Produção Independente

5 5. Cada amigo é um amigo - Por Cuca


Letícia Ventura é uma menina especial em todos os sentidos. Nunca pensei que dentre tantos alunos pudesse encontrar uma amiga ali. Com praticamente a metade da minha idade, ainda negando o próprio brilho, mas nem por isso menos amável, um anjo que quebrou as asas e permanece procrastinando por medo de voltar a voar. Gostaria de ver esse dia chegar. De vê-la abrindo um enorme e espontâneo sorriso.

Letícia perdeu os seus únicos amigos para boatos. Interpreto que eles se foram porque não a mereciam, somente ela ainda não atentou para esse detalhe e permite que rebaixem o seu valor para se sobressaírem.

Por volta do mês de outubro, externou-se da minha parte uma preocupação sobremaneira com o desinteresse dela pelos estudos — outros professores comentaram comigo a respeito do estado catatônico daquela sempre tão elogiada pela disciplina e assertividade — e por tê-la adicionada no facebook tentei descobrir pelas suas postagens o que poderia haver de errado, mas lá a minha busca foi infrutífera, então segui para o perfil dela no tumblr no qual atende por um nick escrito em inglês.

Entre um compartilhamento e outro meu coração ficou em pedaços. Aquela criança estava completamente decidida a dar cabo da própria vida. Era notável que vinha abusando dos casacos pesados em plena onda de calor porque voltou a se autoflagelar, estava mais magra, abatida e pálida, além de dispersa, angustiada, ensimesmada. Cumprimentava-me com frieza evitando olhar para a minha barriga, saía antes de o último sinal soar, totalmente diferente de antes.

O sinal de alerta veio em um teste com consulta entregue em branco. Por um lado desconfiava que estivesse magoada comigo porque não lhe contei sobre a gravidez, dando a impressão de que a excluí como fizeram os seus antigos amigos, o que não é verdade. Por outro, não estava convicta se teria tempo de conversar francamente com minha amiguinha e mostrar-lhe na simplicidade de alguém que não desejava moralizar que a vida é o próprio motivo.

Se hoje sou uma mulher que valoriza a própria beleza, os valores pessoais e procura não se comparar com as outras, nem sempre foi assim. Eu me enxergo na pele de Letícia Ventura porque também era uma menina tímida, insegura, repleta de dúvidas e medos, aquele tipo que quando tinha um seminário para apresentar em classe, não dormia na véspera.

Temendo ser rejeitada pelas outras meninas, formei um grupo com os meninos, detestava as “piranhas”, pensava que não existiria amizade feminina sincera, pois sempre haveria competição, comparação, inveja, crise de ciúmes, fofocas. Por mais que me esforçasse, nunca seria um deles, nunca teria os mesmos privilégios nem igual reconhecimento na hierarquia, encontrando a partir dessa conclusão grandes amigas em garotas que antes eu julgava por receio do desconhecido, ainda que esse caso não se aplique às gêmeas narcisistas do primeiro ano.

Meus pais se conheceram em circunstâncias confusas, mas se apaixonaram e formaram uma nova família, sendo Lia e eu os frutos de uma união que de fato só a morte (de mamãe) interrompeu.

Emir e Romilda dividiam as tarefas do lar e nos ensinaram que a casa era um bem comum a todos, portanto a tarefa de mantê-la organizada não podia ser delegada apenas à mãe. Minha irmã caçula segue a mesma regra e Ivan não se incomoda nem um pouco de ajudar, ainda que muitos amigos seus cheios de diplomas nas paredes e currículos impecáveis no Linkedin continuem tratando as namoradas e esposas como escravas e prostitutas.

À medida que fui amadurecendo e percebendo que muitas mulheres que tenho como parâmetro de sucesso e realização também eram tímidas lagartas na mocidade, entendo que não devo odiar nem travar guerras imaginárias, nelas ninguém vence, apenas o patriarcado.

Tenho bons amigos e entendo que o que os torna incríveis é o fato de eles serem o que são.

Minha irmã Lia é a minha inseparável amiga. Somos diferentes uma da outra em (quase) tudo. Iguais numa porção de coisas, ou aproximadamente. Tenho três anos a mais e às vezes a impressão de ser a caçula, quando quero, é claro.

Lia e eu trocávamos empurrões e puxões de cabelo na infância, ela sempre queria ganhar presentes no meu aniversário e isso me deixava furiosa, porque além de tudo, a teimosa queria as minhas bonecas e eu tinha de “dar o exemplo” por ser a mais velha. Na adolescência eu me aborrecia quando meus CDS eram confiscados e apareciam riscados ou então as fitas arrebentadas, que martírio. Eu implicava com as “músicas chatas” que ela escutava.

Muito esperta, a danada repetia que eu parecia estar sempre de luto por viver usando preto e também riu alto no meu rosto quando disse que havia escolhido ser professora, logo eu que quando brincava de professorinha quando criança vivia colocando orelha de burro nela e deixando-a de castigo. Hoje nós duas nos lembramos com os olhos marejando de todas as travessuras vividas, tudo ficou na saudade.

Mamãe morreu de infarto fulminante quando eu tinha treze anos. Em um dia ela estava aparentemente gozando de uma saúde dentro dos protótipos aceitáveis de normalidade, mas não dizem que para morrer basta estar vivo?

No outro dia pela manhã, D. Romilda Isidoro Magalhães foi encontrada caída no chão do banheiro, por ninguém menos que Lia que chamou uma vizinha para ajudar, tarde demais. Eu estava na aula quando a coordenadora me chamou até a sua sala e eu encontrei a minha tia com o rosto afundado nas mãos. Foi ela quem teve de dar a notícia que mudou drasticamente a minha vida.

Sou a filha mais velha de Romilda com Emir, o meu pai, mas eles já tinham filhos de uniões anteriores, então tenho meios-irmãos cinquentões. Papai mudou muito depois que mamãe morreu e parecia querer nos compensar porque ele próprio havia perdido o chão tão de repente que se alimentava da nossa força para sobreviver e terminar de nos encaminhar. Eu, entretanto, lamentava pela Lia que dormia com a camisola da falecida nas primeiras noites, chorando, esperneando, desejando ir embora para o céu.

Foi uma barra pesada. Um ano bem esquisito que partiu uma fotografia ao meio, deixando o meu pai com duas crianças sob a sua total responsabilidade, levando embora aquela empolgação dos churrascos em que os irmãos se reuniam e ficavam escutando música até escurecer. Era a Romilda a luz dos olhos de Emir. Sem ela, sobreviveu, porém sem a qualidade de antes. Se já não bastasse a recessão econômica no país que reduziu drasticamente o padrão de vida da população, aquela perda irreparável.

Minha mãe era a minha melhor amiga.

Romilda era o tipo de mulher que não parava de trabalhar nunca. Uma gripe não passava de um corriqueiro resfriado, estava de pé antes de prescrever o atestado. Tagarela, entusiasmada. Eu mal tinha seios quando ela jogou um par de sutiãs em cima de mim, falou sobre a puberdade antes que eu pudesse sonhar em usar um absorvente. Se eu levei alguma palmada deve ter sido porque cometi alguma travessura.

Romilda sempre encontrava uma engenhoca para consertar, reaproveitar, um prato novo para experimentar, um lugar para visitarmos. Ela era cheia de vontade de viver e prefiro pensar que sua morte repentina foi um alívio, estou certa de que aquela sagitariana não iria querer ser vista definhando em uma cama, sem dignidade, sofrendo e fazendo os seus entes queridos sofrerem.

De qualquer forma, houve dor. Mas para os que ficaram.

Papai morreu cinco anos depois, dormindo. Eu acabei por ser a mãe da Lia, embora tenha fraquejado quando minha loirinha mais teimosa precisou de mim. Passei dias e vários dias em estado de catatonia, juro por Deus que pensei que iria enlouquecer.

Um velho e saudoso amigo me disse um dia que eu sou a Fênix, sempre ressurjo das cinzas quando todo mundo pensava ser o meu fim. Sem o meu pai perdi o eixo de sustentação do meu mundo, o herói mais franco que tive, aquele que ainda sonhava em ver o Leonel Brizola sendo empossado presidente da república e não viveu nem sequer para ver o Pentacampeonato da Seleção Brasileira.

Foi à parte ruim de ser filha de pessoas mais velhas, dizer adeus a eles tão cedo, quando em termos de vida, Lia e eu não passávamos de filhotes que já estavam desmamados, mas ainda estávamos longe de sermos independentes.

O fato é que precisei tirar de dentro a força que não tinha. Lia precisava de mim. A desistência gritava, no entanto a esperança, do outro lado da corda, dava as mãos. Cabia-me escolher. Assumi um posto muito arriscado quando ficamos somente nós duas no mundo, com a família literalmente partida ao meio. Uma pela outra. Não tivemos alternativa a não ser amadurecer. A vida não estava aceitando brincadeirinhas, quaisquer que fossem elas.

Lia faz o tipo Annie Lennox no tempo dos Eurythimics, com os cabelos sempre curtos que combinam com a sua personalidade forte e determinada, com os seus olhos verdes e a sua praticidade para viver, dando conta da dupla jornada de trabalho. E ainda por cima, se não fosse pela insistência para ouvir New Wave, nunca imaginaria que No more I love you's tem uma grande influência da soul music. Se existe uma música no mundo todo que eu não enjoo nem por decreto é essa.

Lia conhece de cor e salteado todas as minhas expressões. Quando estou brava, quando não estou a fim de conversar, quando estou tentando não chorar, quando estou prestes a explodir de tanto rir. Eu nem precisei contar-lhe que estava grávida, ela já sabia.

Tenho minhas amigas de passeio, aquelas com quem podia até passar um pouco da conta na bebida, coisa que parei de fazer logo que engravidei, uma vez que a partir daí decidi adotar um estilo de vida mais saudável. Não é que eu não possa falar sério com elas, parte de mim a decisão de ser seletiva quanto ao que dizer.

Tenho aquelas amigas que estão bem longe, com quem troco longos e-mails e sinto nesses momentos que a distância não existe, pelo menos não quando se tem vontade de fazer alguém estar por perto.

Tenho amigos que a vida já levou embora, tantos outros que o tempo afastou, os quais reencontro em alguma fotografia por aí que revejo quando bate a saudade. E é assim que eu quero que eles fiquem. Como foram. Uma boa lembrança.

Tenho meus amigos “colegas”, a quem devo respeito, sem falar nada além do trivial.

E tenho a Letícia, a minha menina dos olhos.

Sempre gostei de crianças comunicativas porque fui uma. Nunca deixei de retribuir um sorriso, por mais partido que esteja o meu coração.

Letícia tem sérias dificuldades para enxergar-se como realmente é. Inteligente, motivada, atenciosa, prestativa, tão bonita, mas uma beleza que é triste por não ser valorizada por quem a tem, no caso dela. Lamento-me por ver tanto potencial sendo desperdiçado em vão. Toda lagarta passa por esse processo enfrentando o medo, a ansiedade, a negação.

Gostaria de um dia vê-la feliz.