Produção Independente

11 11. Entre irmãs - Por Cuca


Lia Magalhães Passos nem precisaria vasculhar o meu histórico de mensagens para saber o motivo pelo qual eu não estava “normal”. E convocou aquela conversa comigo. O protocolo por mim já era conhecido.

― Cuca, eu não quero te constranger, mas sinto que preciso ser direta... ― Lia sentou-se na pontinha do sofá onde eu estava acomodada, já que eu não me sentia confortável nem na minha própria cama.

― Anda, Lia! Chega de enrolação. ― Deixei o livro que estava lendo em cima da mesa de centro. Sem as crianças em casa eu tinha mais concentração para ler.

― Não está rolando nada entre você e o bonitão? ― Lia perguntou bem baixinho como se os animais de estimação fossem nos delatar a alguém fora do nosso círculo de amizades.

― Se fala do Herbert, eu não o vejo desde aquele dia e não quero ver nunca mais, de preferência.

― Que Herbert o quê, Cuca. ― Lia deu um muxoxo, deve ter apelado até para simpatias para me fazer desgostar do Herbert. ― Estou falando do Dr. Bonitão.

― Do Fábio, quer dizer?

― Olha só que intimidade, Cuca. ― Ela deu palmadinhas nas minhas coxas. ― Diz para mim: está rolando alguma coisa, não está?

― Você está maluca, Lia? Lógico que não! ― desconversei sentindo o rosto esquentar. — Ele é meu médico e só me adicionou nas redes sociais porque está preocupado comigo e com o bebê.

— Isso tem nome e você sabe muito bem qual é...

— Ele é meu médico.

— Ele curte tudo o que você posta e eu vejo o seu olhar todo bobo lendo as mensagens que ele te manda. Você pensa que eu sou boba, irmã? Eu conheço muito bem os sinais de quando você está afim de alguém e não por nada, mas você é correspondida, pois o Dr. Bonitão está ba-ban-do por você.

Eu ria de desespero, no fundo querendo chorar, pois era a conjuntura mais desfavorável para firmar um envolvimento romântico com Fábio Aragão. Eu estava grávida e ele era o médico que fazia o acompanhamento do bebê.

Nada garantia que eu fosse correspondida, apesar de pequenas suspeitas pertinentes, como o fato de ele estar ouvindo The Pretenders bem baixinho no youtube antes de me atender numa das muitas consultas só porque um dia eu compartilhei a música I’ll stand by you no perfil do facebook, como também pedir licença para ir ao banheiro e de lá sair perfumado, mostrando-me no celular as fotos de seus filhos: três cães, a começar por uma linda boxer, um Golden Retriever arteiro e um vira-lata cinzento de orelhas arregaladas, além de possuirmos visões político-ideológicas semelhantes.

― Casado eu sei que ele não é e você também não. — incentivou Lia. — Vocês têm muita coisa em comum. O zelo que ele tem por você não é normal. Nunca vi nenhum médico tratar assim uma paciente. E tem outra coisa: seus olhos brilham toda vez que alguém fala sobre ele.

― Que bobagem, irmã. ― abanei a cabeça, irritadíssima.

― Bobagem coisa nenhuma, senhorita Cuca. Você está apaixonada, eu sei que sim. Você ama o Fábio. Eu te conheço há 33 anos.

― Eu estou agindo feito uma idiota, por acaso?

― Apaixonar-se por alguém não é sinônimo de ser idiota.

― Acreditar que alguém vai me querer nesse estado é sim ser idiota. ― mordi o lábio inferior, ciente de que naquela situação era mais fácil mentir para mim mesma, fazer-me acreditar que nada havia mudado, mesmo que para Lia tudo estivesse mais transparente, que ela soubesse do inadmissível e esperasse pela minha confissão verbal.

― Isso é um sim mais do que confessado ― Lia soltou uma gargalhada. ― Tem coisas que nós nem sabemos por que têm de acontecer, mas depois que elas acontecem se justificam. ― Ela fez uma pausa para tomar mais cuidado com o que ia dizer, embora para mim estivesse praticamente incontrolável o carinho por Fábio, um carinho que me consolava por existir e me atormentava por ser indefinido, até proibido. ― O Herbert foi... Tipo... Um empurrão para que você e o Dr. Bonitão se encontrassem.

― Você anda vendo muitas novelas e lendo muitos romances, minha irmã. Eu não quero saber de homem algum, quanto mais o Fábio. Além do mais, nós somos só amigos...

― Muitos casais que conheço usaram esse pretexto do “somos só amigos” para despistar os curiosos... O Ivan e eu, por exemplo... E todo mundo sabe como essas histórias costumam terminar. ― brincou ela, gesticulando: ― Tipo, amigos por enquanto... Amigos até um dos dois tomar a iniciativa... O que separa a amizade do amor é só um beijo...

― O Dr. Fábio vive para o trabalho, não me parece o tipo que curta ter relacionamentos muito sérios, tanto que com a idade que tem ainda é solteiro. Quer dizer, ele foi noivo por alguns anos, mas disse que essa experiência foi boa para não dar ― como ele disse ― um salto no escuro. Ele preferiu desmanchar o noivado antes de marcar a data do casamento do que muitos anos depois chocar a família com um divórcio e bem a família dele que é respeitada e tradicional no mundo da Medicina... Eu sei lá, médicos se casam com médicas...

— Pare de arranjar desculpas pra não ser feliz, Cuca.

— Nosso envolvimento é ilegal.

― Seria se ele estivesse te oprimindo, te abusando, te chantageando, mas não está havendo nada disso. Ele está gostando de você e não tem culpa disso, como você não tem culpa de gostar dele. A questão é bastante simples. Vocês estão apaixonados. E tem mais: viver para o trabalho não quer dizer que ele não pense em se relacionar, irmã. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

― Ninguém pode ter tudo. Ou você tem sorte nos negócios ou tem sorte no amor. Vai que ele é gay e não me falou? Ele pode não ter relacionamento com uma mulher, mas pode ter com um homem.

― Isso tem mais a cara do Herbert.

― Nos últimos meses eu descobri que sou o tipo de mulher que nasceu para viver sozinha.

Eu sempre utilizava aquela desculpa antigamente para dar a entender que Herbert não havia destruído as minhas esperanças. Ele era o controlador da minha gangorra de emoções, voltando e me deixando lá no alto, perto do céu, depois indo embora, caindo depois de tentar descer sozinha do escorregador, pelo lado invertido, pelo prazer de contrariar quem sabia melhor das regras do parquinho da vida quanto eu. No entanto, a autocomiseração era o meu pecado, logo eu que sempre a condenei de todas as formas, por saber que ela era mais corrosiva que qualquer veneno.

― Fingirei não ter escutado. ― disse ela, inconformada.

― E quem disse que eu preciso estar casada para ser mãe?

― Você vai ser uma ótima mãe independente do estado civil, irmã, mas...

― Eu prefiro ficar do jeito que estou. Quanto menos expectativas criar, menos lágrimas eu irei derrubar.

― A única coisa que eu te digo, minha irmã, é para que não fuja das coisas que estão crescendo dentro de você. Não adianta nada. O Herbert não representa um homem apaixonado de verdade. Se o Dr. Bonitão gostar de você, não importa que você tenha uma filha que não é dele, que você não seja médica, que as agendas não sejam compatíveis, que você tenha sido paciente dele, que vocês não pertençam às mesmas castas sociais, nada disso importa se duas pessoas se amam de verdade, porque o que mais importa já aconteceu: o amor. Quando alguém realmente quer fazer parte da nossa vida se esforça, encontra um jeito. Aceite o amor do jeito que ele vier, o amor que cresce dentro de você. Não fuja. Não se sabote. Não se odeie por não controlar o sentir. Permita que o Fábio te ame do jeito que ele pode agora. Permita que alguém te ame.

Aquele trimestre final da gravidez era um terror. As expectativas me levavam do topo ao abismo. Dúvidas, medos, curiosidades e a ansiedade geral para ter a minha menininha nos braços. Além de tudo, uma paixonite pelo meu médico, para completar o ato.

Notas finais
Poderíamos descobrir como se sente o Fábio... Eu tenho uma fic narrada por ele com nove capítulos e se algum leitor se interessar, posso disponibilizar :)