Produção Independente
30 30. Reflexões de Letícia - Por Letícia
Notas iniciais
Meu saudoso avô estava coberto de razão quando me dizia que apesar da chuva que caía, o sol sempre voltava. Porque volta, sim, basta acreditar.
Quando falo sobre o vovô, meus olhos ainda se enchem de lágrimas, não choro tanto quanto no início, mas me sinto segura por saber que não estou sozinha de verdade. Pepe segue vivo dentro do meu coração. Sempre que sinto saudades vejo as fotos, relembro os bons momentos que junto dele passei, permito-me chorar quando não consigo suportar a tristeza, visito o túmulo dele e sinto a sua presença em todos os lugares, como se ele fosse o meu anjo da guarda. Além do mais, a Vó Rita precisa de mim, de todos nós.
Vovó não quis aceitar o convite de mamãe para morar conosco porque mesmo que a casa seja muito grande para uma senhora solitária, ela acredita que se sente mais próxima de seu amado mantendo tudo do jeito que sempre foi. O espaço na cama de casal, a mesa arrumada do jeitinho que ele gostava, as canecas coloridas de ponta a ponta, os chinelos de pano.
O primeiro natal sem o vovô foi muito estranho. Meu pai se tornou o novo Papai Noel por ser o filho mais velho. Ainda que fosse engraçado de natureza, nunca substituiria de verdade o velho Pepe, não tinha os trejeitos de um autêntico velhinho que convencesse aos pequenos de que tinha vindo do Polo Norte, coisa e tal. Ele fez o que podia, devo reconhecer.
Formei-me no último ano do Ensino Médio e estudei bastante para as provas de vestibular porque Letras com habilitação em língua inglesa sempre teve uma nota de corte razoável, exigindo de mim uma dedicação maior porque embora a concorrência não se compare aos números de Medicina, não é algo que se despreze.
Nos meses que estive adoentada refleti bastante sobre a maneira como vinha conduzindo a minha vida. Nada aconteceu à toa. Meus valores estavam bastante distorcidos, a visão sobre mim mesma também.
Eu não gostava de quem eu era porque queria sempre ser aquilo que os “outros” julgavam certo. Tantas vezes segui modinhas que não me interessavam esperando que fosse aceita se o fizesse, hoje sei que estava procurando o meu lugar onde nunca me sentiria bem de verdade, porque enquanto insistisse em tentar ser o que não era nunca poderia descobrir o que de fato me movia.
E hoje eu estou trilhando esse caminho, estou descobrindo a cada dia o que realmente é ser Letícia.
Cuca e eu ainda somos grandes amigas. Suas aulas no último ano estavam melhores do que nunca. Ela teve um trabalhão para consertar as cacas que a Marinete fez no ano retrasado. Foram muitas, diga-se de passagem.
Numa aula sobre literatura, Cuca falou sobre a sua amiga Janaína, cuja história me deixou muito interessada em conhecê-la. Nunca imaginei que mesmo em temporada de vestibular devoraria quase quinhentas páginas em tempo recorde. Jana simplesmente me arrebatou, me encantou, fez com que eu risse, chorasse e me emocionasse, me propiciando a rara oportunidade de viajar para conhecer uma época que não vivi. Em diversas passagens a minha vontade foi de entrar na obra e abraça-la com força, dizer-lhe que não estava sozinha.
Entrei em contato com a Jana e descobri, para a minha surpresa, que a Graça Cavicholo existe — não com esse nome, claro, pois foi um pseudônimo para preservar a identidade da fofoqueira do prédio azul — e está mais viva do que nunca, fazendo mexericos, dando aquela aumentada básica nos babados, suspirando com os galãs mexicanos e costurando seus modelitos na máquina de costura.
Toda rua que se preze tem uma fofoqueira emérita, na minha é a velha Sônia que tem um papagaio mais linguarudo que ela, o rabugento Bláblá. Se você quiser saber de todos os babados basta bater na porta dela para tomar um café. Em duas horas você se atualiza de todas as fofocas do momento sem esforço algum.
Cuca e Jana se conheceram porque passaram por uma experiência que as aproximou e igualou: a depressão na juventude.
Depois de ler as duas partes de A Filha do Meio, a minha vontade de vencer os meus próprios obstáculos apenas dobrou de tamanho. Com isso, passei a enxergar a própria escrita de outro jeito.
Minhas histórias continuam sendo “impopulares”, os chorumes de pegação e futilidades permanecem fazendo sucesso, mas agora eu não me importo mais, não permito que a estupidez coletiva me magoe e me estresse porque tenho em mente quem eu sou, o que gosto.
Escrevo por prazer e sei que meu valor não está arraigado a estrelinhas e amizades de mentirinha. Vejo as falsas divas se devorando vivas para vencerem concursos e não entendo o porquê de tanta soberba se a escrita é um dom e deve em primeiro lugar espalhar amor, jamais discórdia.
O dom ensina a sermos pessoas melhores não só naquilo que fazemos, mas no que somos, por isso é essencial tomar cuidado para não ultrapassar a linha tênue entre confiança e arrogância.
Por falar em Cuca e família, Samira não é o único xodó da casa, pois em janeiro de 2016 nasceu à pequena Astrid, filha da Lia. As duas crescerão juntas como as tias e provavelmente serão grandes amigas também. Espero que elas não sofram como a Jana e eu por não se adequarem a padrões atrasados.
Marcela e as gêmeas foram expulsas da escola enquanto estive internada no hospital e foram banidas no aplicativo também, apesar de os tais embaixadores compactuarem com muita porcaria por lá.
Na escola não mudou tanta coisa assim. É verdade que ninguém mais me aporrinhou, mas não posso dizer, com exceção da Cuca, que passei a ter um montão de amigos e ser adorada. A impressão que eu nutria era a de que todo mundo atuava quando estava em classe, fazia de conta que não se incomodava comigo, no entanto na hora de fazer trabalhos em grupo eu nunca fui convidada voluntariamente. Dependendo do professor, conseguia escapar do vexame de depender de outras pessoas para ter nota.
Passei os intervalos lanchando com a Cuca quando ela não estava ocupada com alguma coisa ou então na biblioteca aproveitando os minutos livres para as leituras que não tivessem a ver com o vestibular.
Mesmo assim, não me importo muito com esse detalhe de ser impopular na escola porque fora dela eu sou feliz, tenho uma vida de verdade que independe de curtidas, estrelinhas, fotos falsas e putarias. As pessoas mais queridas do mundo já estão comigo, esses são os meus seguidores fieis, a quem eu quero realmente bem.
Minha família maravilhosa aumentou de tamanho com a chegada do nosso mascote Pepe (papai não ficou brabo pela homenagem ao vovô), um simpático cãozinho que foi adotado para auxiliar na minha recuperação, os amigos verdadeiros que gostam de mim do jeito que eu sou e o sonho de ser professora que me motiva a pegar nos livros e cadernos quando estou desmotivada com os comentários jocosos a respeito da minha futura profissão.
Das irmãs metidas eu nunca mais ouvi falar e nem tive curiosidade de saber o que estão fazendo da vida, mas Marcela veio me visitar um dia porque dizia ter um assunto muito importante a tratar comigo. A princípio eu não tinha nenhuma vontade de saber o que ela queria porque perdoá-la era uma coisa, fingir que nada aconteceu, outra.
A revelação de Marcela me deixou bastante abalada porque nunca me ocorreu que seu ódio por mim tenha começado por causa de um garoto. Não fazia sentido nenhum me maltratar e me excluir se até aquele instante eu nem sabia que Cauã gostava de mim e não dela.
— Por que você não me disse antes que gostava do Cauã?
— Sei lá... — retrucou Marcela, chorosa.
— A gente podia ter evitado tudo isso.
— Eu tinha medo de que você falasse que também gostava dele.
— Eu podia ter te ajudado a ficar com ele.
— Eu não pensava assim naquela época. — desabafou Marcela, sem coragem de me olhar nos olhos.
— Você acha que valeu a pena ter feito tudo o que fez?
— Não. Claro que não. Se eu voltasse no tempo teria feito tudo diferente.
— Mas não dá pra voltar no tempo, Marcela. Mesmo que a gente queira...
— Se eu pudesse, queria voltar pra fazer diferente.
— Se não dá pra voltar no tempo e fazer diferente, por que você não tenta se perdoar e começar de novo?
— Você me perdoa?
— Agora é com você, Marcela. Agora é você quem tem de se perdoar. Você cometeu um desatino muito grande e pagou o preço por ele, mas não precisa passar a vida inteira se punindo. Se você realmente se arrepende do que fez comigo e não vai fazer de novo, eu perdoo você, só que nunca mais vai ser a mesma coisa, eu nunca mais vou confiar em você como antes...
— Nem se eu me esforçar?
— Eu não sei se estou pronta para te responder, Marcela. As coisas estão confusas para mim também. Procura se acalmar agora, focar nos estudos, deixa as paixonites pra lá, amiga. Você vai ver que quando for à hora vai aparecer alguém que te mereça e te respeite. Não faça mais isso. Magoar uma amiga por causa de um menino que nem vale suas lágrimas.
Mamãe não gostou nadinha da visita de Marcela porque passei alguns dias entristecida depois disso, mas não foi por acaso, era o que eu precisava saber para seguir em frente, aceitar que não seria o fim do mundo deixar certas pessoas no passado.
Aquela conversa serviu para fechar a ferida de uma vez por todas, não importava que doesse um pouco, porque fazia parte do processo. A cicatriz seria uma lembrança do quanto eu fui forte.
Em outubro passado fiz o meu primeiro vestibular. Apesar das dúvidas e inseguranças naturais a qualquer candidato, tive um bom desempenho e fui convocada para a segunda fase, deixando a família Ventura em ritmo de festa. Ainda assim, não me envaideci e intensifiquei a carga de estudos pedindo a ajuda da Cuca na redação, pois mesmo sendo minha melhor amiga, ela sempre primou pela honestidade e seus conselhos me incentivam a melhorar muito a argumentação.
A segunda fase da prova foi realizada no último domingo de novembro e o resultado final saiu no início de janeiro. Eu estava passando uma temporada na praia com os meus pais quando vi na televisão que a universidade divulgaria a lista de aprovados naquela abafada tarde de janeiro.
— Não importa qual seja o resultado, minha filha — comentou Ricardo. — Nós já estamos muito orgulhosos de você!
— Você deu o seu melhor, mas criar muita expectativa nunca é bom... — acrescentou Márcia.
Pontualmente às duas horas da tarde, Ricardo Ventura acessou o site congestionado, procurou a lista com os aprovados no meu curso e logo eu estava recebendo parabéns até de pessoas com quem nem sequer conversava mais.
EU SOU UMA DAS CALOURAS!
Papai e mamãe me abraçaram e me rodopiaram na sala, ligaram o som, saíram pelo bairro buzinando na maior alegria do mundo, anunciaram até para a caixa do supermercado que eu havia sido aprovada no primeiro vestibular. Todos me parabenizavam pelo grande feito, de mim se orgulhavam. Ninguém sequer desconfiava de tudo o que passei ao longo daqueles três anos que afinal de contas passaram como um sopro.
Cuca não poderia se ausentar da cidade para prestigiar o churrasco promovido por papai porque a pequena Samira estava com uma infecção no ouvido, porém me disse que sempre acreditou no meu potencial e continuaria torcendo por mim.
Após os festejos de Carnaval, uma nova fase da minha vida terá início. Quatro longos anos de faculdade, depois pós-graduação, mestrado. A princípio tenho em mente a licenciatura para me capacitar na área pretendida e dessa maneira compartilhar o saber para que o futuro de muitas outras crianças seja regido pela esperança. Afinal de contas, o conhecimento ilumina e inspira. Do mesmo jeito que a amizade com a Profª Cuca me mostrou o caminho, possuo a nobre ambição de ajudar a alguém a encontrar o seu...
Quem sabe você que me acompanhou até aqui, que riu e chorou comigo, viajou nessa história de amizade e superação, chegando até aqui e desfrutando comigo dessa sensação de missão cumprida.
Porque é.
De uma fase da minha vida.
Espero ter outras fases e curtir a energia e a sabedoria de cada ciclo porque sendo como sendo, o objetivo é um só: EVOLUIR.
Errando ou não, o caminho que se tem é um só: PARA FRENTE.
Seguirei o meu, na humilde expectativa de ter feito alguma diferença na sua vida, agradecendo pela oportunidade de contar um pouco da minha história e de ela ser lida e aceita como é. Despeço-me no aguardo também do dia em que nosso valor não esteja sustentado em pilares frágeis, efêmeros, duvidosos.
A distância é sempre o intervalo e nunca o final.
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