Quebranto.
106 Estranho.
Notas iniciais
Otto.
Enquanto as pessoas atiravam umas contra as outras, e o ar parecia gritar enquanto as balas o rasgavam, escondi-me atrás de umas das vigas do palanque. Eu sabia que não faria bem algum continuar exposto, não quando minhas possibilidades de ajudar eram tão limitadas. Rastejando para longe da confusão, acabei passando ao lado do corpo de Martha. Se eu a tivesse protegido, talvez ela ainda estivesse viva. Não vi quando a atingiram, pois estava mais preocupado em tirar Victoria de uma enrascada. Mas era tarde demais. Preso pelos valentões de João, tudo o que pude fazer foi ficar quieto enquanto era arrastado como um saco de batatas. De longe, vi Allan correr na direção do Hospital. Deus, que ele estivesse bem. Não havia muitos pontos onde pudéssemos nos esconder por ali, e alguns zumbis ainda perambulavam pelo local. Ao perceber que ninguém estava mirando em mim, corri na direção dos corpos de alguns moradores que haviam sido abatidos durante o conflito. Enfiei-me embaixo de um dele, espiando por uma brecha entre um braço e uma perna que não me pertenciam. Ainda não estavam cheirando mal, contudo os mortos saberiam a diferença. Certamente ignorariam minha presença. Eu não poderia estar num lugar mais seguro. No simples momento em que permiti a mim mesmo tomar fôlego, compreendi finalmente o que estava acontecendo. João havia retornado à plataforma. Ele atirou na testa de Manuela, e ela caiu lentamente, para trás. Victoria também parecia ter sido gravemente ferida, e havia sangue ao seu redor. Como aquilo podia estar acontecendo?
Segurei a vontade de chorar e cobri minha boca com as mãos, sentindo as lágrimas arderem. Minha visão foi brevemente bloqueada por um zumbi que passou ao meu lado. Ele ainda caminhou por alguns metros antes de ter seu uniforme cinza manchado de sangue pela última vez. Com um ferimento à bala na cabeça, caiu em frente ao meu rosto. Seus olhos mortos encaravam-me, enquanto eu via Hugo sob a mira de João. A mente por trás de toda aquela loucura não parecia ter mais a perder. João sabia que enquanto as pessoas do hospital retornavam dispostas a lutar e Allan parecia ter o apoio de mais atiradores do que ele, seus planos estariam arruinados. Mas foi fácil compreender seus instintos. Ele levaria quantos pudesse consigo. Quando ele finalmente disparou contra a cabeça de Hugo, eu não estava surpreso, apenas devastado. Hugo não pareceu perceber o que havia acontecido. Olhando chocado em direção ao corpo de Manuela, ele sobressaltou-se ao ouvir o disparo. Mas o projétil não chegou ao seu destino. Parado a mais de trinta centímetros de distância do corpo de Hugo, a pequena cápsula de metal girava em torno de seu próprio eixo, contida como que por uma força invisível. Assustado, ele olhou na direção da bala, e parecia totalmente fora de si. Seu olhar vago percorreu o local, enquanto João Pedro afastava-se, totalmente apavorado. Ele caminhou para trás rapidamente, e dois dedos de Hugo se moveram. O homem caiu, tropeçando no vazio. Em seus olhos, o medo da morte. Nos de Hugo, nada além de uma profunda e triste severidade.
– É como Carrie, a estranha... – Sussurrei, totalmente por fora do que diabos estava acontecendo. Como? Bem, não importava muito se fosse o bastante para nos livrar daquele pesadelo. Olhei para a plataforma e vi os olhos de Dante abrirem-se, ainda desfocados. Ele arrastou-se para Victoria, como que instintivamente. Eles precisavam sair dali. Mas eu não conseguia me mexer. Acho que estava apavorado demais para lidar com aquilo. Porque pela primeira vez, eu não tinha plena fé de que conseguiríamos dar um jeito. Ao menos Cecília estava segura com os gêmeos.
Os traidores e assassinos que ainda estavam vivos, viraram suas armas na direção de Hugo. Com uma chuva de disparos, o ar encheu-se de projéteis paralisados. Eles formavam um desenho disforme em frente ao rapaz, que parecia tremer um pouco a cada impacto em sua redoma invisível. Ele girou-se lentamente na direção dos atacantes, os ombros um tanto envergados como se um mestre de marionetes o manipulasse. Seus dois braços ergueram-se meros centímetros, e todas as balas foram dispersas, caindo inutilmente. Então, pude notar a mudança em sua expressão. O medo e o choque recuaram, e o vazio coloriu-se de vermelho, enquanto a raiva e o ressentimento faziam acampamento em sua face. Como se somente ele pudesse tocar em cordas invisíveis, Hugo movia seus dedos. Numa sinfonia de piano demoníaca, pude ouvir pescoços sendo quebrados e corpos caindo. Gorgolejares e engasgos eram emitidos através das máscaras negras, e Hugo não parou sua chacina nem mesmo quando uma grande quantidade de sangue começava a escorrer pelo seu nariz. Repentinamente, todos ali estavam mortos. Abismados, todos aqueles que tentavam impedir João Pedro olhavam para o garoto, absortos naquele instante de total incredulidade.
Então Hugo olhou para João. Como se não pudesse se conter, ele ergueu suas mãos na direção do médico. Um grito ensurdecedor deixou os lábios dele, que tremia e debatia-se em agonia. O sangue espirrou num esguicho medonho, enquanto unhas invisíveis rasgavam-no do peito até o estômago. Afogando-se no próprio sangue, João Pedro morreu sozinho e com medo. Mesmo eu estava assustado. O que diabos significou aquilo? Senti os corpos acima de mim serem removidos contra a minha vontade, e virei-me pronto para atacar quem quer que estivesse tentando me pegar.
– Otávio? – Tássio sorriu, um tanto surpreso. – O que faz aqui, meu jovem?
– Escondendo. – Ele ofereceu-me a mão, e fui hasteado. Ao lado dele, reconheci Matias mexendo nos corpos. – Obrigado por voltar.
– Era o plano desde o início. Consegui salvar o Conselheiro Tássio, e planejamos correr até o Hospital e conseguir armamentos. Allan sabia disso o tempo todo. E sabíamos que João tentaria poupar alguns de nós. Para parecer justo. – Ele olhou para o palanque. – O que há com o Hugo? Ele não tem olhos estranhos. Vocês não contaram que ele era transgênico.
– Eu não sabia disso. – Disse, chocado. – Ele não foi mordido. Nunca.
– Então, o que ele é? – Tássio estava confuso, mas não mais do que eu.
– Algo novo. – Respondi, desejando que estivesse errado.
De longe vi Allan segurar Vicky no colo, erguendo-a junto ao peito. Escorria sangue do seu braço, e dava para notar que o tecido preto em sua perna estava molhado. Ela precisava de ajuda urgente. Corri na direção deles, tropeçando um pouco na escada e desviando do corpo estripado de João. Uma voz na minha cabeça gritou que ele retornaria em breve, mas não me importei. Hugo ainda estava de pé ali do lado, vendo a vida passar. Acho que apenas o seu corpo estava ali. A cabeça parecia distante. De uma forma confusa, eu não quis ficar perto dele. É um sentimento esquisito, de se sentir um inseto sob a mira de uma raquete elétrica. Ele poderia matar qualquer um naquele lugar, e mesmo grato por ter sido salvo, não conseguia enxergar essa variável de um jeito legal. Dante estava olhando para ele, enquanto Nanda tentava ajudá-lo a ficar de pé. Ele parecia fazer força para respirar, o que era preocupante. Nunca havia sido um expert em biologia na época da escola, mas um tiro no ombro poderia muito bem ter ferido o seu pulmão ou coisa assim.
– Nanda, temos que levá-lo para o Hospital. – Avisei, olhando nervoso deles para Hugo. – O que aconteceu aqui?
– Eu não sei. Mas ele não pode ficar assim. – Interferiu Dante, respirando fundo. – Ele está olhando para ela. – Ele apontou, e vi Manuela com os olhos ainda abertos, encarando a escuridão eterna.
– Otto, ainda precisamos tirar Diogo e Carolina daquela sala de controle. – Fernanda aproximou-se, apoiando o corpo de Dante. – Sem a senha de Agnes, acho que só o Hugo pode abrir aquela porta. À força.
– Eu levo o Dante para o Hospital. – Senti uma mão no meu ombro, e virei-me para encarar Arantes, que parecia ferido, mas são e salvo. – Vão vocês. Tirem a Carol de lá.
– Não vou pra lugar nenhum. – Dante recusou, tentando se debater. Ele tossiu com força, e um pouco de sangue sujou a sua mão. – Hugo precisa de mim.
– Verdade. E de preferência vivo. Pode levar, Arantes. – Acrescentei, aproximando-me de Dante e tocando-o no ombro bom. – Eu e Hugo somos próximos, você sabe disso. Eu posso chegar até ele. Mas só se eu puder garantir que você está bem. Me ajuda aqui? – Ele concordou. Ótimo. Não deixe que Tânia saiba sobre a Manuela ainda. Os outros precisam dela. – Eles afastaram-se, enquanto Nanda permanecia ao meu lado. Trocando um olhar com ela, apenas caminhei até Hugo, olhando para ele como se estivesse tentando tirar um gato de uma árvore. – Hey, Hugo. Acabou. Estamos bem, graças a você.
Hugo olhou para mim como se não pudesse me ver, realmente. Uma das mãos dele ergueu-se, e senti todo o meu corpo tremer. O seu dedo indicador da mão direita mexeu, e o pescoço de João foi quebrado. Então realmente olhei para o seu rosto. Havia sangue escorrendo de seu nariz, e seus olhos estavam completamente negros, as pupilas dilatadas até que todo o verde havia sumido. Seu olhar contraiu-se, e Hugo caiu de joelhos. Nanda e eu corremos para ajuda-lo, e ela o abraçou pelos ombros. Ainda observando, fiquei surpreso quando ele se inclinou e fechou os olhos de Manuela. Estávamos num momento de estranha paz e dor, e simplesmente não tenho palavras o bastante para definir a tristeza daquele momento. Quando Hugo escondeu o rosto no pescoço de Nanda e começou a chorar, reconheci o meu amigo novamente. Ele ainda estava ali. Todo o resto ficaria bem.
– Querido, eu sei que dói. Mas precisamos tirar Diogo e Carolina daquela sala. A vida deles depende disso. Acha que consegue repetir o que fez aqui fora? – Fernanda estava com pressa. Óbvio. Eles tinham bem menos de uma hora, agora.
– Acho que sim. É como ter um braço a mais... – Ele esfregou o sangue para longe do nariz. – Dói um pouco. O Dante está bem?
– Vai ficar. Graças a você. – Respondi, já me levantando. Eles seguiram o meu exemplo, e vimos Matias aproximar-se parecendo assustado com toda a destruição. – Pode levar o corpo de Manuela para longe daqui? Seria muita bondade.
– É claro. Sei como é triste vermos alguém que amamos nesse estado. Quando salvarem a Carol, você diz a ela que sinto muito por ter sido um idiota? – Fiquei com pena dele. De repente, não era mais tão difícil vê-lo como parte do grupo. Talvez toda aquela gente pudesse ser a nossa família, no fim das contas. Eram pessoas como nós.
– Eu digo. Mas ela vai querer ouvir de você. – Sorri, e ele correspondeu-me. Juntos, deixamos o palanque de madeira, mas antes que virássemos as costas, Nanda segurou a minha mão. Hugo estava parado encarando a estrutura. As vigas tremeram e desabaram, levantando um pouco de poeira enquanto estalavam e reviravam toda a parte superior. Os corpos de Agnes, Hélio e outros zumbis ficaram perdidos no meio da confusão, mas não foi como se Hugo estivesse ligando. – O que foi isso?
– Um teste. Vamos lá arrancar aquela porta da parede. – Rebateu Hugo bem baixinho, sob o braço protetor de Nanda. – Quero ir logo para o Hospital, e ficar perto do Dante.
– Acha que a Faye ficou bem? Digo, ela não apareceu no fim das contas. Deve estar no Laboratório, onde a deixamos. – Fernanda ia um pouco mais a frente, e pude ver sangue e sujeira em seus cabelos, por trás. Falando enquanto caminhava, ela parecia lutar contra o próprio fôlego. – Talvez Vilma e Dino tenham descoberto a Francine. Ou ela desistiu do plano.
– Allan certamente já enviou sentinelas para a Escola. As crianças estão bem. Até os traidores tinham filhos por lá. Não estarão feridos. Acho. – Sacudi a cabeça, pensando em Cecília e no nosso bebê. – Primeiro resolvemos isso, e daí vemos o que está rolando. Ok?
– Ok. – Os outros concordaram, e automaticamente nossos passos aceleraram.
Quando chegamos à bifurcação que dividia o caminho que levava ao Pátio Central no meio, Matias acenou para nós e continuou sua caminhada silenciosa com o corpo de Manuela. Ao longe, pude ver os longos cabelos negros dela, caídos sobre um de seus braços. Segurei o lamento em minha garganta, tentando evitar a sensação de náusea que aquela visão me trazia. Eu não sabia por quando tempo Hugo permaneceria estável, e não podia arriscar a vida de mais amigos. Entramos nos Dormitórios e corremos para a recepção, passando direto pelos monitores ligados. Na penumbra silenciosa, as lâmpadas fluorescentes e o zumbido das câmeras que se moviam sozinhas, eram assombrados. Nossos passos ecoavam ao nosso redor, como pequenos ecos dos corredores cheios de gente, que vibravam com as cores de cada um dos setores da Fortaleza. Toda aquela ordem, completamente destruída com a nossa presença. Como se a própria Morte nos acompanhasse. Talvez eu devesse ter dado ouvidos às suspeitas de Cecília, e entendido as razões para que ela estivesse tão preocupada. Havia sido um estúpido, e agora a minha burrice parecia ainda mais grave. Não via a hora de encontrá-la e pedir desculpas. Não foi difícil encontrar o corredor certo, considerando a bagunça que havia sido feita para acessar a sala secreta. Completamente revirada, a pequena despensa de produtos de limpeza parecia ter sobrevivido à um terremoto, enquanto a grossa porta de metal jazia imponente, à nossa frente. Lembrava muito uma escotilha de navio, com uma daquelas manivelas circulares que trancavam o cômodo. Um painel eletrônico brilhava em vermelho, sinalizando que a passagem permanecia bloqueada.
– Acho que se o Hugo arrancar esse troço com a energia ligada, pode começar um incêndio. Esses produtos de limpeza são inflamáveis. Melhor não arriscar. – Avisei, cansado da caminhada apressada. Ouvindo o som da minha respiração, dei passagem para que Nanda alcançasse o painel. Com um golpe certeiro e rápido, ela fincou suas unhas na telinha de vidro, que piscou em verde e apagou-se de fez. Ao desligar-se, a energia caiu instantaneamente na despensa, deixando-nos no escuro.
– Gente, é melhor vocês saírem da frente. – Pediu Hugo, com a mão esticada na direção da porta. – Merda. Isso dói pra caramba. A Jean Grey fazia parecer tão fácil. – Ele estava quase chorando, mas eu podia ouvir o estalar sob o concreto. Rachaduras cortaram a parede ao redor, e estalos ainda mais altos começavam a liberar o guincho desesperado do metal ensandecido.
Hipnotizado pelo fenômeno que se desdobrava à minha frente, quase bati com o queixo no chão no instante em que Fernanda puxou-me bruscamente para longe de uma viga de ferro que se soltara da parede. Caímos juntos, ainda em tempo de assistirmos a grossa estrutura metálica fender, dobrando-se como uma gigantesca moeda forçada a curvar-se ao meio. Parado diante do enorme buraco na parede, Hugo tremia. A mão ainda estendida na direção da sala de vigilância. Nanda e eu levantamo-nos de maneira desajeitada, e ela correu para apoiar nosso amigo, cujo rosto já parecia extremamente vermelho e cansado. Pousei a mão em seu ombro por alguns instantes, e logo entrei no cubículo à frente. O ar parecia denso e abafado, o que significava que havíamos chegado bem na hora. Deitado com as costas contra a parede e os cabelos longos molhados de suor, Diogo parecia um sem-teto. Todo suado, ele apenas sorriu ao me ver. Abel também não estava em melhor estado. E apesar de estar sorrindo, havia certo desânimo considerável em seu semblante. Por fim, havia Carol. Totalmente desmaiada, sua cabeça pousava confortavelmente em uma das coxas de Diogo, e parecia que ele a puxara para junto de si. Aqueles dois se aproximando. Só mesmo uma experiência de quase morte para conjurar aquele tipo de feitiço.
– Ela foi drogada. Mas ainda está respirando. Provavelmente nunca levou tanto sonífero no rabo a vida inteira, então não a veremos tão cedo. – Contou-me Diogo, ainda sem fôlego. – O que eu perdi? Cadê a Vicky?
– João estava por trás de tudo, não Renée. Victoria foi baleada, e Manuela morreu. Agora fica quieto. Nem pense em tentar fugir para o Hospital. Você vai atrapalhar o trabalho deles, e precisa me ajudar a descobrir se está tudo bem mesmo com vocês aqui. – Expliquei, preparando-me para queixas e reclamações. Não ouvi nada disso. Pelo contrário, Diogo apenas assentiu e sorriu de leve.
– Senti sua falta, moleque. Respondendo à sua pergunta, eu estou fisicamente bem. Só cansado. Aposto que é o mesmo para o Abel, não é? – O sentinela concordou. – Perdemos toda a diversão. Queria ter pego esse João antes de ele machucar a Manuela. Mas sei que a Vicky vai ficar bem. Ela tem que ficar... – Havia tristeza profunda no tom disfarçado de sua voz, mas ele parecia querer convencer a si mesmo de que estava bem.
– Bem, nenhum de nós podia adivinhar o que iria acontecer. Mas precisamos ir agora. Vocês parecem bem, na medida do possível. E depois do que Hugo fez aqui, ele precisa de um descanso. – O olhar de Diogo pela primeira vez focalizou a porta, notando seu estado.
– Pelo rabo do capeta! Hugo fez isso? Como? Ouvi o barulho mas pensei que vocês tinham arranjado um troço qualquer pra forçar a entrada. E não alguém – diminuindo o tom de voz, ele ergueu-se. – Bem, chega de falar. Depois você me explica essa. Temos que sair daqui e ir ajudar. Devem ter muitos feridos no Hospital. Mais do que a Tânia vai dar conta.
– Confesse que está indo pela Victoria, Diogo. — Provocou Nanda, sorrindo.
– Você está certa. Mas não é só por isso. Não mais. — Ele a olhou nos olhos, encarando também a mim e Hugo. — Nunca mais repetirei o que fiz em Búzios, quando destruíram a Pousada. Somos uma família.
Ninguém questionou quando Diogo pegou Carolina no colo, e caminhou para fora ao lado de Abel. Era impressionante o quão forte ele era, mesmo depois de ter sido quase que brutalmente assassinado por asfixia. Não parecia ser lá grande coisa, para ele. Enorme como um touro, simplesmente passou à nossa frente, abrindo vantagem depressa com seus passos enormes. Quase não pude acreditar em quão longe ele havia chegado, desde o egoísta monossilábico que eu conhecera anos antes. Abel tocou meu braço num agradecimento mudo. Ele perguntou de Agnes, e respondi que ela estava morta. Apenas acenando, ele retirou-se em seguida, e comecei a segui-los. Nanda e Hugo caminhavam ao meu lado, também desanimados e exaustos. Sabíamos que as cicatrizes daquela noite ainda arderiam por muito tempo. Quando finalmente saímos dos Dormitórios, começamos a perceber que o céu já exibia tons mais brandos de um azul petróleo. Era como se aos poucos, ele se tornasse roxo com a chegada inevitável do amanhecer. Como um lembrete da natureza, que se erguia imponente apesar de qualquer desgraça humana. O sol, que brilharia sobre os justos e os ímpios. Hugo soluçou enquanto encarava a paisagem, e olhei para ele no instante em que esfregou sangue para longe de seu nariz. Nanda também parecia preocupada. Mas deu-me um sorriso, ao encontrar meu olhar. Hugo e eu correspondemos o seu gesto, mais por sabermos do que se tratava, do que por estarmos naquele estado de espírito. Nossa felicidade torturada era pelo fim daquele show de horrores, pois, no âmago de nossa figura humana não conseguíamos evitar a felicidade por estarmos vivos. Era um aspecto inerente a qualquer sobrevivente. Seguir em frente, sem se importar com os amados caídos pelo caminho, que ficaram para trás. Sem se importar com o afastamento entre quem você é agora, e quem costumava ser. Sem se importar com o quanto cada perda te torna ainda mais um estranho... para si mesmo.
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