Quebranto.
69 Ne me quitte pas.
Notas iniciais
Sabrina.
Irma recostou-se contra a viga de madeira grossa, do galpão abandonado. Um dia, poderia ter sido utilizado por algum grupo urbano de dança de rua, ou teatro comunitário, já que haviam muitos grafites com referências pop nas paredes, já desbotados pelo desuso. Suas calças camufladas pareciam dois números maiores do que o corpo abatido da mulher vivida, os cabelos grisalhos cortados ao estilo militar, quase masculinos. Seu olhar revelava rugas do tempo, bem como o cansaço que a acometera nos últimos tempos. Depositei a arma com a qual ela me encarregara contra a parede, e suspirei enquanto olhava ao redor. O galpão escuro possuía apenas uma entrada e saída, enquanto que suas laterais eram resguardadas com amplas janelas precariamente pintadas com tinta preta e com algumas rechaduras em pontos atingidos por pedras ou aves. Do alto, pouquíssima luz do sol infiltrava-se pelos pontos onde a camada de tinta ficara menos espessa do que na maior parte das janelas. Deixava-me temerosa imaginar um ataque naquele local, com tanto vidro. Entretanto, não estávamos em condições de escolher o melhor esconderijo naquele momento. Inclusive, eu considerava a maior sorte que eu já tivera até aquele momento, ter encontrado Irma e seus mercenários. Sentia-me mal pelas meninas sim, mas sempre considerei a todos muito mais aliados, do que uma "família", como gostavam de dizer. Para mim, tudo era conveniência. Era necessidade. Por vezes, os sentimentos se confundem em situações extremas, mas agora eu podia ver claramente. Tinha que matar aquela médica, cientista, ou o diabo que fosse. E depois, teria de encontrar uma forma de encontrar Ana, e tirá-la de Búzios para sempre. Era engraçado que eu pensasse daquela forma depois de tantos conflitos, mas a única pessoa que estranhamente me fazia falta, era Carol. Havíamos permanecido unidas ainda que contra nossa vontade, em muitas ocasiões. E, ter abandonado-a, era o que mais me feria naquilo tudo. Mas Cecília e Manuela eram, francamente, inúteis. Pesos. E, se ela não podia deixá-las, então também não era forte o bastante. Felizmente para mim, Diogo o era.
E por falar nele, ficara cada vez mais calado nos últimos dias. Enquanto as horas escorriam numa ampulheta invisível, tudo o que tínhamos era o sol e as estrelas, como sinalizadores do tempo. Ainda que os mercenários tivessem cada um, um aparelho digital no pulso, nenhum de nós dois se incomodava em perguntar a hora exata. Estávamos acostumados com a ausência da exatidão. Não era realmente um problema, ali, naquele fim de mundo. A segunda barraca de acampamento se ergueu, e Herbert esfregou os antebraços suados, que havia acumulado poeira. William estava sentado próximo à parede, lendo um diário de expedição mantido atualizado por ele há meses, segundo Irma. Os óculos do rapaz davam a impressão de que seus olhos eram bem maiores de longe, ampliados pelas lentes horríveis. Sempre que o fitava, sentia vontade de rir lembrando de um primo, que eu perdera mesmo antes daquela infecção. Ele havia morrido num acidente de carro, junto com minha tia e tio. Tinha apenas treze anos. Cocei a parte curta do meu cabelo, virando-me na direção de Diogo. Ele parecia menos aborrecido do que naquela manhã, antes de encontrarmos o galpão. Agora, a cidade estava mais próxima do que a praia e a pousada, o que parecia deixá-lo ainda mais inquieto. Eu sabia que ele pensava na possibilidade de nos abandonar e ir em busca de Victoria. Mas ele não era nenhum tolo. Ninguém poderia sobreviver sozinho lá fora. Não um humano normal. Talvez, alguém como a própria Vicky pudesse. Ou como Jonas...
Aquela sensação estranha na boca do estômago, de novo. Sempre que me lembrava de um dos amigos que haviam morrido, ou de alguém que eu deixara para trás, sentia um aperto como uma nostalgia, uma saudade ainda que enfraquecida pela minha determinação. Saulo salvara minha vida há muito tempo, e desde sua morte ao lado de Julia, eu me recusara a verdadeiramente me afeiçoar a alguém. Então, aquilo que pressionava meu peito e fazia com que meu sono fosse cada vez menos tranquilo, não poderia ser culpa, poderia? Lembrei-me quase involuntariamente de Hugo. Outro a quem eu me apegara muito mais nas últimas semanas, do que no longo tempo em que estivéramos juntos. Todo aquele conflito interno me transformava, me perturbava. Eu era como uma confusão de equações inconclusivas, um sortilégio de incógnitas e sistemas com os quais nem mesmo um matemático poderia trabalhar. Eu não queria ser fraca, não queria ser uma pessoa frágil. Não aceitaria a dor que me surpreendera desde o momento em que Topázio ressurgira, inundando nossas vidas com dor e desespero. Eu não aceitaria a agonia de Lavínia, que morrera gritando e gemendo sem nunca ter feito mal a ninguém. Não vou repetir a história de Gabriel, que tivera uma vida cheia de compaixão para ser assassinado como um cão. Eu não seria uma garota bondosa. E, se para sobreviver eu tivesse que fugir da dor, assim seria. Sem olhar para trás.
A noite veio, e nos agrupamos ao lado de uma pequena fogueira acesa no interior de um pneu utilizado como combustível. O cheiro e a fumaça eram insuportáveis, mas era melhor do que a escuridão. Diogo havia colocado um poncho por cima dos ombros largos, e somente quando notei Irma usando uma toca e William tremendo em sua jaqueta cor de vinho, senti o frio que já os molestava. Eu permanecia usando a mesma roupa de três dias atrás, e não sabia quando poderia trocá-las. Nada seria melhor naquele momento, do que água limpa e vestimentas novas. Mas nenhuma das duas coisas eram palpáveis na ocasião. Limitei-me a beliscar a carne seca crua que estávamos dividindo, e reconheci que apesar de salgado, o gosto era muito melhor do que a infinidade de batatas que eu consumira antes de deixar a pousada. Diogo bebeu um gole do rum que estava passando de mão em mão, e pareceu achar graça de algo. Não entendi muito bem. Rindo, tomei a garrafa de sua mão, pela primeira vez sentindo-me menos perdida desde toda a confusão que nos separara a todos.
– O que houve, boas lembranças? — ironizei, abrindo um sorriso.
– Por incrível que pareça, sim. Quando Vicky chegou ao acampamento, lá no Trocado, antes de você, sabe... Fizemos uma brincadeira que envolvia álcool. Não lembro direito, mas acho que deixei ela bêbada. — Acabei rindo com o relato. — O pé no saco do Luca ainda tava vivo, assim como meu amigo Rafael, Eloá, até o Armando...
– Já reparou como em tudo o que sabemos e recordamos, vemos alguém que já morreu? — Minha indagação era mais para mim mesma, do que para ele. — Fizemos a coisa certa Diogo. Não precisamos suportar mais mortes. Só falta concluir o que Irma precisa fazer, e terminar com nosso sofrimento.
– E começar uma nova vida... — assenti, incentivando. — Mas, sobre os cadáveres de pessoas que nunca nos fizeram mal. Só temos um lado da história. Não sei se consigo matar gente a troco de uma promessa.
– Não são só promessas — interveio Irma, manifestando-se com um olhar pesaroso. — Também não estamos confortáveis com esta missão de assassinato. Mas fazemos o que é preciso. E sei que vocês nos entendem, ou teriam ficado com suas amigas.
– Estamos cansados de fugir, como vocês. Queremos um lugar na Fortaleza. Quando virem como é aquele lugar, vão nos entender. Parece que lá, o mundo continua como era. Haviam muitas pessoas no porto, onde barcos de todo o Brasil chegam. A ilha é pequena, mas parece um mundo totalmente intocado por essa loucura toda. — narrou Herbert, como se contasse um sonho vaporoso. Para mim, parecia algo realmente maravilhoso.
– Só acho estranho que tenham enviado um esquadrão da morte, justamente para eliminar quem está tentando curar essa doença — rebateu Diogo, sem se dar por vencido. — Além disso, um grupo de gente do bem e civilizada não deveria impor como condição, assassinar alguém para permitir que alguém viva com eles. Não faz sentido.
– Ou faz — objetei, refletindo. — Podem estar com mais pessoas do que são capazes de lidar. Querem receber apenas quem é capaz de colaborar. Não é tão ilógico assim.
– É exatamente isso o que o Conselheiro nos falou. — confirmou Irma. — Os Nove só permitem que pessoas capazes entrem na ilha. E aqueles que tentam invadi-la, acabam sendo sumariamente executados. A Dra. Keiko foi ordenada a parar com suas pesquisas, mas se recusou a obedecer. Roubou material do Governo, e os Nove foram obrigados a tomar essa atitude. Querem impedir que ela crie algo ainda mais monstruoso do que já fez.
– Não acredito que essa mulher tenha sido sozinha, responsável pela infecção dos animais — desconfiou Diogo. Ele estava começando a me irritar com aquela implicância. Queria o quê? Que Irma se recusasse a nos permitir ajudá-la? Pois era isso que conseguiria se continuasse questionando as motivações da mulher e seus aliados. Isso se não acabassem nos matando durante o sono, para garantirem o sucesso da missão. Senti meus olhos ferverem, mirando-o com urgência. Ele encontrou meu olhar, mas fez pouco caso. Aquilo me revoltou ainda mais. — De todo modo, estou com vocês enquanto achar que isso faz o mínimo sentido. Se tiver sujeira nessa história, caio fora. Vocês viram o que fiz com as outras garotas. E elas estavam comigo há muito tempo. Vocês não significam nada pra mim. Não sou leal a nada além de mim mesmo.
– E é exatamente por isso, que você é perfeito para o que precisamos fazer — sorriu Irma, observando-me de soslaio. Satisfeita com o rumo da conversa, acabei aquietando-me depois daquela conversa perturbadora. Em silêncio, William nos cumprimentou com a cabeça, enquanto se retirava para a barraca que dividiria com Diogo e Herbert. O outro mercenário, com ar de cansado, tirou uma caixinha preta de dentro do casaco, e começou a mexer no cacareco. Uma música baixa começou a tocar no galpão vasto, inundando meus ouvidos com uma presença quase que assombrosa. Era assustador ouvir uma melodia verdadeira, outra vez. Ainda que Dante fosse ótimo cantor e músico, era algo totalmente tranquilizador sentir a música fluir livremente, daquela forma. Era quase como se eu pudesse fechar os olhos e voltar no tempo.
– Isso não vai atrair nada? — perguntei, perguiçosa. Louca para receber uma resposta negativa.
– Não — Herbert riu. — Isso aqui não emite onda magnética nenhuma, é um tocador de fitas. Encontrei na semana em que desembarcamos aqui. Nem acreditei que alguém ainda tivesse uma coisa dessas. Só vi meu avô usando uma vez, e ainda assim, já era algo velho. Do século passado, literalmente.
– Pelo menos, podemos ouvi-lo sem medo. — Irma fechou os olhos e murmurou de acordo com o ritmo. Eu não conhecia a voz, nem a melodia. Não me era sequer familiar. — Maysa Matarazzo — disse Irma, como se lesse minha mente. — Ne me quitte pas. Umas das músicas mais lindas que minha mãe me mostrou, quando nova. Ela era uma das melhores.
Só então percebi que a letra esquisita da música, era na verdade francês. E, mesmo sem entender aquelas palavras carregadas de emoção e pesar, pude sentir na minha alma que cada nota falava ao meu coração. Pensativo, Diogo mirava o conteúdo da garrafa, que fora parar de volta na mão dele. O frio apertou um pouquinho, e a ventania lá fora começou a fazer um barulho esquisito, quase igual ao de chuva. Um trovão ribombou, e Irma estendeu para mim um lençol dobrado, para que eu pudesse me aconchegar de maneira suficiente, em detrimento de contar apenas com aquele fogo parco. Mais um dia praticamente desperdiçado, e não estávamos mais perto de nenhum dos nossos objetivos. Eu só esperava que no fim, quando aquilo passasse e se eu conseguisse encontrar Ana, ela compreendesse que tudo o que eu fizera, fora para tê-la de volta. Todo o resto, era insignificante. Tudo e todos.
– Sabe o que o nome dessa música significa? — para minha surpresa, era Diogo que havia puxado assunto. Eu nunca imaginaria que ele soubesse, ou conhecesse aquilo. Fiz que não, com um gesto. — Não me deixe.
E eu sabia, ainda que fosse doloroso, que ele se referia àqueles que havíamos deixado para trás.
Carol.
Cecília gritou mais uma vez, e senti um calafrio na espinha pensando no que poderia acontecer se ela não calasse logo aquela boca. Manuela estava desesperada tentando contê-la, enquanto a coitada se debatia e esperneava, totalmente acometida por uma das piores crises que eu já vira alguém ter na vida. Não que eu tivesse muita experiência com drogados, por Deus. Mas antes, quando era bem nova, um dos meus primos que viviam na Baixada Fluminense envolveu-se com crack, e minha mãe ajudou no processo de reabilitação. Aquilo tinha sido há tantos anos, que eu pensei que jamais veria alguém daquela forma outra vez. Estava enganada. Com uma das poucas garrafinhas de água que ainda tínhamos, tentei manter Cecília hidratada, mas ela não estava muito disposta a colaborar. Enquanto Manuela segurava um de seus braços de maneira desajeitada, ela tentou se desvencilhar e acertou meu rosto com as costas da mão. Revoltada, segurei a boca sentindo o gosto de sangue. Eu mordera a língua. Segurando-me para não espantar a abstinência dela à base de porrada, saí de perto e a deixei sozinha com alguém mais paciente. No meu estado, eu não tinha a melhor estrutura para lidar com nada daquilo. O desgraçado do Otto bem que podia estar com a gente naquela hora, pra aturar a namoradinha dele. Eu sequer tivera tempo de chorar por Jonas, e já nem tinha mais vontade, também. Era como se um abismo houvesse aberto caminho dentro de mim, corroendo partes do que eu era, do que eu sabia. Como num caso de memória seletiva, eu apagara as piores partes dos últimos dias, totalmente absorvida em tentar ajudar alguém que nos mantivera seguros por tanto tempo.
Ninguém valorizava Cecília como ela merecia, e isso havia nos custado muito. Ninguém havia percebido o seu estado cada vez mais precário, mesmo que ela tivesse nos avisado que o refúgio da pousada duraria pouco. E inclusive, nos avisara novamente logo em seguida, mas Victoria se recusara a deixar aquele lugar para trás. Tudo por Nanda, por quem parecíamos nos sacrificar desde o primeiro momento. Eu me lembrava vagamente de ter dito o que achava sobre ela. E estava tentada a retomar aquela opinião. Agora eu poderia acrescentar Lavínia, Gabriel e Jonas à lista de pessoas que haviam morrido para protegê-la, mesmo contra a própria vontade e sem serem sequer consultados. Victoria também tomara uma atitude (apoiada por todos que sabiam da profecia, incluindo a mim), que se provara a mais imbecil do mundo. Mas ainda assim, e mesmo desesperada com minha situação, esqueceria todos os erros e problemas apenas se soubesse que meus amigos estavam bem. Imbecis ou não, inúteis ou não, egoístas ou não, eram tudo o que eu tinha. E, céus, eu não era nenhuma virgem virtuosa. Não estava em posição para julgar ninguém, mas fatos eram fatos. Quem me dera tudo aquilo fosse diferente. Não me importava em estar errada. Mas odiava ter consciência de que em noventa por cento das ocasiões, eu sempre estava certa. Sem querer refletir sobre o risco que corríamos naquele lugar ermo sozinhas, retornei para junto de Cecília. A menina estava tendo uma crise de choro, encolhida no colo de Manuela. Com os cabelos compridos, a ex-prostituta acarinhava a cega, com sua mão mutilada por Tânia. Todas nós éramos sobreviventes. Ainda que subestimadas por Sabrina e Diogo, os dois novos nomes da minha lista negra. Seria capaz de negar um gole d'água a ambos, no deserto mais quente, depois do que haviam feito.
– Otto, onde está você? — Cecília gemeu, de olhos fechados ao esconder o rosto em Manuela, que mirou-me comovida.
– Podemos esperar um pouco mais — afirmei. — Talvez mais alguém tenha a ideia de vir para cá, onde já nos escondemos antes. Se ninguém vier em alguns dias, damos um jeito de sair daqui. Ainda temos o carro que Diogo trouxe.
– Eu sei, Carol. Mas estou tão assustada. Desde que vivia na boate, a única vez em que pisei do lado de fora foi quando me ocorreu isto — mostrou-me a mão. — E vejá só o que aconteceu...
– Você tinha perdido sua irmã — virei-me em sua direção, sentando-me de lado próxima à Cecília. — Precisa acreditar em si mesma. Todos nos tornamos mais fortes com perdas. Use seu medo, como sua força. Nem que seja para que consiga correr mais rápido. Não lhe peço para se tornar um assassina ou guerreira. Apenas viva, Manuela. Viva, porque não posso perder mais ninguém... — A abracei sem esperar permissão. Estávamos as duas surpresas com o momento, mas ninguém disse nada.
– Meninas, obrigada por não me deixarem para trás. — disse Cecília, enquanto eu fitava o teto escuro, deitada junto dela e de Manu na cozinha do restaurante. Tentávamos dormir há cerca de duas horas, mas de alguma forma a vidente devia saber que nenhuma de suas companheiras conseguira pregar o olho. — Estarem comigo significa muito. Nem sei o que dizer...
– Não diga nada, então — aconselhei, rindo. — Só se recupere e traga de volta aquele escudo milagroso. — Sorria, tente se animar. Isso sim seria bom para nós.
– Eu vou tentar... — ela riu alto. — Não, não tentar. Vou conseguir. Preciso conseguir.
– Todas nós precisamos — concordei, antes de acabar adormecendo.
Na manhã seguinte acordei sentindo um cheiro estranhamente doce inundar a cozinha, e quando abri os olhos havia uma pequena panela fervendo no fogão, da qual a fumaça cheirosa desprendia-se. Manuela estava com o cabelo preso, e com uma colher de pau mexia o conteúdo do recipiente. Aproximei-me e fitei o chá que fumegava por cima de seu ombro, sorrindo ainda que sem querer. Ela me notou, e abriu espaço para que eu pegasse os copos espalhados pelo local. Sem precisar coar o chá, devido ao tamanho das ervas que ali estavam, Manuela dividiu o líquio em três porções iguais, pousando o objeto de volta sobre o fogão.
– O que é isso? — minha curiosidade só não era maior que minha fome e sede.
– Capim-cidreira e Capim limão. Tem muito de ambos por aqui, perto das dunas. Acordei hoje cedo e desci para apanhar um pouco para nós. Esse frio merece algo mais acolhedor que água pura. Só é triste que tenhamos tão pouca água mineral. Ou então eu teria feito mais chá. — Ela só não percebia que havia se exposto ao perido, descendo sozinha.
– Não viu nenhum zumbi, ou caranguejo? É perigoso ficar sozinha — avisei, de cara amarrada.
– Não vi, não. Irma limpou tudo mesmo. E, mesmo que visse, só precisaria correr bastante até aqui em cima. Não é como se os zumbis subissem escadas — ela ironizou.
– Até onde sabemos, eles podem aparecer voando, qualquer dia desses. Não duvido nada — o que era ma tentativa de trazê-la à realidade acabou insentivando sua maluquice, e Manu sorriu. — Sua doida...
– E não somos todas assim? — Realmente. Não éramos?
– Bem, acho que preciso concordar com você... — O sol terminava de nascer quando Cecília moveu-se na cama improvisada, e deu os primeiros sinais de que despertaria. Pelo menos ali, ela estava segura e afastada de tudo, onde poderia se restabelecer. Ela ficara ilesa demais na presença de Otávio, e eu sabia que a bomba que Topázio deixara em seu interior explodiria em algum momento. E, diante daquele quadro, eu só podia torcer por sua recuperação. Sabia que tínhamos uma estabilidade ocasional. Mas a pergunta que realmente me tirava o sono era: até quando?
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