Quebranto.
70 Faye Keiko.
Notas iniciais
Otto.
Caminhamos durante algum tempo, seguindo Helena até que nos afastamos o bastante para que eu pudesse ver a van como um pequeno ponto no horizonte, quase como um brinquedo de criança. Atenta, Helena mirava o caminho à frente, e com cuidado parecia seguir um mesmo trajeto que já fizera mil vezes. Ela tinha a silhueta magra e sinuosa, os cabelos castanhos cainco como cascatas através de suas costas, brilhantes com a luz do sol. Era bonita. Curioso, notei que ela raspava os dedos pelos vidros dos veículos pelos quais íamos passando, quase como se contasse ou se guiasse por eles. Até que parou de seguir em frente e voltou-se em nossa direção, sorrindo. O movimento sacudiu-lhe os fios longos, que voaram contra o vento de maneira um tanto desordenada, indo para sobre seu rosto.
– À esquerda, agora. Vamos sair da estrada e caminhar só mais um pouco, ok? — Parecia que o estado inicial de medo e desconfiança havia sido extinto na concepção da garota. Sua postura estava inteira mais relaxada, e isso só fazia com que os traços finos de seu rosto se tornassem mais sóbrios, lúcidos. Dino passou por mim e aproximou-se dela, enquanto caminhavam lado a lado. Mais atrás, logo vieram Dante e Hugo, que pareciam completamente exaustos. Nenhum dos dois falava nada, embora seus olhares fossem inquisitivos e alertas. Como eu, pareciam temer uma emboscada.
Saímos da rodovia, e começamos a caminhar pelo acostamento, guiados por Helena. Ela, tranquila, continuava indo em frente. Parando para recolher indicações que deixara pelo caminho, sempre guardava um pedaço de pano com cor diferente na mochila. Nossos pés raspavam na terra, enquanto entrávamos cada vez mais numa área cheia de árvores e plantas. Uma pequena mata, pela qual continuávamos a nos aprofundar sem a certeza de para onde estávamos indo. Isso começava a incomodar-me, enquanto tentava encontrar um meio de manter a todos seguros. Hugo reclamou com um suspiro ao tropeçar numa pedra coberta de musgo, e reprimi um sorriso ao ver a expressão em seu rosto. Tenazes, continuamos seguindo nossa guia pouco falante, até que encontramos uma pequena trilha na mata, e passamos a tomá-la ainda que estivesse um tanto apagada pelo tempo e desuso. No entanto, demorou muito pouco, até que notássemos os primeiros indícios da "loja" à qual Helena se referia com tanto saudosismo. Pequenos anões de jardim e peças de cerâmica, barro ou mesmo esculpidas em mármore, revelaram-nos um dos itens mais comuns da paisagem na região dos lagos. Uma loja singela, quase um chalé, para venda de produtos artesanais locais. Pequenas réplicas do Cristo Redentor se espalhavam pelo local, bem como enormes samambaias, favorecidas pelas chuvas e sol abundantes. O local permanecia tão bucólico quanto um dia já fora, acrescentando-se à ele uma atmosfera menos sombria do que qualquer outro pelo qual eu já passara. Era quase como um alívio, um oásis. Um ponto de descanso, para minha alma cansada como a de um velhote. Grande parte do meu alívio, se devia muito mais à expectativa de alimento e sono tranquilo, do que à todo aquele papo sobre experimentos, cura e ciência que Helena levantara à pouco. Notei que ela, inclusive, já se aproximava do local com Dino, e que ele parecia imediatamente estabelecer um laço com a jovem cientista. Ao notar melhor seus traços, reconheci que ela parecia este tipo de pessoa. Capaz de transmitir paz e confiança, apesar das próprias dúvidas e medo. Além de bela, tinha uma tranquilidade pessoal que me fazia lembrar de Cecília. E ninguém que se parecesse com ela, poderia ser mau. Pensar em minha namorada fez doer uma área em meu peito que eu julgara amortecida desde a nossa separação conturbada. Minhas esperanças estavam agora em Carol e Diogo, para que guardassem-na até meu retorno.
– Chegamos, meninos. — anunciou a nossa anfitriã, ainda que de maneira um tanto quanto vacilante. — No entanto, primeiro peço que me deixem avisar aos meus colegas que vocês estão aqui. Não quero que pensem que fui forçada a trazê-los, ou que acabem agindo de modo hostil. Volto em poucos instantes.
– Tudo bem. Estaremos aqui — respondi. Ao meu lado, notei que Dante apoiava-se contra um dos pequenos Cristos de pedra, enquanto Hugo sentava-se sobre uma enorme rocha coberta de limo, acompanhado por Dino que fitava o chalé pequenino com um misto de exaustão e reverência. Em sua mente pré-adolescente, as emoções todas deviam estar fervilhando. Temia o seu silêncio, uma vez que ele sempre fora o mais calado dos gêmeos. Apenas Nanda e Hugo podiam extrair dele, uma conversa mais prolongada. Um tipo de personalidade que sempre me intrigou.
– Certeza de que podemos confiar neles? — sussurrou Hugo, inseguro. Notei que ele e Dante estavam se entreolhando, e os cabelos do surfista caíram sobre seu rosto enquanto ele indicava suas dúvidas ao dar de ombros. Tenso e com medo de ter levado a nós quatro para uma furada, comecei a bolar um meio de reverter um possível quadro ruim.
– Se algo der errado, corram. Eu vou ficar e distraí-los — avisei, olhando a Hugo por cima do ombro. — Ache Cecília por mim, e permaneça com ela. Por favor.
– Não vamos te deixar aqui. Esquece isso — avisou Dino, para minha surpresa. Emocionado, mordi o lábio inferior para reprimir minhas próprias lágrimas e mantive-me atento à loja.
Nem por isso fiquei menos surpreso ao ver o homem que saía de lá com uma metralhadora de modelo desconhecido a mim, preparado para atirar. Imediatamente e numa reação reflexa, adquirida com as constantes situações de perigo, Hugo puxou Dino consigo para o solo, cobrindo o corpo dele com o seu após rolar sobre a rocha na qual escondia-se. Dante se atirou atrás de algumas estátuas, com as mãos protegendo a cabeça de estilhaços que não vieram. Eu inclusive, já estava rolando na grama em direção à mata do onde havíamos vindo, antes que pudesse registrar meus próprios movimentos. Mas, como que atestando nossa total falta de senso, nenhum estampido veio. Nenhum projétil foi disparado. Ofegante, sentei-me envergonhado e olhei na direção de onde o homem vinha. Com coturnos e calças militares, uma blusa totalmente branca e uma jaqueta de couro cor de vinho, ele sorria diante de nossa reação instantânea. Sua arma já estava apoiada no próprio ombro, enquanto seus olhos azuis eram atingidos por finas rugas de um sorriso que revelava um homem na sua faixa de quarenta anos, ou pouco menos. Era bonito, mbora de uma maneira rústica, militarizada como seu corte de cabelo bem aparado, e barba alinhada. Parecia mesmo ter tomado banho há pouco, o que diferia em muito de nossa própria aparência, esfarrapada e totalmente imunda após os últimos acontecimentos. Vindo logo atrás dele, entrava em meu campo visual uma corada e humorada Helena, que caminhava próxima de uma nova pessoa. Uma mulher, a qual minha intuição dizia ser aquela por quem eu estava ali.
Calçava sapatos de salto alto negros reluzentes, e meias escuras que subiam por suas pernas até ocultarem-se sob a saia social também negra, que envergava. A parte superior de seu corpo vinha coberta por uma blusa de seda branca, com gola alta a conferir-lhe aparência régia. O jaleco longo que ultrapassava-lhe os joelhos era limpo e bem conservado. Não parecia sequer realmente sujo ou gasto, o que era muito raro considerando o local no qual estavam. Não havia sinal ou sons de errantes e criaturas por perto, desde o zumbi encontrado próximo à van. Isso conferiu mais tranquilidade ao momento, no qual analisei o rosto de traços orientais da mulher à minha frente. Pele pálida e rosada nas bochechas, olhos negros, e cabelos extremamente brilhosos e lisos presos por dois palitos pretos de plástico, que mantinham-nos em coque mal executado. Assim como o homem armado à sua frente, não parecia acostumada com o atual estado das coisas. Não pareciam sequer adequados àquele mundo sem cor, ao vestirem roupas tão limpas e bem conservadas. Não me causava inveja, em absoluto. Embora não tivesse mais roupa alguma das que eu levara para minha viagem na formatura, nunca fui muito cobiçoso ou aproveitador. Recusava-me a sentir qualquer coisa naquele momento, além de alegria por ter encontrado alguém que pudesse me ajudar a encontrar meus amigos. Aproximando-se de nós com uma cara engraçada, a doutora passou direto por mim e ajudou Hugo a se levantar, sorrindo para Dino em seguida. Ele a fitava, enquanto a mulher mexia em um de seus bolsos, para tirar uma bala de aparência dourada e atrativa, que estendeu a Dino, sorrindo.
– Olá, querido. Eu sou Faye Keiko — apresentou-se, erguendo o olhar para todos. — Arantes, guarde esse armamento pesado. Está assustando nossos hóspedes, além de estar correndo o risco de acabar machucando alguém por engano — pediu, e não parecia pouco séria. Assim foi feito, mas o militar parecia pouco satisfeito com a situação.
– Bem Helena, parece que seus amigos são bons mesmo. Pelo menos, em se esconder... — Rindo, apoiou a arma travado no próprio ombro. — Você tem cara de quem passaram por poucas e boas. O mesmo olhar de sobreviventes que chegavam na Fortaleza, vindos de toda parte. A reação automática ante minha arma também os entregou. É de admirar que tenham mantido um menino tão jovem vivo.
– Não sou mais criança — respondeu Dino, sem sorrir.
– É claro que é — objetou a mulher asiática. Ela remexeu em seu bolso, no lado esquerdo do jaleco, e de lá retirou um pequeno doce caramelizado, coberto com um pequeno embrulho plástico. — Balinha de coco. Eu mesma fiz na cozinha da Fortaleza. Parece até que foi há muito tempo. É minha última. Pega.
– Um doce de verdade? Legal! — Dino animou-se todo, o olhar aceso indicando que Keiko não poderia estar mais certa. De fato, a criança que todos nós por diversas vezes havíamos tentado preservar, se mostrava. O que me trazia alívio, considerando os motivos para que mesmo aquele lampejo já tivesse sido tirado do rosto do menino.
– Sinto pelos movimentos bruscos de Arantes. Ele costuma reagir dessa forma desde que perdemos os pais de Helena. Nosso grupo foi reduzido para quatro. Somos apenas eu, Helena, meu estagiário e Arantes — contou-nos a doutora, com expressão um tanto cansada, quando pude fitá-la melhor.
– E por estagiário, ela refere-se ao meu filho, que foi banido da Fortaleza por participar das pesquisas dela. Eu teria motivos para ser contra essa coisa toda, mas na verdade, acho que os Nove estão totalmente doidos, por não perceberem a importância que a vida desta mulher possui — resmungou, sentando-se num dos degraus de madeira que levavam à varanda da frente do chalé artesanal.
– Ou eles perceberam, e justamente o que querem é eliminá-la. — Hugo estava pensativo, mas eu conhecia aquela expressão. Ele era veloz no que se tratava de deduzir o comportamento humano. Quase tão perspicaz quanto eu. Talvez fosse por isso que éramos tão amigos. Nossas mentes funcionavam de forma parecida. Eu também começava a ter cada vez mais certeza de que Faye não cometera crime alguns. E de que os verdadeiros criminosos, estavam no poder. O que não era muito diferente do passado, para dizer a verdade.
– E é isto o que me deixa mais angustiada — explicou Helena, aflita. — Em breve, tudo o que reunimos estará perdido. Estamos usando conservadores térmicos movidos com alimentação nuclear à base de urânio, mas logo vamos ter que nos entregar em prol da preservação da pesquisa. Se bem que, se tudo o que querem é impedir um progresso real, é bem capaz de nos matarem e destruirem tudo em seguida.
– O que eu construi precisa continuar vivo. Qualquer preço a pagar, é pouco. — explicou a doutora Keiko, afastando-se de Dino e caminhando em minha direção. Ela fitou cada um de nós com profundidade, escrutinando nossos olhos. — É uma pena que nenhum de vocês seja inumano. Acredito ter descoberto uma forma de fortalecer o organismo daqueles que já possuem tolerância e adaptabilidade ao vírus, suprimindo assim seus poderes e quaisquer traços de insanidade que possam ter adquirido devido ao GM.
– GM? — repeti, confuso.
– Sim, o nome oficial do "vírus do urso", como ficou conhecido. A verdade é que os ursos do Canadá foram apenas os primeiros a morrerem com a gripe que o GM provoca. E não os primeiros hospedeiros da coisa. O GM foi criado pelos seres humanos, fruto principal de uma das maiores empresas farmacêuticas da América do Sul. Eu estava diretamente envolvida no projeto, sendo herdeira da Companhia que disponibilizou as instalações para o projeto. Também fomos patrocinados pelo Governo, em segredo. Uma coligação entre o Brasil, a Argentina, o México, o Chile e a Venezuela. Recursos e cientistas de todos estes países foram enviados para o Rio de Janeiro, onde a sede da Keiko Enterprise funcionava à centenas de metros abaixo da superfície do mar. — Ouvir todas aquelas coisas tornava tudo irreal demais, e ainda assim, era um tanto quanto enervante descobrir que a maior desgraça já ocorrida ao homem, fora para variar, provocada por ele.
– O que aconteceu com essa base secreta? — Dante possuía apenas um fio de voz. Creio que ele estava tão chocado quanto eu.
– Foi evacuada e destruída pelo FBI. Os Estados Unidos eram os principais interessados na execução do projeto, fora da América do Sul. Quando tudo começou a ir pelos ares, o Brasil e a Argentina solicitaram apoio. Infelizmente, explodir a base não só contaminou o oceano, mas tornou o vírus ainda mais versátil, fazendo com que se espalhasse rapidamente através da pesca, e de qualquer indivíduo que tivesse contato com aquela região. Nosso paciente zero era um dos agentes que destruiu a base no Rio. Ele estava em Vancouver, no Canadá, visitando a mãe. Foi quando morreu com os sintomas da gripe. Depois dele, os ursos. O resto, vocês já sabem...
– Mas, se você sabe de tudo isso e o Governo também sabia, por que não disseram tudo desde o princípio? Por quê não alertar à população, e assim conseguir um lugar seguro para todos? — Antes que Hugo terminasse de falar, o mirei. Ele sabia a resposta. — Não havia um lugar seguro para todos. Quem já sabia, não avisou à população de propósito. Ninguém queria ter a própria segurança prejudicada. Os poderosos deixaram todos morrendo, enquanto escaparam.
– Em tese, foi exatamente esse o planejado. Mas algumas pessoas resistiram. Um empresário carioca, meu marido, recusou-se a deixar as pessoas às cegas. Por causa disso, ele perdeu a filha e a esposa anterior. Eu também me recusei a fazer parte do esquema, e tentei de qualquer forma encontrar alguém resistente ao vírus. Montei uma equipe de triagem na ponte Rio-Niterói, tentando encontrar um paciente em potencial, com resistência à infecção. Mas as coisas saíram do controle rapidamente, e eu...
– Espera — interrompi Keiko, meus lábios escancarando-se de surpresa e de susto, com uma lembrança reprimida há muito. No entanto, os últimos dias antes que eu soubesse exatamente o que estava acontecendo, insistiam em não sair da minha cabeça. Como coisas da infância, que lembramos independente da passagem do tempo. Reconheci a razão para que Keiko me fosse tão familiar. Ela era a médica asiática que nos atendeu, enquanto eu tentava chegar à Cabo Frio com Luca, Ana, Carol e Vicky. Tínhamos fugido rápido demais quando um dos policiais havia passado mal e vomitado em Carolina, mas o rosto dela me era claro, pois eu a ficara admirando durante todo o exame pelo qual havia passado. Ela inclusiva ralhara conosco, por causa de nossa total falta de noção. — Eu conheço você. Passei por você na triagem para cá. Eu e meus amigos. Você nos chamou de irresponsáveis, e nos alertou para a situação crítica que estava ocorrendo.
– Vocês fugiram quando um policial vomitou sangue na sua amiga! — Helena estava chocada, assim como todos os demais. — Cristo, que coincidência! A garota coberta de sangue está bem?
– Ela e as outras duas meninas que estavam comigo, estão separadas de nós. Meu amigo ruivo já faleceu à uns dez ou nove meses — afirmei categórico. Ela assentiu, calada. — Acredito em você, Faye Keiko. Temos inclusive duas inumanas com nosso grupo. Uma é minha namorada, e outra minha irmã de consideração. Nenhuma das duas se negaria a ajudar, mas temos que encontrá-las. E para isso, precisamos estar preparados.
– Se querem vocês mortos, então com certeza enviaram alguém pra garantir isso — comentou Dante. — É o que Topázio faria.
– Nem me fale no nome dessa desgraçada... — resmungou Hugo, com a mão no ombro de Dino enquanto o garoto mastigava seu doce. — Aceitamos ajudar a vocês. Vamos testar essa cura e provar aos Nove que Keiko é inocente.
– Não podemos deixar que os Nove enganem às pessoas — afirmei, concordando. — Nossa jornada vai terminar na Fortaleza. Vamos expor os mentirosos, e conseguir um lugar realmente seguro para nós.
– Não podemos esperar ser recebidos com naturalidade, nem temos como garantir que não vão atirar em nós assim que descermos do barco que usamos pra vir pra cá. Eles já conhecem o Odisseu, vão atacar assim que o virem. — avisou Arantes.
– Não tem problema — riu Hugo. — Quando você conhecer nossos amigos, vai perceber que uma encrenca nem de perto nos desanima.
– Então, Helena, devo dizer que esses meninos são os recursos mais preciosos que você já teve a sorte de encontrar. — Keiko estava aliviada, por assim dizer. — Por favor, entrem. A primeira coisa que precisamos fazer é limpar e trocar essas suas roupas. E comer. Depois combinamos o resto.
Fiquei feliz em concordar, seguindo o fluxo para o interior do intrigante chalé. Antes de passar pela porta, senti um estranho arrepio no antebraço direito, ao sentir a mão de Helena na minha. Ela me puxou para dentro sorrindo de leve, e seguiu adiante antes que eu pudesse registrar que o momento havia passado. Não era aquele o tipo de encrenca que eu estava esperando. Dante estava me olhando de esguelha e sorrindo sarcástico, enquanto que minhas bochechas ardiam diante de tamanho problema.
Hugo.
Não era como se eu tivesse uma opinião além da óbvia à respeito de tudo o que Faye nos dissera. Realmente achei um absurdo que nenhum dos envolvidos naquele projeto biológico tivesse sequer tentado proteger a população comum de suas ações, mas nenhuma parte daquele conto macabro de terror, me surpreendia. Eu tinha certeza de que, em outras partes do mundo, coisas até piores e mais bizarras poderiam estar rolando mesmo antes daquele vírus sinistro detonar com tudo. O que me surpreendia mesmo, era que tudo houvesse começado conosco. Sempre achei que um desastre do tipo começaria em qualquer outra parte do mundo, que não a nossa. Bem, talvez o Brasil não tivesse tido muito escolha, afinal. Era no Rio onde a base da empresa farmacêutica da família da Keiko ficava. Depois que eu havia tomado um banho de esponja (eles tinham água, e ainda por cima doce), coloquei algumas das roupas de Esdras, o filho do Arantes. O corpo dele se parecia com o meu e o de Otto, então suas peças nos serviriam por um tempo. Com um dos suéteres de lã do estudante de biologia, eu parecia mais um dos estagiários de Keiko, bem como Otto. Dante usava uma camisa maior do que ele, e uma calva que poderia ser até dois números mais larga, presa pelo cinto que ele utilizava antes. Apenas Dino, não teve muito o que fazer. Manteve a própria calça, vestindo-a novamente ainda que suja, e colocou uma das camisetas de Esdras, que ficava até bem em seu corpo em desenvolvimento. Afinal, o acadêmico não era lá muito encorpado. Com seus cabelos castanhos totalmente comuns e olhar cuidados, ele monitorava todos os recipientes térmicos mantido com baterias de hidrogênio e urânio. Usava luvas quando mexia em alguma das amostras, e um jaleco como o de sua chefe, ou mentora por assim dizer. Ele não devia estar recebendo mais, mesmo. Devia fazer aquilo tudo pelo prazer do conhecimento. Ou só pra ter um objetivo na vida, o que era exatamente a minha motivação.
Aproximando-me de Dante, não notei que ele havia parado de comer e estava me encarando. A mesa no centro do chalé estava cheia de frutas, comida desidratada, e galões de água potável. Segundo Arantes, tudo havia sido transportado do porto até ali, mas eles haviam perdido o jipe para o grupo de inumanos que haviam assassinado os pais de Helena, quando os encontraram pela primeira vez. Provavelmente tudo isso teria sido mais fácil se nós os tivéssemos encontrado primeiro, assim que chegaram. Talvez se a boate nunca tivesse aparecido em nosso caminho, muitos de nós que se foram estivessem vivos. Mas aí eu nunca teria conhecido Dante, ou Cecília. Dava na mesma, no fim das contas. As coisas eram como deviam ser. Pigarrei quando notei que aos poucos, todos estavam parando para me observar. Voltei a comer sem dizer nada, e seguiram meu exemplo. Eu estava bem. Só confuso, e tenso por não saber o que pensar de tudo o que eu ouvira. Ana saberia exatamente o que dizer. Assim como Vicky, ou Rico. Todos estavam longe de mim, e isso me fazia sentir bem mais inútil do que o habitual, ainda que Dante se esforçasse para me manter com bom humor. A relação que eu começara a desenvolver com Sabrina antes de nos separarmos, também parecia ser o início de uma boa amizade. Pensei em como ela poderia estar, e se Carolina a estaria enlouquecendo muito. Diogo também devia estar às voltas com o trabalho de proteger Cecília e Manuela. Suspirei. Eu tinha que encontrá-los.
– Você não comeu quase nada. Achei que ia estar faminto. Não estávamos comendo muito bem na pousada. E aqui eles têm tudo. Devia aproveitar. Nossos amigos não devem estar tendo tanta sorte — cobrou-me Dante, sentando no braço da poltrona que eu havia escolhido. Otto estava no quarto de dividiria com Esdras e Dino, no andar superior. Ali no térreo, havia o quarto das garotas, e outro que eu dividiria com Dante. Arantes dormia na sala, num sofá ao lado de onde estávamos.
– Eu meio que me acostumei a comer pouco — confessei, indiferente. — Não tive apetite. Estou pensando demais.
– Nele, né? — resmungou Dante, como se não soubesse a resposta.
– Sim. Qual o problema? — ergui uma sobrancelha, desafiando-o a dizer o que sentia.
– Nenhum, afinal ele é seu primo. Mesmo que vocês não fossem o que são um para o outro, não teria problema algum — dissimulou. — Só não quero que você perca o foco por isso, Hugo. Não esquece que é justamente pra encontrar nosso pessoal, que estamos aqui — ele colocou uma das mãos sobre meu ombro, e apertou massageando. Revirei os olhos involuntariamente, morrendo de cansaço. Meu corpo estava todo doído, alerta e exausto de muitas formas. — Você tá quase dormindo. Quer ajuda pra ir pro quarto?
– Acho que vou ficar por aqui mesmo — resmunguei. Ele bufou, e me puxou da poltrona como se fosse nada, jogando por cima de um dos ombros. Xinguei-o de bastardo das cavernas, o que o fez rir e sacudir aqueles cabelos compridos, que acabaram fazendo cócegas em mim. Me remexi no seu aperto rindo, e acabei escorrengando. Caí ao lado de seu corpo, o puxando pela blusa para o chão junto comigo. O tecido rasgou um pouco, e o baque surdo fez Arantes se remexer em seu sono. Ele abraçou com mais afinco sua metralhadora, e voltou a dormir. Com o peso e o hálito de Dante em cima de mi, me peguei consciente demais dos olhos dele na minha boca. Como se estivesse considerando o que fazer. Com a mão fechada em punho, toquei seu peito e o empurrei para trás, desconfortável com aquela proximidade, e o calor humano que se tornava além da conta. — Você nem faz ideia do quão melhor é a gente parar por aqui.
– O senhor está muito convencido, Hugo Shepard. Eu nem ia fazer nada — debochou, como se de alguma forma pudesse me enganar. Dei de ombros, e comecei a me afastar em direção ao quarto. Ele pareceu um tanto animado demais com a provocação, e me seguiu sem dizer nada.
Sem pensar em mais nada, me joguei na cama dura e virei de cara para a parede. Os olhos fechados com força em poucos minutos deram lugar à uma sonolência genuína, embora eu não conseguisse realmente dormir. No escuro após termos soprado cada um, a sua vela de cabeceira, suspirei. Eu sabia que Dante estava de olhos abertos, me encarando do outro lado. Aquilo era muito esquisito, e eu sabia que era errado dar esperanças a ele sabendo que nada surgiria daquilo, mas era a primeira vez que eu admitia para mim mesmo a possibilidade de haver uma atração real. Nunca tinha sequer cogitado tal possibilidade, antes.
– Acha que estão preocupados com a gente? — ouvi a voz de Dante, ecoando no cômodo. — Até comigo? Não sou muito próximo de ninguém além de você. Quer dizer, Manuela é próxima a mim, mas Lavínia é quem passava mais tempo comigo. Me sinto mal pelo modo como ela se foi. Não conseguimos fazer as pazes... — senti a voz dele vacilar, embargada. — Por vezes acho que seria muito mais fácil se eu pudesse ter aceitado estar com ela. Sinto-me culpado toda vez em que ouço os gritos dela na minha cabeça, outra vez. Hugo, sei que te coloco em posição difícil, com mais frequência que o saudável. Mas, entenda que vou aceitar qualquer coisa de você. Até sua amizade, que é muito importante pra mim.
– Você também é importante pra mim, Dante. Não posso dizer pelos outros, mas eu ficaria louco se estivesse separado de você — falei sem pensar. Imaginar as diversas conotações daquela frase fez meu estômago tremer. — Lavínia simplesmente não aceitava quem você é. Ela não era uma santa, só uma garota bondosa e gentil que não soube lidar com uma rejeição. Alguém que era ingênua e pacífica demais para o próprio bem, nesse mundo. O que houve com ela, poderia ter sido com qualquer um. Estamos todos sujeitos a isso, infelizmente. Esquecemos com muita facilidade que os mortos são uma ameaça implacável, subestimando a falta de velocidade e esperteza deles. Mas uma coisa é certa, temos que fazer o possível para nunca sermos esquecidos. E quanto a isso, você pode se despreocupar. Assim como Lavínia vive na sua memória, você também vive na minha.
– Ok. Você é muito legal, Hugo. De verdade. Espero que quando se apaixonar de verdade, encontre alguém que te ame na mesma proporção — desejou-me, o que me deixou intrigado e um tanto quanto irritado. Ele estava ignorando a existência de Rico, agora?
– Eu sei o que está pensando. E já te disse. Ele não te ama — e com essa, Dante resolveu dormir, deixando a mim sem sono. Maldito.
Sem alternativas, arrastei-me para a varanda do chalé, encostando-me à uma das paredes enquanto o sol começava a despontar no horizonte. A paisagem da pequena trilha que levava à mata e depois à estrada cheia de carros abandonados, era ao mesmo tempo insólita, apocalíptica e mítica. Muitos tons e cores se misturavam num único esboço da perfeição, numa única fração da existência. Lilás, laranja, rosa, amarelo, verde, cinza, azul e branco. Tudo junto. Tudo em harmonia, e ao mesmo instante, desolado. Uma pintura esvaziada e desvalorizada pelo tempo. Estranhamente, não senti dor de cabeça, o que já era um avanço. Meu corpo realmente devia estar um pouco mais relaxado. Não havia também sinal de zumbi, ou de criatura por perto, o que por si só já era uma coisa feliz.
– Bom dia — cumprimentou-me Faye, esfregando os olhos. Ela não parecia ter dormido mais de cinco minutos, entre a noite e o dia seguinte. Ainda assim, isso seria mais do que eu. — Insônia é a chaga dos preocupados. Qual é o seu problema, Hugo?
– Relacionamentos. Patético, né? Você aí encarregada de um antídoto capaz de curar o mundo, e eu aqui ridículo. Falando de amor...
– E o amor não cura? — ela riu. — Escuta, eu sou só uma mulher, também. Não veja apenas a doutora. Posso ser sua amiga, embora seja cedo, para nos conhecermos mais a fundo. De todo modo, me procure sempre que precisar — tomou uma de minhas mãos na sua. — Vou adorar conversar e jogar conversa fora.
– Ok, eu te procurarei em breve — brinquei, usando como referência a frequência com que estou sempre enrolado com meus próprios sentimentos e desejos.
Juntos, eu e Faye tomamos o café da manhã, e começamos a conversar por várias coisas, mas a principal, eram trocas de informações sobre o marido dela, e meu trabalho. Na mesma poltrona, com as pernas dela sobre minhas coxas e minha cabeça apoiada em seu ombro. Bebericamos nosso café e choramingamos sobre a vida. Não sei em que ponto, mas aposto que quando todos chegaram à sala, espantaram-se com o sono que eu e ela estávamos tendo, de restauração. Ninguém ousou acordar, à despeito disso. Ainda que longos e tortuosos fossem os caminhos à frente, teríamos de encarar. Para mim, a batalha não era novidade. Nem mesmo a que envolve sacrifício. Que outros considerassem aquilo muito difícil ou surreal. Por mim, eu estava muito contente com o plano traçado para minha vida. Encontrar meus amigos. Deixar Búzios para trás. E recomeçar minha vida, na Fortaleza. Mesmo que eu tivesse que me unir à uma conspiração para isso.
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