justamente esta parte das amarras que arrebentou, mais frágil e enferrujada que o restante. Escondendo meu alívio diante de Topázio, mantive-me concentrada em construir uma falsa expressão de dor, enquanto a minha carcereira parecia notar que algo de errado parecia estar ocorrendo em seu mundinho perfeito.

– THAÍS! — ela gritou, soltando Cecília com certa violência, provocando a queda da garota. A mais nova tateou o chão ao redor, confusa e desorientada ao cair sobre os próprios joelhos. — O que diabos está havendo aí em cima?!

– Ela não vai responder. — uma sensação gelada espalhou-se por minha barriga, subindo na direção das costelas, quando Jonas surgiu no topo da escada. Ele escancarou a porta que ligava o quartinho à boate, e sorriu satisfeito. — Talvez você esteja superestimando demais as suas habilidades.

– Um erro que eu não vou cometer de novo. — concordou Topázio, aparentando uma calma realmente exarcebada. Aquilo nunca era um bom sinal. Ela aproximou-se de Hugo quase que imperceptivelmente. Mas eu fora capaz de notar todo o movimento, assim como Jonas. Ele apressou o passo na direção da inimiga, mas ela puxou um pequeno canivete de dentro do bolso oculto na alça de seu vestido, na região do seio esquerdo. — Mesmo que tudo isso aqui termine de uma maneira pouco agradável pra mim, seu amigo não sobreviverá. Minha morte vale mais que a vida dele? — enquanto indagava e provocava Jonas, ela mantinha o canivete sobre a nuca do pobre Hugo, pressionando levemente.

Aquilo foi o suficiente para deter Jonas. Tenso, Hugo acenou positivamente na direção de meu amigo, autorizando-o a fazer o que fosse preciso para livrar-nos da influência daquela mulher terrível. Eu, por outro lado, tinha outros planos. Com a voz insistente de Topázio a coordenar meus movimentos, tinha a certeza de que poderia fazer algo. Daquela vez, eu não estaria assistindo impotente. Eu podia mudar o jogo. Jonas começou a avançar sobre o inimigo, e ela ameaçou cortar a garganta de Hugo. Sua lâmina nunca chegou a tocar na pele dele. Em poucos segundos, eu consegui aproveitar seu momento de distração homicida, para provocar-lhe uma queda, prendendo uma de suas pernas com as minhas. Topázio caiu sobre um de seus joelhos, e Hugo desvencilhou-se dela. Desesperada, a louca ainda conseguiu perfurá-lo pouco abaixo da nádega direita, com o pequeno objeto. O rapaz gritou de dor e chutou-a nos seios com ímpeto, empurrando-a para trás. Avancei contra ela, tentando me erguer o mais depressa possível. No meu desespero, não notei que Topázio era uma mulher cheia de recursos. Ainda que desequilibrada e psicótica, tinha a habilidade única de nunca ser totalmente surpreendida. Puxando uma pequena pistola que ocultara na cinta-liga. Rápida como uma serpente, ela disparou contra Jonas, quando ele puxou-a para si pelos cabelos. Meu amigo tombou de lado e meu grito de ódio saiu mais depressa do que eu pude registrá-lo. Hugo dobrava-se sobre o próprio ferimento, enquanto tentava retirar o canivete ainda preso à sua carne. Ele gritava de dor enqunto Ricardo pedia para que se acalmasse.

– Eu NÃO vou ficar calmo, inferno! Tô com uma faca enfiada no rabo! — ele gritava, horrorizado. Sangue manchava suas mãos.

– Eu preciso ver se ela não acertou nenhuma artéria, Hugo. Fique parado! Grite parado! — pedia Ricardo, suando e tenso como um elástico esticado ao máximo. Gabriel estava apoiando uma Cecília aos trapos, enquanto Otávio tentava ver tudo o que estava acontecendo do se cantinho.

– Victoria, acorda! Ela vai fugir! — ele gritou, e então saltei para fora de meu devaneio encantado. O choque por ver Jonas sendo ferido no tórax, paralisara-me por completo. Mas haveria tempo para ajudá-lo. Por sua expressão, nenhum órgão vital fora lesado. Ele parecia bem com o ferimento de raspão. Não fora seu primeiro. Dobrado sobre si mesmo, ele pressionava a laceração, evitando que uma torrente do seu líquido vital iniciasse uma jornada sem volta para a perdição. Chocada com a ousadia e a ferocidade de Topázio, eu sabia que precisava pôr um fim naquilo. Com minha morte, ou com a dela. E com este simples pensamento, derrubei a última barreira entre Nora, e o mundo...

Quando meu corpo se ergueu novamente, eu não estava só.

Vilma.

Thaís surgiu no andar inferior com os cabelos voando em volta do rosto. Eu não gostava dela. Nem um pouco. Mas sua voz era linda. Realmente era uma pena que alguém tão doce pudesse ser tão amarga ao mesmo tempo. Eu não tinha dúvidas de que ela adorava a Topázio, mas pelo menos pra mim, ela era assustadora. Na verdade, eu tinha certeza absoluta de que ela era má, apenas porque podia. Porque achava que a gente não era forte o bastante pra derrotar elas, e ao Alexandre. Esse era outro que me metia medo. Caramba. Eu era uma covarde. Enquanto Dino ficava louco pra ajudar os adultos, eu só pensava que a gente tinha que fugir, se esconder. Eu não podia mais ser assim. Precisava ouvir a Carol, e fazer o que fosse necessário. Ela não era boazinha como a Vicky ou a Nanda, mas entendia dessas coisas. Se eu seguisse o plano dela, aquilo ia dar certo. Só era chato ter que colocar a Tânia no meio, mas ela também tinha que ajudar. E ia.

– Olha, logo vão acabar vindo pra cá. — eu avisei, chegando perto de Dino. Ele estava massageando um dos ombros de Nanda. Ela andava tão dolorida nos últimos dias...

– E o que vamos fazer? A Carol disse? — Dino pousou as mãos sobre a faca oculta em sua roupa. Nenhum membro do grupo de Topázio sequer sonhava que andávamos armados.

– Vocês não vão fazer nada. Não os quero envolvidos nisso. E ponto. — Nanda estava irredutível. — Pra um desses malucos acabarem matando vocês, é um pulo.

– Se dependesse do Dino, teríamos cortado a garganta de todo mundo enquanto eles dormiam. — objetei. — Só não fizemos nada porque você pediu. Mas agora não dá mais. A Carol precisa de ajuda. E vamos ajudar. Além disso, precisamos de você também, Tânia.

– De mim? — Tânia, muito mais calada e depressiva desde que Madeline e Diana haviam morrido, nem parecia ser mais a tia legal que era antes. Ela só era triste o tempo todo, agora. — Crianças, isso é uma sandice. Não suportarei ver esses brutamontes ferindo vocês.

– Então nos ajude. — eu pedi. Por que os adultos eram tão medrosos? — Você ainda tem suas seringas aí? — ela sacudiu a cabeça, confirmando. — Então. Carol falou que se você der uma injeção de ar na Thaís, ela morre. É verdade.

– Sim. Mas isso é... — ela parecia horrorizada.

– É isso que a gente vai fazer. — Nanda disse, e me olhou por um bom tempo. Lá embaixo, eu podia ouvir Thaís revirando a boate atrás de Alexandre, gritando o nome da Carolina. — Seja lá qual for a parte de vocês nisso, crianças, tenham cuidado.

– Nós vamos ajudá-los. — Ana tranquilizou-a, aproximando-se de nós enquanto apoiava Sabrina. Elas não me pareciam em condições de ajudar muito, mas eu nem ligava. Já dava pra ouvir os saltos da Thaís na escada.

Eu só precisei olhar pro Dino, pra fazer ele me seguir. Era difícil pensar direito com as mãos tremendo, e os dentes rangendo. Mas aquele bolo no estômago, de medo, já estava mais fácil de aturar a cada vez que um bicho ou maluco aparecia. Eu não sabia como as crianças da minha idade eram antes, mas tinha certeza de que ninguém era como nós. Meu gêmeo me olhou e nos abaixamos ao lado da escada. Escondidos pelo vidro coberto com blackout, esperamos até que o animal de estimação da Topázio apareceu. Ela era bonita demais, com um rosto de anjo. Ninguém diria que era um monstro.

– Mas que porra...! — ela exclamou, surpresa ao ver Ana e Sabrina soltas. Vi que ela tinha um arma na mão, mas não dava pra voltar atrás. Pulei, e agarrei uma das pernas dela, puxando pra baixo. Dino puxou a outra no mesmo instante, e ela tombou pra frente, batendo o rosto no chão. — Cacete! Humpf... Puta merda... — ela gemeu, contorcendo-se com a mão no rosto. Saía muito snague do seu nariz. Ri, achando que tínhamos quebrado. Era bem engraçado. Dino estava rindo também. Então ela atirou.

Num minuto meu irmão estava rindo. No outro, estava caído na beira da escada.

Nora.

Finalmente, Victoria havia feito a coisa certa. E óbvia. Não aguentava mais aquela perda de tempo, e ver Hugo e Jonas feridos, só estava piorando o meu humor. Sim, eu não admitiria isso nem sob tortura, mas meus sentimentos haviam se alinhado aos de Vicky mais do que nunca, durante nosso confinamento. Seu sofrimento, se tornara o meu. Sua raiva, a minha. E eu a compreendia, a abraçava. Éramos uma. E, embora para mim fosse complicado aceitar o modo ingênuo e doce como ela via aquele mundo, eu também desejava proteger a minha família. Não me importava que tivessem medo de mim. Que me odiassem por ser ameaçadora, e fria. Eles eram meus, e só eu podia torturá-los. Ninguém tinha o direito de bagunçar o meu coreto, como Topázio havia feito. Dava pra sentir o gosto ferruginoso do sangue, na minha boca. Eu ia acabar com aquela desgraçada.

– Certo, senhoras. É o seguinte. — disse, aproximando-me de Otávio. Puxei a corrente que o prendia em duas direções diferentes, arrebentando-a com muito mais facilidade do que eu fizera com a minha própria. — Vou subir e ajudar Diogo. Sinto que logo as coisas vão ficar ainda mais quentes. Alguém precisa ficar aqui e cuidar dos feridos. Cecília e Gabriel, nos vemos mais tarde. Ricardo e Otto, comigo.

– Mas eu quero ajudar também! — protestou o franguinho, com a cabeleira negra sacudindo ao redor do rosto.

– Então vá cortar esse cabelo e pare de se parecer com a Branca de Neve. Depois me procure outra vez. — rebati, descartando-o. Ele ficou me olhando com a boca aberta. Otávio, riu.

– "Nora is back, bitches." — ele sussurrou, e tive que me controlar para não perder o foco dos meus planos.

Antes que mais alguma distração aparecesse, arrebentei as correntes de Ricardo e subi correndo as escadas. Eles dois vinham logo atrás de mim. Mais à frente, vi Dimitri surgindo, saindo do corredor que dava na sala das caldeiras. Ele parecia um idiota com aquela cara vermelha, e os cabelos por alto. Estava confuso, e olhando pra todo lado, com a arma na mão. Tão confuso, que o imbecil nem viu Marcílio se erguer de trás do balcão do bar, e mirar em sua direção. Antes que eu pudesse reagir, reconheci os cabelos loiros de Topázio esvoaçando na direção da cozinha. A bandida estava tentando fugir. Marcílio atirou e felizmente Dimitri esquivou-se a tempo. O projétil atingiu um ventilador acima de nossas cabeças, e o objeto despencou da pilastra na qual fora fixado, com estrondo. Cada um de nós rolou para um lado. Otávio caiu de mal jeito e grunhiu de dor, segurando os dedos. Palerma, devia ter fraturado um ou dois por colocar o peso na mão. Ricardo foi mais feliz, e já estava de pé antes mesmo de mim. Dimitri ficou me olhando de relance, enquanto disparava na direção de Marcílio. Uma das balas acabou atravessando a vidraçaria frontal da boate, e de onde eu estava deu pra ver o vidro espatifando-se em mil fragmentos rutilantes.

Certa de que não podia desviar-me do meu alvo principal, voltei-me na direção da cozinha. Topázio não era burra. Se entrara ali, então devia haver algum modo de deixar a boate através daquele cômodo. Ela jamais ficaria encurralada. Eu precisava segui-la. Estava pronta pra correr, quando um tiro no andar de cima me fez parar. Fernanda. Por que diabos ela estava gritando. Um baque surdo se fez ouvir em seguida, como um corpo que cai. Era como se o próprio banshee, o espírito das lamentações, estivesse entoando seu hino de guerra. Outros lamentos seguiram-se ao dele, com a risada distinta de Thaís erguendo-se sobre o restante.

– Subam, já! — ordenei, no que Otávio e Ricardo já saíram. Eles também deviam estar preocupados. Mordendo meu lábio inferior até sangrar, usei a dor pra avivar o meu ódio e tirar-me do sério. Eu não podia me dar ao luxo de pensar agora. O único sentimento plausível, era o ódio. E bem, era dele que eu nascera.

Com ímpeto, choquei-me contra as portas da cozinha. Em todo lado, era possível ver o prateado do alumínio, e os utensílios domésticos. Nada parecia diferente por ali, entretanto não se via Topázio em parte alguma. Ignorando os chiados de ansiedade e medo de Victoria, que gritavam por Diogo, Otávio ou Fernanda, mantive-me concentrada. Em resumo, obriguei-a a calar a boca. Caminhei entre as prateleiras e então vi o que estava errado. Topázio arrastara uma das estantes para longe da parede, revelando uma porta até então oculta. Dezenas de taças, talheres e bandejas estavam espalhados pelo chão, em torno do enorme objeto caído. Pulei sem jeito por sobre a estante, e então puxei a maçaneta para mim. A maldita estava trancada. Mais irritada ainda com aquele obstáculo inútil, chutei-a com força, arrebentando o objeto e rachando a madeira. A porta tremeu nas dobradiças, e quase despencou, exaurida. Puxei-a novamente, e não encontrei resistência ao meu intuito. Tensa, controlei meus pés enquanto os degraus seguintes me levavam à uma área até então, inexplorada. Surpresa, deparei-me com um ambiente simples, e sóbrio. A área comum dos funcionários. Uma mesa simples de madeira estendia-se no meio. Havia uma mesa de sinuca à um canto, e um bebedouro. Uma estante com uma cafeteira e alguns saquinhos de café instantâneo empoeirados também compunham o cenário. Haviam quadros simples, expressando paisagens e outros traços sem valor monetário relevante. Uma porta de correr cinza dava num pequeno cubículo que deveria ser um banheiro, e também era possível identificar um ar-condicionado pifado. Mas não era a existência deste lugar que me surpreendia mais, naquele momento. Era a quantidade de zumbis que ali havia. Todos, naquele tempo todo, haviam dormido debaixo de nosso teto.

Era fácil identificar a identidade de todos eles. Mesmo que eu nunca os tivesse visto antes. Cerca de catorze infelizes, todos com as roupas em ótimo estado, e com ferimentos limpos. Tiros ou facadas, todos no coração. Eles haviam sido assassinados e ali largados, para sofrerem eternamente como mortos-vivos. Todos os inimigos de Topázio, que um dia haviam saído em busca de suprimentos, e jamais haviam voltado. Notei que eles ainda se chocavam contra uma porta na extremidade oposta do cômodo. Nenhum notara minha presença. Acabei encontrando o corpo de uma garota bem jovem, que um dia tivera cabelos curtos e pintados de branco. Com mechas cor de rosa. Uma gótica. Agora, eram catorze. Pouco depois, achei um rapaz lindo, de cachinhos negros e rosto másculo. Quinze. Em seguida, uma negra de cabeça raspada e músculos desenvolvidos. Dezesseis. Nesses, ela dera um tiro. Provavelmente, tivera que se livrar deles para escapar. Tão louca eu estivera até então, que subitamente percebi que estava ali completamente desarmada. Foi como se ao mesmo tempo, os mortos também o notassem. Pois sentiram meu cheiro, e com ele, viraram-se em minha direção. Andei para trás, buscando com um rápido olhar formas de me livrar daquelas criaturas. Puxei uma das cadeiras de madeira ao lado da mesa, e girei-a contra o mais próximo dos zumbis. Ele desmontou com o golpe, e o objeto em minhas mãos partiu-se em frangalhos. Apanhei dois dos pés da cadeira. Pelo menos naquele momento, eu conseguira dois cacetetes. Pisei na cabeça do primeiro zumbi, e ele imobilizou-se. Atinji outros dois com os pedaços de madeira, e uma de minhas armas acabou perfurando o crânio de um deles.

Um dos mortos jogou-se sobre minhas costas, agarrando meu pescoço. Ele mordeu um de meus ombros, e senti seus dentes rasgarem a carne com a fúria da fome. Gritei. Aquilo bastou para que minha visão se transfigurasse totalmente. Eu via tudo em chamas. Virei-me contra meu agressor. Seu pescoço partiu-se como um palito de dentes, nas minhas mãos. Chutei e soquei aquelas pobres criaturas, derrubando mais dois com uma banda. Levei outra mordida num de meus braços, mas então dei uma cabeçada na mulher de traços indianos agarrada a mim. Quando nada restava além de corpos desligados e inertes, eu estava coberta de sangue. O jeans surrado e manchado com o qual eu fora presa, estava ainda pior. Minha blusa de mangas compridas cinza, se tornara vermelha escura na parte frontal. Os meus cabelos de loiros, tornaram-se escuros com o sangue podre. Aquela nojeira toda só me fez odiar Topázio ainda mais. Chutei a porta trancada à minha frente, e a barra de ferro que obstruía a passagem despencou, soltando-se das maçanetas avariadas. As portas duplas abriram-se finalmente, liberando-me para um corredor negro, com uma pequena plaquinha de "Saída", iluminada. Acima, uma porta simples de ferro se erguia, solitária. Subi as escadas em sua direção em velocidade máxima. Finalmente, eu teria minha vingança.

Carol.

Minhas mãos ardiam como o inferno. Mas os olhos de Alexandre, esses brilhavam como faróis. Ele me puxou até que fiquei de pé, e emendou o gesto com um soco firme no meio da minha linda cara. Eu não esperava por aquilo, então acabei enterrando os dentes na parte inferior dos meus lábios. Um pequeno jato de sangue foi expelido do ferimento, e o ardor deixou-me totalmente tonta, por certo tempo. O que eu pude perceber enquanto o mundo girava mais rápido do que eu imaginara ser capaz, era que não fora Alexandre quem quebrara o vidro da boate. O tiro viera de dentro. Ele provavelmente estava ali procurando por Thaís, ou tentando entender que diabos estava ocorrendo. Pelo visto, aquele animal não parecera ter quaquer problema em perceber meu envolvimento naquilo tudo. Ele iria acabar comigo em segundos, eu tinha absoluta convicção. Ninguém poderia dizer que eu era uma lutadora decente, e eu tinha plena consciência disso. Nem tentei reagir. Eu só queria escapar. Com um chute na boca do estômago, Alexandre derrubou-me no asfalto. Gritei com a falta de ar, e percebi que Mozart não estava mais gemendo. Arrastei-me na direção de um dos carros parados em frente à boate, e me apoiei contra a porta do motorista da picape de Diogo. Com um choque de abalar o mundo, Alexandre me jogou contra o vidro. Minha testa bateu e rachou a janela do veículo, e então as formas tornaram-se vultos, na minha visão prejudicada. Abandonei-me naquele mar revolto e confuso, enquanto ele se preparava pra me matar. E posso afirmar-lhes, com uma modesta dose de certeza, de que não podia sequer sentir alguma coisa. Se a morte viesse, então ela sim seria um bálsamo. Tudo em que eu podia pensar naquela hora, era em quão cansativo era sobreviver. Isso sim seria dureza.

Revirando os olhos e mirando as estrelas, eu divisei o corpo grande de Alexandre sobre o meu. O asfalto sob as minhas costas se tornava cada vez mais gelado, como um macio esquife de gelo. Uma caixão de piche, supreendentemente fofo. Enlouquecida pelo delírio que um espancamento poderia noz trazer, comecei a rir. Não pude mensurar o volume de minha risada, mas ela foi o suficiente para fazer Alexandre hesitar. O motivo de meu riso, era a improbabilidade daquela situação. Se alguém me dissesse que eu morreria dessa forma, dois anos atrás, eu iria com certeza recomendar meu analista a essa pessoa. É claro que agora, o Dr.Plínio já devia estar morto, mas aposto que ele teria ficado ainda mais interessado no meu caso, se me visse agora. As bordas do mundo pareceram um pouco menos confusas para mim, quando Alexandre decidiu terminar o que começara. Mas não foi ele quem eu vi precipitando-se na minha direção. Foi Diogo. Talvez eu tivesse delirado por mais tempo do que eu pensara.

– Carol! Deus! O que ele fez com você? — Diogo estava me amparando, e parecia perplexo. Eu não podia ver meu rosto, mas imagino que eu concordaria com ele, a julgar por como eu me sentia naquele exato momento. Um lixo.

– Ele detonou a minha cara, pode falar. — pedi, consternada.

– Não. Nem tanto. Cê continua gostosa. — ele riu, me pegando no colo. Palhaço. Além de ser um brutamontes, mentia muito mal. — Melhor a gente ficar em segurança até as coisas se acalmarem lá dentro.

– Não vai ajudar os outros? E a Victoria? — indaguei, vendo o rosto de Diogo na escala de cinza mais rica em tons que o mundo já presenciou.

– Primeiro tenho que te manter segura. Depois de tudo que você fez por nós, merece ser tão protegida quanto qualquer outro. — ele me fitou com uma expressão divertida. Estávamos correndo. Disso eu sabia, pois a respiração de Diogo era ofegante. Talvez ele estivesse me levando para a lanchonete onde todos conversavam às escondidas, enquanto Diana era viva. — Não pensei que diria isso na vida, mas você precisa pensar mais em você mesma, Carolina.

Eu também jamais pensei que ouviria isso algum dia. Com um sorriso morto no rosto, adormeci em seus braços, sonhando com as sombras etéreas que inundavam minha visão.

Vilma.

Quando Nanda gritou e Thaís riu, uma raiva muito grande pareceu arder no meu peito, bem na direção do coração. Eu só pensava que ela era culpada por matar o meu irmão, e que ela tinha que morrer também. Ainda caída no chão Thaís se levantou apontando a arma pra todo mundo. Ninguém poderia se mexer, ou então acabaria levando um tiro também. Comecei a chorar, fazendo força pra não ser barulhenta. Olhei por Dino, e vi que o buraco feito no seu ombro estavam brilhando, molhado de sangue. Mas então, sua sobrancelha se moveu, e ele fez cara feia, dolorido. Minha respiração ficou difícil, e eu quase gritei de felicidade. Meu gêmeo ainda tava vivo! Mais tranquila, fingi que estava com medo de Thaís, enquanto Dino fingia que continuava morto. Me aproximei da Nanda devagar, enquanto ela me olhava, raivosa.

– Se mais alguém der uma de engraçadinho, vai ficar com mais furos que uma peneira. — ela virou a arma na minha direção. — Você, sua pestinha... Merecia o mesmo fim que o seu irmão! — rindo, e apontou a arma pra mim, e Tânia me abraçou por trás, puxando pra perto.

– Por favor, não machuque mais as crianças... — ela estava chorando. Do jeito que uma mãe chora pelos filhos. Talvez estivesse lembrando dos filhos dela, que tinham morrido.

– Calada, velha. Você só serve pra comer e dormir. Não sei porque Topázio te manteve viva. — Thaís me olhou de novo. — Agora, vou descontar a dor no meu nariz, sua piranhazinha...

A expressão no rosto dela mudou. Um solavanco derrubou Thaís no chão outra vez, enquanto Otávio se inclinava sobre ela. Rico passou direto pelos dois, e pegou meu irmãozinho no colo, levando pra longe da confusão. Thaís e Otto continuavam brigando. A arma dela rolou escada abaixo, enquanto eles se engalfinhavam. Ana e Sabrina correram pra ajudar, quando aquela bruxa arranhou o rosto do Otto. As duas agarraram ela e seguraram os braços. Thaís ficou se debatendo sem parar, gritando e gritando. Otávio chutou a cara dela, e então ela ficou quieta.

– O que fazemos com você? — Ana disse, puzando os cabelos da bruxa. — Uma mulher que machuca crianças merece sofrer.

– E vai. — confirmou Otávio. — Ninguém machuca as nossas crianças, sua desgraçada! — ele chutou Thaís outras vezes. Não desviei o olhar. Aquilo não me dava mais medo, nem nojo.

– Aqui, Otávio. — chamou Tânia, oferecendo uma seringa vazia ao Otto. Ele pegou, e puxou a parte de dentro, como se fosse dar uma injeção em alguém. — É só aplicar. O coração dela vai estourar no peito.

– Será que ela tem um? — ele perguntou. Thaís não estava mais rindo. — Acho que seria bom você rezar pra que não tenha mesmo, Thaís. Porque a gente vai testar isso agora. — Otávio se aproximou dela, e então ela voltou a se debater, gritando o mais alto que podia. Era um escândalo digno de cinema, e no final, ela estava chorando. Eu não liguei. Eu também tinha chorado por causa dela. Otto deu a injeção. Os olhos de Thaís esbugalharam, e então ela parou de se mexer, ainda de olho aberto. Ana e Sabrina largaram ela no chão, parada. — É, ela tinha um coração.

– O que vamos fazer com o corpo? Daqui a pouco ela volta como zumbi. — lembrou Ana.

– Jogue no andar de baixo. — mandou Otto. — Não temos motivos pra sermos respeitosos com o cadáver dela. Não depois de Diana. Eu vou soltar a Fernanda, e descer pra ajudar os outros. Fiquem aqui e protejam o Ricardo. O Dino precisa dos cuidados dele.

– Eu vou ajudá-lo. — ofereceu-se Tânia, solene.

Nós duas nos aproximamos de Rico. Ele estava tirando a blusa azul-marinho de Dino. A pele do meu irmão estava muito clara, quase como gelo. Um pequeno furinho vermelho podia ser visto, com um pouco se sangue seco ao redor. Dino estava acordado, e riu quando eu cheguei perto. Tentei abraçar meu gêmeo, mas Tânia pediu pra eu não fazer. Fiquei ali parada e ansiosa, com vontade de perguntar o que tava acontecendo. Os outro dois pressionaram o ferimento do meu irmão e amarraram um pedaço da blusa dele, em volta. Tânia secou o suor da testa dele, e me olhou comum sorriso. Isso devia ser bom.

– A bala entrou e saiu. Parece que lacerou o músculo, mas não perfurou nenhuma artéria, nem está alojada. Os nervos estão bem, também. Ele vai ser recuperar. — ela disse, olhando pro Ricardo, e depois pra mim. — Seu irmão vai ficar bem, querida. Só precisamos limpar isso, e medicá-lo.

– Devo dizer que estou aliviado. Eu não ia suportar perder esse molequinho. — Ricardo bagunçou os cabelos do Dino. Meu irmão odiava aquilo, mas nem reclamou. Ele até riu, todo dengoso. Bobalhão. Adorava ser o centro das atenções.

Mais calma por saber que o meu gêmeo ia ficar bem, corri pra perto do muro dos camarotes. Olhei para baixo, e pude ver Dimitri brigando com Marcílio. Os tiros haviam parado quando as balas nas armas dos dois, acabaram. O resto do pessoal estava todo escondido, ou do lado de fora. Senti uma mão em meu ombro, e me virei pra ver Nanda olhando lá pra baixo, comigo. Otto estava descendo a escada, indo ajudar o Dimi.

– Estamos ganhando. — Nanda disse, e me olhou sorrindo. Eu ri pra ela também, e a abracei.

Então Alexandre apareceu no meio do salão, bem na frente de Otto. Os dois estavam próximos da briga de Marcílio e Dimitri, e ambos pareciam surpreendidos pela presença do outro. Alexandre estava com uma cara péssima, ferida e cansada. Mas quando ele viu o corpo estelado de Thaís começar a se mexer, ficou louco. Apertando mais Fernanda, comecei a rezar pra que Otávio sobrevivesse àquilo.

Notas finais
Ér... Alguém aí querendo me matar? kkk... *lê desviando de projéteis* Por favor, comentem e me digam o que estão achando. Preciso mesmo saber como foram as reações de vocês, hehehe. Bjão galera! Nos vemos no próximo! Kisses by DroppingPieces!