Produção Independente
7 7. Considerações de um ano letivo conturbado - Por Cuca
Notas iniciais
No último dia do ano letivo, Letícia Ventura tirou da mochila um embrulho do Mickey Mouse. Apalpei-o e ele era bem macio, desembrulhando com cuidado para não estragar a surpresa.
― Espero que goste. Escolhi com carinho. ― disse ela, apreensiva.
Abrindo, encontrei um lindo par de sapatinhos feitos de lã, tecidos com um carinho que levaram essa manteiga-derretida às lágrimas.
― Que coisa mais linda, Lelê!
― Minha mãe decidiu tricotar um branco, já que você sempre diz que não existe “cor de menino” e “cor de menina”. ― Letícia abriu um sorrisinho meigo com os braços para trás, bastante insegura com relação ao presente que com certeza eu amei, pois acredito que branca é a cor de todos os bebês, da pureza. Não que o rosa não seja lindo e o azul não tenha a sua magia, mas o branco é a cor da nossa alma quando chegamos ao mundo, transparente, límpida, receptiva, imortal.
― Ficou lindo. ― Coloquei dois dedos dentro de cada sapatinho e levei-os à barriga, conversando com minha filhinha como se ela pudesse me ouvir, o que não tenho dúvidas. ― Diga à sua mãe que eu vou guardar com muito carinho.
― Eu tentei aprender, mas não levo muito jeito com a agulha. ― confessou ela, sempre amável. Ainda aparentava abatimento, teve outra crise, mas depois que chorou nos meus ombros, perdeu o medo de se aproximar novamente.
― Não tem importância, meu anjo.
― Já decidiu o nome? ― Ela se sentou comigo em um banco de madeira no pátio, perto da araucária centenária que dividia o bloco do Ensino Fundamental do Ensino Médio.
― Não... Mas já decidi que Sofia ela não se chama de jeito nenhum!
― Tá muito na moda. ― acrescentou ela.
― Além disso, o nome tem de ser mais que um modismo. O nome é a força, a energia, diz muito sobre alguém.
― Se você é Cuca, sei que escolherá um nome legal que ela vai amar.
Sou Cuca desde pequenininha. Fez-me ser única dentre tantas. Assino com orgulho a minha identidade bastante recheada de versões alternativas. Estive sempre certa de que eu haveria de dar uma colaboração maior ao mundo do que “ser comum”.
Todos deveriam pensar nisso.
Neuras, em maior ou menor proporção, todos temos. Tento amansar as minhas. Melhor dizendo, eu ainda falo mais alto que elas. Parece fantástico, se não fosse trabalhoso.
Eu também não me esqueci dela. Meu presente foi um filtro dos sonhos que comprei junto com um cordão feito de miçangas, um par de brincos e algumas pulseiras, além de algo especial que ela deveria abrir apenas quando eu não estivesse presente.
― Um filtro dos sonhos? Que interessante! ― exclamou Letícia. ― Ele é muito lindo, sinto até dó de tocar.
― Espero que esse filtro dos sonhos te oriente. ― limpei a garganta, prometendo que não iria chorar, pois do mesmo modo que não queria ver minha amiguinha chorando, não daria uma entonação dolorosa ao nosso último encontro do ano. Se o bebê nascesse em fevereiro, eu voltaria a lecionar no segundo semestre de 2015 e assim esperava que fosse. ― No primeiro semestre do ano que vem eu não estarei aqui para ver essa tartaruguinha saindo do casco, mas vou sempre torcer para que você vença. ― bebi um gole generoso de suco de laranja que ainda estava bem gelado, comprei durante o intervalo.
― Vai ser muito estranho sem você, Cuca. ― revelou ela, pensativa.
― Cedo ou tarde isso iria acabar acontecendo. Você vai se formar, seguir adiante...
― Vou sentir a sua falta... ― Letícia abaixou a cabeça, chorosa.
― Mas e quem disse que nunca mais iremos nos ver, meu anjo? Quem disse que iremos deixar de ser amigas? Facebook existe para quê? E o Whatsapp? Telefone existe para quê? E, além disso, ainda podemos nos visitar. Eu faço questão que você conheça o bebê... E que a nossa amizade não se limite a esses muros. Talvez você não tenha se dado conta de que quando duas pessoas realmente querem ser amigas, elas o são. É a vontade que conta. Quando duas pessoas realmente são amigas, elas não precisam estar grudadas o tempo inteiro para o serem.
― Com o tempo você vai me esquecer. ― Letícia lamentou, supondo que eu agiria como Marcela e Talita.
Naturalmente é isso que acontece e eu sei que Letícia não mente nem exagera, está certa do que fala.
Tem muitos que juram sem noção do que proferem. E tem os que cumprem. E tem as exceções, a exemplo de mim, que acreditam desacreditando, o que pode ser ruim. E bom também. Quando você não espera nada além de não esperar por mais nada.
Se soar um pouco cético ou descrente, eu esperei de verdade que Herbert iria mudar, ou seja, criei expectativas e parti o meu coração por sadismo, apostando todas as minhas fichas em alguém que nem jogaria comigo.
Lastimável!
― Nada é para sempre, Letícia.
― Isso é triste. ― suspirou ela olhando para aquelas nuvens de algodão salpicadas de cinza, finas demais para terem formas exatas.
― Pode até ser, mas pense no seguinte: seria pior se tudo fosse perfeito em tempo integral. Até isso iria cansar.
― Você acha que podemos continuar sendo amigas?
― Se você realmente tiver vontade... Como eu disse, é a vontade que conta.
Ela sorriu, correspondendo:
― E se você acreditar que tudo pelo que você está passando só vai te deixar mais forte, você vai se lembrar desse ano e tentar imaginar de onde tirou toda essa força que hoje você pensa não ter e mal sabe o poder que existe dentro de você. É questão de entender que a vida começa no pensamento.
― A ideia se alimenta da dedicação. O talento cresce e se faz notar através dela, a metódica e inescapável dedicação. A ideia cresce e se transforma em atitude. A ideia é importante, mas a atitude é muito mais, porque significa o avanço. Então procura nesse fim de ano tentar descobrir quais são os seus fantasmas, os seus medos, tenta identificar se esses medos são reais ou se são suas fantasias agigantadas, se nessas comparações você não está se colocando a um patamar inferior. Você sabe que não é inferior. Sabe e prefere fingir que não. Você se acomodou com a dor. Não pode ser assim. Autocomiseração nunca é uma boa estratégia, Lelê. Dê-se esse presente, Letícia. Pense com carinho. Olhe para si mesma. Olhe de um jeito que você nunca fez. De dentro para fora. Como se nunca mais você fosse se olhar.
― Tipo... Uma reflexão bem profunda?
― Isso!
― Será que eu dou conta?
― Se você quer sair desse casulo deprê, deveria tentar. ― olhei dentro dos olhos tristes dela. ― No ano que vem quando voltar da licença eu saberei se deu certo.
Parir é uma coisa, ser mãe é outra.
Esperava, também, ser uma mãe consciente de que a minha filhinha não era minha propriedade, que não devia sonhar mil coisas para ela nem obrigá-la a levar adiante os sonhos que deixei para trás.
Não ambicionava que minha menininha tivesse olhos claros e corpinho de bailarina. Tudo o que desejava, do fundo do meu coração, era que ela nascesse saudável e eu possa acompanhar os seus passinhos, as suas descobertas e estivesse presente quando aquele pedacinho de mim precisasse de um ombro amigo, de alguém que enxugasse suas lágrimas (ou não as deixasse cair), de uma palavra sincera, de uma bronca dócil, uma recomendação cautelosa que não visa proibir, e sim conscientizar. Esperava ser o primeiro nome em que pensasse quando necessitasse de uma amiga que poderia não concordar com todas as suas atitudes, mas ao seu lado sempre estaria.
Letícia Ventura me ensinou isso.
❣
Com o início das (merecidas) férias aproveitei os dias livres de dezembro para acompanhar no horário da tarde a reta final da reprise de uma novela que marcou muito a minha adolescência: A Viagem, clássico da Ivani Ribeiro que ganhou um bem sucedido remake em 1994, além de passear com os meus sobrinhos, ir ao cinema, visitar os shoppings para ver as decorações natalinas e presenteá-los às escondidas de Lia que junto com Ivan movia esforços para não criar uma prole consumista. Os pequeninos estavam ansiosos pela priminha e colocavam os ouvidos perto da minha barriga para escutarem o coraçãozinho dela bater.
Destinei meu décimo-terceiro salário ao enxoval do bebê, pedindo as sugestões de Lia para montar o quarto, dedicando também os dias quentes à decoração. Comprei tintas, adesivos de parede, cortinas, acompanhando ansiosa a chegada dos móveis que foram montados e deixaram aquele ambiente vazio a aguardar a chegada de mais uma vida.
Passei com carinho cada peça de roupa, dobrei, guardei nas gavetas, abracei o macacão com cheirinho de colônia infantil, olhei tantas vezes para a bolsa de maternidade, esperando ter inspiração para decidir por aquele nome que entoasse a identidade daquele pequeno ser. Queria olhar bem dentro daqueles olhinhos de neném e ter a certeza de que não erraria.
Apesar de a gestação ter mudado os meus hábitos de vestuário, não caí na bobagem de comprar milhões de peças as quais nem usaria depois, optando por me presentear com aquilo que coubesse no meu orçamento e no meu contexto de vida porque tão próxima da maternidade, muitos conceitos meus se modificaram, eu sentia a necessidade de ser uma pessoa melhor, de pensar mais no futuro (mais do que de costume), no mundo que estava deixando de legado para aquela criança, cuidando melhor da alimentação, fazendo exercícios físicos regularmente sem abusar do esforço, encontrar o equilíbrio que a rotina acaba por tirar de nós, inevitavelmente.
Minha irmã mais nova teve a primeira filha aos 24 anos, realizando o sonho de segurar nos braços uma menininha, a Nathália, embora a escolha do nome da primogênita tenha rendido discussões intermináveis com o Ivan até que chegassem a um acordo que fosse palatável para os dois.
Nathy sempre sofreu bullying por ser gorduchinha, como também nunca fez a linha fofinha. Ela é apaixonada por super-heróis e os pais não veem qualquer problema nisso. Suas bonecas não usam rosa e vivem aventuras radicais com Wolverine, Iron Man, Spider Man, Batman. Ivan tem uma parceira e tanto para as estreias de sagas no cinema porque a pequena sempre o acompanha, enquanto eu me aventuro com os meninos de vermos animações. De Bob Esponja até Snoopy, acompanhamos de tudo.
Benício, de seis anos, é o típico filho do meio e o que tem de meigo tem de bagunceiro. Jacques, de quatro aninhos apenas, é o mais semelhante ao pai na aparência, até um pouco precoce porque começou a andar e falar antes dos irmãos. É o xodó da casa e veste roupas cor-de-rosa.
Alguns conhecidos criticam Lia por ser “permissiva”, mas a verdade é uma só: meus sobrinhos farão parte de uma geração histórica, tenho certeza disso, de que eles serão grandes cidadãos e deixarão sua marca.
Depois do que Lia e eu passamos na mocidade, podemos dizer sem medo que somos uma família feliz.
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