Produção Independente

29 29. Sob outro prisma - Por Cuca


Letícia Ventura deu entrada no hospital com um quadro grave de apendicite e foi encaminhada às pressas para o centro cirúrgico. Embora a operação tenha sido bem sucedida, as horas de observação tiveram um peso enorme e mostraram como seria a recuperação da garotinha.

Nada bem.

Voltei a lecionar no quarto dia de internação da Letícia, logo quando ela estava na Unidade de Terapia Intensiva por conta de complicações posteriores à cirurgia. Meu coração encontrava-se aflito e no papel de mãe poderia imaginar a devastação de D. Márcia, a dor da incerteza, de nada estar ao alcance, o vazio das horas sem definição.

Letícia não precisava me contar que estava sofrendo, eu sabia tudo o que se passava porque além de ser sua leitora em segredo, confiava no seu talento e partia o meu coração assistir perto àquela covardia sem fim que estavam fazendo com ela no referido aplicativo.

Em minha conta publicava contos e poesias, mas os mesmos não recebiam muitas visitas. Surgiam várias e várias mensagens no meu mural implorando por visitas e “feedbacks sinceros”. Por educação visitava, mas não encontrava substância no que lia, aguçando a minha percepção de que muitos decidiram escrever esperando a fama e não pela função terapêutica que o ato em si traz. O alívio para a alma. Um exercício para a imaginação.

Minha melhor resposta diante daquele absurdo era o silêncio. Por entender que o baixo número de visitações não interferia diretamente no olhar que tinha sobre o meu trabalho, tratava aquilo pura e simplesmente como um lazer, não como o motivo da minha vida, a exemplo do que fazem muitos autores. Nunca escrevi com a finalidade de viver da publicação de livros e não queria comercializar o meu pensar.

Assim que não restaram suspeitas de perseguição contra Letícia Ventura, entrei em contato com amigos advogados que tratavam de casos cyber crimes, tinha certeza de que Flora, Flávia e Marcela não ficariam impunes. Ivan e Lia foram muito úteis para colherem as provas necessárias para comprovar o cyberbullying, além dos depoimentos da bibliotecária da escola e muitas outras pessoas que se manifestaram após aquela aula. Como educadora e mãe, era meu dever intervir em uma situação que já havia passado dos limites.

Os amigos que Letícia fez durante as férias de verão me procuravam para deixar mensagens de apoio à garota e a eles eu respondia aquilo que sabia, o que a família me permitia naquelas circunstâncias.

Marcela, ao perceber a gravidade da situação, me procurou num intervalo de aula quando já fazia mais de quinze dias que Letícia Ventura estava internada (e sem previsão de alta) e, envergonhada, disse-me que precisava muito conversar comigo em particular.

― Professora, a situação da Lelê é muito grave? Ela pode morrer? ― inquiriu Marcela, assombrada.

― Eu não estou autorizada a dar informações sobre o estado de saúde da Letícia por ordens da família, Marcela, sobretudo a você.

Marcela teve uma crise de choro.

― Tenho medo de que alguma coisa aconteça com a Lelê.

Mantive-me em silêncio apenas observando a linguagem corporal da garota para saber se ela estava preocupada de verdade ou apenas atuando para tentar descobrir algo que pudesse usar para constranger ainda mais a quem não precisava de mais sofrimento do que o já enfrentado.

― Letícia costumava ser uma das minhas melhores amigas. ― começou Marcela, com a voz entrecortada. ― Ela sempre foi legal comigo, eu é que a traí pelas costas...

― Por ciúmes?

― Eu gostava de um garoto que gostava da Lelê.

Aquiesci, indicando que Marcela deveria prosseguir com o desabafo:

― Eu sempre fui apaixonada por Cauã, mas quando me declarei, ele confessou que era apaixonado pela Lelê, mas nunca teve coragem de chegar nela por ser tão tímido quanto ela...

― Esses desencontros acontecem desde sempre.

― Eles doem, isso sim!

― Não é diferente da minha época. Num grupo de amigos pode acontecer de dois membros se apaixonarem um pelo outro sem sequer terem culpa disso.

― Cauã amava a Lelê e eu a achava uma idiota por não querer namorar.

― É uma escolha dela.

― Sim, eu sei, mas...

― Letícia não tinha culpa se Cauã gostava dela, como você não tinha culpa de gostar dele.

― Eu não achava justo.

― São desencontros, Marcela. A vida é cheia deles, mas enquanto você se humilha pelas migalhas de quem não quer você, alguém gostaria de ter uma única chance de te fazer feliz. Às vezes acontecem de dois amigos se apaixonarem e o amor ser correspondido. Às vezes, não dá certo, a timidez impede que eles se enxerguem como apaixonados e se declarem, ou de uma parte gostar e a outra não. E não me pergunte, eu sei que dói. Como disse à Letícia uma vez, direi a você: eu fui adolescente e passei por tudo o que vocês passaram, desde a puberdade até o coração partido.

Contei-lhe a história de amor de Juca e Perséfone, dois grandes amigos meus do tempo de escola, e do quanto me enchia de alegria ver que vinte anos depois eles continuavam tão apaixonados quanto no primeiro beijo. Nunca contei a ninguém que no primeiro ano do Ensino Médio eu era apaixonada pelo Juquinha, nunca sequer deixei desconfiá-lo de tal coisa.

― Pode ser que Cauã não fosse o garoto certo pra você, mas deve haver outro, sim. ― Ofereci um lenço para Marcela enxugar as lágrimas. Era bom que ela me contasse tudo, sentisse que tinha essa abertura para se comunicar, desse modo eu poderia remontar as peças daquele quebra-cabeça cujos encaixes não me surpreendiam, eu bem sabia que para as meninas se voltarem com tanto ódio umas contra as outras, havia um motivo muito forte e Marcela deixou claro qual (ou quem) era.

― As gêmeas nunca gostaram da Letícia e sempre inventavam boatos dela pelas costas, mas antes ninguém dava atenção por saber que era puro recalque, só que isso mudou quando o Diogo me contou que Cauã ia pedir pra ficar com a Lelê no Carnaval, pois nós íamos convidá-la pra viajar conosco. No entanto minha inveja foi tão grande por ter sido rejeitada de novo por Cauã que entrei na onda das gêmeas de caluniar a Letícia e comecei a espalhar boatos a todos sem nem me importar com a colheita, tratar a minha amiga com desdém quando as aulas voltaram, deixa-la sozinha no intervalo. Não lhe contei nada sobre a viagem pra fazê-la descobrir depois de propósito e coloca-la como a louca da situação. Ainda assim, não foi comigo que Cauã quis ficar, mas com a Flávia, com quem quase namorou.

― Não preciso nem lhe perguntar se compensou, pois sua consciência já denota que não.

― Claro que não.

― E por que você segue magoando a alguém que não merece? Por que você se presta a fazer um trabalho sujo e vergonhoso se também é bonita, inteligente e sabe que não vale a pena se indispor com uma grande amiga por causa de garotos?

― Eu não me sinto assim, professora. Eu não tenho um dom como a Letícia. Não sou inteligente nem especial.

― Você olha tanto o gramado da Letícia e se esquece do seu, criança. Você se sente feliz destruindo a autoestima da Letícia? Você consegue de verdade prosperar à custa do sofrimento alheio?

A menina fez silêncio olhando para as sapatilhas.

― Enquanto você se comparar com as outras meninas e não reconhecer o seu valor, sempre vai achar que as outras são obstáculos, nunca vai conseguir se amar de verdade e menos ainda permitir que alguém goste de você pelo que é. E, sim, você é boa em algo, só que não se tolera olhar para dentro e descobrir o que realmente pode te fazer feliz, Marcela.

― Se a Letícia morrer, eu vou me sentir muito culpada.

― Você se arrepende de verdade pelo que fez?

Marcela balançou a cabeça:

― Agora tudo o que podemos fazer por Letícia é enviar-lhe muitos votos de positividade e torcer para que ela resista. Deus e os médicos fazem o que podem.

― A Letícia sempre teve razão quando dizia ter uma amiga que vale ouro. ― confessou Marcela. ― Você é uma pessoa rara, Cuca.

Marcela me abraçou com força e eu retribuí para aliviar o desespero daquela menina que percebia a inveja que a estava levando para o fundo do poço. Mais do que nunca eu desejei que quando minha filha fosse adolescente pudesse crescer consciente de que meninos não eram e nunca serão troféus.

Nathália reagiu com certa desconfiança quando soube que ganharia (mais um) irmãozinho, mas abraçou a mãe e disse-lhe que ansiava muito por vê-la com aquele barrigão novamente. Jacques rompeu em lágrimas, enciumado como todo caçula que deixa de sê-lo. Benício travava discussões homéricas com a irmã mais velha porque almejava mais um menino para “desempatar” a conta de crianças na casa.

Ivan e Lia, pais pela quarta vez, riam daquela inocência tão contagiante pelas crianças. Tínhamos a impressão de que elas cresciam tão depressa que não tardaríamos a sentir falta dessa época, portanto deveríamos aproveitar os bons momentos em família porque no dom da vida de tudo o que vivíamos, levávamos para sempre somente as lembranças.

No décimo-sexto dia de internação, Letícia Ventura foi liberada para um quarto comum e passou a receber as primeiras visitas. Foi uma vitória muito celebrada por todos nós que passamos aquelas semanas intercedendo pelo bem dela. Levei para ela as cartinhas dos filhos de Lia, dos amigos do Balneário e dos professores.

No vigésimo segundo dia, Letícia recebeu alta hospitalar e a partir dali cumpriria o restante do tratamento em casa, assim como continuaria afastada da escola, sem perder o ano por conta de sua situação grave que já era de pleno conhecimento da coordenação. Márcia tirou licença do trabalho para cuidar de perto da única filha, ajuda-la com os estudos e dar-lhe todo o carinho de que precisava para resgatar seu amor próprio que estava perdido e desacreditado.