Produção Independente

6 6. A borboleta - Por Letícia


Notas iniciais
Espero que gostem das reflexões desse capítulo porque sei que muitas meninas e mulheres no mundo se sentem como a Letícia.

Nunca fui o tipo que deu problema para professores, nem quando fazia alguma traquinagem na primeira etapa do Ensino Fundamental.

― Letícia, você pode conversar comigo depois da aula? ― perguntou a Cuca sem tirar os olhos dos testes que corrigia. A cada semana a barriga dela estava maior.

Demorou a que todos notássemos a barriguinha a crescer. Eu escutava as gêmeas periguetes comentando que a professora estava ficando gorda. Com exceção delas que se julgavam as deusas da beleza, todos eram feios, estranhos, gordos, fracassados, tinham algum defeito insuperável.

Não era exatamente o fato de a professora não ter mais o corpo escultural de antes com os seios grandes, o quadril redondo e a cintura bem definida. Cuca usava blusas mais justinhas no começo do ano e de repente foi trocando por camisas mais folgadas, tudo aos poucos, até que um dia descansou o jaleco na carteira e pude ver uma barriguinha redonda que não era de falta de exercícios, era de grávida. Àquelas alturas devia ser de quatro ou cinco meses, não estava bem certa. E nem parecia tanto assim.

― Acho que posso. ― respondi olhando para o meu teste em branco e sem nota. Pela austeridade do seu olhar pressenti que, além de tudo, perderia a minha melhor amiga.

― Espero que possa. Se você ainda se importa um pouco com alguma coisa nessa vida. ― Esclareceu ela sem me devolver a prova. Eu me retirei pensando que não suportaria chegar até a minha carteira.

Eu estava escutando tudo aquilo?

Isso é além das risadas de hiena daquelas que deixaram de estudar, mas colavam da Marcela e estavam imunes da reprovação?

A última aula foi Educação Física e a professora faltou, ou seja, todo mundo da minha turma foi embora e eu por instinto, iria também, mas queria saber o que a Prof.ª Cuca queria tratar comigo. Nunca antes, nem quando a turma a deixava extremamente desgastada eu a vi dirigir aquele olhar, nem naquela conversa promovida com a classe depois do primeiro turno das eleições presidenciais.

Era mesmo sério o que ela tinha a falar.

Eu sabia que a encontraria na sala cinco, lecionando para o outro primeiro ano. Eu estava evitando me abrir com ela, assim aos poucos aprenderia a não sentir sua falta quando partisse. Eu aprenderia a viver sem amigos, se assim determinava o tal do destino.

Deixei a última prova de gramática em branco de propósito para sair da sala depressa. Eu já tinha média para ser aprovada e queria que o ano letivo acabasse o quanto antes.

Cuca Magalhães estava magoada comigo. Seria difícil encontrar uma desculpa para o que fiz. Não tinha nenhuma ao alcance.

Esperei o sinal soar e aos poucos as pessoas irem embora. Caminhei até o portão fingindo que aquele era outro dia comum que ninguém notou a minha existência ― o que me fazia pensar constantemente em suicídio ― e dei meia volta, chegando a atravessar a rua.

Meus pais não sabiam que eu estava pensando em deixar o mundo antes de completar quinze anos. Sabiam que Cuca era minha única amiga e até gostavam da convivência porque não me queriam dançando funk, fornicando e bebendo mais do que alcoólatras letrados.

Lá por Abril, quando comecei a emagrecer muito por causa da tristeza, pulando refeições e cortando outras, tendo enxaquecas horríveis e me sentindo mais pesada ainda, pensei em me suicidar, já tinha até escondido às caixas com os remédios controlados que meu pai usa. Justamente naquele dia (para quem não acredita em coincidências) a Cuca não deve ter sentido vontade de ficar na sala dos professores e abriu a porta da nossa classe (teríamos aula com ela nos dois últimos horários) e me ofereceu um tablete de chocolate, dizendo que quando se tem cólica é pior sentar no chão gelado, só piora a dor.

Estava fazendo calor antes da Páscoa e eu havia me cortado, escondendo os ferimentos usando tudo com mangas compridas enquanto pudesse.

― Você não está com calor, minha pequena? Eu não tô aguentando usar esse jaleco. ― Ela vestiu-o por cima da cadeira do mestre: ― E você? Não passa mal usando justamente preto que absorve mais ainda o calor?

― Não. ― Eu respondi, aceitando mais chocolate. Cuca dizia que apesar de alguns médicos serem contrários à ingestão de chocolate e cafeína durante a TPM, para ela sempre ajudava (ajuda).

― Não escreveu mais nada? ― sondou ela.

― Não... ― contestei.

― Também tenho minha época de vacas magras literariamente falando. ― Cuca estava tentando se conectar na internet antes de soar o sinal. Ela sempre me deixava ver os amigos dela e tudo o mais e apesar de ser improvável, sempre era ela que me chamava para teclar.

― Acho que as minhas vacas magras vão durar pra sempre, viu?

― Acho que não. Sempre que eu falo isso, três horas depois estou entretida em algum conto novo e quase me descabelando depois que leio e encontro um milhão de erros que ninguém vê, só eu. É o preço de escrever. A autocrítica. Mas não se critique tanto, não faz bem.

Enquanto eu dobrava a manga da blusa, devo ter me esquecido que os cortes ainda eram recentes e podiam facilmente ser notados, tanto por ela quanto pelos abutres adolescentes que se sentiam os cisnes do bloco.

― Quando eu tinha mais ou menos a sua idade vivia de preto da cabeça aos pés. ― Ela limpou a garganta e desistiu de acessar sua rede social, o sinal estava péssimo. ― Tudo, tudo preto. Sombra, óculos, camiseta, calça, meia, mochila.

― Eu adoro usar preto. ― repliquei.

― Eu também adoro, mas aprendi que todas as outras cores também são bonitas e importantes. O preto fica ainda mais exuberante quando não deseja ser unânime.

Cuca me pediu uma canetinha preta emprestada e eu me sentei de frente para ela que estendeu meu antebraço sobre a tábua da carteira e desenhou uma borboleta no meu pulso direito sem dizer uma única palavra.

― Ficou bonita. ― Pontuei vendo aqueles traços finos e delicados nos meus pulsos repletos de cores que iam à contradição ao meu torpor.

― Já pensou em um nome para ela? ― sugeriu Cuca abrindo um sorriso para mim.

― Um nome? ― Tirei meu caderno de Português de dentro da mochila preta.

― Qualquer um!

― Vou pensar em um nome para ela... ― prometi e então nós duas ouvimos o sinal soar. Não disse que a batizei de Cuca, assim, mesmo quando me sentia mal por ser um nada para os meus (antigos) amigos, sabia que tinha uma amiga que valia por todos eles. E eu não iria magoá-la.

Ela não precisava perder seus preciosos minutos com uma pirralha, mas tinha paciência comigo e me tratava com dignidade, carinho, respeito, como se fosse a irmã mais velha que eu jamais teria ou que eu sempre considerei, só nunca falei, nunca consegui lhe ser grata.

Naquele gesto simples ela me persuadiu a não abrir mão da minha vida. Se tudo parecia confuso e estranho, o futuro se apresentava com dois caminhos distintos e eu queria crer, bem lá no fundo, que poderia ser bom.

Deixei a borboleta no meu pulso por alguns dias, sentia dó de lavar. Desenhei outra no lugar que pode não ter ficado tão linda quanto aquela, mas foi eficaz para evitar cortes profundos e cicatrizes irreversíveis.

Eu havia me esquecido da borboleta. Quebrado o juramento. Partir a confiança de um amigo é sempre a pior traição.

O corredor já estava vazio. Todo mundo (praticamente) já havia ido embora. Coloquei rapidinho o meu rosto na porta aberta da sala cinco e encontrei-a sentada na carteira escrevendo alguma coisa, como sempre fazia.

Retirei-me. Meus olhos estavam ardendo.

― Lelê. ― Sua voz ecoou pelo corredor vazio. Ela estava parada, mesmo cansada, imagino como deve ser carregar uma melancia dentro da barriga sem poder tirar o disfarce antes de dormir. Abriu um sorriso e os braços: ― Lelê...

Eu cheguei mais perto, ela me olhou com a ternura de sempre.

― Eu sabia que você ia vir.

Ela tomou a iniciativa de um abraço. Nem minha mãe me abraçou na vida com aquela preocupação. Beijou minha cabeça, fez carinhos nos meus cabelos e sussurrava que estava tudo bem enquanto eu soluçava de vergonha. Molhei a blusa vermelha dela que me segurou pela mão e me levou até a sala, onde fechou a porta e me indicou uma cadeira ao lado dela para se sentar.

― Eu não queria mais ser sua amiga. ― confessei, envergonhada.

― Por que eu não te contei? ― suspeitou ela, parecendo que sabia os meus motivos mais do que eu podia pensar.

― Por que... Você vai me deixar...

― Te deixar sozinha, você quer dizer?

Dei de ombros, soluçando.

― Acho que você errou de amiga, viu? Quem disse que eu vou te deixar sozinha, hein?

Eles me deixaram.

― Eu não sou eles. ― Cuca deu de ombros. ― Minha mãe tinha razão quando me dizia que eu não era “os outros”. Realmente eu não sou. E acho que você também não deveria ser.

― Se eu fosse gostosa, tudo seria diferente. Ninguém teria vergonha de ser visto ao meu lado.

― Que bobagem, meu anjo. As pessoas são únicas.

― Se fôssemos todos únicos, nós não teríamos tantas pessoas tentando ser o que não são.

― Essas pessoas ainda não conseguem lidar muito bem com o fato de que são diferentes. Todo mundo precisa de um tempo.

― Não sei o que tem de errado comigo. Não aguento ver os meninos rindo de mim como se eu fosse uma aberração, uma piada. Estou cansada de ter que subir as escadas olhando para todos os cantos com medo de cair porque algum garoto colocou os pés na minha passagem.

― Você não é uma aberração. ― Cuca tirou a minha jaqueta e viu o meu antebraço machucado. Ela analisou os ferimentos com tristeza, perguntando-me o porquê de me machucar daquele jeito, tratando a minha pele como se fosse um papel, um objeto sem valor.

Ela beijou os cortes repetindo que a minha vida é importante, que eu sou apenas uma criança para me permitir desistir de tudo. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, eu abaixei a cabeça sem me pronunciar.

― Flora e Flávia são duas personagens de si mesmas. Elas decidiram encontrar uma armadura no mundo de feras que é a escola, e encontraram. Se elas se sentem ameaçadas com a sua presença, necessitando pisar na sua honra, você deveria reconsiderar muitos dos seus padrões, Lelê. Se esses “amigos” te deixaram sozinha não foi você quem os perdeu, eles é que te perderam. Eu sei que parece tão fácil falar para fazer isso ou aquilo ou não-sei-o-quê-mais, mas por mais confortável que possa ser se esconder na caverna montada debaixo das cobertas para ignorar o fato de que a vida continuou, não é assim que você vai desabrochar, Lelê.

Naquele momento em que eu chorava nos ombros da minha melhor amiga, aliviando aquela dor que fazia o meu coração partir ao meio, cheguei à conclusão de que o choro às vezes é a única resposta que nossa alma nos dá, para que não guardemos a nossa tristeza, que tenhamos a companhia de alguém que se nada puder dizer, a presença já acolhe.

― Não se lembra de Frozen? Encobrir, não sentir, eles não saberão. ― cantarolou a professora. ― Esconder-se. Machucar-se. Você se lembra da Elsa? Pois então. A analogia de ela não conseguir lidar com o seu poder é o que acontece com os seus pensamentos. Você tem muito potencial, muita imaginação, mas está utilizando essa imaginação para se destruir, Letícia. Você acha que isso é justo?

Eu não tinha o que dizer.

― A Elsa aprendeu a aceitar suas fraquezas, limitações, aprendeu a aceitar o amor das pessoas que a rodeavam. Você não tem que ser o que as pessoas querem que você seja, não pode ser só um fantoche, uma personagem cínica como tantas outras, tem que procurar alimentar a alma da Letícia e enfrentar os medos, os seus fantasmas, as suas dúvidas. Contornar os obstáculos não os elimina.

― Sou uma das poucas meninas de (quase) quinze anos que não namoram.

― E daí? ― retrucou Cuca sem ser rude.

― E daí que eu sou um ET para o pessoal da minha geração.

― Eu tinha quinze e também não tinha namorado.

― Mas você é bonita. Com certeza devia ter muitos pretendentes, igual à Flora e a Flávia.

― Você é que pensa, Lelê. Eu morria de vergonha de ter peitos grandes, a minha irmã Lia sofria porque queria ter busto. Eu, para falar a verdade, me sentia um tanto quanto inferior às outras na época dos quinze, achava que tinha algo de errado comigo por nunca ser correspondida por quem eu gostava.

― Duvido que ninguém nunca tenha gostado de você.

― Nem tudo o que parece é.

― Todo mundo tem alguém.

― Eu pensava a mesma coisa e hoje, Letícia querida, queria ter vivido essa fase com mais calma, aproveitado melhor os momentos divertidos com os meus amigos, rido mais, brincado mais, sorrido mais. A adolescência passa muito rápido, tudo fica na lembrança. Quem não aproveita chora o dobro se lamentando.

— Eu tenho muito medo de morrer sozinha.

— Tão jovem ainda e pensa em abrir mão da vida porque meia dúzia de pessoas tolas tenta tolher a sua liberdade?

— Você não sabe o que é ser adolescente — rebati.

— Eu fui adolescente. Passei pela puberdade, pela fase de patinho feio, pela agitação dos hormônios, pela ansiedade do vestibular, tomei chá de cadeira em festas, fiquei com dois numa matinê, também não gostava de acordar cedo, de algumas matérias, tirei nota vermelha. Acredite, eu passei pelo Ensino Médio sem ter um namorado e nem por isso estou morta.

— Vou passar pela adolescência e contar o que aos meus filhos se os tiver? Que fui a fracassada da turma?

— Você não é fracassada.

― Você fala isso porque quer ser legal comigo.

― Falo na autoridade de alguém que já teve a sua idade, Lelê. Recomendo que você leia a parábola da cobra e do vagalume, ela virá a calhar para você. Se você quiser, podemos ler juntas.

Cuca buscou no Google a parábola do vagalume e leu-a em voz alta para mim, contextualizando o sentido e me deixando mais chorosa ainda.

Se as gêmeas eram tão bonitas, populares e cobiçadas, por que perdiam tanto tempo me perseguindo e destruindo a minha autoestima?

Todo mundo procura preencher a ânsia de se encaixar, mas não é com um namorado que se faz isso. Quando as nossas mães dizem que nós não somos “todo mundo”, elas estão cobertas de razão. — explicou Cuca que teve o privilégio de ser adolescente nos anos 1990, algo inimaginável para mim que já nasci na década de 2000. Pelas narrações dela parecia muito mais interessante do que agora em que temos tantas celebridades virtuais vazias e amigos são os mesmos que seguidores.

— Não ter um namorado não te faz incompleta, Letícia. Não tem nada de errado em não namorar, em ser solteira, em decidir ficar sozinha, em esperar alguém que valha a pena. Demorei algum tempo até entender e espero que você não precise passar por nem metade do que eu passei para não negar meus defeitos nem meus medos, tampouco me comparar. Porque nunca é bom.

― Ninguém é igual. Ninguém tem que viver por onde alguém já trilhou aqueles caminhos. Cada um tem que buscar o seu. E o primeiro beijo, Letícia, por mais que não tenha de ser idealizado, deve ser uma decisão sua, um desejo seu. Não pode ser uma imposição, uma pressão. Eu, por exemplo, dei o primeiro beijo por pressão da turma. Agora aos 36 anos, depois de dar com o rosto contra o muro um montão de vezes eu entendi que nós devemos escolher e não sermos escolhidas.

― Tem momentos que eu me sinto ridícula, desajeitada, como se nunca ninguém fosse me notar, me amar... Eu me sinto muito sozinha!

― Você não está sozinha. ― Ela me abraçou bem apertado e pousou sua mão sobre a minha. ― E se você disser a seguir que “ninguém te ama”, vai magoar aos seus pais e a mim.

Cuca Magalhães estava chorando comigo.

― Eu amo tanto você, Letícia. Eu não gosto de vê-la sofrer. Se a minha filhinha pudesse ser um pouquinho parecida com você, ficaria muito feliz.

― É uma menina?

Ela assentiu com a cabeça, enxugando outra lágrima que rolou de seus lindos olhos escuros e brilhantes.

― Sim. É uma menina. Pelas minhas contas, nasce antes de março. ― confirmou Cuca.

― E o bonitão deve estar feliz da vida com a notícia.

Ela engasgou.

― Ele não sabe?

― Não.

― Você não contou a ele?

― É uma produção independente.

― Lamento ― assenti tristemente. Ser mãe solteira era uma decisão difícil e ainda é algo que a sociedade não aceita com naturalidade.

— Eu estou bem. Está tudo bem.

Cuca fez que não se importasse.

― E a minha situação é muito grave? Eu corro o risco de reprovar? ― indaguei para não mexer nas feridas dela.

― Grave? Você sabe que não! Só vai se agravar se você continuar deixando as provas em branco e pensando em coisas que uma menina tão linda e especial não deve pensar. ― A professora me deu um beijinho no alto da testa. ― Você sabe que pode me procurar quando tiver vontade de desabafar.

Ela dirigiu-se até a carteira, procurou uma folha de papel sulfite em meio a muitas outras e antecipou:

― Eu não deveria fazer isso, mas confio em você e não quero que se prejudique.

Cuca me entregou o teste em branco:

― Gostaria que o respondesse e me trouxesse na próxima aula, Lelê. Eu não vou deixar você ficar sem nota nesse bimestre.

― Isso quer dizer que ainda somos amigas?

Por mais que eu sentisse vontade de falar, parecia que ela sabia do que eu tinha medo de perguntar.

― Quer sentir o bebê chutar? ― Ela voltou a se sentar ao meu lado e aos pouquinhos fui colocando minha mão em cima da barriga dela que já não passava despercebida. ― Ela sempre chuta quando quer alguma coisa.

O bebê chutou e eu pude sentir pelo sorriso da futura mamãe que apesar de tudo, ela estava feliz, tão feliz que podia chorar por isso.

― Nem nasceu e já tem personalidade forte!

― Como a mãe! ― completei.

Ela me abraçou apertado mais uma vez, me deu um beijinho na lateral da testa e me disse que a pressa sempre será a inimiga da perfeição.

Notas finais
Minha leitora querida, obrigada por acreditar no potencial de Produção Independente. Obrigada mesmo! Estou prestes a chorar de alegria!