Quebranto.

107 O Covil do Lobo.


Notas iniciais
Olá, pessoal. Desculpa o sumiço. Tive um tempo difícil de bloqueio criativo e um certo desânimo para continuar aqui. O motivo são a escassez de comentários e o fato de ter tantos leitores acompanhando e nunca ter lido nenhum feedback em retorno. É complicado porque ao mesmo tempo em que faço isso por prazer, também gostaria de saber o que as pessoas estão sentindo. Enfim, como sei que pouca gente lê isso aqui, foi só pra explicar o motivo da demora. Boa leitura para aqueles que ainda estão acompanhando!

Cecília.

Francine estava puxando o meu cabelo, enquanto caminhávamos lentamente em direção aos Laboratórios. Mais atrás o som de tiros e gritos ecoavam na noite ferida e violada pela depravação de toda aquela violência. Meu corpo começava a doer menos, conforme tentava acompanhar o ritmo de minha captora. As pequenas pontadas em minha barriga eram como chamas em miniatura, roendo minhas entranhas. Deusa.... Sabia que havia algo errado com meu bebê. Ele mal começara a existir, mas já era o alvo de todo o meu amor. Orei, indefesa. A esperança abandonava os meus passos, conforme chegava mais perto. Depois que tivesse Faye, Francine me mataria. Com toda a certeza. Ainda assim, não podia tomar qualquer atitude que pusesse em risco minha gravidez. Conectada à minha vida, a do bebê seria igualmente prejudicada se algo mais me acontecesse. Temia que os danos causados pela queda já fossem demais, e não queria arriscar mais a situação da minha criança por nascer.

— Já estamos chegando. Você já vai ficar livre... – Resmungando, Francine parecia fazer certo esforço para controlar a respiração ofegante. Seus óculos estavam um tanto embaçados e tortos sobre o rosto, mas ela demonstrava uma determinação ferrenha. – Não é nada pessoal. Não quis fazer aquilo com Dino. Mas era necessário. Isso precisa acabar.

— Você pode dizer isso a si mesma. Mas matando aquela criança, você atravessou uma linha. Não pode voltar atrás. É uma assassina. – Debati, apesar de temer irritá-la ainda mais. Meu tempo de experiência com Topázio era o bastante para que eu soubesse até onde pressionar um ser humano desequilibrado.

— Seus amigos também são assassinos. – Ela disse, um tanto inexpressiva. – Dino teria me matado para impedir que eu viesse até aqui. Ele era um menino, sim, mas era capaz de coisas terríveis para defender o seu grupo. Não é o tipo de concepção que uma criança deve ter. Não é o tipo de coisa que deve ser fácil de fazer.... Só que para os gêmeos, é. Por culpa de vocês, que os transformaram. Talvez, sejam mais parecidos com a Faye e com o João Pedro do que pensam. Nenhum sobrevivente desse mundo tem o direito de julgar o outro.

Não quis discutir. Ela não estava totalmente errada, mas eu via falhas graves em seu discurso. Como todos que de alguma forma buscam justificar falhas terríveis, ela buscava nos erros dos outros as desculpas para suas ações. Saber que minha vida estava nas mãos de alguém tão errática, era de dar medo. Começamos a descer as escadas de concreto que levavam aos Laboratórios, no extremo oposto da Fortaleza, distante do Hospital e do Pátio Central. Semelhante à entrada para uma estação de metrô, a escadaria cinzenta com corrimãos de aço inoxidável, era iluminada por pequenas lâmpadas brancas fluorescentes anexadas em intervalos regulares, pelas paredes. Dando num largo corredor, o caminho terminava numa espécie de porta dupla de vidro, bloqueada eletronicamente. Francine digitou sua senha quando nos aproximamos, mas nada aconteceu. Ela bufou de ódio e socou a porta, então notou uma das câmeras que focalizavam suas lentes sobre nós, registrando nossa presença. Um dos milhares de olhos espalhados por aquele lugar. Pressionando o botão vermelho de um interfone instalado ao lado do monitor, Francine inclinou-se para a frente. Seus lábios estavam próximos da porta, e seu hálito formava uma fina camada de vapor sobre o vidro denso. Com a aproximação da madrugada e a intensidade do momento, era quase perceptível demais a queda na temperatura.

— Faye, sei que pode me ouvir. Então vou ser direta. Mato a Cecília se você não vier até aqui agora. Nós duas sabemos que você precisa dela. Orlando me contou tudo sobre o que você estava fazendo antes de fugir e seu namorado matá-lo. Abra a porta agora, ou juro que vou escrever seu nome com o sangue dela. – Francine usava um tom calmo para ameaçar, o que tornava aquilo tudo ainda mais assustador. Porque era verdade.

Na época, pensei em gritar que Faye não viesse e se mantivesse à salvo, longe daquela sádica. Mas não pude fazer isso. Não com o bebê. Em silêncio, também entreguei meu destino nas mãos da cientista. Que ela fizesse o melhor. No entanto, não podia deixar de pensar em Otávio, e no qual desesperado ele se sentiria, caso me perdesse naquela noite. Eu esperava que ele não acabasse morto por minha culpa. Naquele momento, tudo em que podia pensar era no rosto dele. Pude perceber então que mesmo em meio à escuridão dos meses sob o domínio de Topázio, eu nunca perdera de verdade a esperança porque sentia no fundo da alma que um dia iria encontrá-lo. Otávio era o meu amor da vida inteira. Seria triste deixar este mundo sem ele.

— Ela abriu mesmo. Então eu estava certa! – Francine comemorou, gargalhando num esgar seco. Ela apertou meu braço novamente, puxando-me contra si como um escudo. O que era irônico, pois eu fora usada desta forma muitas vezes antes. Apenas não literalmente. – Anda. Está me atrasando.

O ambiente dos Laboratórios era estéril, e impecável. Branco e coberto por azulejos lisos, parecia reluzir com o reflexo da luz. Uma espiral alva, completamente intocada. Nem ações humanas, nem ações do tempo, pareciam capazes de remover daquele recinto sua inevitabilidade. Sua proeminência. Conforme caminhávamos cada vez mais para dentro do local, encontramos algumas portas que levavam a salas de testes específicos e os acessos aos outros setores. Haviam muitos poucos membros capacitados para lidar com as instalações na Fortaleza, principalmente depois do que ocorrera com Orlando. Era como caminhar pelo interior de veias vazias, num organismo condenado à morte. Como se eu estivesse testemunhando o fim daquela instalação fantasma. O que seria verdade, já que Francine pretendia matar Faye. Contudo, eu não conseguia me desesperar. Não como pensei que me sentiria. Eu estava calma, porque estava conformada com meu destino. Fosse ele qual fosse.

Por isso, quando finalmente alcançamos a sala de controle e vimos Faye, não fiquei aliviada por ela parecer realmente rendida. Se haviam espécimes vivos de animais infectados, como ela alegara antes, então ela poderia ter tentado matar Francine, libertando esses bichos das celas. Mas ela não o fizera. Talvez por minha presença. De forma algum isso significava que eu sentia qualquer alívio. Eu lamentaria a morte de Faye de qualquer forma, pois seu potencial científico e as chances de uma cura definitiva para todos, morreria com ela.

— Francine. Aqui está você. – Faye parecia triste, mas estranhamente segura. Em seu rosto, um cansaço mental estampava-se, lentamente. – Não pensei que vocês iriam tão longe. Achei que isso havia terminado enquanto eu estava fora.

— Só vai terminar quando você estiver morta. – Francine destravou a arma encostada ao meu peito. Ela olhou ao redor, mirando em Helena. Esta, parecia nervosa ao lado da chefe, e chorava em silêncio. – Não se preocupe. Nós não a mataremos. Você vai precisar nos revelar todos os segredos dela. Portanto, se quiser chorar, que seja pensando na tortura em seu futuro. Não na morte.

— Hugo manifestou poderes em escala surpreendentes, Faye. Ele alcança níveis que nenhuma das cobaias aperfeiçoou. – Helena declarou, nervosa. Ela ainda encarava Francine, mas a ignorava. – As câmeras mostram que João Pedro morreu. Francine está sozinha.

— Bem, isso muda tudo, não é? – Faye murmurou, parecendo levemente pensativa. – Sim. Acredito que não exista outra maneira. – Ela olhou para mim. – Que bom que você está bem, Cecília. Eu não me perdoaria se algo acontecesse com você. Não quando tive tanto trabalho para encontrá-la.

— Me encontrar? – Repeti, totalmente absorta naquela situação. Eu sentia-me à deriva, como se o chão sob os meus pés tivesse sumido. Em seu lugar, um buraco negro em direção ao infinito despencava, num vórtice eterno. – O que quer dizer com isso?

— Quer dizer que cada passo dessa cobra, foi coreografado. Orlando me contou tudo. – Francine cuspiu no chão, cheia de repulsa. – A obsessão dela pela filha de Francisco Figueiredo. – Abri a boca, chocada. Francine sorriu. – É, o seu pai. Ele está vivo, Cecília. Em algum lugar no continente. Faye estava monitorando seus passos, desde o início da infecção. Não sei o que ela planeja exatamente, mas ela nunca foi salva pelos seus amigos. Ela “fugiu”, apenas para encontrar a sua gente. – Francine cruzou os braços, ao notar a expressão de surpresa de Helena. – Quer dizer que você não sabia? Achou que era uma simples coincidência, como Arantes e o idiota do Rhuan? – Ela riu, olhando para Faye. – Por que não conta quem contratou os mercenários, doutora Faye Claudia?

— Fui eu. É claro que nenhum deles sabia que caçavam sua contratadora. – Faye admitiu, dando de ombros. – Eu precisava que seus amigos confiassem em mim. Principalmente você, Cecília, que parecia saber quando alguém mentia. Seus poderes eram um risco. Então usei um... assessor. Ele ordenou que Irma e os outros mercenários tentassem me matar. Mas eu sabia que seu grupo estava em Búzios, e não foi difícil encontra-los. Só vinculei as informações do satélite Keiko com o sistema de navegação do Odisseu.

— Não estou conseguindo entender... – estava completamente chocada. Se Faye pusera a si mesma em perigo, e estava o tempo todo premeditando um encontro comigo, o que isso fazia dela? Havia muito sem resposta, e ainda mais perguntas em minha cabeça. Meu coração acelerava no peito, e eu sentia pela primeira vez em muito tempo, a sensação plena de ser pega de surpresa.

— Me surpreenderia se entendesse. Afinal, eu te curei da cegueira, e de todos os poderes que ameaçavam os meus planos pra você. – Faye caminhou na minha direção, ignorando a arma de Francine apontada para ela. Chocada, Helena apenas observava a situação, seus olhos apavorados devorando os meus. Ambas queríamos sair dali, com certeza. Naquele momento, eu sentia-me como uma foca, sendo disputada por dois tubarões brancos. E a única certeza que eu tinha, é que fosse nas mãos de Faye ou de Francine, eu não estaria mais segura. – Li sua ficha, sabe? Seu pai detalhou tudo sobre você, e seus dons fantásticos. Desde pequena com essas visões turvas, e um sistema imunológico diferente de tudo o que já foi visto. Não é à toa que Francisco desenvolveu sua maior descoberta a partir do seu DNA.

— Meu pai está morto. Ele morreu há dois anos. – Não era possível. Papai sequer trabalhava para a Keiko Enterprises.

— Devo discordar. Seu pai desapareceu há dois anos. Sua mãe concordou em declará-lo morto quando a polícia decidiu fechar as investigações. Ele está seguro, na base de El Yunque em Porto Rico. Não é como se nossa Organização fosse desperdiçar o potencial do geneticista brasileiro mais renomado, que descobriu o GM e suas variantes. – Faye parecia uma pessoa totalmente diferente. Um ser robótico, sem emoção. Era como se ela simplesmente estivesse aliviada por não ter mais de sentir qualquer coisa. Como se um tédio crônico a consumisse, junto de uma paixão cega pelo seu segredo. Todo aquele discurso, o prazer em revelar aquilo tudo, me parecia uma forma desesperada de livrar-se de um disfarce enlouquecedor. – Tudo começou com você, Cecília. Seu pai tentou reproduzir suas características em outros seres humanos, acreditando que através do seu código genético, ele pudesse obter respostas para o próximo estágio evolutivo da humanidade. Então nossa filial do Canadá o contratou. Ele deixou você e sua mãe sozinhas por anos. Até que chegou ao GM. O vírus foi transferido à nossa sede submarina no Rio, mas a Interpol descobriu o teor dos nossos experimentos. Ainda que o trabalho das cobaias fosse voluntário, eles tentaram forçar a interrupção das nossas atividades. Foi quando um trágico acidente no Canadá iniciou a gripe do urso. Eu só não esperava que os mortos por ela fossem voltar à vida! Até tentei te capturar na ponte Rio-Niterói, quando conheci Victoria e seus amigos. Mas você já havia chegado à Búzios. Estava presa na Privilège.

— Você liberou o GM. Você começou esse genocídio! – Minha garganta estava seca, e os ossos da minha perna pareciam gelatina. Se aquilo não era uma crise de baixa pressão arterial, eu não sabia o que era. O sonho com a Deusa era um alerta óbvio. Faye me devolvera a visão, mas me cegara de propósito. O tempo inteiro havíamos protegido a mente obscena por trás daquele inferno, enquanto acreditávamos fazer a coisa certa. Todas as mortes daquela noite, apenas haviam favorecido uma criminosa confessa. – Matamos por você, e o tempo inteiro você merecia morrer.

— Não subestime as capacidades dos seus amigos. Eu sou boa no que faço. Mas não pense que sou louca. Minha atitude teve um propósito simples, específico. Protegi o futuro da humanidade no momento em que disseminei o GM. Agora estou mais próxima do que nunca de finalizar a pesquisa do seu pai, e quando eu terminar, o mundo inteiro agradecerá pelo futuro de maravilhas que eu criei. Um futuro onde o câncer, o HIV e as doenças degenerativas são uma mera lembrança arcaica. Perto do que vamos conquistar, mortos reanimados e animais mutantes serão mera casualidade. – Ali estava a paixão e uma genuína crença nas barbaridades que eram proferidas. Aquela era a essência de Faye. O desejo de ser uma deusa.

— Não vai existir um futuro para ser salvo. Você foi longe demais. Chega de ouvir essa besteira. – Francine destravou sua arma, e mirou no peito da cientista. Abaixei a cabeça e cobri os ouvidos com as mãos, quando Fran descarregou seu pente sobre Faye. Helena abaixou-se atrás do balcão, e gritou durante os disparos. Arfando, olhei para cima com dificuldades para regularizar minha frequência cardíaca. Mas o que vi era ainda pior.

Parados no ar como que submersos em uma substância grudenta, os projéteis da arma de Francine giravam no próprio eixo, antes de caíram ao chão, inofensivos. Faye sorriu de surpresa, e ergueu a mão na direção de Francine. Fechada em punho, sua mão foi sendo erguida até a altura do queixo, enquanto Francine esticava-se inteira, lutando por ar e arranhando o próprio peito. Seus pés esticaram-se como se um gancho invisível a estivesse erguendo pelo coração. Sacudindo-se em tremores, ela adquiriu um tom profundo de vermelho, e seus lábios ficaram roxos. A vida deixou seu corpo quando seus braços caíram inertes, cansados de lutar por um lugar no mundo dos vivos. De maneira doentia e anormal, Faye assassinara um ser humano com sua mente. Caído ao meu lado, o corpo de Francine expeliu um pouco de sangue pela boca. Olhando sem qualquer vestígio de hesitação para o cadáver, Faye moveu a mão de leve e um estalo seco deixou o pescoço da Nove. Ela não retornaria como um zumbi. Helena começou a chorar, e seu pranto ecoou com o meu, embora eu conseguisse controlar minha emissão de ruídos. Chorando em silêncio, coloquei a mão sobre minha barriga, controlando uma nova pontada.

— Não me entenda mal. Ela tinha que morrer. Mas ainda assim é incrível ter tanto poder. Graças a você, Cecília. – Ela ergueu as próprias mãos à frente do rosto. – Isso é o que seu pai queria. Os verdadeiros humanos transgênicos. Perfeitos. Com capacidade regenerativa e cerebral acima de qualquer outra criatura vivente. – Ela sorria, maravilhada. – Seu sangue contaminado pelo GM era o que faltava para acrescentar o catalizador necessário para condicionar o vírus.

— Como os feromônios que ela produzia, que afastavam os mortos. – Conclui Helena, baixinho. – Agora o DNA dela impede que o GM destrua as células que hospeda, condicionando-o a apenas aprimorar o funcionamento das ondas cerebrais e das células. Incrível.

— Finalmente, criei o GN. – Rindo, Faye apontou para os monitores no seu centro de comando. – Hugo estava condenado à morte, sabia? Eu o salvei, em Búzios. Ele foi minha cobaia. Quando drenei todo aquele Beijo das Sombras das veias dele, apliquei o GN dizendo que era remédio. Mesmo depois de espancado na Fortaleza, ele sobreviveu. No Hospital, lhe dei outra dose do GN. Como ele não morreu, nem teve qualquer efeito colateral, percebi que poderia aplicar em mim mesma. Meu primeiro ato foi o de enlouquecer Irma e fazer com que ela ficasse com a imagem de Allan na mente. O que se saiu perfeito. Em resumo, somos o verdadeiro futuro. Não temos sequer os olhos apavorantes das suas amigas. Victoria e Fernanda são versões defeituosas do futuro. E ele começa hoje.

— Mas, Faye... – Helena tentou contestar, mas a cientista virou-se para ela. Abraçada à minha barriga, eu estava sentada no chão, completamente derrotada. – Você disse que a Ouroboros nos deixaria sair, quando conseguíssemos o GN.

— Sim, minha querida. E nós vamos. Agora que provei a eles que Hugo é funcional, assim como eu mesma, será questão de tempo até que eles encerrem as operações da Fortaleza. A OMS está perto demais de encontrar nossa localização. Eles serão rápidos. Não vão correr o risco de que eu seja presa pelos Estados Unidos, ou pelo que restou das Forças Armadas Brasileiras. – Faye apertou alguns botões no seu monitor, e projeções holográficas da floresta da Fortaleza foram exibidas, bem como um corredor repleto de cobaias humanas vivas e aprisionadas. – E eu já sei exatamente como e quando quero sair daqui. – Ela olhou para mim, e sua expressão suavizou. – O difícil vai ser explicar a sua morte.

— Por favor, o meu bebê... – Implorei, chorando. Helena gemeu também, impotente.

— Não será possível tê-lo. Sinto muito. Mas prometo que você não sentirá dor. Pela minha breve experiência obstétrica, você já parece estar perdendo mesmo. – Ela deu de ombros, toda cheia de objetividade e com zero de compaixão. – Não vou te matar de verdade. Mas preciso mantê-la viva e em segurança, de modo que você precisa sumir hoje. Qualquer pessoa que possa contraria minha versão dos fatos, deve ser eliminada. – Ela encarou Helena. – Sinto muito. – Um gesto simples de mãos, e o pescoço da estagiária quebrou como uma árvore curvando-se à tempestade. Cobri o rosto com as mãos, horrorizada. Aquilo precisava ser um pesadelo.

Faye voltou aos computadores, digitando alguns comandos que deviam ser simples, mas que eu não podia compreender. Ela ativou um painel secundário ao lado do centro de comando, passando por cima do corpo de Helena para digitar uma senha pessoal no teclado holográfico. Uma pequena escada de acesso abriu-se sob o centro de comando, levando para uma óbvia sessão secreta dos Laboratórios. Uma pequena nuvem de poeira subiu quando o compartimento se abriu, e calafrios subiram pelos meus braços. Ela me trancaria ali dentro? Como Topázio fizera? Não sabia se sobreviveria àquilo outra vez. Mas parecia que eu estava prestes a descobrir. Andando contra a minha vontade, e sendo ameaçada por mãos invisíveis, tomei o rumo desejado por Faye, como um cordeiro sendo pastoreado por um lobo. Meus passos ecoavam nas superfícies metálicas do corredor secreto, e conforme eu passava por celas de contenção com portas deslizantes transparentes, contei mais de oito corpos em estado de coma induzido. Alimentados por sonda, eles pareciam ser pobres transgênicos desafortunados, que não corresponderam às expectativas daquela mulher diabólica. Resignada, contemplei minha cela vazia e o macacão cinza que me esperava sobre uma cama de ferro com roupas de cama brancas. Uma privada, uma TV e quatro paredes acolchoadas pareciam ser o meu novo mundo. Era melhor do que correntes num porão, mas ainda assim, era como estar no inferno. Com as pontadas frequentes na minha barriga a guilhotina imaginária pendendo sobre a vida do meu filho, tudo o que eu queria era chorar e amaldiçoar a mim mesma por não ouvir minha deusa. Por não ter tido o mínimo de intuição sobre quem Faye era. Ainda assim, havia muito a processar. Meu pai, que eu considerava morto, estava vivo e cativo em Porto Rico. Faye iniciara uma infecção sem precedentes que destruíra milhões de vidas ao redor do mundo, sendo agora procurada pela Organização Mundial de Saúde, pela Interpol, e pelas forças armadas da ONU. Uma Organização chamada Ouroboros estava patrocinando suas ações na Fortaleza, o que me fazia crer que o mundo não estava tão ferrado assim. Não se ainda tinha alguém preocupado com aquela espécie de reality show infernal. Estávamos vivendo num mundo artificial, e nossa maior inimiga fingira durante todo aquele tempo, ser uma das maiores aliadas.

— Espero que você fique bem acomodada. Quando esta confusão passar, vou prepará-la para o nosso pequeno procedimento. – Faye sorriu, como se estivesse me dando as boas-vindas na sua casa. – Ah, e não se preocupe com Otávio. Ele vai superar.

— Vicky e os outros vão descobrir tudo o que você fez. Eu vou te desmascarar. Em nome de tudo em que acredito. – Avisei, controlando-me para parecer forte. Tive de reunir toda a coragem e revolta que ainda me restavam. O efeito foi bom, e senti o poder da Deusa fluir em minhas palavras. – Você subverteu o sonho do meu pai e a obra da Mãe, desafiou e violentou a natureza deliberadamente. Suas dívidas são terríveis. E você vai pagar.

— Ah, Cecília.... Eu não sou má. Estou dando um presente para a Terra. Enfraqueci a maior ameaça à vida que existe nela. Nossa raça. Ser cruel, significa apenas que enxergo as coisas como realmente são. O mundo pertence ao mais apto. O futuro, será daqueles que evoluírem comigo, que aceitarem o GN. O mundo precisa da minha ajuda, para sobreviver. Durante dois anos de infecção, o mundo poluiu mais de noventa por cento menos. Se posso ser acusada, que seja de realmente fazer algo de concreto pelo bem da humanidade. E agora que todos os países estão começando a reerguer seus Estados, e que os primeiros hospedeiros do vírus estão desativando ao redor do globo, tudo vai mudar. O fim dos zumbis está próximo. – Ela digitou no painel ao lado da minha cela, trancafiando-me. – Além disso, Victoria e seus outros amigos nunca saberão de nada. Eles vão morrer na Fortaleza, achando que o mundo realmente acabou. Porque eles agora pertencem a este mundo, são espécimes obsoletos. E nem mesmo você poderá interferir nesse destino.

Ela deixou-me completamente sozinha, e o som de seus passos ainda martelava o corredor muito depois que ela havia se retirado. Certa de que jamais veria a luz do dia outra vez, entreguei-me ao pranto histérico de uma mãe condenada a perder seu filho. Senti que de alguma forma, a falta de Otto não fosse tão grave quanto o destino incerto da nossa criança, já tão ferida mesmo antes de nascer. Pensei nos outros, também. Queria saber como Otto reagiria, e que tipo de mentira Faye iria contar para que acreditassem nela. Infelizmente, tudo o que eu podia fazer no momento era encarar o monitor acima da minha cama, que acompanhava todas as regiões da Fortaleza. Focada no Pátio Central, a atual câmera mostrava um momento de guerra durante aquela noite. Muitos mortos, e pessoas do Hospital que tentavam resgatá-los apareciam constantemente. Contudo, bem à frente da minha cela divisei a imagem de uma mulher loira, com olheiras e algumas leves rugas ao redor dos olhos. Ela olhava com curiosidade na minha direção, provavelmente tentando indagar alguma coisa. Um tanto tímida e apesar de toda a minha dor, sentia que aquela mulher era diferente. E sorri.

— Dia difícil, não é? – Ela perguntou, e comecei a chorar. Ela assentiu. – Eu sei, querida. Mas tenha fé. É tudo o que temos na vida.

— É muito difícil. Mas sei que é preciso. – Ela concordou, também secando uma lágrima de leve. – Meu nome é Cecília. E o seu?

— Eu sou Eloísa. E acho que você já conhece o meu filho, e o meu marido.

Notas finais
Bem, faltam pouquíssimos capítulos para acabarmos! Alguém esperava pelo que aconteceu? Acho que deve ter muita gente querendo descobrir onde moro agora, pra me matar, kkkk. Espero que tenham curtido, apesar da tensão. No próximo capítulo tem mais emoções rs. Comentem! Juro que não vão perder os dedos! XD Kisses by DroppingPieces!