Produção Independente
23 23. Sambando na cara da falsiane de jaleco - Por Cuca
Eu não me cansava de beijar os pequeninos pés de Samira, aqueles dedinhos tão miúdos que sempre me recordavam de sua fragilidade angelical. Suas bochechas rosadinhas, seus traços tão delicados, desenhados sob uma aquarela sensível. Seus olhinhos que custavam tanto a abrir vinham revelando uma dorminhoca inveterada, crescendo bastante bem, com algumas cólicas de vez em quando, ainda recebendo muitas visitas, ouvindo os adultos falarem daquele jeitinho engraçado e especial, inclusive eu.
Samira tinha mais de mim do que eu imaginava. Ainda era cedo para traçar um afinado perfil de personalidade, idealizar milhões de coisas que poderiam vir a louvar enganos, mas era inegável que aquele bebê já demonstrava muito bem quando confiava ou não em alguém.
Lia levava esguichos de xixi na hora de trocar as fraldas da sobrinha e tirava sarro da situação. Samira se aconchegava nos ombros dela e se acalmava se eu não estivesse presente para ajudá-la a fazer a digestão depois da hora de “mamá” ou trocar as fraldas cheias de “caca”.
Samira dormia embalada por Fábio e suas mãos apertavam os dedos dele que demonstrava gostar disso.
― Ela tem um apertão de mão bem sincero. ― comentou Fábio devolvendo Samira para os meus braços. ― Gosto de quem aperta as mãos com franqueza.
― Aperto de mão frouxo pra mim é falsidade ― respondi ganhando dele um beijo nos lábios. Ainda não havíamos oficializado o namoro publicamente, apenas os amigos muito íntimos e os pais dele sabiam, além de Lia, Ivan e os pequenos.
Samira começava a chorar quando Ivan a colocava no colo, isso se explicava pelo fato de ele ser um pouco (muito) desastrado, tanto é que Lia só confiava os filhos para o pai se o mesmo estivesse usando um canguru. Caso contrário, ficava com o coração na mão.
Samira era nova demais para entoar um “eu não gosto de você porque você é má” porque àquelas alturas mal balbuciava, mas quando era colocada nos braços da Marinete esperneava até voltar para o meu aconchego. Não adiantava nada a professora falar com voz infantilizada, por algum motivo a criança não queria ficar com ela, melhor não insistir.
― Notei que você está apaixonada, Cuca. ― Marinete sondou o ambiente com aquelas perguntas de frestas invasivas. Ninguém imagina o quanto eu odeio isso. ― Quem é o sortudo da vez, amiga?
― Alguém... ― Procurei redarguir sem fornecer muitos detalhes, assim mudaríamos de assunto, partindo para um território mais seguro para mim que detesto perguntas invasivas, sobretudo de Marinete. Sobretudo dela.
― Esse homem sabe que você tem uma filha? ― perguntou.
― Não só sabe como confirmou a existência dela e a ama como se fosse o pai biológico.
― Você está tendo um caso com o seu médico? ― Marinete indagou chocada.
― Ele não me atende mais e a propósito, não é um caso, nós estamos namorando. ― Esclareci um pouco incomodada com o interesse de Marinete em falar sobre Fábio.
― Ele não é casado, é?
― Não...
― Cuidado, hein, Cuca... Tem homem casado que mesmo tendo tudo em casa gosta de se divertir na rua, especialmente com tipinhos como o seu. Fareja a fragilidade, garante-se com umas palavrinhas bonitinhas, ainda mais sabendo que tem mulher aos montes que tem tara por aliança.
― Como é que é?
― Esse Fábio Aragão pode ser casado.
― Garanto que não é.
― Você está mesmo carente! Como é que você com uma filha pequena nos braços sai se entregando ao primeiro que aparece? ― Marinete deu de ombros debochando de mim sem pudor. ― Nunca engoli seu discurso arretado de feminista.
― E o que tem o feminismo a ver com o fato de eu estar namorando o Fábio? Uma coisa não tem nada a ver com a outra!
Marinete não me respondeu.
― Fábio gosta de mim.
― No começo é sempre assim. Todo mundo se ama, se deseja. Homem casado apronta mesmo, fala um monte de coisa para conseguir o que quer, se passa por cavalheiro, por amigo ouvinte. Ele vai dizer tudo o que você quer ouvir porque sabe que você está frágil, desesperada, com uma filha pequena para criar, curtindo o prazer do sexo fácil, fazendo você de filial enquanto pousa em público com a matriz. Só você não percebeu...
― Não percebi o quê? Que tem alguém que gosta de mim do jeito que eu sou?
― Você fala de escancarar os sentimentos que vive sozinha. Ele não te ama, Cuca.
― E como é que você sabe?
― Homens falam bobagens para iludir. Todos são iguais. Falam sempre as mesmas coisas.
Marinete disse que eu não fazia o tipo do veterano Miguel na faculdade e assumiu namoro em público com ele, depois insistindo que Rogério não combinava comigo, enviando tempos depois o convite do casamento. Toda vez que eu lhe contava de algum namorado ou pretendente, o mesmo discurso era repetido. Com Victor Hugo, Herbert, Paulo José, a quem fosse. Partindo dessa lógica, ela não tardaria a arrastar suas asinhas para cima de Fábio Aragão, utilizando-se do mesmo blábláblá manjado.
― Nem todos.
― Você foi seduzida por um canalha. Tenho certeza de que ele é o pai dessa criança, Cuca. Você devia denunciá-lo.
― Denunciá-lo pelo quê?
― Por ser um tarado que abusa das pacientes. ― redarguiu Marinete.
― Você só pode estar louca! ― murmurei. ― Fábio não é o pai biológico da Samira, mas a ama como se fosse. A propósito, ele também me ama e nós estamos juntos.
― Conclusão da ópera: para se machucar. ― recriminou ela.
― Mas é o preço de viver, Marinete. É pior esconder um amor por medo, insegurança.
― Você tem que se colocar no seu lugar, pensar como a mulher que você é. Isso não é amor.
― Claro que é. Eu amo o Fábio. ― esfreguei minhas mãos fechadas no meu peito sentindo o meu coração doer de vontade de estar com ele. Éramos melhores amigos.
― O que te leva a pensar que esse sujeito está te levando a sério? Os homens são muito machistas, Cuca, e você como feminista devia saber disso. Ele pode te levar pra cama, dizer que te ama, mas te amar mesmo, ele não vai te amar. Ele está se aproveitando da sua vulnerabilidade pra curtir. Homem é assim. É passional. Interesseiro. Um homem que se preze pode até curtir com mãe solteira, mas vai ficar com uma moça de família e bem mais nova do que você.
― Toda moça é de família.
― Sim, mas você entendeu o que eu quis dizer. ― Marinete desmereceu a minha indireta.
― Eu só não entendo com que direito você vem à minha casa para me dar lições de moral?
― Eu só quero te acordar para a vida, Cuca. Você está grandinha para acreditar em conto de fadas!
― Só porque é malcasada e se preocupa com o que meia dúzia de pessoas pensa não significa que eu deva fazer o mesmo.
― Eu só estou te acordando, aprenda a ouvir críticas.
― Mas eu não quero os seus conselhos, eu não quero acordar.
― Pois saiba que eu já estou cheia daqueles pirralhos, não vejo a hora que você volte pra eu poder descansar desse tédio todo.
― Então não escolhesse ser professora. Se você não gosta do que faz, não desconte o ódio em pessoas inocentes que não têm culpa das suas frustrações pessoais e profissionais.
Ela me olhou com aquele sorriso asqueroso que me fazia descartar qualquer sororidade. Infelizmente até as próprias feministas precisam reconhecer que nem todas as mulheres merecem solidariedade.
― Se a sua intenção era vir aqui me aborrecer, meus parabéns! ― Bati palminhas sentindo o meu olho direito tremer. ― Você conseguiu!
― Tem gente que não sabe ouvir verdades. ― reclamou ela vestindo a alça da bolsa por entre os ombros e trotando. Com isso, caiu no chão uma folha de caderno amassada. Eu me levantei da cama para levá-la até a porta e juntei o papel, apesar dos protestos dela.
― Por favor, me devolve. ― solicitou ela, encabulada.
― Isso aqui é da Letícia... ― Eu olhei para Marinete desejando alguma explicação e não recebi nenhuma, ou pelo menos nada convincente.
― Isso não é nada.
― Espera, essa carta é para mim!
― Essa menina chata fica te perseguindo, choramingando atrás de mim pra que eu te mande recadinhos. Ela é uma chata, não sei como você aguenta!
― A Letícia me escreveu?
― Já disse que ela é uma purgante, chata...
― Letícia não é nada disso.
― Eu tentei dizer a ela para que parasse de te importunar e a petulante me faltou com o respeito. É uma garotinha mal educada que não sabe ouvir verdades.
― Dependendo do tipo das “verdades”, até eu seria mal educada. Não quero nem pensar no que você disse a ela.
― Disse o que ela estava merecendo ouvir. Alguém tem que acordar aquela menina para a vida. ― Marinete deu uma olhada para o berço de Samira que estava dormindo.
― Eu não acredito que você tenha sido tão covarde com uma criança.
Comecei a chorar:
― Letícia é uma menina! Não acredito que você enganou a minha amiga. ― Eu me senti terrível quando fui informada de que Letícia estava de castigo por minha causa, por ter matado aula para me visitar ainda na maternidade. ― Eu sabia que ela ia me escrever.
Abri com carinho aquela folha amassada:
― Você não tinha o direito disso, não tinha!
― Chorando por causa da carta de uma pirralha idiota?
― Chorando de saudades de uma amiga que esteve ao meu lado quando eu mais precisei! Isso cala a sua boca?
― Você me mandou calar a boca? ― Marinete portou-se como se eu estivesse a injustiçado, mas só de pensar no que Letícia deve ter ouvido esgotou o restante de paciência que eu nutria para não armar um barraco.
― Já mandei e mando de novo e ainda cuspo na sua cara se não bastar, sua mal amada, infeliz, invejosa. Você não suporta ver ninguém feliz. Como pode magoar uma criança inocente como Letícia. O que ela te fez?
Deixei a carta em cima do criado-mudo para ler quando estivesse sozinha.
― Pelo menos não sou eu que sou mãe solteira e nem sei quem é o pai da minha filha.
― Eu gostaria que você nunca mais colocasse seus pés sujos dentro da minha casa. ― Apontei para a porta entreaberta com pique para enxotá-la pelos cabelos dali.
― Você está me expulsando?
― Não queira que eu aja formalmente, né?
― Você não seria capaz.
― Não, não seria, mas a indignação me faz ser capaz. É melhor que você retire-se por bem, educadamente...
Marinete deu alguns passos em direção à porta e saiu sem se despedir de Lia que me ajudou a sentar na cama.
― Essa infeliz falou alguma bobagem? Ela falou, não falou? ― Lia estava muito furiosa. ― Você devia ter quebrado um cabo de vassoura nas costas dela.
― Não foi preciso, irmã. Algumas pessoas só precisam da verdade para que os tetos de vidro se deteriorem.
Lia me analisou incrédula:
― Você está bem, Cuca?
― Como nunca estive antes. ― dei de ombros. ― Talvez esse ano demande cortes também nas falsas amizades. Comecei bem, não acha?
― Você sabe o que eu penso da Marinete, não é? ― Minha irmã ajeitou minha cabeça em seu colo. ― Quando eu não ia com a cara dela antigamente, você me pedia para ser gentil e não julgar o que não conhecia, mas tinha toda a razão quando o meu santo não bateu com o dela. Olha só... Olha só como meu sexto sentido sempre se confirma.
Eu exigia que ela não me escondesse se tivesse antipatia por Fábio.
― Você sabe que eu não ia com a cara do Herbert...
― E como eu sei...
― Pois então, Cuca. Eu gosto muito do Fábio, pesquisei a vida inteira dele... ― Lia deveria ter investido a fundo na carreira de investigadora profissional porque quando precisa de uma informação, essa mulher vai até o fim do mundo para encontrar, e não duvidem da capacidade dela. ― Se ele fosse um mau elemento eu seria a primeira a te dizer.
― Ele não é casado, é?
― Você acha que eu te deixaria ficar com um homem casado?
― Não...
― Então por que de repente as dúvidas?
― Sei lá... ― Apertava as mãos para concluir a motivação daqueles pensamentos estranhos. ― De repente eu fiquei pensando se...
― Nem mais um pio sobre isso. Sua vez chegou minha irmã ― Lia sorriu. ― Ele te ama e você o corresponde. O que há?
― Eu ainda me assusto por estar gostando tanto dele. Parece que tudo aconteceu tão rápido.
― Você se assusta por estar sendo correspondida, porque alguém te ama mais do que você pensou que seria possível. Foram tantos anos recebendo migalhas, sendo tratada com desdém que agora que você é amada, sente medo mesmo. É normal, irmã. É por isso que você está com medo... Porque você o ama e ele também te ama... Ele te ama do jeito que você é... Mas ele não vai fugir, ele também te quer.
― Até pareço uma adolescente suspirando, ouvindo música romântica, sentindo frio na barriga... Pode isso, Lia?
― Claro que pode ― Ela não deixou de fazer graça cantarolando a música da Patrícia Marx (Quando chove) que eu ouvia todos os dias religiosamente. ― Eu não quero para você o que não quero para mim. Se eu soubesse que Fábio não presta, não te faria feliz, mesmo que você se ofendesse, eu teria falado. ― Lia deu tapinhas nas minhas costas: ― Eu não deixaria minha irmã se afundar num barco furado. Não vai deixar sua oportunidade passar por causa de uma azeda invejosa, vai?
Lia e eu nos abraçamos fortemente.
❣
Depois que Lia se retirou, sentei-me novamente na cama, decorando palavra por palavra daquela carta, sentindo-me honrada por ler uma mensagem carinhosa de uma grande amiga que a vida colocou em meu caminho, confirmando que mesmo em um mundo tão centrado no murmúrio do “ter”, ainda haja pessoas que se preocupem com o “ser”. Dentre tantas pessoas de mentira, amigos de verdade.
Nesse sentido, o ano de 2014 foi bem rendoso: conheci Letícia em fevereiro, no final de julho o Fábio. Cultivando com carinho e perseverança, eles se tornaram mais do que meros contatos nas minhas redes sociais, conseguiram percorrer as curvas íngremes da confiança e serem por mim aclamados.
Vivemos nos corações uns dos outros, quebramos todos os protocolos impostos, escrevemos as nossas histórias às vezes assustados com as intromissões do destino, mas acima de tudo fomos fieis ao que nos move, sobretudo quando se tratam de sentimentos positivos, esses que estão sendo deixados de lado pela sede de todo mundo ― em maior ou menor proporção ― querer ser dono da razão. E eu sem as minhas feridas não seria o que sou.
Pessoas como a Marinete não amam de verdade, apenas acreditam nas próprias ilusões. Indiferentes ao fato de que não somos iguais, toda diferença é vista como um grande e intransponível obstáculo.
Marinete, principalmente, não tolera que haja um raciocínio diferente do seu. Determinada a julgar muitas vezes sem qualquer embasamento, perde diversas oportunidades de aprender, de conhecer o verdadeiro amor ― não apenas na conotação romântica ― que é um dos requintes da nossa missão por aqui, trabalharmos todas as nossas imperfeições para evoluirmos, utilizando o nosso dom para transformar o mundo em um lugar mais acolhedor e menos carrancudo. O ódio é um dos bloqueios que impedem a plenitude.
Lamento por quem me julga pelo fato de ter sido mãe solteira. Minha filha não é inferior a nenhuma outra criança por conta disso. A unidade de família é constituída não apenas por personagens encarnados e sem paixão, e sim pelos sentimentos que os membros nutrem uns pelos outros. O laço que estreita as relações é composto principalmente pelo carinho reforçado por muito respeito.
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