Produção Independente

10 10. Quebrando os protocolos - Por Letícia


Passei a noite de Natal na casa dos meus avós paternos e brinquei com os meus primos menores parecendo uma adolescente como qualquer outra, rindo, interagindo, me alimentando sem me importar com calorias, curtidas, com o dia de amanhã.

Todos estavam reunidos. Levando em consideração os parentes mal se encontram durante o restante do ano, foi uma boa ocasião para juntar todo mundo, ainda mais com o Vô Valentino ou Pepe (para os mais chegados) sendo o anfitrião da festa.

Vovó dispensou as outras mulheres da família de se preocuparem com a ceia, que foi farta. Teve Chester, rabanada, opção para os vegetarianos, sobremesa à vontade, bebidas para nós “crianças”, espumantes para os adultos. Quem fosse beber não poderia dirigir.

A parte chata foi quando começaram a falar de política porque alguns deixaram de lado o espírito natalino e acabaram por proferirem termos impublicáveis os quais prefiro não me aprofundar por não valer a pena. Vô Pepe contrapunha alguns argumentos, sempre com respeito, mas em toda confraternização que se preze tem aquele tio mais revoltado que não aceita opiniões divergentes, teima feito criança pequena e sai bufando para fumar na sacada, gerando um mal estar entre os presentes que nem os mais belos arranjos de harpa e violoncelo são capazes de atenuar.

Teve também a troca de presentes com o meu vovô vestindo o uniforme de Papai Noel antes da meia-noite, deixando os pequenos muito entusiasmados.

Eu ri muito.

― Como é que ele entrou se não tem chaminé? ― perguntou o meu priminho de seis aninhos que usava uma camisa xadrez e uma gravata borboleta vermelha.

― Ele tem suas manhas e como ele já é um pouco velhinho, não é bom que passe por chaminés empoeiradas, pode ter alergia e ficar de atestado. ― respondi, sentando-o no meu colo no sofá de contorno.

Vovó caprichou na trilha sonora, deixando a todos no clima de festa. Mamãe confiscou o meu celular, sempre acha que eu passo muito tempo conectada e por isso mesmo me deprimo. Eu nem discuti, apenas entreguei o aparelho e procurei me divertir como se computadores e celulares pertencessem a um futuro muito distante, o que era verdadeiro se levar em conta a infância dos meus avós.

Dizem eles que os jovens de hoje são mais tristes porque passam a vida querendo o que não podem ter. Quando são pequenos querem logo ser grandes e quando crescem querem voltar a serem crianças. Insatisfação homologada e comprovada. Eis um bom exemplo: eu!

Eu já sabia que Papai Noel não existia, no entanto diante dos meus priminhos banquei a mamãe coruja, imaginando também que Cuca passaria o primeiro Natal com o seu bebezinho, que aquele dia devia ter um gostinho especial. Ela cuidava dos filhos da irmã como se fossem os dela, agora além deles, haverá mais uma.

Eles não viajariam naquele ano, mas receberiam os parentes em casa. Deixei uma mensagem no mural dela desejando Feliz Natal e dois minutos depois ela me respondeu no bate-papo, dizendo que um dos melhores presentes de Natal que poderia ter ganhado foi a minha amizade, que com certeza de 2014 foi o que foi ― no sentido de marcante ― eu fazia parte dessa história.

Tem gente que faz disso um clichê. Dentro do meu coração, sei que ela detesta clichês e não faria isso.

Cuca me pediu para aproveitar bem as festas de fim de ano, curtir as férias e não me esquecer da minha poderosa reflexão.

Eu estava escrevendo sobre os meus medos, as minhas inseguranças, tentando entender um pouco mais sobre essa avalanche de emoções que me levou para dentro desse casco intransponível.

Não queria pensar no próximo ano nem no retorno das aulas, no quanto seria difícil lanchar sozinha, não ter mais a Cuca tão perto para conversar, rir, me aconselhar, nem teria privilégio das suas aulas tão enriquecedoras. Não queria estragar aquele momento de festas pensando no que eu não poderia resolver.

O ano novo eu passei em casa mesmo com os meus pais, mas eles desligaram a televisão, preferindo músicas animadas no rádio. Ceamos depois das dez horas da noite, vestimos nossas roupas novas e saímos até o quintal com nossas taças, brindando e trocando abraços quando era meia-noite.

O ano de 2015 já havia chegado. Aquele ano marciano que teria a energia do fogo concentrando-se em nós, que quando mal aproveitada destrói, mas se bem utilizada aquece. O ano de ir à luta. Todo ano sempre é, mas 2015, o ano dos meus quinze anos, tinha o seu significado amplo por trás das previsões as quais eu não acredito cegamente e nem desacredito, apenas leio.

Com uma chuva fina, gostosa, aquele friozinho fora de época que não veio em melhor hora e quebrou o protocolo de 2014.

Meus pais trabalham em janeiro. Trabalham o ano todo, para falar bem a verdade. Eles nunca foram o tipo de pessoas que gostassem do ócio e cobravam que eu seguisse o passo deles, embora eu não tivesse a mínima ideia do que pretendia fazer quando terminasse o Ensino Médio, ou seja, no final de 2016, conforme as expectativas iniciais. Quer dizer, eu sabia sim o que queria fazer, mas não tinha certeza se era de fato o que os mais velhos sonhavam para mim.

Eu quero ser professora.

Sim, como a Cuca.

Pensei em ser modelo, contudo nunca terei altura nem farei o padrão dos “clientes”. Não tenho potencial vocal, muito menos gingado para me aventurar em coreografias bem sensuais. Sou tímida demais para ser atriz, baixinha demais para ser jogadora de vôlei e basquete e “velha” demais para ginástica olímpica, seja ela a artística ou a rítmica. Acho lindo acompanhar na televisão, mas sei que o que aquelas meninas sofrem para executarem acrobacias perfeitas não tem nada a ver comigo. Gosto de ver as ginastas dançando no solo, emocionando a plateia, se superando a cada lesão, a cada derrota, sempre torcendo para que alguma brasileira esteja no pódio, quem sabe algum dia...

Futebol não é um esporte que particularmente eu goste. Até o meio do ano eu queria que a Copa do Mundo não acontecesse, mas a Prof.ª Cuca explicou muitas coisas sobre o evento e no fim das contas foi ótimo, pois nossas férias foram antecipadas e toda a família ia até a casa do meu avô para acompanhar os jogos de lá.

Dez minutos antes do jogo não tinha ninguém na rua. Ninguém mesmo. Mas dentro das casas era aquela muvuca. Meu avô viu a seleção ser campeã pela primeira vez, meu pai se lembra de muito pouco ou quase nada do tricampeonato, no entanto descreveu o tetra com tanta entonação que eu posso até imaginar como foi. Quando o Brasil foi penta, eu tinha dois anos de idade apenas, ou seja, não me lembro de nada.

Naquele jogo contra o Chile ficamos todos com muito medo que meu avô passasse mal, então vovó medicou-o com o remédio da pressão. Ele rompeu em prantos quando a seleção se classificou para as quartas-de-final naquele sábado em que (praticamente) o Brasil todo ficou com o coração na mão em frente ao televisor, até quem nem simpatiza com a seleção canarinho. Pênalti por pênalti. Comentários, apreensão. Os olhos vidrados na tela fina, ignorando os berros daquele narrador egocêntrico que marca presença em todos os mundiais que me lembro de ter assistido e nem foram tantos assim, acho que apenas dois e em nenhum deles o desempenho do Brasil foi admirável.

Meu pai comentou na segunda partida que apesar de estar torcendo não tinha esperança que o Hexa viesse em 2014. No entanto, depois da choradeira da classificação, essa chance era mais palpável. Já naquela terça-feira em que nós perdemos de 7 a 1 para os alemães, ele disse que futebol era apenas um esporte, não o fim do mundo. Meus primos choraram inconsoláveis. Eu não dei muita atenção, sabia apenas que no dia 14, fosse qual fosse o resultado, minhas aulas voltavam e a exclusão por parte da turma, também.

Esse foi o meu motivo para gostar da Copa: ficar longe da escola.

De todas as profissões que cogitei, a de professora me pareceu mais recompensadora, embora muitos digam que estou equivocada, que quero seguir os passos da minha “ídola” e melhor amiga, o que não deixa de ser verdadeiro, afinal de contas, os bons exemplos devem ser imitados, sem plagiar.

Poderia desconsiderar por ser tímida, entretanto, sempre precisaremos de professores e cada vez mais nós necessitaremos de seres pensantes que não queiram utilizar-se do conhecimento para oprimir e sim para promover um encontro harmonioso entre pensamentos e atitudes, a fim de libertar.

A vida de uma professora é muito corrida, estressante, mas também essencial. E eu espero fazer alguma diferença para os meus futuros alunos, nem que seja na vida de apenas um.

Janeiro combina com férias, praia, campo, brincadeiras, lazer, sorvete, água-de-coco, bronzeado, insolação... Tudo, menos o tédio.

Meus avós iriam viajar para uma praia bem tranquila onde têm casa e convidaram os meus pais que como era de se esperar recusaram, mas comentaram que eu estava “tristonha” e que seria muito bom respirar um ar diferente, então saí com a minha mãe comprar algumas peças de banho e combinamos que seria por quinze dias.

Eu ainda achava quinze dias muito tempo.

Meu avô adorava fugir da selva de pedra para respirar a brisa marítima, ainda que não cogitasse se transferir permanentemente para o litoral porque acabaria por se afastar do restante da família. Pepe enumerava as propriedades calmantes que abaixavam sua pressão arterial controlada por um coquetel de remédios e melhorava consideravelmente a qualidade do sono. Nem ele nem a minha avó gostavam de tomar sol no horário de pico, eu também não.

O primeiro dia foi cansativo para eles que pararam o carro saindo para esticar os pés, beber água, ir ao banheiro. Vovó levou o medidor de pressão e uma bolsa com todos os remédios que eles ingeriam.

Em quinze dias muitas coisas podem acontecer tanto boas quanto ruins.

A casa deles localiza-se em uma rua residencial sem saída, dessas que parecem ter parado no tempo, numa época a qual só ouvi falar, nunca vivi e admiro ainda assim.

Tinha gente escutando música alta (nem sempre boa), casas com redes penduradas na área de serviço, coolers cheios de bebidas, cheiro de churrasco assando, crianças correndo e eu, lendo, isso quando não estava sentada na mesa brincando com vovô nesses jogos de tabuleiro, pois ele não havia se rendido à modernidade.

Vovó tem uma conta na rede social do momento, mas não entra muito.

― Você não pretende fingir que gosta de ser rabugenta como o seu velho avô, sim? ― perguntou vovô.

― O senhor não é rabugento, vô.

― Eu acho que você devia ir brincar um pouco... ― Ele ajustou as hastes dos óculos em cima do nariz batatudo. ― Com a condição de que volte para casa antes de escurecer.

― Não creio que deva ter muita coisa pra mim, vô.

― Poderia pelo menos dar uma voltinha para tomar um sorvete, ver o mar, sair um pouquinho...

Vovó se divertia cuidando das plantas, preparando lanches, tricotando, vendo televisão (as novelas do SBT e do canal por assinatura “Viva”), recolhendo-se bem cedo, entretanto. Rita e Pepe se entendiam muito bem apesar de serem meio resmungões um com o outro. Coisa deles... Brigavam num momento, no outro já estavam de mãos dadas sentados no sofá.

Descobri por acaso que havia uma biblioteca nesse balneário que é uma cidade como qualquer outra com shopping, escolas, maternidades, distritos policiais, bairros mais afastados e perigosos, feirinhas ao ar livre, etc.

Uma biblioteca... Não me custava nada entrar para ver se encontrava alguns livros interessantes.

Quando eu estava saindo dali com dois livros os quais abri a mochila e dentro coloquei, uma menina comentou.

― É muito bom, vale a pena!

― Oi? ― Voltei-me para ela que estava acompanhada de dois meninos.

― Só posso dizer que você vai precisar ler com uma caixinha de lenços ao lado. ― aconselhou a menina.

― Gosta de ler?

― Tanto quanto um gato gosta de brincar com caixas de sapatos.

― Então não é a única. ― respondi confiante.

Ela se chamava Sarah e os meninos eram Frederico e Teodoro, amigos dela desde sempre.

― Ouvir aquelas músicas é um bullying contra os ouvidos, ninguém merece. ― reclamou Sarah quando nós nos sentamos no meio-fio para conversarmos. O sol não estava tão forte e apesar daquele clima abafado, ruim não estava.

Eu que não pretendia passar mais do que meia hora longe de casa, voltei com dois livros fantásticos e três amigos muito legais.

Vovô estava coberto de razão quando me deu aquele empurrãozinho básico para que eu saísse um pouco de casa, por isso o amava tanto. Ele era uma versão mais mansa e condescendente do filho. Papai era mais contido, enquanto Pepe sempre foi “desbocado” e caloroso.

Presumo ter um pouquinho dos dois, mas ser calada por conta da timidez, pelo puro medo de dizer alguma bobagem.